Capítulo 35

A VIDA NÃO PODERIA SER TÃO INJUSTA. Era difícil de aceitar que mesmo depois de tudo o que Marion fez, ela ainda estivesse se dando bem casando com Giorgio. Como era possível que ela conseguisse tudo o que planejou com tanta facilidade? Marion havia arrancado meu coração do peito, o espedaçado e posto de volta no lugar, e ainda sim continuava triunfante.

A vida definitivamente não era justa.

Peguei uma taça de champanhe com uns dos garçons e virei de uma só vez. Depois saí me afastando de todos, indo para a parte aberta do jardim. Tratei de vestir meu sobretudo, a noite estava linda, mas o vento que batia estava congelante. Havia um pergolado de madeira escura no jardim decorado com caramanchão, me sentei ali e fiquei observando a noite fria. Eu precisava de um minuto sozinha para conseguir digerir aquela noticia.

Eu não conseguia entender porque estava com tanta raiva. O porque estava tão mexida com a notícia daquele casamento. Já sabia que aquela união mais cedo ou mais tarde aconteceria. Mas a idéia de que poderia haver um romance entre Giorgio e Marion, além de um casamento de fachada, estava me causando sentimentos que eu não conseguia explicar.

Suspirei fundo, apertando com força a taça vazia em minha mão ao ponto de quase quebrá-la, tentando retomar o controle sobre meus sentimentos. A verdade era que desde a minha visita em sua instituição, passei a enxergar Giorgio com outros olhos. O que via era que as circunstâncias da vida o fizeram se fechar para o mundo atrás de uma parede de frieza e escárnio. Mas quando conversamos naquele jardim, Giorgio permitiu que eu visse como ele realmente era, um homem ferido marcado pela a morte desde muito cedo. Aquele Giorgio precisava ser salvo de todo aquele mar de amargura. Precisava ser cuidado. Ser amado. E Marion não era a pessoa indicada, para apagar todo aquele sofrimento enraizado em sua alma. Ela não o merecia. Na verdade ninguém merecia ter ao lado uma mulher como Marion.

Uma lágrima teimosa escorreu pelo meu rosto instante antes de ouvi passos vindo em minha direção e eu me apressei a enxugá-la.

— O que faz aqui sozinha? — Antonny perguntou, se sentando ao meu lado no pergolado.

— Precisava ficar um pouco sozinha. — respondi, tentando disfarçar a confusão de sentimentos dentro da minha cabeça.

— Esta tudo bem? — ele perguntou com o tom de voz um pouco apreensivo.

— Está tudo bem sim. — nem mesmo eu, consegui acreditar em minhas próprias palavras.

Ele franziu o cenho. — Tem certeza?

— Absoluta!

— Então vou ficar te fazendo companhia, até você se senti melhor.— Ele piscou para mim.

Antonny me conhecia bem demais para saber que eu estava mentindo. Depois de algum tempo em silêncio resolvi desabafar com meu irmão.

Mesmo sem saber se Antonny me entenderia, mesmo sem saber o que iria acontecer, eu precisava falar. Precisava colocar para fora tudo o que eu estava sentindo com todos os últimos acontecimentos que permearam minha vida.

— Eu não consigo entender por que a vida tem sido tão injusta comigo.

— Acho que precisamos mesmo conversar. — Antonny me fez olhar em sua direção. Concordei movendo a cabeça. — Por que está dizendo isso pequena?

— Por que não consigo entender como depois de tudo o que Marion fez, ela ainda esteja se dando bem casando com Giorgio Mc Loucghlin. — coloquei para fora minha frustração.

— O Duque?

— Ele mesmo.

Antonny fechou a cara na hora e passou a mão pelo cabelo. Nitidamente desconfortável, ele olhou para o celular e depois olhou para mim novamente.

— Por que está tão incomodada com isso? — ele perguntou parecendo sem me entender.

Respirei fundo, antes de começar a falar.

— Descobri que Marion armou para me separar de Caleb.

Antonny me encarou, parecendo pensativo.

— O que ela fez?

Contei para ele tudo o que Caleb descobriu sobre a armação de Marion para nos separar, como ela manipulou aquelas fotos e o fez acreditar que eu estava o traindo. A cada parte da historia ele vincava mais suas sobrancelhas.

— Então deixa ver se eu entendi. Você está me dizendo que Marion aproveitou o fato de dividir o mesmo apartamento com você, para te dopar e simular que você estava dormindo com outro homem? — Antonny quis saber.

— Sim. — respondi morta de vergonha por ter sido tão ingênua no passado.

— Sophia você tem noção do tamanho da gravidade do que está me contando? — ele esbravejou. — Assim como teve a capacidade de te dopar, aquela mulher poderia ter te envenenado ou o desgraçado do seu professor poderia fácil, fácil ter se aproveitado de você.

