Capítulo 9


Não sei para qual lugar do quarto ele quer me levar. Não sei o que ele quer me mostrar dessa vez e não creio que um local pequeno assim possa ter tantos mistérios, mesmo tendo sido o palco de um duplo homicídio e guardando tantas coisas avulsas.

Seguindo a direção da parede na que estávamos encostamos, avançamos em meio às tralhas, ele à frente. Empurrando algumas coisas para fora do caminho, e pisando em outras sem dó algum, até o momento em que posso ver que há uma escada móvel encostada na outra parede.

Vejo que estava enganada sobre o quarto não ter nenhuma janela enquanto ele tira os objetos dos degraus. O topo da escada leva até uma minúscula janela, que não deve nem permitir a passagem de minha cabeça para o exterior.

— Sobe aqui. — Harry pede.

Suas palavras acabam aqui. Ele não me explica o porquê de fazer isso ou qualquer outra coisa.

O encaro, e seu olhar me motiva a ir em frente, mas não confio o suficiente nessa madeira podre para subir no primeiro degrau. Meu pé até se levanta, porém, logo volta ao chão. Meu instinto me alerta de que é melhor não arriscar, já quase torci meu pé hoje, e a última coisa que quero é não conseguir andar caso tenha uma oportunidade de escapar. Minha consciência ainda parece vencer sobre minha curiosidade.

Vendo meu receio, ele leva seu pé ao degrau e se apoia totalmente nele. A escada sequer se movimenta, e eu estaria mentindo se dissesse que não me assustei com isso. Minha prova sobre a resistência da escada já foi feita, e ele me encara novamente, esperando minha atitude.

— No seu tempo, princesa — em tom irônico, ele me apressa.

Portanto, repito seus movimentos, desta vez mais segura e sabendo que não vou cair. Pelo menos não por culpa do estado da escada.

Escalo, e alcanço o sexto e último andar. Estava com expectativa de sentir o ar fresco noturno tocando minha face quando encarasse a janela, mas não. A circulação de ar não é forte o suficiente para fazer com que eu sinta o frescor ou movimentar meus cabelos ruivos.

A floresta se tornou ainda mais assustadora, conforme a hora passou. O movimento inquietante das folhas das árvores agora é inexistente assim como o vento, e esse silêncio e mistério me deixam confortável no meu local atual. Aqui pelo, menos não corro o risco de ser devorada viva por animais, mesmo que a minha sanidade esteja totalmente em risco. Não consigo encontrar um ângulo que me permita admirar o luar e, mesmo pedindo silêncio absoluto para o homem que me observa, não consigo ouvir nenhuma conversa animada entre adolescentes bêbados, ou risos de alguém que trancafiou a namorada em um quarto escuro.

— Isso é uma floresta. Não sei se você sabe, mas não há mercados dentro de florestas. Animais não costumam comer comida congelada.

— Mas você podia muito bem ir à cidade. Seus pais trabalhavam e tinham amigos lá. — direciono meu olhar em seus olhos. Castanho e verde, uma batalha que já possui um vencedor declarado antes mesmo de ser dada a largada.

— Sim, sim. Mas eu era uma criança. Eles sequer me deixavam estudar lá — responde.

— Não é isso o que história diz — persisto.

— Não confie em tudo o que dizem. Pessoas costumam mentir, linda. — Sua voz vai ficando cada vez mais distante de si mesmo. — E você já devia ter aprendido isso.

Não me dou o trabalho de elaborar uma resposta. Não que eu fosse capaz disso.

Desço a escada olhando para baixo, afastando qualquer hipótese de que eu possa cair. As mãos de Harry circulam minha cintura, apoiando-me. Seu toque é forte e aconchegante, mas logo ele retira seu apoio, achando que não preciso mais. Erro dele, mas creio que, só nesta noite, já descobri muitas coisas aconchegantes demais em um canibal.

Ca-ni-bal. Sibilo em minha mente tal palavra, que costumava me dar calafrios na infância. É estranho chamar Harry de canibal, mas, ao mesmo tempo, a palavra já se encaixa em seu perfil. Tal palavra me deixa intrigada. Será que, mesmo sendo por necessidade, o que Harry fez é canibalismo? Ele é mesmo um canibal? Nada melhor do que perguntar diretamente a alguém que já praticou o ato, não se possui essa oportunidade todos os dias.

— Você... — Respiro fundo. — Você se considera um canibal? — questiono, e minha voz sai mais infantil do que esperava. Soou como se eu fosse uma criança curiosa que insiste em perguntar o porquê de tudo. Talvez ele me veja assim mesmo.

Não tenho resposta. Não desço do primeiro degrau, para ficar na mesma altura de Harry. Ele é alto. Viro-me para saber o motivo de seu silêncio. Não era ele que queria tanto conversar e até insistiu para que eu lhe fizesse uma pergunta?

Seu olhar está vidrado em suas mãos, que estão preenchidas por papéis. Consigo ver alguns envelopes.

— São cartas?

Ele apenas movimenta sua cabeça para cima e para baixo como resposta afirmativa.

Olho ao redor e vejo que uma caixa de madeira rosa no meio dos objetos bagunçados, toda decorada com laços e corações do mesmo material, está aberta. As tais cartas foram retiradas dela, com certeza.

Pela luz do luar, posso ver que o papel é amarelado. Há várias marcas de uso nela, como dobraduras e alguns rasgos nas extremidades. São cartas antigas então...

— Quem as escreveu?

Ele me olha. Provavelmente foi alguma mulher. Namorada, talvez. Pode ser que seja impressão minha, mas seus olhos transmitem dor. Uma dor que todos os mais sensíveis podem reconhecer, e já a vi muitas vezes no espelho.

A dor de perder alguém mais do que machuca. Ela vai fundo em sua carne até alcançar sua alma, e lá ela se faz presente. Sempre deixa marcas intensas, que nunca cicatrizam, e você passa a vida inteira com ela te incomodando. De vez em quando você algum remédio que para momentaneamente a dor. No meu caso, ter um shopping perto da minha casa ajudou imensamente.

— Uh, você ainda teve alguma namorada? — me atrevo a perguntar.

Ele não me encara. Continua a olhar fixamente para os papéis.

— É, e diferente do seu, ela realmente me amava.


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