14

Quando O Sol Nasce No Ocidente | quatorze.

Dormi pouco na madrugada de sábado para domingo. Minha cabeça não parou nem um segundo depois de tudo o que aconteceu na festa da piscina. Há um misto de sentimentos e dúvidas, mesmo depois de me abrir e receber conselhos do meu melhor amigo. Zach, por mais inteligente e sensato que seja, não entende de um assunto tão complicado. Ele acha que o que sinto é empatia, mas sei que não é. Me atrevo a dizer que gosto do Alec, mas se for o caso, por que não me vejo beijando ele? Por que não me vejo assumindo uma relação com ele?

E por que, ao mesmo tempo de tudo isso, fico excitado quando estou com ele?

Chego em casa às onze da manhã. Cansado, mas ciente de que não vou conseguir dormir. Minha mãe está na cozinha limpando a bancada depois de fazer alguma receita do livro que dei a ela em seu aniversário. Meu pai foi ao mercado fazer compras para abastecer a dispensa que está quase vazia.

Troco de roupa e desço para limpar o quintal dos fundos. Thor caprichou na noite passada. Seus brinquedos estão espalhados e há xixi e cocô por toda a parte. O levo para passear depois de terminar de lavar o quintal.

É novembro. O inverno está chegando e, mesmo com as temperaturas elevadas demais para a época, o frio avança em Pittsburgh. Meus pais detestam este clima frio, por isso temos um aquecedor em cada cômodo da casa. Eles dizem que o clima da Tailândia é sempre quente e que não conseguem se acostumar com o clima frio da américa do norte.

— Gosta de bolo de chocolate? — pergunta minha mãe, assim que volto para casa.

— Muito!

— Ainda está quente, mas aparenta estar uma delícia!

O cheiro leve e gostoso de chocolate sobe pela cozinha quando minha mãe destampa a boleira de vidro.

— Me deu fome — digo, sentando em um dos bancos da ilha.

— Que tal comermos lámen enquanto o bolo esfria? — sugere.

Concordo, agradecido.

O lámen que minha mãe costuma fazer é de longe um dos meus pratos favoritos. Não é apimentado e geralmente ela faz com ovos, pedaços de carne e molho shoyu. Meu pai gosta de adicionar carne de porco, gengibre e pimenta, mas como ele não está, convenço minha mãe a fazer do jeito que mais gosto.

— Como você está no colégio? — pergunta, enquanto comemos.

— Melhor — falo, com a boca cheia.

— Estudou com seu amigo esta semana? Como é o nome dele mesmo?

— Alec!

— Seu pai e eu estamos muito agradecidos por ele te ajudar nos estudos. Por que não o convida para jantar conosco qualquer dia desses?

A ideia é boa, mas não sei se ele suportará a comida apimentada da minha mãe. Meus amigos do basquete sempre evitam jantar em minha casa.

— Não tenho certeza se ele gosta de comida tailandesa, mãe — digo, do jeito mais carinhoso possível. — Ele é um pouco exigente com os alimentos, sabe?

— Então por que não leva um pedaço de bolo de chocolate pra ele?

A sugestão me faz ter uma ideia.

Chego ao colégio uma hora mais cedo. O sol acabou de nascer. O portão da entrada principal ainda está fechado. Enviei uma mensagem de texto para Alec noite passada perguntando se ele queria me fazer companhia naquela manhã. Ele aceitou, mas perguntou o motivo. Decidi manter segredo, pois minha intenção é fazer uma surpresa e conversar com ele. Entender o que estou sentindo e saber um pouco mais do que ele pensa sobre mim.

— Demorei? — pergunta, assim que chega.

— Que nada! Acabei de chegar! — respondo, envolvendo o braço em seu pescoço.

— Por que chegamos tão cedo? Você não vai nos meter em problemas, né?

— Quando nos metemos em problemas, Alec?!

O levo até a lateral do colégio, onde o muro é mais baixo. O ajudo a pular primeiro e segurar nossas mochilas. Pulo em seguida, olhando em volta para ter a certeza de que nem um funcionário do colégio tinha chegado.

— Você definitivamente vai nos meter em problemas — diz, devolvendo minha mochila.

— Eu assumo a responsabilidade — digo, segurando sua mão para guiá-lo.

Seguimos até os fundos do colégio, passando pelo estacionamento dos professores. Ali há uma área de jardim que é proibida para alunos. Há mesinhas e bancos de concreto. Pelo tamanho da grama e falta de poda das árvores, não deve estar com a manutenção em dia. Eu costumava matar aula e fugir da minha ex-namorada nesse lugar.

— Eu trouxe café da manhã — digo, colocando minha mochila em umas das mesinhas, abrindo e tirando o que tinha preparado..

Alec sorri, acanhado.

— Por que não disse nada? Eu teria trazido alguma coisa! — disse, me ajudando a arrumar tudo.

Além do bolo feito por minha mãe, eu trouxe biscoitos, queijo com manteiga de amendoim e chocolate quente. Alec senta em um dos bancos da mesa que forramos. Penso em sentar no banco ao lado, mas, por estarmos a sós, não deixo passar a oportunidade de abraçá-lo me sentando atrás dele.

— Chega um pouco mais pra frente? — peço, o empurrando delicadamente com meu quadril.

