Capítulo 7 - Incidente Inesperado
Me sinto completamente exausta.
Passaram-se dois dias, muito turbulentos, e os preparativos desse jantar de noivado tem me deixado esgotada. Meus instintos estão em alerta, desde o dia de minha chegada, a família Allen anda esquisita, apesar de Scarlet e a rainha Verena se esforçarem para manter uma pose forçada que para meus outros irmãos e Eli pode passar despercebida, mas para Henri e eu, isso significa que tramam algo.
Junto com minhas desconfianças, o cansaço existe, muitas vezes fazendo-me perder o sono, apesar de que pode ser mais cansaço psicológico que qualquer outra coisa.
Quer dizer, eu tenho que dar um pitaco em cada detalhe, quem se importa com o acompanhamento do caviar? Droga. Mas além disso, chegou o dia de anunciar esse noivado. Meus nervos estão na flor da pele, tento usar o treinamento recebido para esconder as emoções, na tentativa de não surtar com esse absurdo que acontecerá hoje.
Estávamos vendo qual seria os melhores tons para a decoração, quando não aguentei mais toda essa pressão, apesar de ser treinada para isso, me retirei educadamente, e agora estou muito bem acomodada em um dos bancos do jardim. Contemplo o ambiente lindo a minha frente. Assim como todo o reino, o jardim também é esplêndido, o lugar do jardim em que me encontro é um pouco afastado da área do castelo, possui muitas flores de variadas cores e tamanhos, uma fonte e uma enorme árvore que esconde essa parte do jardim. Permito-me apreciar a vista dessa linda paisagem e desse maravilhoso céu.
Volto à realidade quando ouço passos. Droga. Será algum invasor? Me levanto imediatamente, mas o intruso que veio tirar meu tempo de paz, agarra-me de costas para o mesmo, só esse ato já me deixou irritada. Sinto sua respiração próxima ao meu pescoço, e esse cheiro é... doce. E familiar também.
- Calma, ruivinha! - Ian fala, desviando do golpe que tentei fazer para me desvencilhar dele.
- Não reconhece mais seu futuro esposo?! - Ele debocha, virando-me para fitar seu rosto.
- Claro que reconheço. Por que acha que tentei um golpe? - Eu debocho em resposta, ele abre um sorriso de escárnio para mim, o que me faz franzir a testa de irritação.
Analiso melhor o idiota a minha frente. Ele traja um terno muito bem alinhado com um brasão de seu reino no canto direito da vestimenta, seu cabelo loiro está um pouco bagunçado mas isso o parece favorecer, seus olhos verdes parecem ainda mais intensos focados nos meus, ele era lindo, obviamente. Mas não se podia negar que era um babaca.
- Uau, essa doeu! - Ele põe a mão no peito como se houvesse sido atingido, mas é claro por seu tom seria tudo teatro. Esse cara é um retardado mesmo.
- Que bom! - Eu respondo, irritada. Já não consigo ficar perto desse homem, então, sem pedir licença, me afasto dele o mais rápido que posso, sem correr. Ouço um riso e o som de passos se afastando, o que só serve para me irritar mais.
Como é que vou aguentar isso a noite toda?
Depois de horas de preparações finais, no salão e na minha roupa, finalmente chegou a hora da festa, o vestido escolhido para mim é bem bonito, ele é prateado com alguns detalhes transparentes, tem um decote em v, mangas curtas e um decote circular bem grande nas costas. Pra finalizar, uma maquiagem leve e um penteado elegante que Eli fez em mim com todo o cuidado e atenção. Verdade seja dita, eu estava muito bonita. E eu não sou a única que pensa isso, a frequência de olhares que estou recebendo, de homens e mulheres, é impressionante.
Estou no salão de festas enorme que a família real possui a dois minutos e mal posso esperar para isso acabar, mas a rainha Verena me falou que assim que o salão se encher um pouco, o rei anunciará o noivado e fará um brinde em nossa homenagem. Talvez eu possa fingir um mal estar e sair daqui mais cedo...?
