Capítulo 21

Estava cavalgando nos arredores da propriedade da minha família. A área era quase que vazia, a não ser por algumas fazendas vizinhas. O clima estava agradável e a temperatura não estava tão baixa, em comparação a de Londres nessa época do ano. O céu azul e o sol davam um ar alegre ao dia. A região do Vale d'Orcia era repleta de colinas douradas com pedra e filas de ciprestes, a paisagem era estonteante trazendo uma sensação de paz incrível. Vovó tinha razão, era um dia maravilhoso demais para ficar trancada em casa.

Continuei galopando sentido as colinas. Movia-me em sincronia com o cavalo, meus cabelos soltos voavam com a intensidade do vento e a velocidade a qual me movia. Era incrível a sensação de liberdade que sentia naquele momento. Não muito longe de onde estava, era possível avistar meu lugar preferido na Toscana.

Fiz com que o cavalo desacelerasse a medida que fui me aproximando. Parei debaixo de uma arvore alta e saltei, apoiando-me no grande tronco e aproveitando a sombra que diminuía a intensidade do sol da tarde. Aquela não era qualquer arvore, era a minha arvore. O lugar onde me refugiava todas as vezes que queria ficar sozinha.

Eu me sentei no chão e encostei-me ao tronco do grande Cipreste Italiano, abracei as pernas e fiquei olhando para as colinas. Tudo o que eu queria era ficar sozinha, e tentar lidar com tudo o que estava acontecendo da melhor forma possível. A verdade era que minha vida estava de cabeça para baixo, desde aquela tarde em que Caleb apareceu de surpresa em meu apartamento.

Eu tinha dito sim ao plano dele de reconquistar Marion. Inclusive cheguei ao ponto de aceitar me mudar para sua casa com toda pompa necessária para uma namorada apaixonada, que estava disposta a esquecer o passado e seguir em frente ao lado do homem que amava. Tudo isso para recuperar a vinícola de minha família, visto que meu irmão havia nos levado a falência com sua ganancia desmedida. Eu nunca imaginei que por culpa de Giovanny, eu me veria sem saída e acabaria participando de toda essa loucura. Agora estava novamente na Itália, enganando minha família com toda aquela farsa de casal apaixonado.

Eles não sabiam o que estava em jogo, mas pelo bem de todos, minha missão ali precisava ter sucesso. E para isso acontecer, eu não podia fraquejar. Nem por um segundo. Por isso, aderi o papel de namorada apaixonada no período que estávamos na Toscana. Faltava pouco para o mês acabar. Faltava pouco para o acordo acabar, mas ao mesmo tempo que me sentia aliviada, sentia também um buraco crescendo dentro do meu peito. A verdade era que eu sentiria falta de toda essa loucura, sentiria falta de Caleb.

Como isso poderia ser possivel? Eu não sabia. Continuar amando Caleb depois de tudo o que aconteceu, era minha maior sentença. Mas estava na hora de me libertar.

Algum tempo depois ouvi um trote de cavalo se aproximando de onde eu estava. Mas não me virei para ver quem era. Não me importava. Continuei olhando para as montanhas ao sul. Quando aquela voz inconfundível chamou minha atenção.

— Até que enfim te encontrei. — Caleb disse ao parar ao meu lado. Não olhei para ele.

— Como me achou aqui? — perguntei sem vontade com o olhar perdido nas montanhas.

Ele se abaixou na minha frente, apoiando suas mãos na minha perna, praticamente me obrigando a fazer contato visual com ele.

— Sua avó me disse que apostava a vida dela que estaria aqui. — ele riu fraco.

Suspirei alto. — Por que será que não me surpreendo?

Ele deu um sorriso de canto de boca.

— Porque não estamos falando de qualquer pessoa e sim da sua avó. — foi sua resposta.

Rimos juntos.

— Ela é uma figura — ri balançando a cabeça — mas você não veio até aqui apenas para falar da minha avó? — fui direto ao assunto o deixando surpreso.