Um calafrio percorreu meu corpo só de imaginar que aquela historia poderia ter sido bem pior.

— Tenho Antonny, mas graças a Deus não aconteceu.

Ele apoiou os cotovelos no joelho e agarrou os cabelos com força.

— Essa mulher tem que se presa... Isso... Isso o que ela fez é crime! E ela tem que pagar por ele!

Suspirei fundo. Precisava permanecer calma e equilibrada. Embora estivesse a ponto de surtar por completo.

— Sim, Marion cometeu um crime e deveria sim pagar por ele. Mas já se passaram cincos anos e infelizmente perante a lei, não existe mais nada a se fazer.

— Eu sempre soube que Marion não era uma pessoa confiável Sophia, mas eu nunca imaginei que ela fosse capaz de chegar tão longe. — Antonny murmurou antes de levar à taça de vinho a boca.

— Só quero que esse pesadelo tenha fim. — resmunguei, apoiando a cabeça no encosto do pergolado e fechei os olhos.

O silêncio tomou conta do ambiente.

— Foi por esse motivo que você terminou com Caleb?

— Sim e não.

Foi à única coisa que conseguir responder. Ao contrário do que aconteceu com Vovó Medina, decidi não contar nada sobre o acordo para meu irmão. Quanto menos gente soubessem do acordo melhor.

— Eu posso me arrepender amargamente por dizer isso. — ele fez uma pausa, como se tivesse travando uma luta consigo mesmo. — Mas você sabe que Caleb também foi vitima nessa história?

O olhei com a melhor expressão, eu-não-acrédito-que-você-está-me-dizendo-isso enquanto Antonny aguardava minha resposta.

Inspirei profundamente. — Eu não acredito que você disse isso.

— Sophia, você não sabe o quanto me custa ter que te dizer isso, porque eu não me esqueci de tudo o que você passou por culpa daquele desgraçado. Mas não posso negar que Caleb, também foi vitima das armações de Marion. E céus, eu não sei o que faria se estivesse em seu lugar.

— Não foi só culpa de Marion e Caleb. — ele me olhou sem entender o que eu queria dizer com aquilo. — Eu também tive culpa Antonny, Caleb e Marion não me obrigaram a cortar meus pulsos. Tudo o que aconteceu comigo também foi fruto de uma má escolha minha. Eu errei muito ao colocar a responsabilidade da minha felicidade nas costas dos outros. E isso não é amor. É quase uma crueldade. — Meu irmão me olhou com os olhos arregalados.

— Você está tão diferente, Sophia.

— Sim, sinto que estou mais madura. É como que se a venda que cobria meus olhos tivesse sido arrancada, me permitindo enxergar coisas que antes não conseguia ou me negava enxergar por medo. Embora eu ainda não saiba como deixar tudo isso apenas no passado.

Ainda não sabia como esquecer tudo o que aconteceu.

— Sophia, você precisa seguir em frente. — ele afagou suavemente minha mão. — Embora essa idéia não me agrade nem um pouco... Eu estou disposto a aceitar seu relacionamento com Caleb, caso você decida recomeçar sua historia ao lado dele. Se isso te deixará feliz, eu ficarei feliz também.

— Obrigada. — o abracei aliviada, não pelo o que ele me disse e sim por continuar sendo meu ombro amigo.

Tivemos nossa atenção despertada ao ver a maioria dos convidados se aproximando do jardim. Antonny tirou seu celular do bolso para olhar as horas.

— Meu Deus Sophia! Falta pouco para a meia noite. — ele levantou em um pulo. — Vamos? Não podemos perder a queima de fogos.

Antonny saiu me arrastando. Toda a minha família se reuniu na grande varanda de pedras de nossa casa, para assistir a queima de fogos que vovó havia programado para a passagem de ano.

— Espero que todos tenham seguido a tradição e estejam usando roupas íntimas vermelhas. — Vovó Medina gritou, piscando para mim em seguida.

Ela se referia a tradição italiana que diz que vestir roupas íntimas vermelhas na véspera de Ano Novo trará sorte para o próximo ano e potencialmente amor à sua vida!

Fizemos a contagem regressiva em coro quando o céu recebeu uma espetacular queima de fogos que iluminou todo jardim. A chegada do novo ano foi celebrada em mil cores que foram refletidas no lago da propriedade. Meu celular vibrou novamente dentro da bolsa, o peguei meio que no automático quando meu coração deu um salto ao ver de quem era a mensagem.

Feliz Ano Novo, meu amor. Que este seja um ano de muitas conquistas e felicidades. E que seja o começo do nosso para sempre. Te amo, Caleb.

