Decisões para mim

01 de janeiro de 2018

Eu odiava beber.

E cada segundo tendo minha cabeça latejando, eu repetia essa frase.

Meu corpo não era do tipo fraco para bebida, mas ontem eu ultrapassei todos os meus limites. O sol já estava raiando quando apagamos na varanda e acordamos no fim da tarde com batidas insistentes na porta. Era minha mãe que parecia se conter para não dar uns berros. Ela não faria isso na frente de Zabini e Parkinson, na realidade, em geral, ela só não faria.

Aquele primeiro dia do ano foi preenchido por uma enxaqueca e ânsia de vômito constante.

Pensei que estaria melhor quando acordasse, que mais algumas horas de sono era tudo que eu precisava. Leigo engano. Outro dia raiava, e não havia mudado muito.

Minha cabeça parecia me dar claros sinais de desistência, e eu mal tinha tocado no café da manhã. Seria um longo dia. Eu poderia acabar com tudo aquilo tomando uma poção de ressaca, mas desde que meu padrinho faleceu, simplesmente não conseguia entrar no meu laboratório, e por teimosia, não iria pedir para Narcissa, ela falaria por horas sobre limites, isso era tudo que eu não precisava.

— Você está acabado, Malfoy. — o tom de Harry forçava a brincadeira, talvez ele estivesse se esforçando para voltarmos à antiga convivência. Porém, eu não podia. Eu já tinha cruzado a linha da amizade, mesmo que ele não soubesse, coisas foram quebradas demais nos últimos dias.

— Bela constatação. — falei simples, quase sussurrando. Pois tudo ecoava mil vezes em minha mente depois de dito, reverberando alto.

— Toma. — Ele me estendeu um frasco, a coloração rosada mostrava que era uma poção de vitalidade. Levantei a sobrancelha em dúvida, eu não beberia nada que ele tivesse preparado, questão de amor à vida. — Não me olhe assim, eu sou ótimo em poções.

— Eu beberia uma feita por Hagrid mas não beberia uma poção feita por você. — consegui cruzar os braços e lançar um olhar em busca de respostas.

— Hermione que fez. — respondeu emburrado fazendo um bico fofo nos lábios, e céus, eu estou completamente perdido se estiver achando fofo Harry Potter emburrado.

— Suspeito. — falei, finalmente relaxando os ombros que nem notei estarem tensos.

— Nós também passamos do limite no réveillon, ela deixou pronta de antemão.

— Inteligente. — finalizei pegando a poção de sua mão, mas antes de recuar ele segurou a minha, não era um aperto forte, eu poderia puxar se quisesse, mas não queria.

Acho que demoraria longos dias para mim querer recusar um toque ele, de sentir aversão e ter o reflexo de desvincular o toque imediatamente, como ocorreria meses atrás. Infelizmente, ao menos por hora, eu poderia viver por muito tempo com as migalhas que ele me desse, mesmo que não fosse um pensamento saudável. Se eu não mantivesse meu autocontrole, me colocaria em uma situação amistosa demais para quem quer beijar a boca do Eleito.

— Ela é. — murmurou quase para si.

Harry finalizou o toque prolongado, olhou para baixo, talvez constrangido, não saberia dizer com exatidão. Engoli em seco.

— Obrigado pela poção.

Virei de costas andando apressado pelo corredor, desci as escadas rápido, olhei por cima dos ombros apenas para ter certeza que ele não vinha junto, mas ele não estava ali, e talvez eu estivesse esperando demais dele. Harry não tinha nenhuma obrigação perante a mim, e tinha uma namorada.

Merlin, só eu conseguiria mensurar o quanto isso me deixava à mercê de sentimentos ruins. Não tinha nada contra Ginevra, havia inclusive uma culpa pairando entre nós, mas só de imaginá-los juntos me subia uma ânsia, um sentimento bem amargo de inveja.

Abri o frasco com a poção, bebendo o mais rápido que consegui, o gosto era péssimo, mas logo foi surgindo efeito, retirando minha fadiga. Mal pude conter o sorriso ao olhar para o objeto vazio, eu era tão idiota por estar feliz com uma gentileza tão pequena de Potter.

Fui para o meu quarto soltando um resmungo de frustração, lidar com Harry era algo difícil, eu não poderia flertar descaradamente como faria normalmente, e não conseguia ignorar o que sentia também.

