02
Quando O Sol Nasce No Ocidente | dois.
É tarde quando volto para casa. Não tarde o bastante, pois continuaria na casa do Zach a noite toda se pudesse. Minha mãe está na cozinha terminando o jantar. Meu pai na sala assistindo o noticiário. Eles sabem que cheguei, mas continuam o que estão fazendo.
Thor, meu Husky siberiano de cinco meses de vida corre ao meu encontro assim que me vê. Ele se apoia nas minhas pernas e balança o rabinho insistentemente. Não descansa até que eu o pegue no colo para me encher de lambidinhas no rosto.
— Ele ainda não comeu e o quintal dos fundos está sujo — diz meu pai, alto o bastante para que eu o ouvisse da sala.
Não preciso responder, pois todas as noites é a mesma rotina. Chego da casa do Zach, tiro meu uniforme de basquete e o coloco para lavar. Visto uma roupa confortável apenas para limpar o quintal dos fundos. Dou comida para o Thor, brinco com ele uns minutos e volto para dentro para tomar banho. Antes de descer para jantar, consigo fazer o dever de casa, olhar minhas redes sociais e até responder algumas mensagens.
O prato da noite é Khao Soi. Basicamente pedaços de porco com galinha cozinhados ao leite de coco, caril e muita pimenta. Um dos pratos típicos da Tailândia. Sim..., minha família é tailandesa. Meus pais vieram de lá há muitos anos. Cansei de ouvir histórias da origem humilde e das dificuldades que eles tiveram para finalmente conseguir um lugar ao sol nos Estados Unidos. Nossa história de origem não me envergonha. A insistência deles em lembrá-la e comentar a todos os meus amigos e conhecidos todas as vezes que há oportunidade que me envergonha.
Comidas apimentadas não me incomodam mais. Minha língua está acostumada e anestesiada. Nada que uma jarra grande de suco ao meu lado na mesa não resolva. Tenho certeza que meus amigos não gostam de comer em minha casa por conta disso. Zach, Asher, Tristan, Brian ou qualquer outro que frequenta minha casa arruma uma desculpa para ir embora antes do almoço ou do jantar. É só minha mãe anunciar que vai preparar algum prato tailandes que algum compromisso inesperado que requer a atenção urgente deles aparece.
Apesar de ter pais tailandeses, sou americano. Nasci aqui mesmo em Pittsburgh, Pensilvânia. Quando não estou de dieta gosto de comer pizza, chocolate, cachorro quente, hambúrguer, comidas gordurosas e tudo o que os americanos costumam comer. Meus pais detestam, então só posso comer isso quando eles não estão em casa ou com meus amigos.
— Como estão suas notas? — pergunta meu pai, comendo como se não houvesse meio pote de pimenta em seu prato.
— Melhores — respondo, de forma ambígua.
— Seu último boletim é preocupante, Arthur — diz, engrossando a voz desnecessariamente.
Deve ser a pimenta.
— Tirei B em matemática e...
— Você sempre tirou A em matemática — diz, me cortando. — Também tirou B em inglês e biologia.
— Tirei A em inglês com meu último trabalho.
— É o suficiente para compensar outras matérias? — pergunta, mas sei que não quer saber minha resposta.
Sei onde a conversa vai acabar, por isso fico em silêncio. É melhor sentir minha língua queimar até ficar dormente do que tentar me defender daquela situação.
— O basquete está distraindo você — diz, depois de perceber que eu não tinha a intenção de responder.
— Ou é porque você acabou de terminar seu relacionamento com a Katherina, querido? — pergunta minha mãe.
— Meu término de namoro com a Kate não tem nada a ver com isso — digo, pigarreando em seguida.
— Sua namorada também te distraía dos estudos, então não acho que tenha a ver com isso — diz meu pai, também pigarreando.
Certeza que é a pimenta.
— Vou me esforçar mais — comento, querendo encerrar o assunto.
— É melhor, pois não quero conversar com seus professores e exigir que te tirem do basquete — diz meu pai, me encarando seriamente.
Me limito a balançar a cabeça e sorrir.
