Capítulo 1
— Certeza que não vai de ônibus? – perguntou minha melhor amiga Andressa pela segunda vez.
Ou talvez fosse a terceira. Como eu poderia saber se nem ao menos estava prestando atenção?
A culpa era toda dela por ter me feito ficar viajando em pensamentos ao invés de ouvir o que dizia. Isso porque dez minutos antes, Dêssa me avisava que Victor Hugo havia perguntado para a prima se eu iria à pizzaria no dia seguinte.
E por Victor Hugo ela se referia ao primo de Luísa, nossa colega de escola que, não por acaso, estaria comemorando seu aniversário no dia seguinte e era a razão pela qual estávamos há duas horas perambulando pelo shopping à procura de um presente.
E por Victor Hugo ela queria dizer o garoto com quem eu por acaso já havia ficado umas duas vezes. Ou três. Ou quatro. Mas quem estava contando?
A verdade é que tinha uma leve impressão de que ele não desistiria tão fácil e que estava querendo algum tipo de compromisso. Mas eu, ao contrário da maioria das garotas da minha idade, não estava lá muito interessada em ter um relacionamento sério e estável. Quer dizer, se eu podia curtir minha adolescência, ir a festas quase todo final de semana, conhecer várias pessoas e ainda acompanhar minha melhor amiga (que, afinal, não tinha namorado), por que diabos iria querer alguém para impedir tudo isso? Qual é? Eu estava na minha melhor fase, tinha certeza!
Assim, o fato de que aquele garoto estava novamente perguntando por minha presença me dava uma ligeira vontade de inventar alguma desculpa para não comparecer.
Não que fosse tão ruim ficar com ele. Pelo contrário, ou não teria feito isso tantas vezes. Ele era bonito, legal e fofo. Só um pouquinho grudento, mas nada que eu não conseguisse evitar. Tanto evitei que nem sequer havia passado meu número de telefone até então, com medo de que começasse a me mandar mensagens diariamente. E ainda fiz sua prima prometer que não daria o número a ele.
Ele que se contentasse com as redes sociais!
— Tenho. Pode ir numa boa. – respondi, sem me estender.
Andressa então se abaixou um pouco e me deu um beijo no rosto. Depois se virou em direção ao ônibus que chegava e subiu, sumindo de minha visão no meio de todas as outras pessoas que estavam lá dentro. Nem seus cabelos loiros facilmente reconhecíveis ficaram a vista.
Ainda estava claro quando saímos do shopping. Entretanto, já havia passado das seis da tarde e era fins de agosto, assim que aos poucos o céu começava a passar de laranja a roxo, e em poucos minutos já seria noite. Contudo, levaria apenas quinze minutos de caminhada até minha casa, por isso não me preocupei em chamar um táxi. Economizaria com o transporte e usaria o dinheiro para coisas mais úteis. Mais cinco quadras e estaria lá, não havia nada pelo que me preocupar.
Puxei meus fones de ouvido e dei play na minha playlist favorita de músicas pop, seguindo em direção a minha casa. Primeiro atravessei a grande avenida, só então entrando na primeira ruazinha à esquerda, que estava deserta e já escura.
Estava completamente alheia aos movimentos e ruídos daquele fim de tarde, concentrada na letra da música, quando notei alguém passando por mim de bicicleta tão rápido que quase fui levada junto. Precisei até me apoiar na grade de uma das casas para não cair. Eu mal havia percorrido duas quadras.
Parei por um instante, me recompondo. Virei o rosto e observei o cara de capuz preto seguir adiante. Ele tinha nas costas uma mochila de violão também preta. Ou imaginava que fosse isso.
Voltei para meu caminho e continuei com meus passos rápidos antes que alguém aparecesse para me raptar ou roubar. Afinal, era uma cidade grande, e isso acontecia o tempo todo.
Ao me virar para continuar meu caminho, agora mais atenta ao que se passava no local, ouvi alguns barulhos estranhos. Não havia ninguém mais naquela rua, então apertei no botão do fone, pausando a música para entender o que acontecia.