- Não! - Ouço a voz do meu irmão próximo de mim, olho para minha esquerda e ele está lá, com um terno chique, e cenho franzido para mim.
- O quê? - Tento me fingir de inocente, mas sei que é inútil. Henri me conhece bem demais.
- Sei que está pensando em alguma coisa para sair, mas isso fará uma imagem ruim de você e de Crawford, muitos dos nobres de Nilfgaard estão aqui hoje. - Não posso evitar um suspiro. Ele está certo.
- Vem Lah, dança comigo, isso deve te distrair. - Ele estende sua mão para mim, que aceito na mesma hora.
Enquanto dançamos eu percebo duas coisas, primeira, Henri está certo, estou mais distraída, e segunda, estou distraída porque vejo vários olhos femininos em cima de Henri. Tecnicamente, várias delas são nobres, então, tecnicamente, todas tem uma chance. Mas o que elas não sabem, é que Henri já está domado, não oficialmente, mas está.
E como se atraída por meus pensamentos, vejo Eli em meu campo de visão. Seu vestido era com certeza o mais simples do salão, mas não podia se negar que era lindo. O vestido era branco, longo e feito de cetim, da cintura para cima tinha várias rendas delicadas, lembro que insisti para maquiá-la, e apesar de sua resistência ela permitiu uma sombra simples e um batom claro. Sua imagem era de alguém simples e elegante, ela estava fantástica. Meu irmão parece perceber o mesmo, pois um olhar de admiração é lançado para a doce garota.
- Pode ir Henri, curta a noite com a sua garota.
Ele me olha preocupado antes de olhar na direção da Eli.
- Mas o nosso pai...
- Está falando com o rei Rufus, totalmente distraído.
E era verdade, a vários metros de distância, eu podia vê-lo, estava tão entretido com o rei de Nilfgaard que mal olhava para outro lugar.
Henri olha para nosso pai, então me olha muito agradecido antes de caminhar na direção de Eli. Afastando-se, Henri vai ao encontro da sua bela garota, os dois parecem conversar, suponho que ele esteja pedindo para dançar com ela já que as bochechas de Eli ficam vermelhas e ele toma a mão dela, então ela abre o mais gracioso dos sorrisos, enquanto Henri a guia para o centro do salão, iniciando assim, uma dança que atrai olhares curiosos e invejosos por parte dos nobres do salão. Não posso evitar abrir um sorriso. Eles parecem não perceber que metade dos olhos da festa estão sobre eles, acho que porque estão muito focados um no outro, estão sorrindo e conversando alegremente.
Aproveitando a dança dos dois como distração, já que vários dos olhares daqui caem sobre eles, me afasto na tentativa de comer para esquecer essa noite trágica. Caminho pelo salão, chegando próxima a mesa de aperitivos, sirvo-me, pegando um prato e pondo diversas gostosuras que estão presentes na vasta mesa. Quando dou por mim, estou comendo quase que todos os aperitivos postos na mesa. Talvez seja meu nervosismo?
Alguns minutos passam, eu continuo degustando essas maravilhas até que no salão cessam os burburinhos e as danças pois o rei Rufus está no espetacular palco que há nesse salão, junto de sua família. O rei Rufus se põe de pé, e eu observo atentamente cada movimento daquela família ainda com meu prato em mãos, e faço uma inspeção rápida no ambiente, avistando de longe meu pai, Justine e Lucca juntos, com trajes elegantes e calorosos sorrisos. Meu pai está sorrindo? Claro, seu acordo está a um passo de dar certo.
Saio dos meus devaneios quando o rei Rufus se pronuncia e sua voz potente ecoa no ambiente, fazendo minha atenção se voltar para o rei, perco até o apetite, um serviçal passa por mim com uma bandeja e ponho meu prato ali.
- Saudações. É um prazer estar com vocês nessa noite - o rei esboça um sorriso, que para muitos é real, mas sei que é uma farsa, já que não chega nas rugas dos olhos.
