Capítulo 25

Ao acorda na manhã seguinte, senti minhas pálpebras pesadas. Esfreguei os olhos para me livrar daquele resto de mágoa, aliviada por pelo menos agora saber toda a verdade sobre o que aconteceu há cinco anos. Parecia estranho que aquela sensação de paz que sentia, era fruto de minha descoberta. A conversa que tive com Caleb ontem à noite, me dava à certeza de que ele havia decidido me abandonar não por uma falha minha e sim por ter sido fraco demais ao cair em um plano sujo de Marion.

Não dava para voltar no tempo. Suspirei alto, sem conseguir disfarçar minha frustração, mas aquela revelação era um divisor de águas em minha vida. Agora poderia definitivamente colocar uma pedra naquela historia. Finalmente poderia seguir com minha vida, sem ser atormentada pelo os "e se" que tanto me atormentaram por todos esses anos. E o primeiro passo eu daria naquela manhã.

Levantei-me da cama em um pulo, vesti minha roupa que estava dobrada no criado mudo de Valentim e sair do celeiro decidida, a colocar um ponto final de uma vez por todas naquela historia. Entrei apressada em casa, sem reparar que vovó estava sentada em uma poltrona no hall de entrada.

— Graças a Deus bambina você apareceu! Está tudo bem? — ouvi minha avó dizer e não consegui respondê-la. Movimentei a cabeça de forma positiva e corri em direção ao meu quarto.

Entrei no meu quarto correndo indo direto para o closet. Peguei a mala de Caleb e comecei a colocar suas coisas dentro dela. Quando peguei em uma camisa dele aleatoriamente, senti a fragrância masculina no tecido branco que era uma tortura sem igual. Não queria sentir nada que fosse dele ou ter comigo qualquer lembrança do corpo daquele homem. Queria apenas esquecer sua existência.

Quando terminei de fechar a mala, sorri e enxuguei a lágrima furtiva que desceu em meu rosto. Não estava sendo nada fácil tomar aquela decisão, quando tudo convergia de volta a Caleb O'Brien. Sentia raiva de mim mesma, por me permitir ainda sentir tanta coisa por uma pessoa que me feriu como ele fez.

Decidida, entrei no banho, mas não lavei os cabelos novamente, me arrumei vestindo o conjunto de calça e blusa preto mais sexy que tinha, calcei botas pretas. Dei uma escovada nos cabelos, maquiei-me, coloquei brincos e colar, pequei minha bolsa e sair arrastando sua mala. Fazia questão de devolver suas coisas pessoalmente.

Estava quase nas escadas quando uma mão puxou a mala de minhas mãos. Martin pegou a mala de Caleb e desceu as escadas com ela em silêncio sem dizer nada.

— Obrigada. — agradeci sem jeito.

— Valentim me contou mais cedo o que aconteceu. — ele me abraçou forte. — Vai ficar tudo bem. — sussurrou num tom de consolo enquanto eu deixava minha cabeça recostar em seu ombro. Fechei meus olhos e mordi o interior da minha bochecha até sentir o familiar gosto metálico na boca. Não podia me dar ao luxo de chorar, precisava ser forte para superar.

Martin me levou até a cozinha e depois me trouxe uma boa xícara de café. Ele ficou sentado em silêncio ao meu lado, enquanto eu bebia o liquido fumegante em silêncio e aos poucos ia me encorajando até ser capaz de terminar o que havia começado.

— Obrigada. — agradeci mais uma vez e ele sorriu satisfeito.

— Que malas são aquelas no meio da sala?!

A voz de nona Medina surgiu assim que a porta de entrada para cozinha foi aberta de repente e eu perdi o ar. Perdi as forças. Perdi todos os sentidos ao mesmo tempo. Foi como se eu tivesse pronta para desmoronar em lágrimas na frente de todos a qualquer instante. Não consegui me mexer. Era como se meus pés estivessem grudado ao chão. Um turbilhão de sentimentos surgiu dentro de mim e eu não sabia como lidar com aquilo. Eu ainda não queria contar para minha avó que meu namoro fictício com Caleb havia acabado e não havia pensado em nada para justificar a sua ausência. Não queria que todos descobrissem sobre nosso acordo, sobre nossa mentira para convencer meu pai a aceitar Caleb como sócio investidor. Por enquanto iria contar somente a verdade mascarada a ela.

— São as malas de Caleb vovó. — foi Martin que respondeu sua pergunta.

— Malas de Caleb? Sophia vocês já estão indo embora? — ela perguntou assustada levando a mão ao peito.

Suspirei desapontada colocando minha xícara de café na mesa. Sem alternativa, olhei nos olhos de vovó Medina.

— Não estou indo embora vovó. — ela suspirou aliviada — Mas Caleb sim! — concluí convicta.

Vovó Medina arregalou os olhos e seu queixo caiu. — Mas como Caleb está indo embora sem mais nem menos? — recriminou.

Respirei fundo e fechei os olhos. Eu não queria falar a verdade para ela, não naquele momento.

