04
Quando O Sol Nasce No Ocidente | quatro.
É domingo, início da tarde. Paro na entrada da estação de metrô, onde Alec Stevens e eu marcamos de nos encontrar. Quase invento uma desculpa para desmarcar aquele compromisso, mas não acho que seja justo com ele. Alec não tem culpa das ideias idiotas do Asher. Alec é meu amigo e tenho uma dívida com ele.
Talvez eu esteja pensando demais. Por que encarar aquele encontro como algo romântico? Eu saio com meus amigos, certo? Cansei de sair com Zach, Asher, Tristan, Brian e outros amigos mais chegados. Sempre saímos para comer, assistir um filme e até almoçar por aí.
Será que estou receoso por causa da aposta?
Não ligo para o fato de Alec Stevens ser gay. Ter um amigo gay não me faz gay. Flertar com ele para ganhar do Asher também não me fará gay.
Por que estou pensando demais?
Me arrumei para aquele encontro, mas não tão bem quanto tinha me arrumado para encontrar com Lisa Barnet na tarde anterior. Coloquei roupas mais confortáveis. Roupas que usaria se saísse com Zach, com meus pais ou até para um passeio solo.
— Vamos lá, Arthur — digo, me encorajando.
Desço a escada da estação imaginando o que terei que fazer aquela tarde para ganhar a aposta do Asher. Talvez só o fato de me encontrar com Alec Stevens e passar a tarde com ele já me faça o vencedor. Um sorvete, alguns elogios e até um abraço bastaria.
Sim! Definitivamente devo abraçá-lo!
Um abraço me fará o vencedor.
Alec Stevens está sentado em um dos bancos da estação. Parece que se arrumou bem para a ocasião. Ele está com uma camiseta listrada, calça jeans escura e um tênis branco que nunca o vi usar. Seu cabelo está penteado como de um nerd, como sempre. Em suas mãos há uma revista em quadrinhos. Só quando me aproximo o bastante percebo que é do Homem-Aranha.
— O Espetacular Homem-Aranha? — pergunto, sentando ao seu lado.
— Arthur! — exclama, surpreso. — Não vi você chegar.
— Faz tempo que não leio quadrinhos — comento, pegando a revistinha das mãos dele para folhear.
Passo as páginas, mas só o que penso é no que estou prestes a tentar fazer. Me sinto um idiota. Primeiro por aceitar participar de algo tão infantil. Segundo por não ter coragem o bastante para ser franco com o Alec contando o que estava acontecendo.
— Tenho muitos quadrinhos — diz. — Meus favoritos são do Homem-Aranha.
— Quadrinhos são legais, mas prefiro mangás.
— Tenho alguns também. Card Captors Sakura é o meu favorito.
Já ouvi falar, mas não curti por achar uma história muito voltada para garotas. Prefiro algo mais ao estilo Dragon Ball, Vagabond e One Piece.
Faz sentido. Card Captors Sakura é bem um estilo que rapazes gays devem gostar de ler. Claro que não me atrevo a dizer isso em voz alta.
— Quero te agradecer pelo trabalho de inglês — digo, devolvendo o quadrinho. — Tirei "A" graças a sua ajuda.
— Meus parabéns!
— Em agradecimento, você pode pedir tudo o que quiser hoje. Será por minha conta!
Alec sorri e seus olhos brilham. Retribuo o sorriso, mas sinto meu corpo travar. Não é igual estar com Lisa Barnet. Com Lisa, tudo fluiu com facilidade. Com Alec, sinto como se estivesse em um campo minado.
— Vamos? — pergunto, depois de um longo e constrangedor momento de silêncio.
Ele concorda.
— Como foi seu encontro de ontem? — pergunta, enquanto esperamos o próximo trem. — Se divertiu no cinema?
— Péssimo — digo, rindo de mim mesmo.
— O que aconteceu?
— Acho que a garota que encontrei não estava tão afim de mim afinal. Comemos pouco e ela foi para casa depois do filme.
— Não rolou nada entre vocês?
— Não.
Ele disfarça, esconde o rosto com a revista em quadrinhos e parece sorrir.
Primeiro sinal de alerta.
— É normal garotas saírem com membros do time de basquete só para se exibirem, sabe? — comento. — Asher e Zach passam por isso o tempo todo. Como eles são os caras mais populares do colégio, as garotas se aproveitam.
— Isso é péssimo! Lamento muito, Arthur.
— Não foi nada, Alec! Tirei boas selfies com ela.
Alec sorri. Retribuo o sorriso novamente.
Mais alguns segundos constrangedores de silêncio.
— Tem falado com o Asher? — pergunta, desviando o olhar.
— Falo com aquele canalha ordinário todos os dias. Ele não costuma me dar um segundo de paz.
— Sério?! Do que vocês costumam falar?
— Basquete, futebol, garotas... Os assuntos não são tão variados.
Alec coça a cabeça, sem jeito. Desde o momento que descobri que meu amigo é gay, não consigo imaginar no que ele está pensando. As coisas mudaram. Não sou preconceituoso e nem ligo para o que ele faz em sua intimidade, mas algo tinha mudado.
— Por que a pergunta?
— Nada! Encontrei ele na sexta-feira no parque que fica perto do colégio, sabe? Ele chegou a comentar com você?
Sim! Não só comentou, mas também espalhou para mim e nossos amigos que você confessou ser gay! Não se preocupe, pois seu segredo está guardado com um retardado tagarela como Asher Cooper.