— Não. — ele balançou a cabeça, me fitando com seus intensos olhos azuis.  — Quais seus planos para hoje a noite?

— Não tenho planos. — ele segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Meu Deus, porque meu coração acelera dessa forma toda vez que ele me toca? Soltei sua mão rapidamente.

— Ótimo! Quero levar você para jantar em um restaurante que vi, quando estava voltando da vinícola para cá. E acho que você vai gostar.

— Acha que é uma boa idéia?

— Claro que sim. — ele deu de ombros — Fiquei com vontade de ir até lá, e ver como é. — primeiro seu olhar estava nos meus olhos e depois, nos meus lábios.

— Tudo bem, vou com você. — respondi sem ter a certeza que minha voz tinha mesmo saído. — Quando vamos voltar para Londres? — perguntei com a voz um pouco mais alta.

— Não faço idéia, ainda estou resolvendo algumas coisas na vinícola. — o olhei preocupada — fique tranquila, não é nada com que tenha que se preocupar. São apenas questões burocráticas.

— Entendi.

— Por quê? — ele arqueou uma sobrancelha.

— Por nada. — fiz uma pequena pausa. — Eu só não imaginava que ficaríamos mais que dois dias aqui.

Não falamos mais nada por muito tempo. Apenas ficamos observando em silêncio o sol sumindo entre as colinas. Mas pela sua forma de agir, percebi que alguma coisa estava o deixando inquieto.

— Por que não voltou para a Itália depois de tudo o que aconteceu? — Ele perguntou de repente, me pegando de surpresa.

Continuei olhando para as montanhas em silêncio, enquanto formulava em minha mente a melhor resposta para responder sua pergunta de maneira objetiva. Caleb ficou em silêncio, percebendo que eu levaria mais tempo do que precisava para responder.

— Esse era o plano, assim que saísse da clinica de reabilitação voltaria para a Toscana com meus pais...

— E o que a fez mudar de idéia? — ele me interrompeu no meio da frase.

— A morte da minha mãe... A morte da minha mãe mudou tudo Caleb. — Despejei olhando em seus olhos. — Os meus pais estavam muito empolgados com a vinícola e achavam que seria uma ótima oportunidade de um recomeço para mim. Mas com a morte da minha mãe tudo mudou. Eu não consegui vim para cá viver o sonho que pertencia a ela.

— Sophia... Eu... Eu sinto muito. — ele murmurou de cabeça baixa.

Eu o olhei, indignada. Eu não entendia o porquê dele estar tão interessado na minha vida agora, eu não queria deixar ele entrar nela novamente, mas ele insistia. Era tarde demais para ele se importar. Cincos haviam se passado. Eu não precisava mais de seu consolo.

Levantei em um pulo, virei em sua direção e olhei dentro dos seus olhos furiosa.

— Não! Você não sente. — falei com sarcasmo e tristeza.

Caleb segurou meu rosto com suas mãos, me obrigando a olhar para ele.

— Eu daria tudo para voltar ao tempo Sophia... Eu daria tudo o que tenho para não ter cometido os erros que cometi no passado.

Olhei para ele incrédula. A onde ele queria chegar com aquela conversa? Caleb nunca assumiu que errou, até quinze dias atrás ele me acusava de traição com uma convicção inquestionável. Por que esse arrependimento agora?

— Nos não precisamos falar sobre isso. - me afastei dele — Eu não quero estragar o dia maravilhoso que tive com algo que já deveria ter ficado no passado. — falei irritada.

— Nos precisamos falar sobre isso Sophia — ele insistia, eu balancei a cabeça indicando que não — O passado ainda faz parte do nosso presente e isso você não pode negar.

Ele se aproximou de mim mais uma vez para poder tocar nos meus ombros, me olhando de maneira sugestiva, mas fui mais rápida e lancei para Caleb um simples — e suficiente — olhar de reprovação. Peguei a rédea do meu cavalo e montei nele em um pulo, enquanto ele me fitava, com um olhar curioso.