— Surgiu uma emergência em sua empresa, por esse motivo ele precisa voltar para Londres imediatamente. Passamos a noite em um hotel para não incomodar a senhora e antes dele voltar para a Inglaterra ele precisou resolver alguns assuntos na vinícola. — sorri sem vontade. — Por isso voltei para buscar suas coisas e entregar para ele na vinícola, infelizmente ele não conseguirá vim se despedi da senhora. — terminei me sentindo péssima por está mentindo para ela mais uma vez. Mas decidi contar sobre nosso termino somente depois despachar Caleb de minha vida.

— Você não precisa explicar querida. Eu sei que Caleb é um homem muito atarefado. — ela beijou minha testa, surpreendendo a mim e a Martin que observava a conversa atento. — Agora preciso começar a preparar o almoço, quando chegar conversamos melhor.

Dizendo isso, vovó Medina saiu da cozinha indo para a horta dos fundos, cantarolando uma canção antiga em italiano. Suspirando, me levantei da mesa indo direto para a sala. Toda aquela conversa tinha me deixado ainda mais nervosa. Precisava resolver minhas pendências com Caleb o mais rápido possível, não queria correr o risco que ele viesse me procurar na fazenda.

— Não sei se ela acreditou nessa sua historia. — a voz de Martin surgiu atrás de mim.

Esfreguei os olhos com as duas mãos, enquanto resmungava. — Eu tenho certeza que não Martin, mas por ora vai me servir.

— Bom estou indo para a vinícola também, se quiser posso te dar uma carona. — ele ofereceu com um sorriso cativante no rosto, o que tornava impossível negar sua oferta.

— Obrigada Martin, vou aceitar sim. — sorri fraco.

Em silêncio entrei no carro, suspirei me acomodei melhor no banco do carona, apoiando a cabeça no encosto de couro macio, enquanto observava os carros e as pessoas felizes, vivendo suas vidas, pela janela. E eu? Sentia-me vazia e triste. Aquele sentimento era muito próximo do que eu senti por meses, depois da tragédia do meu casamento.

Flagrei meu primo me olhando com um ar de preocupação. O olhar de Martin era tão intenso, que eu me senti obrigada a desviar meu olhar fixando no painel do carro. Minha mente vagueou no passado e me lembrei daquela triste tarde de sábado quando fugir daquela igreja, em prantos, desesperada por respostas, desesperada por seu abraço, desesperada por seu amor, desesperada por comprovar que tudo aquilo não se passava de um engano, um equívoco. Mas quando encontrei aquela carta de Marion deixada em sua penteadeira, foi como se o chão tivesse sido aberto abaixo dos meus pés, fazendo meu corpo ser arremessado em queda livre seguindo para a morte em segundos. Meu cérebro não conseguia processar aquilo como possível ou até mesmo real. Mas infelizmente aquele pesadelo era real.

Caleb me deixou sozinha, vulnerável, fragmentada. Ele não me amou, ele não se casou comigo, ele não confiou em mim. Ele realmente não confiou em mim.

Senti meu peito comprimir.

— Sophia! — A voz de Martin me despertou de minhas divagações, me trazendo de volta para o presente. — Chegamos. — ele sorriu ternamente.

— Obrigada Martin. — agradeci mais uma vez.

Martin desceu do carro fazendo questão de abrir a porta para mim, quando sair do carro fui surpreendida. Ele me abraçou forte, acariciando minha testa com os lábios. Uma de suas mãos subia e descia nas minhas costas.

— Me prometa que ficará bem. — o tom rouco de sua voz comprimiu ainda mais meu coração.

É claro que eles temiam por mim, da ultima vez que passei por algo semelhante às coisas não terminaram muito bem. Por isso, eu entendia sua reação de super proteção. De algum modo eu conseguia racionalizar que ele estava com medo e assustado. Nos somos amigos a vida inteira e eu amava Valentim, Martin e Valentina como se fossem meus irmãos.

— Eu prometo que ficarei bem. — me afastei de seu abraço e lhe dei um beijo na bochecha. — Preciso terminar com isso logo.

— Claro.

— Nos vemos no almoço. — pisquei para ele que sorriu confiante.

Sair arrastando a mala no piso frio até a recepção da vinícola. Passei despercebida pela recepcionista da entrada, que estava distraída mexendo no celular, indo direto a sala provisória de Caleb. A porta estava trancada o que me deixou intrigada, pois ele havia comentado no jantar na noite anterior, que precisaria está na vinícola logo pela manhã para resolver algumas questões.

Observei os belos vinhedos pela janela do hall de entrada da sala. Minha cabeça borbulhava com o rumo que nossa conversa tomaria e mais do que isso, como convencer a mim mesma que Caleb não faria mais parte de minha vida ou como deixar sua presença nebulosa em relação a mim, sendo ele sócio investidor da vinícola.

— Senhorita Salvatore. — uma voz feminina me chamou atenção.

— Sim. — respondi sem deixar de olhar para a janela.

— O senhor O'Brien pediu para avisar que está em uma reunião importante, mas que a senhorita poderia esperar em sua sala.