Me sentia ridículo, no réveillon havia resolvido deixar tudo isso de lado, voltar a viver minha vida e pela primeira vez me preocupar só com ela. Porém era muito difícil abandonar dependências emocionais, e honestamente, eu sabia que não dependia de Potter mas era reconfortante poder culpa meu psicológico invés do meu coração.

A verdade era que mesmo não precisando dele, eu o queria. Os últimos meses usufruindo de sua companhia unicamente para mim, não fizeram em nada pelo sentimento egoísta que subia pela garganta toda vez que me permitia sonhar em um cenário acolhedor, envolvendo, eu, ele e um cafuné.

Deitei novamente, me permitindo dormir mais uma vez, não havia nada para fazer naquela casa vazia e eu preferia me afogar em Morfeu. Pois me sentia particularmente piegas hoje, e Draco Malfoy piegas era alguém extremamente preguiçoso.

(...)

— Draco! — sinto meu corpo ser sacudido e apenas me viro, afastando o toque. — Draco Lucius Malfoy, levanta agora!

A voz raivosa de Narcissa me tira completamente o sono, acabo sentando na cama em um único movimento tendo como resultado tudo girando. Seguro firme nos lençóis e olho para minha mãe, que está sentada na ponta da cama de braços cruzados e um olhar mortal.

— Mãe? — ergo os braços no ar me espreguiçando, tudo foi estalando, fiz uma careta para o som.

— Não, um hipogrifo, Draco! — ela ergue a mão massageando a ponte do nariz, e quase faço o mesmo apenas pelo hábito. — Levante, não acredito que dormiu tudo isso.

— Que horas são? — puxo as pernas as cruzando, em borboleta como chamam comumente.

— Nove horas. — disse simples, deixando o olhar se perder em um ponto no lençol.

— Da noite? — franzi as sobrancelhas duvidoso, não acho que ela estaria surtando, nem me acordando se fossem nove da noite mas tento a sorte.

— Da manhã. — olhei em total confusão, afinal eu havia ido dormir pouco depois do horário de almoço. — Hoje é dia três, Draco, por Merlin.

Levantei apressado buscando minha varinha, lançando um tempus, realmente eram mais de nove horas do dia três de janeiro. Olhei para Narcissa que apenas sorriu com deboche antes de ir para a porta.

— Não esqueça do jantar na casa dos Zabini, hoje a noite. — e saiu.

Ainda meio assustado, vou para o banheiro, apenas deixando minha rotina guiar, estava incrédulo por ter dormido tanto assim.

Um frio horrível passou pela minha espinha, me olhei no espelho, o cabelo bagunçado, meus lábios levemente ressecados e a cara amassada. Esfreguei as palmas pelo rosto, sentindo o roçar fraquinho da minha barba rala que começava a nascer.

Hoje foi apenas um dia ruim.

Ontem foi um dia ruim e hoje começou péssimo.

Engoli seco, ignorando as memórias dos dias pós guerra. Quando as imagens de tudo me atormentavam e me faziam passar dias em claro, vendo sol após sol nascer e se pôr, tendo meus olhos vidrados no nada, com mil coisas na cabeça. Ou horas sonhando com as torturas, gritos e tudo de horrível que acontecia pela mansão. Eu não conseguia mensurar o pior, estar acordando voluntariamente repassando a guerra, ou estar dormindo e estar repassando involuntariamente a guerra.

Os dois me esgotavam e traziam meu pior  à tona.

Hoje foi apenas um dia ruim, eu estou bem, essa fase passou, foi apenas uma forma de eliminar todos os resquícios de álcool.

Eu estava bem. Ou pelo menos iria ficar.

Saio do banheiro me sentindo sufocado e quase engasgando com o ar, vou até as janelas, abrindo uma, o vento gelado quase corta minhas bochechas porém permito que o frio me acorde em definitivo. Deixo ela entreaberta, o quarto esfriando gradativamente conforme o vento surge brigando com os feitiços de aquecimento.

Troco de roupa, pondo qualquer conjunto, quase pude ouvir Pansy reclamando dentro da minha cabeça, mas ignorei o perigo iminente. Fui para minha escrivaninha pegando carvão e lápis, hoje eu precisava ocupar minha mente.