— Sabe Caleb não foi uma total perda de tempo o período que passei naquela clinica, me serviu para apreender a não cortar meus pulsos por qualquer besteira.

Puxei as rédeas de Trovão, conduzindo-o para outra direção. O deixando parado feito uma estatua para trás. Eu não precisava de suas desculpas, suas justificativas não mudariam o que aconteceu no passado, e não me interessava saber os motivos que o levaram a se arrepender. O que estava feito, feito estava. Nada mudaria o passado, mas eu ainda podia mudar o meu futuro, e eu escolhi não ser mais a mulher frágil que costumava ser. Mesmo ainda o amando, não deixaria mais ele me magoar como fez no passado.

Conduzia o cavalo com determinação no meio de vários obstáculos naturais, mostrando que de frágil não tinha nada. Sentia-me uma verdadeira caçadora, uma Amazona, uma guerreira segurando as rédeas de Trovão.

— Você até que cavalga bem. Não parece que passou todos esses anos em Londres. — Caleb gritou me alcançando.

Sem desviar o foco do percurso, o respondi:

— Eu sempre gostei de fazer aulas de equitação. Enquanto Valentina gostava de costurar roupas para suas bonecas, eu preferia fazer aulas com meus irmãos e primos. — toquei na crina de Trovão — Não é mesmo meu amor.

Caleb concordou. Puxando as rédeas de seu cavalo, conduzindo-o para o caminho da casa grande. Continuei seguindo na mesma direção, faltava pouco para finalizarmos o percurso. Um tempo depois deixamos os cavalos na estrebaria, e seguimos juntos para a casa.

— Preparado para a farsa? — sorri irônica.

— Já te disse que isso não é mais uma farsa para mim. — falou sério me pegando de surpresa.

Fiquei sem palavras para continuar com aquele assunto. Preferi continuar subindo as escadas em silêncio, apenas refletindo sobre aquela conversa. Era a segunda vez que ele me dizia a mesma coisa, me deixando sem entender o que queria dizer. Talvez aquele jantar não fosse algo bobo como imaginava que seria. Algo me dizia que teria todas as respostas para seu comportamento estranho nos últimos dias nesse jantar.

— Boa noite crianças! — vovó gritou assim que nos viu entrar pelo o hall de entrada, estava sentada em uma poltrona com uma cesta de tricô no colo.

No susto eu e Caleb nos aproximamos ainda mais e viramos em sua direção sem saber como agir.

— Boa noite nona. — respondi.

— Boa noite senhora Medina. — Caleb se aproximou de onde ela estava sentada.

— Está uma linda noite lá fora, não é mesmo? Uma ótima noite para se jantar fora. — ela colocou sua cesta de tricô no chão e caminhou em nossa direção. — Por que vocês não aproveitam essa linda noite para um jantar romântico? — ela arqueou a sobrancelha.

Caleb soltou uma risadinha.

— Concordo senhora Medina, por isso já convidei Sophia para jantar. — ele sorriu olhando para mim e piscou.

Os olhos da minha avó brilharam de emoção. Que momento perfeito. Iludi uma senhora idosa era tudo o que eu queria. Aproveitei que a vovó engatou uma conversa animada com Caleb para sair dali e ficar um pouco distante daqueles dois.

Subi sozinha para me arrumar para o tal jantar. Caleb estava se arrumando em um dos quartos de hospedes, segundo ele para me dá mais privacidade. Com muita fome, fui direto para o chuveiro e depois voltei para o quarto para decidir o que vestir. Optei por uma calça de couro marrom, camisa de seda branca estampada, um sobretudo e botas. Maquiei-me e fiz um delineado grosso realçando meu olhar, corrigi minhas sobrancelhas e para fechar com chave de ouro passei um batom vermelho. Quando me olhei no espelho fiquei feliz com o resultado. Antes de sair do quarto borrifei meu perfume preferido, peguei a bolsa e saí.

Quando estava descendo as escadas ouvi varias vozes vindas da sala de estar, e quando cheguei perto encontrei minha avó, tia Pietra, Valentina e Caleb conversando. Assim que me viram ficaram calados por um breve momento, fazendo eu me senti desconfortável. Tentei não me incomodar com a atitude deles e sorri para todos.