- Foi solicitado a presença de todos para anunciar um comunicado importante - às pessoas do salão ficam curiosas pois é possível ouvir o início de alguns burburinhos, porém, o rei faz um gesto que silencia as conversas.
- Gostaria que a família Crawford subisse ao palco para o anúncio.
Alguns olhares do salão se voltam em minha direção e se torna meio impossível localizar Henri e os outros.
Me direciono ao palco, e paro a quase dois metros do rei, acima de nós está um lustre gigante, talvez o maior de todos os que existem neste salão. Enquanto meus irmãos se aproximam, analiso todos em cima do palco, eu estou na direita do rei Rufus, e a esquerda dele está Ian, que esboça um sorriso presunçoso, a sua esquerda, Scarlet e ao seu lado, a rainha Verena, as duas últimas com certeza treinam seus sorrisos para parecerem calmas e controladas. Eu só sei disso porque também tive o mesmo treinamento.
Sinto uma presença na minha direita, e já sei que é Henri antes mesmo de virar, ao seu lado está Justine e então Lucca, e no final está nosso pai. Antes que eu possa analisar algo mais, o rei Rufus continua seu anúncio:
- Estou muito contente em fazer este anúncio e é com uma enorme satisfação e alegria, que anuncio não somente um noivado, mas a união entre duas famílias e dois reinos. - Ele pronuncia com um sorriso caloroso - Nós nos tornaremos um, com o noivado dos nossos queridos, príncipe Ian Allen e princesa Antonella Crawford.
Com essa deixa, Ian e eu damos alguns poucos passos a frente, para recebermos os aplausos e sorrisos. Todos parecem felizes.
- E eu peço a vocês, que ergam seus copos, para se juntarem a mim, em um brinde. - Ele ergue um copo que uma criada acaba de trazer, não só a ele, mas a todos os membros da realeza no palco - Aos noivos, Ian e Antonella!
Todos levantam suas taças e repetem "Ian e Antonella", e bebem o líquido âmbar em seus copos. Todos estão sorrindo e conversando alegremente. Então, é claro, foi uma surpresa quando o barulho de vidro quebrando enche o salão.
Mas essa surpresa é mínima, comparada com a surpresa de todos quando o lustre acima de nós treme.
E essa, com certeza é nada, quando o lustre cai.
É nessa hora que meu instinto toma controle do meu corpo, e empurro aquilo que está mais perto de mim e do alcance do lustre, que por acaso, é meu noivo. Caio por cima de Ian no mesmo momento que o lustre acerta o chão, e o barulho de vidro se chocando contra o chão e se espatifando é ensurdecedor, quase tanto quanto o silêncio absoluto que fica no ar por cerca de três segundos antes do caos se espalhar.
Gritaria e passos são o som imediato, mas não consigo me focar nisso, porque sinto uma dor horrível na minha perna, ergo meu olhar e encontro o rosto de Ian, me encarando como se eu tivesse duas cabeças, como ainda estou em cima dele, nossos rostos estão a centímetros de distância. Sinto novamente seu cheiro, doce e frutoso, abaixo a cabeça e tento me focar nisso, porque senão, vou focar na minha perna, que parece estar caindo de tamanha dor.
Não consigo conter o ganido que escapa da minha boca quando tento me mexer, obviamente minha perna foi atingida por um dos vidros do lustre e sinto a dor inteiramente. Minha cabeça está no peito de Ian e tenho a impressão que nenhum de nós se mexe a algum tempo, os gritos e a correria estão tão altos que é difícil focar em uma coisa só, um gemido de dor sai da minha boca e sinto a mão de Ian na minha lombar.
- Rápido, alguém as leve para a enfermaria! - Um homem grita alto, levo alguns segundos para reconhecer a voz de meu pai. E não demora muito para dois homens altos me pegarem pelos braços e me colocarem em cima de algo macio, que eu assumo ser uma maca. Eles me afastam da gritaria e dos outros correndo rapidamente.