Em pouco tempo meus materiais estavam espalhados pelo chão, fato de total estranheza. Minha vitrola já sem o feitiço glamour tocava em som médio algumas músicas estilo Groove, os discos nem eram meus, e não conhecia metade das músicas. Havia conseguido por meio de Pansy e Blaise, contrabando trouxa como eles chamam, porém as músicas tiram o clima de enterro do cômodo.

Imaginei uma paisagem florida como o jardim da mansão.

Meu primeiro rascunho era um homem, parecia meu pai. O homem olhava o horizonte de forma amarga, parecia ter asco da vista. Fitei por mais um tempo a folha. Talvez o homem não parecesse meu pai, talvez fosse ele. Ou eu mesmo, em um reflexo futuro, amargurado e com nojo da vida.

Rasguei o papel com uma careta no rosto.

Se algum dia alguém me retratasse com essa expressão, eu saberia que falhei como humano, não é possível que alguém decente olhasse uma paisagem com essa feição.

Resmunguei antes de limpar a mão com carvão em uma toalha. Eu deveria parar de pensar enquanto desenho, isso nunca vai para um caminho bom. Respiro fundo, começo a cantarolar a melodia vinda da vitrola, Cissi, sorri lembrando da careta de Pansy. Canalizo minha mente naquilo, na lembrança, em minha amiga, em minha mãe, na música, buscando em minha mente o nome dela: I Just Called To Say I Love You. O nome chega como um clarão.

Procuro outra folha, me sentindo inspirado e com a cabeça livre. Olho meus materiais por um tempo, chega de sujeira, dessa vez usando apenas grafite, esboço alguém mais jovem, cabelos esvoaçantes que formam cascatas de cachos grossos, sorriso largo e uma leveza no olhar, totalmente oposta ao desenho anterior. Os traços vêm com facilidade, quase sendo guiados por algo maior.

Afasto a folha do rosto, vendo o panorama geral da obra.

Parecia Harry. Melhor, era ele. Lancei um Incendius no papel.

Não pensar enquanto desenho é pior do que pensar, definitivamente.

— Mestre Draco, Senhora Narcissa pediu para Suzy trazer comida para Mestre Draco. — o som vem por detrás da porta, uma fala embolada.

— Entre, Suzy. — digo ainda encarando as cinzas misturadas com os rasgos de papel. — Não havia necessidade disso.

— Suzy fica feliz de ajudar Mestre Draco, Senhora Narcissa mandou Suzy ficar até Mestre Draco terminar de comer. — a elfa diz, pondo uma bandeja de prata ao meu lado.

— Não há necessidade disso. — respondo enquanto mexo nos pratos ali dispostos. Levo um canapé a boca, olho para ela em deleite, estava muito bom, meu estômago grunge em expectativas.

— Suzy fica, Mestre Draco. — ela dá dois passos para trás, e os bracinhos se cruzam. Sorrio com a postura. Ela fazia o mesmo para que eu guardasse os brinquedos quando criança.

Suspiro resignado, porém desisto. Começo a comer, e só percebo o quão faminto estou quando o pires, antes cheio, está vazio, bebo duas xícaras de chá tentando não parecer desesperado, mas quando Suzy faz menção de levar a bandeja puxo para mim, enfiando varios biscoitos na boca.

— Suzy pode trazer mais para Mestre Draco, se Mestre Draco quiser que Suzy pegue. — sorri sem graça para a elfa.

— Não será necessário, obrigado. — alongo a coluna.

— Suzy vai fazer mais chá para Mestre Draco.

Ela nem termina a fala direito antes de desaparecer, provavelmente aparatando na cozinha. Em poucos segundos outra bandeja surge, um bule fumegante e mais um pires cheio de canapés dispostos nela.

— Senhora Narcissa falou para Suzy, que Suzy não precisa ficar, mas se Mestre Draco quiser, Suzy fica com Mestre Draco.

— Não é preciso, Suzy.

— Suzy volta para buscar bandeja de Mestre Draco!

Agora com o leve mau humor anterior curado, resolvo definir meu terceiro desenho, na esperança de finalizá-lo. Já com outra folha em mãos, e uma xícara de chá servida, faço vários círculos, que aos poucos vão se transformando em rostos familiares.

