Momentos
Na semana seguinte ambos estavam numa nova escola. Essa era bem menor e com menos crianças, mas estavam felizes por estarem juntos ali. Seu pai lhe disse que os pais de Fernanda ajudaram para que conseguissem uma vaga para estudar ali e que deveria se comportar. Guto se perguntava se os pais dela haviam feito o mesmo pedido, pois Fernanda era... elétrica. Falava a todo momento expressando suas ideias mirabolantes, fazia perguntas malucas como:
-- Por que o avestruz tem asas mas não voa? -- perguntou à Tia Pri no meio da aula.
A professora piscou, aturdida pela pergunta aleatória, mas logo sorriu e pôs-se a responder.
-- Suponho que seja porque são grandes e pesados demais para levantar voo com asas tão pequenas.
-- Mas então eles não deveriam ter asas maiores? Pássaros precisam voar!
-- Deus os fez assim, querida. -- explicou, calma -- Assim como fez a todos nós.
-- Então ele errou com os avestruzes. -- reclamou, e a professora ignorou a blasfêmia e voltou à aula.
Fernanda mudou depois, ficou quieta e pensativa desenhando um avestruz com asas tão grandes que pegavam a folha toda. Abaixo de uma das asas, estava uma garota. Magra e pequena, como ela. Com cabelos longos e castanhos, como ela. Com olhos verdes iguais aos dela. A única coisa diferente era que a menina do desenho estava em pé. Fernanda o flagrou a encarando.
-- Ele errou com as asas dos avestruzes. -- deu de ombros -- E com as minhas pernas.
A amizade dos dois continuou de maneira natural e foi se fortalecendo a cada dia. Estavam sempre juntos, não só na escola. Passavam tardes e finais de semana um na casa do outro. Nas viagens em família, batiam o pé até que os pais levassem o outro ou que fossem as duas famílias juntas. Os pais deles tornaram-se amigos também, o que facilitou as coisas. Do jardim de infância foram para o pré escolar, e depois, para o fundamental, e então para o ensino médio. Sempre estudaram na mesma sala e sabiam que os pais mexiam pauzinhos para isso.
Em tantos anos juntos, aprontaram diversas estripulias. Certa vez aos oito anos Fernanda obrigou Augusto a soltá-la ladeira abaixo na rua de sua casa. E o obrigou a subir na cadeira dela para "se aventurarem juntos", palavras que ela usou para convencê-lo. E se alguém era capaz de convencer Guto de algo, era Fernanda. Ela sabia manipulá-lo perfeitamente, mas no fundo ele gostava de suas maluquices pois eram o que faziam a vida dele divertida. Fernanda era luz e energia, tinha paixão pela vida. Dizia que mesmo com pernas inúteis iria viver e deixar sua marca no mundo. Augusto carregou-a até o fim da rua em sua cadeira com pouco esforço, pois ela era leve. Deu um impulso e correu, jogando-se no colo de sua amiga em seguida. A descida foi incrível, o ar agitou seus cabelos, acariciou seus rostos e acelerou seus corações. Na imaginação infantil deles estavam indo tão rápido que quase voavam, mas na verdade a cadeira descia a rua bem mais devagar do que achavam. Fer ergueu os braços para cima, gritando de empolgação. Guto a acompanhou, contagiado por ela que exalava felicidade. Então, capotaram a cadeira de rodas. Os três voaram, cada um para um lado. Augusto, Fernanda e a cadeira. O menino se levantou, trêmulo e preocupado com sua amiga, que estava caída de bruços.
-- Fernanda! Você está bem? -- perguntou preocupado -- Socorro! Tia Ana, a Fernanda caiu! -- chamou pela mãe da menina.
Então ela começou a estremecer e seu peito se apertou ainda mais. Decidiu não mais esperar ajuda e a virou percebendo que ela estava...
-- Você esta rindo?! -- gritou -- Sua maluca! Poderia ter morrido! Poderia ter me matado!
-- Ah, Guto... -- enxugou uma lágrima que lhe escapou dos olhos -- você nunca vai voar se tiver medo de cair.
Naquele dia, Fernanda deslocou o ombro esquerdo e Augusto perdeu o medo de viver.