Eu não acho que já tenha ficado em um lugar tão entediante em toda a minha vida.
Depois do que aconteceu no baile ontem a noite, todos os membros de ambas as famílias reais vieram á enfermaria, acontece que eu estava em tanta dor que não percebi que Scarlet também tinha sido atingida por um dos vidros do lustre, só que no braço. Minha lesão foi mais séria do que a dela, o vidro perfurou a batata da minha perna, quanto a ela, um deles voou em sua direção e, se ela não tivesse erguido o braço, a teria acertado no rosto, mas ainda assim, foi somente um corte. Ela teve sorte.
Os médicos pediram para as famílias nos deixarem sozinhas, para descansarmos mais tranquilamente. Sei que ninguém mais se feriu, porque senão teriam vindo aqui. Já é de manhã, mas ainda é cedo, vai demorar um pouco para chegarem.
- Alteza? - Uma voz feminina me chama de perto, me acordando de vez.
- Tenho seu café da manhã, se quiser. - A voz pertence a uma senhora enfermeira, imagino que tenha muitos anos de experiência, pois tem idade para ser minha avó, depois que aceito educadamente, ela sorri e me deixa sozinha com aquela bandeja.
Só tem coisas leves, um prato de ovos mexidos, outro com croissant, um copo de suco e um de água. Ataco primeiro os ovos, que estão deliciosos. Os minutos passam e quando estou terminando meu croissant, ouço a porta da enfermaria abrir e depois passos. As camas são separadas por cortinas brancas, então não consigo ver quem chegou. Mas sei que é um homem por causa da voz, mas está distante e não consigo identificar o dono que, imagino estar falando com uma das enfermeiras.
Passa-se alguns segundos e a voz se aproxima, até parar ao que parece alguns poucos metros de distância, então ouço Scarlet cumprimentando o dono da voz e... Ah, é o Ian.
Eles conversam com um tom tranquilo, eu termino meu suco e coloco a bandeja na mesa ao lado da minha cama e deito a cabeça no travesseiro. Quando Henri virá aqui? Será que vai vir acompanhado de Justine e Lucca? Espero que sim. Minha perna já não dói mais, aparentemente, anestesia faz milagres, já que mal consigo mexer minha perna, muito menos senti-la.
Ouço passos se aproximando e me ajeito, deve ser a enfermeira velhinha, certo? Uma mão abre a cortina e... meu "noivo" me olha, com o rosto pensativo e... preocupado? Não, deve ser impressão minha.
- Bom dia, Antonella! Está se sentindo bem?
- O que você quer, Ian? - Respondo na hora, ele quer se aproveitar do fato de que não posso sair daqui? Quais são suas intenções?
- Pelo amor! - Ele revira os olhos, parecendo cansado - Você é sempre assim pela manhã? Não, você fica pior pela manhã?
- Obviamente! - Meu tom é duro e frio, afinal, não sei o que ele pretende. O que esse cara quer aqui? - De novo, o que você quer?
Ele suspira antes de responder.
- Agradecer. - Isso me pega de surpresa, e acho que minha expressão fala isso muito bem.
- Porque está surpresa? Acha mesmo que eu trataria mal alguém que salvou minha vida? - Seu tom é de alguém ofendido.
- Se você não tivesse feito aquilo, o lustre teria me pegado, e se eu não fosse morto na hora, teria consequências muito sérias, pelo menos foi o que um dos guardas me disse.
Não sabia muito bem o que sentir sobre isso. Eu não gostava do Ian, isso é óbvio. Mas... eu não o odiava, não do jeito que odeio meu pai, se é que realmente o odeio assim...
- De nada! - Eu falo.
O que mais poderia falar?
Ele me encara por um instante antes de se despedir e passar pelas cortinas, apressado.
Por algum motivo desconhecido, um dos cantos da minha boca se levanta, e um riso rápido e passageiro escapa de meus lábios.
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