Fiz Narcissa, ela estava com os cabelos loiros naturalmente lisos, sendo bagunçados pelo vento, seus lábios adornados por um sorriso fino mas que alcançava seus olhos. Era como ela costumava ser em minha infância; aquela era minha mãe, doce, alegre e sem o pavor de uma guerra no olhar. Pude ver o complemento do desenho, além daquele busto rascunhado, ela estaria com um vestido de verão, provavelmente azul escuro, ele teria alças finas e a deixaria bem mais jovem, eu estaria a alguns passos de distância, uma criança curiosa cutucando as flores do jardim até ficar com alergia.

Sorri com o resultado, eu poderia destacar o retrato dela da folha, pintar com aquarela e lhe dar. Mamãe amava receber desenhos. Por isso, mesmo que odiasse compartilhar eles, dava para ela. Me fazia muito bem o sorriso largo que recebia em troca.

Vou para o círculo do outro lado da folha, usando bases quadradas, desenho um maxilar bem marcado, um cabelo delimitado baixo, quase raspado. Diferente de todos os desenhos anteriores, quando faço Blaise, mantenho a expressão séria, mas adiciono linhas abaixo dos olhos, pois Zabini sempre tem uma expressão dura com um olhar de riso, pronto para responder às mais diversas acusações. Gosto da dualidade que o desenho passa,  diz muito sobre ele. Destaco os ombros largos, e invés de pôr uma blusa, apenas marco suas clavículas. Me lembro dele em seu primeiro porre gritando para todos como tinha os ombros mais lindos de Hogwarts, só parava de afirmar isso quando a pessoa concordava.

Parto para a próxima esfera, animado, puxo traços desleixados que aos poucos formam um channel. Diferente dos outros dois bustos, faço ela meio de lado, como se olhasse alguém de cima a baixo. Resolvo desenhá-la de uniforme, a roupa que ela mais odeia no mundo. Desenho a blusa social branca com dois botões abertos e gravata verde frouxa, como ela sempre andava pelo corredores, peitando qualquer norma, creio que só a vi abotoar a blusa duas vezes na vida, no dia que Dumbledore foi morto e a segunda quando nossa casa prestou homenagens ao antigo diretor; meu padrinho, Snape.

Talvez, aquela fosse a forma dela homenagear eles, obedecendo suas ordens uma última vez.

Pansy tinha maneiras estranhas de demonstrar carinho. Ela não cultivava o hábito de expressar sentimentos de forma verbal: ela escrevia cartas, te trazia comida, não deixava você se afundar em tristeza, ria dos seus problemas até torná-los levianos. Mas quase nunca te abraçava e ficava trocando palavras de apoio.

Resolvo que darei o desenho a ela, Parkinson sabe desse meu hobbie, mas nunca perguntou sobre, acredito que se enviar esse rascunho a ela, em poucos minutos ela chega em minha lareira aos gritos. Finalizo o desenho pondo alguns fios a mais no cabelo. Sorri maquiavélico, Pansy me mandaria tirar o frizz, mas eu não o faria. Gostava de realismo, afinal.

Por alguma razão, quando contemplo a quarta bola, no canto da folha grande, sei exatamente quem quero fazer. Mordo o lábio inferior antes de iniciar o desenho de Luna.

Levo meu chá, agora totalmente frio, a boca, o tomando de uma vez, alongo as costas, ouvindo os estalos e batuco o lápis no caderno, montando em minha mente um panorama de como quero retratá-la. Resolvo, por fim, prender seus densos cabelos loiros em um coque, ela costumava usá-lo assim quando estava no grande salão. Diferente de Pansy, ponho nela uma camiseta e um cardigã, enfeito seu rosto com um grande sorriso, coloco em suas orelhas os enormes e chamativos brincos de morango. Era impossível não olhar para a peça.

Analiso o desenho com certa insatisfação, sinto que falta algo, chego a pensar em um broche de corvo, porém seria piegas até para mim. Um lampejo ilumina minha mente, sorrio ao desenhar um óculos. Não um qualquer um mas o rosa, que minha mente não sabe definir se é formado por duas mãozinhas ou se são cílios que o adornam. De qualquer forma, ao terminar de desenhar o objeto, finalmente olhei satisfeito para a folha.

Aquela sim parecia Luna; sorridente, memorável e despojada.

Deixo a folha descansar ao meu lado, rodo meus pulsos doloridos, abro e fecho a mão tentando tirar a dormência deles. Levanto do chão, minhas pernas formigam, resmungo para o nada sentindo elas ficarem dormente. Tento andar para cama, mas mal me arrasto em sua direção. Estou todo dolorido, grande ideia passar horas desenhando sentado no chão. Antes de deitar, avisto na mesinha ao lado da cama o cordão que ganhei no natal. O pingente igual ao que desenhei minutos atrás brilha de leve pelo efeito mágico do centro, brilhava azul com branco, minha mente via quase como água. Pego o objeto e me jogo contra o colchão macio.