— Cla... Claro! — gagueja, acanhado.

Gosto de abraçar o Alec e sentir seu calor corporal. Gosto do cheiro da sua pele e do seu cabelo. Gosto do frio na barriga e nos arrepios que ele me causa. Dá para sentir esse frio correndo por meus braços.

— Arthur, o que tá fazendo?

— Não posso te abraçar?

— E se alguém nos pegar?

— Ninguém costuma vir aqui, Alec.

O aperto em meus braços com mais força. Apoio meu queixo em seu ombro e fecho os olhos para focar em meus sentimentos. Preciso de respostas e, até aquele segundo, senti o quanto preciso estar perto dele.

— Eu quero entender... — diz, enquanto come um pedaço de bolo.

— O quê? — pergunto, nos servindo com chocolate quente.

— A gente — responde, movendo o corpo como se estivesse arrepiado com meu abraço.

Também quero entender.

— Eu gosto de você, ué — digo, convicto. — Você gosta de mim?

Ele balança a cabeça positivamente.
Não me contento com aquela resposta, pois quero ouvi-lo. O aperto mais em meu corpo, o balanço devagar e colo um pouco mais meu corpo no dele.

— Você gosta de mim? — insisto na pergunta, falando próximo ao ouvido dele.

— Sim!

— Só de mim?

— Arth!

— Responde!

— Só de você!

Meu coração acelera.

— Do que você me chamou? — pergunto, sorrindo igual a um bobo.

— Hãn?!

— Você me chamou de Arth?!

— Err... É!

Meu corpo trava. Há um segundo fiquei feliz em ouvir Alec dizer que também gosta de mim, mas o que sinto agora é estranhamente diferente.
É difícil entender o que está acontecendo comigo.

— Desde quando você gosta de mim? — pergunto, ficando sério de repente.

— Desde a primeira vez que te vi, acho.

— E quando você me viu pela primeira vez?

— No meu segundo dia no colégio. Vi você treinando arremessos com o Asher.

O que sinto é uma mistura de medo, culpa e vergonha. Medo do Alec descobrir o que está acontecendo e me odiar. Culpa por não ter coragem o bastante para falar com ele. E a vergonha é de tantas coisas que fica até difícil explicar.

— Asher não tem te perturbado, né? — pergunto, já inquieto.

— Não, por quê?! — questiona, se ajeitando para ficar de lado para mim e me olhar diretamente.

— Deixa pra lá — digo, desapontado comigo mesmo.

Olho o celular para ver as horas.
Temos só mais dez minutos.

— E você, Arth?

— Eu?

— Desde quando gosta de mim?

É uma boa pergunta.

— Eu não sei, Alec — respondo, confuso. — Isso tudo é muito novo para mim, sabe?

Ele se encolhe, receoso.

— Por favor, não duvide de mim — falo, colocando a mão carinhosamente em seu rosto. — Eu só preciso de um tempo para resolver alguns assuntos internos e externos.

— Eu te entendo — diz, franzindo o cenho.

— Eu sei que gosto de você e quero ficar ao seu lado — confesso, sem dificuldade.

E é verdade, apesar de ainda ser um pouco difícil de admitir.

Alec tenta desviar nosso olhar, mas o impeço segurando o seu rosto. Sinto a atmosfera mudar ao meu redor. É como se saísse faíscas a cada centímetro de nossa aproximação. Meu coração volta a acelerar. Sinto um misto de desejo e medo crescer em meu peito. Meus lábios se aproximam lentamente dos dele, mas o medo vence, me faz travar e virar o rosto um segundo antes de beijá-lo.

— Desculpa! — exclama, levantando imediatamente. — Desculpa, Arthur! Eu não queria...

— Tudo bem! — digo, atordoado. — A culpa foi minha!

— Eu me excedi um pouco — diz, agitado.

Ele parece tremer e respirar mais rápido que o normal. Me levanto, o envolvo em meus braços e o aperto contra meu corpo.

— Alec, tudo bem?

— Tudo! Sim! Desculpa!

— Fica calmo.

Ele se acalma pouco a pouco em meus braços. Os sentimentos parecem explodir dentro do meu peito. Não me restam dúvidas...
Estou apaixonado pelo Alec Stevens.

— Precisamos ir — digo, voltando a olhar o relógio do celular.

— Tudo bem — diz, ainda com o rosto escondido em meu peito.

Entramos no colégio por uma das saídas de emergência do estacionamento dos professores. Essa entrada dá acesso a zeladoria, próximo ao corredor de armários.
Ninguém nos viu passar.

Alec se despede, aparentemente mais calmo, com um aceno e sorriso tímido. Retribuo, mas disfarço assim que vejo meus colegas do time entrando no corredor.
Asher, como sempre, os guiando como o alfa em uma matilha de lobos.

— Bom dia, Aleczinho! — exclama Asher, com uma voz forçada e sem graça.

Os demais membros do time também o cumprimentam, porém de forma mais amigável e respeitosa.

— Bom dia, pessoal — responde Alec, educadamente, seguindo sem caminho.

Encaro o Asher com um desejo insano de enforcá-lo.

— Deixa o Alec em paz — rosno entredentes, baixo o bastante para só ele escutar.

— Uiii, que meda — sussurra, debochado.

___________________
.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top