08
Quando O Sol Nasce No Ocidente | oito.
— Vocês o quê?! — exclama Zach, inconformado com a história.
— Não me olhe assim, Zachary! — digo, encostando a porta do quarto. — Foi ideia do Asher!
Zach quis passar a noite em minha casa. Seus pais estavam com visita, e ele odeia jantar com parentes. Nem a comida tailandesa apimentada que minha mãe fez aquela noite o fez voltar para casa.
Fui obrigado a contar para o meu melhor amigo sobre a aposta que Asher propôs contra Alec Stevens. Meus pais estavam me pressionando para sair do time de basquete, pois viram naquela manhã que eu continuava apenas como um dos reservas. Eles já sabiam, mas não ligavam desde que eu entregasse boas notas no colégio. Sair do time era, sem dúvida, o meu pior pesadelo. A única forma de convencê-los a desistir dessa ideia era tirar boas notas e entrar como titular nos próximos jogos.
E para entrar como titular nos próximos jogos eu teria que fazer muito mais do que ir bem nos treinos.
— E você aceitou?
— Não!
— E amanhã vai dormir na casa do Stevens?
— Só para estudar!
— E precisa dormir lá?
Engoli cinco respostas antes de decidir o que dizer.
— Você é meu amigo e vai dormir aqui hoje.
— Mas eu não sou gay, e você não apostou com seu amigo que ia me fazer te masturbar.
— A ideia seria ele me chupar, na verdade.
— O que é ainda pior, credo!
Não dá para tirar a razão dele, mas também não é dessa forma que vejo as coisas. Não vou deixar de ser amigo do Alec só porque ele é gay. Somos colegas da turma de inglês, fazemos quase todas as atividades juntos e ele me ajudou com um trabalho muito importante. Nos divertimos quando estamos juntos. Ele é um cara legal e nunca fez nada contra mim.
Por que me afastar ou ser babaca com ele?
— Não vou fazer isso, Zach — digo, convicto. — Não sou gay e, mesmo que fosse, não participaria de uma aposta suja como essa.
— De onde o Asher tirou essa ideia? — questiona. — Eu sei que ele é maluco e não tem quase nada naquela cabeça, mas...
— Por favor, não conta pro Alec ou para o Asher o que acabei de te falar, beleza?!
— Tranquilo, mas acho que você devia falar pro Alec que não só você, mas todo o time já sabe que ele é gay. Não vai demorar para o colégio todo saber, pois se o Asher está com essa ideia de aposta, é porque quer zoar o Stevens de alguma forma.
— Não vou deixar ele fazer isso! Vou falar com o Alec na primeira oportunidade.
— É melhor — diz Zach, com razão.
Ele me encara.
Acredito que anseia por mais informações.
— O quê, Zachary?!
— Você disse que seus pais querem te tirar do time, certo?
— Se minhas notas não subirem, sim! Meu pai também deu a entender que se não estou no time titular, não deveria mais jogar.
Ele coça a cabeça, com uma expressão debochada.
— O quê, Zachary?! — exclamo, mais alto.
— Concordo com o Asher em uma coisa — diz, segurando o riso. — O Stevens gosta de você!
— Cala a boca! Gosta nada!
— É meio óbvio, Arthit! Só você que não percebeu ainda.
Percebi, mas não quero pensar nisso. Alec Stevens é meu amigo e não vou deixar a quedinha besta que ele parece ter por mim acabar com isso.
— Você pensa e fala demais — digo, e aperto o joelho contundido dele.
Meu pai só me autoriza dormir na casa do Alec depois que digo que é para estudar e tentar recuperar minhas notas. Como ele ainda não o conhece, cogitou que fosse outro amigo do time de basquete e que eu fugiria para alguma festinha de fim de semana.
Na mochila guardo meu caderno, meus livros de inglês, biologia, história e economia. Também coloco uma muda de roupa e minha escova de dentes. Visto uma das regatas limpas do time de basquete e uma bermuda de moletom cinza. Gosto de estar confortável quando vou estudar. Não arrumo o cabelo, pois não estou saindo para uma festa ou para um encontro com amigos.
Meu pai fez questão de me levar e me deixar na porta da casa do Alec. Ele quis ter certeza de que não havia uma festa acontecendo naquele lugar.
— Que horas venho te buscar amanhã? — pergunta.
— Eu ligo, pode ser?