Num verão dos mais quentes que já viram, quando tinham onze anos, os dois repousavam encostados no tronco da árvore no quintal da casa de Augusto, repousando sob a grande sombra fresca. A mãe dele havia colocado uma colcha grossa ali, junto de um pratinho com bolo de chocolate. Guto ajudou Fernanda a se sentar no chão sobre uma almofada e, ali, passaram a tarde. Comeram o bolo como se não houvesse amanhã, até que enfim se empanturraram o suficiente. Suspirando deliciada, Fer puxou um papel amassado do bolso de seu short jeans e o sacudiu diante do nariz de Guto.
-- Você nunca vai adivinhar o que é isso! -- exclamou, animada.
-- Vindo de você, não me surpreenderia se fosse um plano de invadir alguma base militar e disparar um míssil para a Rússia. -- provocou a amiga.
-- Rá, rá, muito engraçado, cabeça de vento! Não é nada disso. É uma lista.
-- Sua mãe pediu que passasse no mercado?
-- Não esse tipo de lista, Guto! -- bateu a mão na testa, exasperada -- É minha lista de sonhos.
Cansada de explicar, entregou o papel já muito manuseado ao amigo.
Fazer uma tatuagem
Ir à um show
Nadar com golfinhos
Pular de paraquedas
Dirigir
Cantar para um grande público
Augusto leu e releu várias vezes. Era uma lista simples, na verdade, nada muito grandioso. A família dela era rica, poderia pagar por aquilo. Mas... Fernanda conseguiria fazer aquelas coisas?
-- Fer, você realmente acha que...
-- Se vai perguntar se sou capaz, apenas pare e me devolva minha lista. -- falou baixinho, magoada, e estendeu a mão esperando o papel.
-- Eu não ia. -- defendeu-se, mas seu tom de voz denunciou a mentira disfarçada.
-- Não? Tudo o que meus pais fizeram quando leram foi se entre olhararem apreensivos e logo começaram a colocar empecilhos. Aliás isso resume bem o que qualquer pessoa pensa ao olhar para mim! Ninguém me vê, Augusto, as pessoas só veem essa cadeira idiota. -- apontou o objeto próximo à ela -- Não pensam no que quero, só no que pode dar errado. Eu sou muito mais do que minhas dificuldades, Guto. Muito mais.
O menino se sentiu profundamente envergonhado por duvidar da amiga, e jurou que nunca mais faria aquilo. Na verdade, ele correu até seu quarto em busca de um lápis e escreveu "com o Guto" na frente de cada item da lista de sonhos de Fernanda.
-- Você não vai fazer tantas coisas maneiras sozinha. -- anunciou, devolvendo o papel à ela, que abriu o sorriso mais esplêndido que possuía.
-- Vai ser maravilhoso! -- bateu palminhas, animada -- Só precisamos bolar um plano para convencer nossos pais. Ter uma solução para cada impedimento que eles inventarem.
-- Precisaremos pensar muito, mas eu já tenho solução pra um dos seus sonhos. -- Fer aguardou, ansiosa -- Quando formos ao show, seu lugar para se sentar estará garantido.
A menina arregalou os olhos e explodiu numa barulhenta gargalhada. Era isso que amava em Augusto. Ele não a tratava com delicadeza, como se ela fosse quebrar a qualquer momento. Ele zombava dela, a irritava e provocava. A acompanhava em suas loucuras, mesmo nas mais idiotas. Mas aquela jornada de sonhos seria a mais importante, a melhor parte da vida deles, e não seria tão especial sem seu amado amigo ao seu lado.
-- Agora começa a missão Canário Livre. -- anunciou -- Eu vou voar, Augusto. Eu vou voar.
Os anos passaram e os sonhos aos poucos foram se realizando. No início os pais de Fernanda ficaram contrariados, inclinados à negar as vontades da filha e prezar pela sua total segurança. Mas estava para nascer pessoa mais insistente e teimosa que ela. Fer insistiu sem descanso, e graças à sua enorme força - de vontade e interior - realizou-os um a um. O primeiro e mais simples foi a tatuagem. Aos dezesseis anos ela finalmente conseguiu a autorização e escolheu o desenho no mesmo dia. Um par de asas de pássaro, abertas em sua total extensão, como se planando em queda livre, com as penas brilhando em todas as cores possíveis. Fez o desenho nas costas, de uma omoplata à outra e doeu como o inferno, mas o resultado... ah, não poderia ter sido melhor! Augusto esteve com ela nas quatro horas que o procedimento demorou, rindo quando ela gemia de dor. Aos dezessete ela fez sua inscrição no Ídolos para poder soltar à voz para uma grande platéia. E esperou.