Os ruídos ficaram mais altos. Parecia que eram alguns jovens gritando ou cantando, não saberia dizer.
Foi quando levei um susto ao perceber que o cara de capuz havia retornado e estava ao meu lado, me puxando pelo braço, já fora da bicicleta. Meu coração deu um salto e senti como se todo meu corpo estivesse pegando fogo, partindo de onde estava sendo segurada e se irradiando até a ponta dos pés e das mãos.
— Acho que é um arrastão. – escutei ele sussurrar.
No mesmo momento, me puxou bem forte, fazendo meu braço doer onde segurava e minhas pernas ficarem bambas. Fiquei tão desnorteada com a situação que não fiz nada além de segui-lo, sem gritar, sem tentar me soltar.
O cara tinha tirado o capuz. Consegui ver que era jovem, por volta de vinte anos. Era bastante alto e seus cabelos longos e escuros estavam presos em um rabo de cavalo frouxo na altura da nuca, com algumas mechas mais curtas presas atrás da orelha. Usava uma jaqueta grossa e escura por cima de um moletom de capuz e calça jeans.
Fui sendo puxada por um portão de metal semiaberto para dentro de um terreno com uma casa caindo aos pedaços e toda pichada enquanto tentava, aos poucos, recuperar a lucidez. Ele rapidamente empurrou a bicicleta para um canto perto do muro, que caiu no meio da grama e do capim alto logo atrás de uma velha fonte quebrada.
Ele fechou o portão como pôde, só encostando. Isso me deu tempo suficiente para entender que estava sendo arrastada por um desconhecido para dentro de uma casa abandonada!
Meus olhos se arregalaram ainda mais, imaginando o final daquela história. Meu corpo estava tenso. Comecei a tremer, sentindo um frio percorrer minha espinha. Quem era aquele estranho que me puxava para um lugar abandonado em uma hora como aquela? O que aconteceria comigo?
Um grito agudo começou a se formar em minha garganta e tentei correr em direção ao portão. Fui impedida por meu raptor, que me segurou com as duas mãos e me puxou até o canto oposto, para trás de uma árvore baixa e cheia de galhos. Ele praticamente me jogou no chão, depois tirou a mochila das costas e se agachou vem na minha frente.
Comecei a gemer alto, pedindo para que me largasse, tentando com todas as forças me liberar de seus braços, muito mais fortes que os meus. Foi então que ele tapou minha boca com uma das mãos, enquanto tentava me conter com o braço que sobrava e seu corpo me prensou contra a parede atrás de nós.
— Não-gri-ta. – ele pediu pausadamente entredentes, os olhos escuros me lançando faíscas. – Eu não sou o perigo; são eles. – e apontou com a cabeça para o muro ao nosso lado, referindo-se ao barulho de vozes que agora escutávamos cada vez mais perto.
Risadas, gritinhos, madeira se chocando a metal.
Estava me protegendo? Por que diabos um cara tentaria proteger uma completa estranha na rua? Fiquei um pouco menos preocupada ao concluir que o cara não me violentaria. Percebendo meu relaxamento, o jovem desconhecido retirou a mão de minha boca e se apoiou no muro sujo atrás de mim.
— O que tá acontecendo? – perguntei com a voz na altura normal, sem me importar com o que ele havia dito.
— Shhhh. – implorou, colocando o indicador na frente dos lábios para que entendesse melhor. – É um arrastão.
— Como você sabe? – indaguei incrédula.
Nunca havia visto um arrastão. Isso não era coisa de São Paulo e Rio de Janeiro? Quantos assaltantes precisavam pra ter um arrastão? Isso não acontecia só em locais com muita gente, tipo bairros boêmios ou praias?
— Shhhh. – pediu ele outra vez e acrescentou sussurrando, enquanto olhava para o muro, como se pudesse enxergar através. – Vi eles assaltando uma senhora e um homem quando passei na esquina.
— Você tem certeza disso?
Seus olhos me fulminaram ao ouvir a pergunta, como se a situação fosse óbvia pra ele. Decidi continuar mesmo assim:
— Você deveria ter chamado a polícia!