Antes de ela terminar a frase, virei-me em direção a saída a deixando surpresa.

— Obrigada Verônica.

Segui para a sala de reuniões a passos largos arrastando aquela maldita. A sala era a mesma na qual tivemos a primeira reunião com o novo diretor, quando chegamos a Siena. Meu coração acelerou ainda mais à medida que ia me aproximando do local. Não tinha que temer nada, apenas diria o que ainda estava entalado na minha garganta e entregaria suas coisas. Respirei fundo e continuei seguindo de cabeça erguida. Chegando ao hall encontrei a porta entre aberta, o que me permitia escutar o teor da reunião com os novos clientes da vinícola.

A voz de Caleb era cheia de paixão contagiante e ele era carismático o suficiente para envolver a todos em seus objetivos. Caleb era mais do que bom no que fazia, era indomável. Ele era um líder natural. Talvez seja por isso, que eu caí em suas mentiras tão facilmente. Suspirei entediada.

Havia algumas poltronas mais afastadas da porta, decidi me sentar lá e aguardar até o final da reunião para falar com ele. Poderia voltar e esperar na sua sala, mas não queria correr risco de ficar muito tempo sozinha com ele.

O que você precisa fazer Sophia? O que eu preciso fazer? Repeti essa pergunta para mim mesma mentalmente varias vezes. A única resposta verdadeira que eu poderia dar era: manter-me indiferente. Eu só precisava manter a calma, para não ceder à tentação de lhe perdoar, para não cair na ilusão que algum dia poderíamos recuperar o tempo perdido. Ignorar o passado e seguimos em frente. Doía muito imaginar a vida que perdemos juntos por intervenção de Marion, mas doía ainda mais saber que não havia como voltar no tempo ou recomeçar do zero.

Era para o passado ter ficado para trás. Junto com as tristes lembranças que tanto me esforçava para esquecer. E agora ele reapareceu para me lembrar da vida que poderia ter tido e das perdas ao longo de minha trajetória. O destino era muito injusto!

Fechei os olhos engoli o nó que se formou em minha garganta, fazendo o possível para não transparecer o quanto estava devastada por dentro. Não sei ao certo por quanto tempo esperei. Por mais distraída e com o pensamento distante que eu estivesse senti a presença de Caleb antes mesmo de que me tocasse. Era como se o ar mudasse ou que meu corpo reagisse a sua presença. Droga... Manter-me indiferente seria a parte mais difícil de todas.

Abri os olhos e precisei olhar para cima para encontrar os únicos olhos que tinham o poder de tirar o chão sob meus pés.

Eram azuis como turquesa.

Eram de Caleb.

Levantei-me de repente e sem querer acabei me desequilibrando devido à forma com que me levantei. Senti sua mão quente apoiando meus braços para que não caísse. Ele me rebocou para dentro da sala, enquanto eu tentava soltar meu braço da curva de seu braço, mas não conseguia me concentrar. Nada mais parecia real. Minhas pernas pareciam ter virado gelatina e eu quase não conseguia o acompanhar. Ele trancou a porta atrás de nós.

De repente, eu estava muito consciente do corpo grande e forte pressionando o meu contra a parede, do braço firme envolvendo minha cintura e de seu olhar queimando minha pele.

Eu me traí e me permitir relembrar da última vez que estive daquele jeito com ele. Lembrei-me de cada beijo seu na minha pele úmida, das suas caricias e de como o mundo parecia congelar toda vez que estávamos juntos. Lembrei-me de como ardemos juntos e deixamos o passado pela primeira vez no passado, nos entregando apenas ao presente. Em contra partida, me lembrei também do que aconteceu depois, de quando ele me deixou sozinha, da decepção e da frustração que senti ao ser abandonada mais uma vez.

— Não toque em mim! — gritei irritada numa tentativa em vão de afastá-lo de mim.

Ele me puxou pra mais próximo dele.

— Eu não consigo... — Caleb engoliu em seco — porque eu não quero e não vou te perder novamente Sophia.

~:~

Amores eu sei que falei hoje mais cedo que esse capitulo só sairia amanhã, mas vocês ficaram tão curiosas quando postei o rascunho por engano que não resisti e resolvi postar hoje mesmo. Por isso, já aviso provavelmente esse capitulo estará com alguns erros ortográficos (isso me irrita um pouco) e passará por revisão, mas nada que mudará a historia.

Outro motivo pelo qual decidi postar o 25 hoje é para comemorar os 6k! 🎉🎉🎉🎉🎉🎉 Sim, o livro já tem mais de seis mil visualizações, estou impressionada como esse numero cresceu em uma semana. Obrigada a todas vocês pelo apoio, isso me motiva muito a continuar com a historia, vocês são demais! Continuem votando e comentando, isso é muito importante para mim, amo ver vocês interagindo com a historia e com os personagens.

Spoiler do próximo capitulo, teremos uma atitude inesperada da Sophia. Comentem o que acham. Ah! E continue dando seus palpites sobre o amor misterioso de Valentim, temos algumas opções possíveis na historia.

Beijos e até o próximo. 

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