Transpassei a corrente prata por entre os dedos vendo o acessório dançar pela minha mão. Era um cordão bonito, as argolas que constituía as correntes eram finas e o pingente era fino, e olhando o feixe chego a conclusão que foi feito a mão, pelo aro torto com marcas de alicate. Sorrio com o fato, consigo imaginar Luna cheia de miçangas, argolas, pinguricanhos, biscuit e qualquer outra coisa que ela consiga sustentar na orelha e pescoço.

Observo os detalhes por um tempo, e fico quase perdido no centro do objeto que girava em arabescos azuis. O pingente tem um pequeno gancho na parte de baixo, cerro o olhar, analisando aquela parte, talvez fosse uma metade, parecia que algo se unia ali. Mordo o lábio inferior, Potter possui um desse, tenho certeza. Lembro de Harry usá-lo, em baixo da blusa, era um igual a esse, a diferença mora apenas no centro brilhante, o dele era rosa.

Talvez um encaixasse no outro. Acabo rindo com o pensamento. Bobagem. Ela não daria para mim algo assim.

Harry carregava a peça com tanto carinho, deveria ser algo importante para a amizade deles. Não fazia sentido que eu ganhasse isso.

— Draco? — escuto Narcissa chamar por trás da porta. — Filho?

— Entre. — sento na cama vendo minha mãe entrar no quarto.

— Quero saber se vamos ao jantar na casa do Zabini. — ela perguntou enquanto se aproximava do colchão, acompanhei o momento que ela olhou o chão e torceu a boca de leve pela bagunça e sujeira.

— Céus, já deu o horário? — arregalo os olhos para ela, que ri soprado, quase tirando graça da minha clara desorientação quanto a horário.

— Você está completamente fora de órbita, Draco. — Narcissa sentou na ponta da cama, ela me analisou, talvez se confortando perante a situação, escuto seu suspiro resignado, tenho um Déjà vu da cena, mas nada digo.

Eu definitivamente deveria chamar minha mãe para conversar, Narcissa estava com preocupação transbordando aos olhos. Não gostava de vê-la assim.

— Sinto muito. — consigo dizer depois de uns segundos. Olho minha mãe com carinho, querendo que ela entendesse tudo que não digo, eu realmente sentia muito... por tudo.

Narcissa nega com a cabeça.

— Quer falar sobre o que está acontecendo? — acabo franzindo o nariz antes mesmo de responder, ela sorriu para o ato.

— Talvez depois. — ela assente, projetei o lábio para frente. Depois.

— Vou me arrumar. — o colchão se mexe quando ela levanta, tomo isso como impulso para fazer o mesmo.

— Certo, também irei.

Concluo mais para mim, visto que mamãe já fechava a porta.

(...)

Chegamos na atual mansão Zabini.

Era um casarão bonito, ao menos por fora. Ao entrar no local minha visão foi preenchida por uma desarmonia visual grotesca. Olhei de soslaio para Narcissa que franziu o nariz me olhando, claramente entendendo de onde vinha minha expressão aterrorizada. A arquitetura gótica da estrutura contrastava com os móveis modernos e a decoração romântica. Se os três estilos brigassem entre si, o cenário da guerra, com certeza, seria aquele.
Deixei minhas observações sobre arquitetura e decoração de lado quando notei os olhares sobre mim e minha mamãe. Alguns olhavam com curiosidade, outros com asco. Havia uma densidade mortal em ambos.

Enrijeci os ombros, assumindo um ar soberbo. Caminhei com Narcissa de braço enlaçado ao meu, indo até o centro do salão. Blaise me avistou e com um toque sutil sinalizou nossa presença para sua mãe. A mulher virou sorridente ao filho e, se era possível, aumentou ainda mais o sorriso ao vir até nós.

— Cissa! — observo a mulher de pele ébano se aproximar, o vestido elegante parecia flutuar no corpo, a seda lilás brilhava, em seu encalço vinha o atual noivo, a expressão de poucos amigos fazia par com um terno roxo fechado que o deixava parecendo um segurança de balada.