As vozes agora estavam muito próximas de onde estávamos. Notei que o desconhecido estava mais tenso e talvez eu fosse o motivo disso tudo. Pelo que parecia, o cara já poderia estar em casa ou onde quer que estivesse indo se não tivesse voltado para me resgatar. Bem, eu não pedi pra ser salva, pedi?
Abri minha boca para fazer mais um comentário idiota e em menos de um segundo seu corpo se moveu para cima de mim, me encurralando mais ainda entre o muro e o tronco da árvore, sua mão tapando minha boca. Minha cabeça bateu no muro crespo. Doeu, é claro, e fiquei novamente desesperada, por isso tentei gritar e respirar ao mesmo tempo em que puxava seus braços para baixo, arranhando seus pulsos com minhas unhas compridas. Rapidamente suas mãos agarraram meus braços e os puxaram pra baixo para que não pudesse me mover.
Percebendo que eu continuaria falando enquanto ele queria que fizesse silencio, o desconhecido não viu outra alternativa que me calar com seus próprios lábios.
Fechei os olhos, sem saber o que fazer. Mas que diabos esse idiota pensa que está fazendo?, pensei. Agora poderia considerar aquilo como assédio?
Queria me soltar e fugir, mas comecei a entender o porquê daquela atitude ao escutar o que as vozes da rua diziam. Não me movi, assustada.
— Viu a cara da velha?
— Quem é que anda com tanto dinheiro, meu?
— Mas que imbecil!!
— Nosso dia de sorte.
As vozes haviam nos alcançado e agora conseguíamos ouvir claramente a conversa. Alguém chutou o muro e finalmente consegui me libertar, virando o rosto. O desconhecido se afastou um pouco, sem soltar meus braços, apenas afrouxando as mãos. Ele baixou a cabeça, mas seu rosto ainda estava próximo do meu pescoço, onde sentia sua respiração quente e pesada.
Um dos garotos da rua chutou o portão semiaberto e meu coração quase saiu pela boca. Senti o bolo que tinha comido no shopping querendo voltar e apertei os olhos, rezando para que eles não percebessem a bicicleta no pátio e resolvessem entrar para roubá-la, nos descobrindo ali. Eu não fazia ideia se eles tinham alguma arma de fogo. Ou mesmo uma faca. Mas qualquer coisa do tipo poderia ser usada para nos ferir. Ainda mais se por acaso estivessem drogados.
Para minha sorte, a mata alta encobria tudo pelo caminho, desde o lixo que era jogado no local (o que incluía até mesmo um colchão perto da entrada da casa) até a bendita bicicleta.
Como se tivesse sido atendida por uma força suprema, as risadas e palavrões e todo o barulho foram se afastando. Enquanto isso, continuávamos em completo silêncio. Eu sabia qual era a sensação de ser assaltada, e não era algo que quisesse sentir novamente. Agradeci aos céus em pensamento. O que poderia acontecer se eles nos vissem?
— Você tá bem? –perguntou o desconhecido baixinho, algum tempo depois, quando achou que já estávamos a salvo.
Ele ainda estava bem perto, olhando nos meus olhos, agora abertos.
Balancei a cabeça afirmativamente, ainda que quisesse dizer que não, muito mais naquele momento, sentindo seu corpo colado ao meu, sentindo-me invadida pelo contanto com um desconhecido qualquer. Seus olhos escuros me olhavam preocupados, como se pudesse ver em mim o que não havia dito.
Então ele se moveu para longe, me dando espaço para respirar. Levantando-se do chão, desviou dos galhos mais baixos para sair do canto escuro.
Finalmente me levantei, o imitando, e inspirei fundo. Limpei os pedaços de grama e terra acumulados nas calças e comecei a relacionar os fatos, tentando compreender o que havia acontecido.
O desconhecido, um pouco perturbado, buscou em um dos bolsos da jaqueta o celular. Só percebi que estava ligando para alguém quando colocou o aparelho perto do ouvido.