— Não incomode seu amigo e nem os pais dele. Estude, preste atenção e não faça gracinhas!
— Sim, senhor!
Espero o carro do meu pai sumir de vista para entrar na varanda da casa do meu amigo e tocar a campainha. Estou estranhamente ansioso. Não paro de pensar na aposta absurda do Asher, na conversa que tive com Zachary noite passada, no time de basquete, nas minhas notas no colégio, no sermão dos meus pais, na quedinha que Alec Stevens parece ter por mim... Minha intenção é acabar com tudo isso esta noite. Quero conversar com o Alec, contar o que está acontecendo e consertar as coisas. Ele é meu amigo e tem que saber o que está acontecendo. Talvez até me ajude a...
— Você é o tal jogador de basquete? — pergunta o senhor que abre a porta.
Imagino que seja o pai do Alec, mesmo não parecendo fisicamente com ele.
— Boa tarde! Meu nome é Arthur, Sr. Stevens.
— Entre! O Alec já vai descer.
Assenti, aflito.
Não sei porque estou com tanto medo.
— Alec, seu amigo chegou! — chama uma mulher, também nem um pouco parecida com meu amigo.
Estou na casa certa?
— Espero não estar incomodando — digo, me encolhendo de vergonha.
— Não é incomodo algum — responde a mulher, fazendo sinal para que eu a acompanhe. — Sou Joanne Stevens, mãe do Alec.
— Sou Arthur Arthit — falo, a seguindo. — É um prazer conhecê-la.
— Quer um café? — oferece, puxando a cadeira da cozinha.
— Aceito, obrigado!
O ambiente é tão confortável que minha vergonha vai diminuindo aos poucos. A casa é simples, com uma decoração improvisada e aconchegante. Não há muitos móveis, nem eletrodomésticos. A cozinha é menos da metade do tamanho da cozinha da minha casa. Se comparado a casa do Zach, aquele cômodo era praticamente do tamanho do banheiro dos pais dele.
— O que vocês vão estudar? — pergunta a Sra. Stevens.
— Economia e talvez um pouco de biologia e inglês.
— Alec disse que você é muito bom no basquete — diz o Sr. Stevens, da porta da cozinha.
— Gostaria de ser melhor — respondo.
A conversa continua, mas nada do meu amigo chegar. O café da Sra. Stevens é delicioso, muito melhor que o que minha mãe prepara em casa. O Sr. Stevens gosta bastante de basquete e faz diversas perguntas sobre o time do colégio. Quanto mais converso, mais vejo a personalidade do Alec neles. Fisicamente não são parecidos com meu amigo. A mãe dele é negra e o pai tem o nariz grande e o queixo quadrado. Alec tem uma aparência mais delicada. Ele é branco, até meio pálido. Os olhos são uma mistura de verde com castanho-claro.
Só tinha uma explicação para toda aquela diferença física.
— Hey, Arthur! — exclama Alec, assim que chega na cozinha. — Desculpa a demora.
— O jantar sai às sete e meia, rapazes — diz a Sra. Stevens. — Enquanto estudam, nada de música, televisão ou videogame.
— Mãe... — resmunga Alec, envergonhado.
— Pode deixar, Sra. Stevens — digo, com um sorriso.
Acompanho Alec, subindo a escada que fica na sala e passando por um corredor até seu quarto. Meu amigo tem uma TV ligada a um videogame, uma escrivaninha com notebook, um pequeno guarda roupa e uma cama de solteiro encostada na parede ao lado da janela. Tem um poster grande de um grupo coreano na parede, mas não faço ideia de qual grupo seja. Também há um pôster de animê em cima da cabeceira da cama.
— Qual grupo? — pergunto, apontando para o pôster dos coreanos.
— Super Junior — responde, acanhado.
— E qual animê é aquele?
— Na verdade é a Rey, personagem do jogo Grand Chase.
— Não conheço.
— Claro! Você só joga CS, Arthur!
Concordo, colocando minha mochila na cama.
— Obrigado por me receber, Alec — digo, e volto a pensar em tudo que me perturbou antes de entrar naquela casa.
Estou quase desistindo.
— Obrigado por vir — responde, simpático. — O que vamos estudar primeiro?
Penso um instante, inquieto.
— Na verdade, quero conversar com você antes — digo, e puxo a cadeira da escrivaninha para sentar. — Pode ser?
Ele concorda.
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