— Liz! — mamãe sorri de forma polida antes de cumprimentar a mulher com um aceno e o homem com outro. O que não adiantou, visto que foi puxada para um abraço.

— Sempre tão formal! — Liz Zabini resmunga ao soltá-la.

Narcissa ri com a fala e logo emenda:

— Minhas felicitações pelo casamento.

— Felicidades ao casal e saúde a criança. — me pronuncio educado. Estendo minha mão buscando a da mãe de meu amigo, que após a sua sobre a minha, levei o dorso com delicadeza aos lábios, depois apertei a mão do homem, que eu deveria ter tido a decência de aprender o nome.

— Não sabia que estava grávida! — mamãe diz soando levemente ofendida.

— Sinto muito, não sabia que era um segredo.  — prontamente me desculpo, pois se Narcissa não sabia, a informação não era pública.

— Ah, não há problema! — Liz estala a língua no céu da boca. — Apenas não tornei público ainda! — ela deu de ombros ao terminar de falar. Porém vi no olhar irritado do cônjuge, que não estava de acordo. — Obrigada, Draco!

— Quantos meses? — minha mãe pergunta genuinamente curiosa.

— Apenas dois. — mamãe sorriu antes de ser puxada por Liz, que tagarelava sobre ter um filho depois de anos e como aquilo era empolgante.

— Rapazes. — o homem diz fazendo uma breve reverência e antes de sair.

— Deveríamos por crachas em seus padastros, — digo assim que o homem pega distância suficiente — eu realmente não consigo lembrar o nome desse.

— Nem eu, — Blaise sorriu sacana ao despejar a informação, o acompanhei. —  só conheci esse quando mamãe engravidou.

— Dois meses é bastante tempo para se gravar um nome. — concluo sem pretensão, pegando uma taça de champanhe do garçom que passava.

— Eu soube pouco antes do natal, tipo, dia vinte e três. — ele diz com certa revolta. — Recebi a notícia do namoro ao chegar em casa, do noivado um pouco antes da ceia, sobre a data de casamento durante a ceia, e para finalizar o natal bem, abri meu presente enquanto era informado que teria divisão de herança.

— Sua mãe é realmente alguém prático. — respondo com ar de riso.

— De fato. — ele resmunga, pouco antes do padrasto atual de Zabini fazer um sinal, o chamando. Escuto Zabini sussurrar um palavrão antes de virar para mim — Tenho que ir.

Aceno com a cabeça e ele segue em direção ao homem. Mal me viro e dou de cara com alguns amigos de meu pai, engulo em seco quando eles caminham em minha direção.

Seria uma longa noite.

Respiro fundo, acenando para eles e cumprimentando-os.

Tão logo cheguei na roda fui incluído na conversa. Os diálogos eram majoritariamente sobre negócios, discursos prontos sobre investimentos e transações comerciais, um a um se gabando por novas aquisições e aumento de fortuna. Fazia anos que Lucius me conduzia para esse tipo de roda, onde meu papel era concordar, rir de modo cauteloso, gravar informações importantes — tais como empreendimentos, grandes transações, tudo que exigisse uma investigação, qualquer coisa que virasse dinheiro e status.

Bebi duas taças de champanhe no levar da conversa, apenas seguindo as reações mecânicas de todos, sem realmente ouvir tudo que estavam falando.

— Aquele pivete do Potter! — um dos homens diz irritado, me atraindo para o diálogo novamente. —  Acreditam que vai ser convidado ao ministério assim que terminar Hogwarts? Um sangue-ruim no mesmo setor que eu?

— Esses ratos do ministério perderam de vez o senso! Como conseguiremos trabalhar tendo essa escória por perto? — outro respondeu, com tanto nojo que pude vislumbrá-lo vomitando.

Fico abespinhado com o comentário sem noção, contenho a expressão azeda cheia de desgosto. Uso uma desculpa leviana, antes de me afastar do grupo. Queria dizer que Harry era algo muito além desse homem, alguém que ele nem chegaria aos pés, não importasse os atos, e definitivamente estava longe de me referir a guerra ao pensar naquilo. Pisquei lentamente, foquei em minha respiração até me acalmar minimamente. Andei até um garçom pegando um whisky dessa vez, rodei o líquido algumas vezes na única pedra de gelo disposta ali. Senti o cansaço me atingir junto a leve embriaguez, quando meu corpo começou a abandonar a raiva e eu buscava por mais uma dose. Vim apenas para apoiar Blaise nessa noite, não me arrependo, porém meu quarto seria mil vezes melhor.

