Capítulo 6


Balanço a cabeça, tentando afastar a visão de minha cabeça. É só um delírio, um pensamento ao qual minha mente se apegou.

É um delírio de minha cabeça, somente, mas também pode ser o delírio de toda mulher. Alto, com cabelos longos e suaves cachos. São as únicas informações sobre seu físico que podem ser extraídas diante do cenário acinzentado, além da voz, que muitas podem chamar de sexy.

— Quem é você?

É só o fruto de meus pensamentos solitários, repito para mim mesma, não vai me machucar, porque não é real. Não pode ser real. Sei que bati minha cabeça, mas isso não pode ser capaz de afetar minhas faculdades mentais.

— Prazer, Harry Styles. — ele se aproxima — e moro aqui.

Uma interrogação se instala em minha face. Sobrancelhas contorcidas em dúvida. Nem um animal selvagem conseguiria viver neste local. Não há rede elétrica e dificilmente possui abastecimento de água ou esgoto. Mal há um caminho para sair daqui, além do estado atual da casa, que é absurdamente precário.

— Seus amiguinhos acabaram de se lembrar de mim. Pais cretinos, filho sofrido, você sabe. Você conhece essa história inteira e não é de hoje, vai. — ele faz uma pausa e olha ao redor — Essa casa não está aqui por acaso, e esse cheiro de sangue não está à toa.

Respiro fundo. Fecho meus olhos, e os mantenho fechados. Rio da situação. Isso é definitivamente insano. Um sonho de alguém que acabou de ouvir uma história de terror e se encontra presa em um local escuro.

Respiro fundo novamente. Eu não sei o que fazer. Não faço ideia de como lidar com uma situação peculiar dessas. Não tenho capacidade para absorver uma coisa dessas em tão pouco tempo assim. Apenas ignoro a situação. Por mais que eu tema toda a história dos Styles, acreditar na existência da casa deles e que me encontre nela neste exato momento já é surreal demais. Não há motivo para que eu acredite que o próprio protagonista da lenda urbana tenha se materializado em minha frente.

Tudo bem. Não sei o que está acontecendo aqui, mas não quero voltar a ficar sozinha, sendo capaz de aceitar qualquer companhia que seja. Sei que as chances de ser largada — e talvez, nesse caso, isso seja algo bom — mas o abandono não é o que mais dói, já me acostumei. É um velho amigo, que bate à porta de tempos em tempos, além de que é mais válido conversar e usar a voz por alguns míseros minutos do que permanecer por mais horas calada.

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando, e a minha ave só quer ser livre. Seu único desejo é receber a carta de alforria, com remetente de todas as suas dores.

Mas... Mas ele sequer é real. Não passa de um fruto da minha imaginação fértil, é apenas a minha mente produzindo ilusões neste quarto escuro. É uma situação totalmente improvável. Ele deve se desfazer como cinzas bem na frente dos meus olhos a partir do momento em que eu mostrar que não o temo, mesmo o temendo. Havia uma frase famosa que disse que nossos maiores temores apenas podem se tornar reais quando acreditam neles, e eu não sou medrosa, me recuso a aceitar esse fardo.

— Você não é real — afirmo, antes de abrir meus olhos. — Já tive outros amigos imaginários e você deve ser um novo. Isso não me assusta.

— Não foi o que pareceu durante a sessão de histórias de terror. Você sabe que eu existo. — Harry se ajoelha diante de mim.

Não possuo resposta para dar-lhe, portanto, minhas cordas vocais são mantidas como estátuas. Logo em seguida, o ser se afasta minimamente. Isso faz com que minha mente se reconecte com o restante de meu corpo.

— E o que me garante que é você mesmo? — falo, ainda um pouco amedrontada.

Harry sorri ironicamente.

— Esta casa — ergue os braços lateralmente, se referindo ao ambiente — foi construída pelo sangue, suor e lágrimas de meu pai, um ano depois de eu ter nascido. Dezesseis anos depois, meus pais estavam se matando aqui mesmo. — e o sorriso irônico permanece — Aprendi a ler e escrever nesse porão,

— E o que isso pode provar? — busco manter um limite em meu tom de voz. Nada muito amedrontado, nada muito libertino. Limites.

Sua mão agarra a minha e me arrasta, enquanto ele cruza o ambiente. Tento manter meus passos firmes, para que eu não tropece. Seu toque é frio, e nebuloso. Causa-me arrepios, e se são de medo, de frio, de expectativa, não sei dizer.

Harry para diante da parede paralela a qual estávamos, e meu corpo para em bruscamente. Seus últimos passos soam orgulhosos. O seu dedo indicador, longo e esguio, se ergue, apontando para um local um pouco acima de nossos joelhos, em direção à parede. Não sei se quero me ajoelhar para conferir o que se trata.

— Consegue ver aqueles rabiscos ali, perto do rodapé? — afirmo, mesmo sem noção alguma do que se trata ou de sua cor, até mesmo de sua forma. De qualquer modo, a madeira da casa está tão podre e úmido que duvido que qualquer coisa ali seja visível. — Eu que desenhei. Tinha cinco anos.

Mais uma vez, há silêncio por minha parte. Não sei o que eu poderia dizer a respeito.

— Nenhum elogio? — Sua voz tenta sair humorada, mas ele falha. Não tem como esse momento ser bem humorado, muito pelo contrário. Minha face mantém-se neutra. — Não? Tudo bem.

Desfaço o contato de nossas peles, e aliso o local onde o contato ocorreu, tentando esquentar tal parte. Não é um bom momento questionar tal estranheza, uma vez que estou dialogando com um ser que surgiu sem explicação alguma. Minha mente, de tão confusa que está, não se dá ao trabalho de elaborar uma resposta digna para minha querida ilusão.

Apenas deposito minhas costas contra a parede em que o desenho infantil está, buscando apoio, tanto sentimental quanto físico. Meu corpo ainda não se recuperou da queda, e muito menos a minha mente de todo esse pandemônio.

— Eu estou tentando ser alguém legal, Scarlet.

Sento-me no chão. Harry não muda de posição, seu olhar está vidrado na sua pintura feita em momentos de rebeldia e felicidade, talvez. Minha mãe não me deixava pintar nas paredes de casa, talvez sua família também fosse assim.

— Você também sabe que não sou uma boa pessoa, não sabe? — e olha para baixo, me buscando entre o véu de escuridão, enquanto se ajoelha. Estamos próximos demais e não quero responder. Na verdade, não sou nem capaz de lhe dar uma resposta. Sei que Harry Styles construiu uma fama totalmente contrária à de bom moço, — Responde, princesa.

Levanto-me, escorando meu corpo na parede atrás de mim, desta vez, buscando distância. Ele também se ergue, imitando meus movimentos, e deposita carinhosamente seus dedos em meu queixo. O timbre doce de sua voz contradiz as palavras totalmente maldosas. Vagarosamente, movimento minha cabeça para cima e para baixo, afirmando.

Sinto calafrios. Estou soando frio. Seu rosto se contorce minimamente em satisfação, com um sorriso beirando o sadismo, enquanto o meu vai adquirindo feições típicas de medo.

E não nego isso. Não há como esconder os arrepios que se formam na base da minha coluna e se prologam pelo meu corpo inteiro.


Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top