Li aquela mensagem com um sorriso discreto nos lábios. Caleb parecia não está mesmo disposto a desisti de nós dois. Embora aquela possibilidade parecesse remota no momento. Decidi por não responder aquela mensagem, era melhor assim. Enquanto eu ainda estivesse incerta em relação aos meus sentimentos, deveria o manter afastado da minha vida.

Reunimos-nos em torno da mesa grande para começar a degustar a deliciosa ceia preparada por Vovó. Tinha lentilhas, carne de porco, o tradicional cotecchino um embutido feito com carne da bochecha, pescoço e ombros do porco, temperado com muitas especiarias e o zampone a pata dianteira do porco recheada com carne de várias partes dele. Nós italianos acreditamos que as lentilhas se assemelham a moedas pequenas e trazem riquezas, enquanto o teor de gordura da carne de porco significa abundância e prosperidade no Ano Novo. Por isso, esses alimentos eram indispensáveis em nossa ceia.

A musica voltou a preencher o ambiente e não demorou muito para que quase todos os convidados estivessem dançando alegremente na pista de dança. Fui surpreendida com braços me puxando para a pista.

— Minha vez de dançar com minha pequena.

Eu me afastei o suficiente para levantar a cabeça e encontrar os olhos de meu pai.

— Estou tão feliz em te ver assim, tão radiante meu pai.

— E por que eu não estaria bambina mia? Estou vivo, em minha terra amada, rodeado por todas as pessoas que amo. — ele respondeu, antes de me afastar delicadamente, levantar uma de minhas mãos e me fazer girar.

Em seguida, ele me puxou novamente em sua direção e avançamos na dança.

— Você sabe o quanto eu te amo, não sabe?

Papai exibiu um largo sorriso em seu rosto.

— Eu sei. Eu também te amo, bambina linda.

Logo após a segunda musica, começamos a trocar de pares. Dancei com meus irmãos, com meus primos. Depois decidimos nos reunir para outro brinde em nome de nossa família e amigos.

— Eu estou tão feliz por essa noite! — Valentim foi o primeiro a levantar sua taça, seguido dd Giovanny que fez o mesmo.

Valentina me deu um beijo rosto e se uniu ao grupo sorridente. — Finalmente estamos todos reunidos como nos velhos tempos! — ela disse sorrindo para nós. — Vamos brindar! A nossa felicidade!

— A nossa felicidade! — Repetimos em coro.

Brindamos e nos abraçamos logo em seguida. Curtindo um momento que com certeza ficaria marcado em nossos corações.

— Vamos dançar! Temos muito que comemorar hoje! — Antonny puxou Kate pela cintura e a abraçou. Fazendo minha amiga dá gritinhos.

O olhei com um olha enviesado, mas ele o ignorou.

— Vamos! — Kate entrelaçou seus dedos aos de Antonny e Valentina puxou Marco para a pista de dança também. Os quatros seguiram aos risos, nos deixando para trás no meio do jardim.

Olhei para a direção de onde Kate e Antonny agora dançavam e fiquei feliz ao ver que ela estava se divertindo, embora eu ainda estivesse preocupa com aquela aproximação.

A festa seguiu da melhor forma, como deveria ser. Nós dançamos, bebemos, comemos e nos divertimos muito. Pouco depois das duas da manhã, eu já estava morta de cansada. Decidi sair à francesa sem me despedi dos remanescentes. Segui pelo jardim até a entrada principal da casa. Subir para meu quarto tirei toda a maquiagem e o vestido e, me deitei na cama morta de cansada. Não demorou muito para que o sono me embalasse.

~:~

Abri os olhos lentamente ainda sonolenta. O relógio marcava pouco mais de cinco da manhã, estava com a garganta seca, desesperada por um copo d'agua. Decidi me levantar e ir beber água na cozinha já que estava sem água no quarto.

Quando já estava terminando de subir as escadas, escutei o barulho da porta de um dos quartos se abrindo. Escondi-me atrás da parede do corredor quando vi Kate saindo do quarto de Antonny, carregando as sandálias nas mãos e entrando rapidamente no quarto de hospedes, que minha avó tinha arrumado para ela.

Eu não acreditava no que estava vendo.


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Finalmente consegui postar dois capítulos na mesma semana.... Ebaa!

Agora voltarei com o cronograma planejado com as postagens as sextas-feiras.

E vocês preparados para se despedir do nosso núcleo da Toscana? No próximo capítulo daremos adeus a esse núcleo que movimentou a história nessa segunda fase.

E espero que tenham gostado do capítulo. Esse capítulo não passou por revisão porque eu simplesmente não vou ter tempo de fazer isso. Mas como o livro vai passar por uma revisão geral assim que eu concluí, estou mais relax nesse sentido. Melhor do que deixar vocês sem capitulo ne?

Então é isso, beijos e até o próximo.

💋

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