— Não comentou, Alec — minto. — Asher e eu não conversamos este final de semana.
O trem chega, encerrando aquele assunto.
O passeio começa pelo centro da cidade. Alec, assim como eu, gosta de comer besteiras de rua. Comemos cachorro-quente, burritos e bagel. Passamos por algumas lojas de roupas, mas não quisemos entrar em nenhuma delas. O assunto quadrinhos e mangás rendeu tanto que nos fez correr até uma loja geek. Enquanto escolhi um quadrinho simples e um mangá aleatório, Alec pegou quatro quadrinhos grandes de capa dura.
No mesmo prédio comercial da loja de quadrinhos existe um fliperama. Não sou fã de jogos antigos, mas Alec me convenceu a jogar alguns clássicos de luta com ele. Perdi todas as partidas, mas decidi que não deixaria barato.
— Tem futebol? — pergunto, procurando na lista do fliperama.
— Deve ter, mas não sei jogar.
— Então é hora da minha vingança!
Ganho as duas partidas do jogo de futebol mais recente que consegui encontrar. Apesar de tomar uma goleada, Alec estava se divertindo. Imagino que isso é quase o suficiente para a aposta que fiz com Asher estar ganha.
Falta apenas a cereja no topo do bolo para declarar a minha vitória.
Estamos na fila do sorvete quando Alec se distrai por um momento no celular. Ele não pediu para tirar selfie comigo em nem um momento daquela tarde. Alec não falou sobre o time de basquete, sobre suas redes sociais ou futilidades. Ele estava comigo, se divertindo e curtindo cada segundo ao meu lado.
Isso faz com que eu me sinta culpado.
Alec pega uma casquinha recheada. Eu pego um milk-shake pequeno, pois estou abusando demais das guloseimas. Vou ter que treinar muito para queimar todo o excesso que tive hoje.
— Está ficando tarde — diz, olhando para o céu.
— Nem percebi o tempo passar — digo, enquanto andamos rumo à estação de metrô do centro.
Alec lambe a lateral da casquinha, onde seu sorvete começou a derreter. Ele não percebe quando suja a lateral da boca e o queixo de sorvete de baunilha. Acho engraçado e penso em zoá-lo da mesma forma que faço com meus outros amigos, mas penso melhor... Aquela é a oportunidade perfeita para ganhar a aposta do Asher.
Aquela é minha cereja.
— Seu rosto está sujo de sorvete, Alec — digo, e me adianto para ficar de frente para ele.
— Ah! Sou muito desastrado — responde, pegando uma folha de guardanapo.
— Deixa comigo — digo, aproveitando aquela oportunidade.
Pego o guardanapo da mão dele, me aproximo um pouco demais e limpo a lateral de sua boca. O encaro bem de perto, de propósito. Ele parece corar. Alec fica paralisado, retribuindo meu olhar com um sorriso envergonhado. Aperto os lábios antes de não controlar um gentil e recíproco sorriso.
— Tenha mais cuidado — digo, quase sussurrando.
— Vou... Vou ter — responde, arregalando os olhos.
E chega! É o máximo de aproximação que consigo ter com outro homem. Meu dever está mais do que cumprido. Ganhei a aposta do Asher e consegui fazer Alec Stevens gaguejar, arregalar os olhos e corar.
Na volta para casa, a estação que vou descer se aproxima. Depois do incidente com o sorvete, Alec ficou mais introvertido, envergonhado e quase não me olha diretamente. Tento puxar assunto, mas ele responde e volta a se fechar, como se tivesse vergonha de conversar comigo.
Devo ter exagerado.
Espero que ele não fique chateado, pois somos amigos. Não quero perder a amizade dele, pois me diverti muito e preciso de mais tardes como esta. Meus amigos do time de basquete não são como Alec Stevens. Eles não gostam de quadrinhos, mangás, jogos de videogame... Com eles é só treino, basquete, futebol e garotas. Com Alec é diferente. Com ele os assuntos são espontâneos, tudo é mais simples e divertido. Não preciso pensar no que vou dizer ao lado dele. Até o simples hábito de respirar parece ficar mais leve.
Gosto de ter uma amizade diferente. Descobri um lado meu que não conhecia. Descobri gostos e coisas novas que nunca imaginei gostar, mas que me divertiam.
— Foi legal ter passado a tarde com você, Alec — digo, honestamente. — Nunca tive um amigo como você.
— Como assim um amigo como eu?
— Meus amigos não gostam de quadrinhos, jogos de videogame ou de fazer tudo o que fizemos hoje. Eles são obcecados por basquete e não pensam em nada além disso. Eles também não gostam de estudar, e isso me distrai um pouco.
Ele assente, corando de novo.
— Obrigado pelo dia de hoje, Alec — digo, sentindo um frio incômodo em meu estômago.
— Obrigado pelo dia de hoje, Arthur — responde, voltando a me olhar diretamente por um momento.
— E desculpa qualquer coisa — acrescento, quando o trem para na estação que vou descer.
Me despeço, ansiando contar o que estava acontecendo, mas sem coragem o bastante. Alec não tinha culpa de nada. Nada seria resolvido se ele soubesse a babaquice que Asher insinuou que queria fazer.
Tenho que resolver e consertar tudo, mas não com o Alec. Tenho que resolver tudo com o desgraçado do Asher Cooper.
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