Não é de hoje que meus pais ameaçam conversar com meus professores e com o treinador do time de basquete. Eles acham que o esporte me distrai dos estudos. Eles acreditam que não é possível seguir uma carreira sólida no basquete ou em qualquer outro esporte. Minha mãe diz que qualquer lesão pode acabar com uma carreira em um piscar de olhos. Meu pai concorda, e acrescenta que para seguir carreira no esporte, antes tenho que fazer outra faculdade para ter uma alternativa caso o basquete não dê certo.
Minha mãe quer que eu seja médico, mas sabe que não tenho o menor interesse e vocação para isso. Não a julgo, pois sei que o sonho de toda a mãe é que o filho curse medicina. Meu pai quer que, como ele, eu curse Direito. Também não tenho o menor interesse nisso. Só de eu comentar em querer fazer educação física ou algo voltado para o esporte os deixa estressados. Eles dizem que é fase e que essa vontade vai passar quando eu amadurecer, apesar de não faltar muito para eu me formar.
Eu faria qualquer coisa para tentar mudar a visão deles sobre mim e o basquete. Se eu jogar como titular nos jogos do campeonato, talvez eles comecem a me apoiar e confiem mais em meu potencial.
Sobre isso, há muito o que pensar.
Tenho a chance de entrar como titular nos jogos do campeonato do colégio. O que tenho que fazer é de revirar o estômago, mas pode ser que valha a pena se eu ganhar.
Escrevo uma mensagem de texto para Alec Stevens enquanto subo as escadas e volto para o quarto. Os ingressos para o cinema de amanhã agora pertencem a Lisa Barnet, e não tenho a intenção de desmarcar com uma das garotas mais gatas do colégio. Meu domingo está livre, mas torço o nariz e penso um pouco antes de apertar o botão de enviar.
Seduzir um garoto? Tentar alguma coisa com ele? Deixá-lo me tocar e... Beijar?
Por que concordei com aquilo?
Alec Stevens é meu amigo. Não tão amigo quanto Zachary Heizer, Asher Cooper e Tristan Miles, mas é meu amigo. Um amigo que me ajuda a fazer o trabalho de inglês. Um amigo que me da tempo e impressões grátis no cibercafé.
O último baile do colégio foi um péssimo dia para mim. Descobri que minha ex-namorada, que agora está na faculdade, me traía com um de seus colegas de turma. Bebi muito naquele dia e fui arrastado para uma festa na casa do Zach. Alec Stevens estava lá. Ele me ajudou a subir para o quarto, a tirar minhas roupas e a me deitar. Soube que ele cuidou de mim parte da noite, para ter a certeza de que eu não estava passando mal.
Alec Stevens me viu só de cueca.
Apesar de bêbado e muito tonto, lembro que ele me ajudou a tirar minha roupa com medo que eu vomitasse nela. Conversamos um tempo e eu adormeci. Naquele dia eu não sabia que ele é gay. Se soubesse, talvez não tivesse ficado de cueca na frente dele. Talvez não o deixasse ficar no quarto comigo naquele estado.
Que absurdos estou pensando?
Alec Stevens é meu amigo. Um bom amigo, por sinal. Estou certo que ele não faria nada contra mim. Ele jamais me assediaria ou tentaria alguma coisa.
Pressiono o botão de enviar a mensagem que escrevi:
"Desculpa pelos ingressos do cinema. Tá livre no domingo? Quer dar um passeio e ficar de bobeira por aí?
Arthur."
Até onde terei que ir com essa aposta? Talvez consiga ganhar sem ter que ir até o final com Alec Stevens.
Asher Cooper deixou claro que um beijo não é nada, o que é um alívio. Tenho arrepios só de pensar em beijar outro homem. Por outro lado, Asher falou em ir quase até o final com o Alec. Como será ir quase até o final com alguém? Como eu faria aquilo sem qualquer tipo de preliminar?
Os termos da aposta são confusos demais para mim.
Meu celular vibra.
Alec Stevens respondeu minha mensagem:
"Estou livre no domingo. Posso ir sim! Não se preocupe quanto aos ingressos.
Alec."
Estava marcado.
Domingo tenho um "encontro" com Alec Stevens. O rapaz que é gay. Um amigo que tenho que seduzir e fazer gostar de mim caso queira jogar como titular nos jogos do campeonato de basquete.
Não estou dizendo que aceito a aposta, mas vou me aproximar um pouco mais do Alec. Preciso pensar melhor em minhas opções antes de fazer bobagem.
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