— Nossa, Soph, você está linda. — Valentina comentou, vindo em minha direção.

— Obrigada. — respondi, com a atenção totalmente direcionada para Caleb que nem se mexia olhando para mim.

Perdi a habilidade para falar por um momento, tive de limpar a garganta antes de dizer mais alguma coisa. Caleb estava lindo com um suéter branco e calças jeans. Era possível senti de longe seu perfume amadeirado, o perfume que eu amava senti alguns anos atrás.

— Você está linda. — ele me elogiou, me fazendo abri um sorriso totalmente inesperado.

— Obrigada. — murmurei antes de pegar minha bolsa e ir em sua direção.

— Vamos? — ele me perguntou esticando a mão para mim.

Olhei da sua mão e para seus olhos duas vezes antes de concordar. E todos ficaram nos observando. Elas estavam se derretendo com o clima de romance que Caleb havia criado. Peguei a mão de Caleb e me despedi delas, enquanto descíamos as escadas indo em direção ao carro dele. Fazia parte do nosso teatrinho, ele abriu gentilmente a porta do carro para mim, esperou que eu entrasse a fechou e só depois seguiu para o lado do motorista.

— Então... o que tanto conversavam?— perguntei surpreendendo-o, antes mesmo que tivesse a chance de ligar o carro. Caleb ficou calado por um bom tempo me olhando, pensando antes de responder.

— Nada demais. Só estávamos conversando sobre a vinícola. — respondeu enquanto ligava e manobrava o carro para sairmos de casa.

Ele me respondeu como se o que tinha acabado de acontecer, não tivesse importância nenhuma. Não quis insistir nas perguntas, apesar de não ter acreditado nem um pouco naquela resposta. Mas pensando por outro lado, talvez ele estivesse me poupando do constrangimento que sofreria quando soubesse o teor da conversa com a vovó Medina.

— E aí. Para onde vamos?

— Você vai ver sua curiosa. — Ele riu me olhando com o canto do olho para me provocar.

— Não sou muito fã de surpresas. — resmunguei, me virando para a janela.

— Ah, isso não é verdade. Você nunca reclamava das surpresas que te fazia quando namorávamos.

— Caleb não vamos estragar a noite, por favor. — pedi séria.

— Ok. Desculpa. — ele riu me olhando de canto de olho.

Cruzei os braços, fixei o olhar em Caleb em uma expressão de pura raiva. Claro que era só encenação, — não queria mesmo estragar o clima agradável daquele dia — e ele continuou a rir, porque também sabia disso.

Depois de alguns minutos dirigindo, ele virou a esquerda entrando numa estradinha de pedras, que dava acesso a uma pequena vila. Não demorou muito para ver uma grande construção medieval surgir a nossa frente. Era simplesmente encantadora.

Havia alguns carros estacionados em frente ao local, Caleb estacionou próximo a eles. Ele repetiu o mesmo gesto de abrir a porta do carro para mim. Fiquei parada perto do carro olhando aquele local a minha volta. Estava um pouco boba diante a beleza daquele lugar.

— Que lugar lindo! — comentei baixinho.

Estava maravilhada com as casinhas vizinhas ao restaurante adornadas por flores, admirando a beleza da arquitetura daquela jóia de vila. A sensação de paz era incrível. Já era possível senti o cheiro de queijos, presuntos e vinhos aguçando meu apetite. Na terra da boa gastronomia seria um pecado não experimentar as delicias locais.

Caleb se aproximou de mim com um dos mais belos sorrisos que eu já vi na minha vida.

— Vem. Vamos entrar. — ele me puxou em direção ao restaurante.

Senti um arrepio percorrer meu corpo com seu toque... Seria uma noite longa.

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4k visualizações! Obrigada a todos vocês que acreditam e acompanham a história. Chegamos ao meio do livro e os próximos capítulos terão muitas tetras. Aguardem!

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