Do outro lado do salão, Zabini me olhava de forma incansável, como se, se sustentasse o olhar por tempo suficiente, eu lhe diria mais segredos meus do que ele já sabia. O que não era uma exata mentira, mas também não chegava a ser uma verdade completa.

Ele estreitou a visão antes de vir até mim.

— O que houve? — brandou assim que chegou perto.

— Falas inconvenientes. Apenas isso.

— Quando, qualquer um daqui, falou algo realmente conveniente? — ele junta as sobrancelhas em dúvida, de modo teatral óbvio.

— De fato. — respondo, simples, terminando em seguida minha bebida.

— Sobre o que falavam?

— Potter. — me limito a dizer depois de um longo silêncio.

Blaise nada disse, apenas ficou calado olhando para frente. Acompanhei o olhar, não vendo nada de especial, apenas as pessoas espalhadas pelo salão conversando e bebendo. Pausei o olhar em Narcissa, ela falava gesticulando de forma suave, as pessoas ao seu redor pareciam fascinadas com os ditos, sorri fino. Mamãe era uma pessoa encantadora.

— Se você não quer tomar uma atitude sobre vocês dois. — começou Zabini do nada, o olhei em total confusão. — Você e Potter.

— Do que você está falando…?  — parte de mim sabia exatamente do que ele falava, mas essa parte consegue ser bem cínica, e eu estava meio desesperado pelo assalto repentino.

— Sua paixonite aguda. — falou atrás da taça de vinho que havia acabado de pegar, antes de bebericar, suave, como se não estivesse me fazendo ter um ataque.

— Blaise. — ralhei, aquilo não era assunto para o local.

— Só me escute! — ele respirou fundo e chegou mais perto. — Se você não vai fazer nada para avançar, pelo menos dê um fim.

— Mas e se eu não quiser pôr um fim? — questiono com certa raiva. — E se não tiver o que por fim? — suspirei, me encostando na parede ainda olhando para frente de uma forma que pude ver Narcissa torcendo o nariz para minha ação.

— Então você teria que ir atrás de um futuro… isso foi cafona, eu sei. — falou simples, bebendo bons goles do que estava na taça. — Ou você termina isso, para conseguir esquecer e seguir em frente, ou você se declara e espera. Nas duas coisas você não sabe o que vai acontecer. Com exatidão, pelo menos.

— Na primeira opção, finjo que os últimos meses foram invenção da cabeça dele, me vingo, negando a amizade dele, como no primeiro ano de Hogwarts. —  torço o nariz quando Zabini ri baixinho do que falei porém continuo. — E na segunda opção, das suas geniais sugestões, eu tenho meu coração dilacerado. Parece promissor de fato.

— Exagerado e piegas da sua parte, ambas as expectativas. — ele suspirou e seus olhos correram pelo salão. — Tia Narcissa está te chamando, dê um fim nisso Draco, não sou o melhor com conselhos, essa é parte de Pansy na amizade, mas faça o que digo, boa sorte e boa noite.

Ele apertou meu ombro em um gesto de conforto e se afastou, segui até minha mãe que indicou a lareira. Fomos para casa, e só pelo jeito meio torto que Narcissa caminhava dava para ver que ela estava com dor nos pés ou talvez tivesse bebido um pouco a mais, mamãe sempre foi fraca a álcool.

Aparatamos próximo da entrada da mansão. Desejei boa noite, pousei um beijo e em sua na testa antes de seguir ao quarto.

As palavras de Blaise ecoando e martelando em minha cabeça.

Suspirei ao tirar a gravata, já determinado a fazer o que ele havia aconselhado.

Eu daria um fim naquilo.





Notas:

Tardou mais chegou!

Essa sexta foi um inferno, desde trabalho, casa, a tudo, sinto muito pelo atraso😔💜

Eu amo essa capítulo só pq o Draco desenha nele, é isso sksksksk

A quem acompanha Finitude: Capítulo 3 já está quase pronto, ou seja, confirmado para a primeira semana de fevereiro esse capítulo!

É isso, não sei se não tenho muito a dizer ou se estou com muita dor de cabeça para pensar, fica a dúvida!

Vejo vocês semana que vem🤠💕

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