No mesmo ano foi à um show de rock de sua banda favorita: Linkin Park. Seus pais conseguiram o melhor camarote para ela e Augusto e, claro, os acompanharam. Fernanda ficou embascabada com a euforia, a animação, a profundidade de sentimentos que sentiu ali. Quando Chester estava se despedindo ao encerrar o show, Fer e Guto se olharam, ambos transbordando alegria em forma de lágrimas.
Quando completou dezoito anos decidiu refazer sua lista de sonhos e riscou "dirigir" dela, pois percebeu que sempre ter alguém para levá-la aos lugares era muito mais divertido e lhe garantia companhia. O aniversário de maioridade deles foi comemorado no Caribe, onde realizaram uma força tarefa para que ela conseguisse nadar com os golfinhos. Depois de muita criatividade e empenho, conseguiram, e tiraram centenas de fotos em poses engraçadas e com caretas e risadas de pura alegria. As imagens passaram a ser decoração fixa na casa de ambos.
Aos dezenove, Fernanda pulou de paraquedas junto de Augusto, que desmaiou na queda. Mas ela... ela nunca se sentiu tão livre. Caindo do céu percebeu que passou a vida inutilmente sonhando em ter pernas que funcionassem. Fernanda não queria apenas andar, ela queria voar.
Semanas depois - Augusto ainda tinha pesadelos com o pulo de paraquedas - Fernanda ligou para ele de madrugada. Embriagado de sono pensou que fosse Elisa, a jovem que estava namorando há dois meses.
-- Alô, Elisa? -- perguntou rouco.
-- Sou eu, cabeça de vento! -- a voz de sua amiga soou -- Por que a Lisa te ligaria uma hora dessas? Sexo por telefone?
-- Ah, Fernanda! -- sorriu involuntariamente com a falta de tato da amiga -- Já falei para colocar um filtro entre seu cérebro e a boca!
-- E por que eu faria isso?
-- Porque é o que pessoas normais fazem.
-- Mas eu não sou normal! -- indignou-se -- Eu sou eu. E eu digo o que quero quando quero. Mas porque estamos falando de sexo por telefone? -- ele puxou o ar para responder mas logo foi interrompido -- Eu tenho uma novidade! Não, eu tenho a porra da melhor novidade que poderia existir no mundinho da Fer!
Aquilo o despertou completamente. Guto viu sua amiga tão animada assim em algumas ocasiões bem específicas: na realização de seus sonhos. E agora, tantos anos depois que ela dividiu sua lista com ele, apenas um faltava ser riscado.
-- Não me diga que... -- ela o interrompeu de novo.
-- Sim! -- o grito de Fer quase lhe estourou os tímpanos -- Nós vamos para o Ídolos! Augusto, nós conseguimos!
-- Não, você conseguiu! -- levantou-se mal contendo a alegria que sentia pela sua melhor amiga -- E eu sempre soube que conseguiria! Eu estou tão orgulhoso! Quando vai ser a audição?
-- Então, essa história vai ser engraçada. Você sabe sobre minha aversão aos aparelhos eletrônicos, certo? -- começou explicando-se, e dess vez ele que a interrompeu.
-- É amanhã, não é, tampinha? -- perguntou, apreensivo, sabendo perfeitamente que a amiga conferia seus e-mails uma vez no mês, quando muito.
-- É, sim! -- assumiu -- Mas meus pais já organizaram tudo. Na verdade, eu liguei para te falar que partimos em meia hora.
Revirou os olhos para aquilo, que era tão a cara dela. Programação e organização não faziam parte da vida de Fernanda, tudo com ela era corrido, inesperado e intenso.
-- Já vou fazer minhas malas. -- anunciou alvoroçado, pronto para mais uma aventura.
Partiram não muito depois, eletrizados de felicidade, discutindo qual música Fernanda deveria cantar com sua linda voz melodiosa, e com os pais dela e Guto cantando junto dela de maneira desafinada e completamente fora de ritmo. Foi divertido e mágico, de se guardar na memória. Mas o impensável aconteceu, e eles nunca chegaram ao destino.
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