— Oi. – escutei ele dizer, a voz grave e imponente, querendo mostrar o quão adulto e responsável era, ou parecia. – Eu tô na rua Duque de Caxias, próximo da Avenida 7 de setembro. Houve um assalto... ou vários. Eram quatro garotos... Sim, acho que menores de idade. Armas de fogo? Não vi, não. Eles tinham uma faca e pedaços de madeira. Roubaram uma senhora e um homem, consegui me esconder... Seguiram pela Duque. Ainda consigo escutar, mas já tão há umas duas quadras de distância... Sim, valeu, eu espero.
Fiquei em silêncio enquanto ele falava, imóvel até ele apertar na tela e guardar o objeto no bolso novamente, voltando a me encarar.
— Você tem certeza que tá bem? – indagou novamente, com expressão aflita. – Eu por acaso te machuquei? Seus braços? A cabeça?
Um nó se formara em minha garganta, me impedindo de falar, assim que compreendera tudo o que tinha se passado minutos antes. Nada do que acontecera fazia muito sentido naquele instante, apenas que teria sido assaltada ou coisa bem pior caso alguém não me tivesse protegido.
Era estranho pensar que um cara tão jovem protegera uma garota qualquer na rua sem esperar nada em troca, pois os jovens parecem nunca se importar com nada nem ninguém além de si mesmos. Mas não aquele jovem.
O jovem se aproximou e segurou minhas duas mãos entre as suas.
— Você tá gelada! – concluiu, como se eu já não houvesse percebido.
Não estava tão frio na rua, havia apenas um pouco de sereno e eu estava bem agasalhada. Mesmo assim estava tremendo.
Ele me analisava com aquela mesma expressão preocupada, mas também havia algo diferente em seus olhos agora. Como continuava a fitá-lo em silêncio depois de quase um minuto, perguntou pela terceira vez:
— Você tá mesmo bem?
Eu pisquei, uma, duas, três vezes até conseguir dizer alguma coisa.
— Você me salvou. – eu disse, não com alegria, mas num tom de assimilação.
Ele arqueou a sobrancelha, me lançando um olhar perplexo.
— Eu ia direto neles! – acrescentei, agora surpresa.
Uma imagem de três caras me agarrando a força, me jogando naquele terreno e eu tentando gritar começou a se formar em minha mente. Tentei engolir o nó que havia se formado em minha garganta, respirando pesadamente ao mesmo tempo em que lágrimas se formavam em meus olhos. – Sabe-se lá o que eles poderiam ter feito comigo!
Puxei minhas mãos de volta e limpei os olhos antes que o desconhecido percebesse.
Ele suspirou fundo e ajeitou uma mecha de cabelos atrás da orelha, constrangido. Queria abraçá-lo para agradecer, mas achei que seria algo estranho a se fazer. Eu nem o conhecia.
— Foi o que pensei, por isso voltei. Me lembrei dessa casa e achei que... não sei o que eles poderiam fazer se entrassem aqui com uma menina assim como você...
Franzi os olhos ao ouvir aquelas últimas palavras. Ele me chamara de menina? É claro que ele achava que eu era uma garotinha indefesa. Sem pensar muito, falei:
— Menina como eu? Por que você não ligou para a polícia quando viu aqueles idiotas assaltando a velhinha?
O rapaz deve ter percebido a expressão de repulsa que se formava em meu rosto, pois continuou sua fala rapidamente, parecendo envergonhado:
— Er...er... Eu acho que não pensei muito no que tava fazendo. Eu ia ligar, mas vi você sozinha na rua... Não sei o que pensei...
Ele sorriu sem jeito e arrumou outra mecha atrás da orelha. Eu não achava que caras ficavam bem com cabelos compridos, mas aquele ficava muito bem, agora percebia. Ou era só algo que meu cérebro havia plantado só por ter sido salva? Era o que muitas vezes acontecia quando se passava por um evento traumático, não?
Balancei a cabeça espantando os pensamentos estranhos e declarei:
— Acho melhor eu ir pra casa. – e completei com um sorriso sem graça. – E obrigada por tudo.
⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐
E agora? O que será que vai acontecer?
Quem é esse desconhecido?
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