Capítulo 9

Valentina estava refletindo se levava ou não a sua capa prata para a viagem. Aquilo era a sua última lembrança dos pais, a sua herança que deveria ter sido passada no devido tempo se ela não se tornasse uma Guerreira, não gostava de quando estava sem ela, mas sem dúvida quando estivesse em Catalan chamaria muita atenção e deixaria bem claro que era de Zaark.

- Val? - Liam disse no batente da porta - Está tudo pronto?

- Sim... - ela suspirou pegando a capa e entregando para ele - Cuida disso para mim?

- Claro... - o rapaz disse apertando o tecido gelado entre seus dedos machucados, ele deu uma respirada falsa e abraçou a irmã com força sussurrando - Volta inteira, está bem?

A ruiva sorriu, afastando o menino, parecia tão confiante, como sempre. Liam não lembrava da mãe dos dois, mas com Valentina ali não precisava, sem perceber a moça assumiu esse papel na vida dele.

- Estarei em casa antes que sinta a minha falta. - ela deu um beijo na testa dele e foi caminhando ao seu lado para fora da casa - Não se esqueça que ao ir a cidade tem que tomar cuidado!

- Igual você e o Malakay? - o menino disse rindo.

- Fique longe de um homem chamado Alec. - ela falou tensa - Evite-o!

- É o homem que cobra impostos... - Liam disse suspirando- Não pretendo ficar perto de ninguém assim.

- E treine seus tiros com o arco. Eu sei que você não gosta de lutar, mas...

- Está no sangue da família.

- Sim, não podemos deixar que nós, os representantes do clã, percamos traços tão característicos.

Já no meio da cidade com o Conselho e Kay esperando os dois, Valentina correu ao encontro do grupo deixando o seu irmão para trás. Parecia mórbido, mas o menino tinha a impressão que não veria a sua irmã por um tempo."

Suspirei e tomei mais goles da bebida, era impressionte que minha plateia ainda estivesse acordada e atenta em mim. A Lua estava no seu ápice do lado de fora e o fadiga da minha viagem estava pesando em meus ombros.

- O Conselho agora estava arriscando tudo para descobrir se Gayla era Avalon. A ideia era ir a cidade, coletar informações sobre a garota e, quando possível sequestrá-la.

"A princípio era enviar Valentina com um grupo de cavaleiros, mas chegaram a conclusão que isso chamaria muita atenção, então a ideia mudou rapidamente para uma dupla. Tinha um porém, Val não concordava em trabalhar com ninguém que não fosse Malakay e enviar o próximo herdeiro para Catalan parecia ser como oferecer comida a alguém faminto.

No fim, não teve jeito. Mais nenhum rebelde estava animando de ir para território inimigo encontrar histórias, provavelmente, fictícias e tentar sequestrar uma guarda real.

- A próxima aparição em público da guarda deve ser na festa de máscaras que ocorre um dia antes do festival dos vaga-lumes. - Ravena disse dando a cada um cordão com um pequeno símbolo dos animais padroeiros - Terão tempo para pensar em um plano seguro para sequestrá-lá.

Malakay concordou colocando o colar, mas Valentina parou para olhar o objeto e a águia no centro dele. Suspirou, seus pais sempre diziam que ela seria alguém grande por ter o mesmo animal que representava a sua família, eram outros tempos, havia espaço para grandeza.

- Val? - Ravena a chamou de leve enquanto segurava a barriga - Tudo bem? Não precisa fazer isso se não quiser.

- Eu quero. - a moça disse colocando o colar - Além disso se eu der para trás agora, Kay irá sozinho e o cabeça oca vai tomar decisões idiotas.

- Ele realmente ama a menina. - ela disse olhando para Kay com zelo, depois procurou o marido no grupo e seus olhos roxos ficaram tristes - Não preciso dizer que ele precisa voltar.

Valentina concordou, mas Ravena percebeu que ela não entendeu o que queria dizer.

- Já se apaixonou um vez Val?

- Não.

- Sabe aquela conversa de que você não pensa direito? - ela riu - É mentira! Você pensa, sabe as consequências, mas não dá a mínima. Malakay é apaixonado por Avalon, mesmo não tendo ideia de quem ela é, e isso faz com que ele tome atitudes, as quais nem sempre são válidas.

- Como assim?

- Ele é capaz de salvar a vida dessa menina, mesmo que ela não seja a pessoa mais indicada para assumir o papel dele nesse jogo de xadrez.

Valentina engoliu seco e suspirou:

- Não sei o que você quer de mim.

- Eu quero que você pense e seja a parte esperta desse grupo, não porque Kay não está pensando, mas por ele não está dando a mínima.

Sem mais nada a dizer a moça saiu para perto do marido, segurou o braço dele e deu um pequeno beijo em sua bochecha cicatrizada.

Valentina engoliu seco, aqueles dois davam arrepios na sua espinha. Durante muito tempo ela tinha atribuído esse sentimento as cicatrizes de Adam, mas a medida que o rosto disforme dele se tornava algo comum a todos ela ia percebendo que não era isso. Alguma coisa no mover silencioso de Adam e a intuição, quase profética, da Ravena eram os culpados de seu medo.

Agora com aquela conversa, Valentina tinha quase certeza que a sua viagem ia ser bem mais agitada e com problemas do que estava planejando."

- Ravena e Adam? - Stefan disse ao meu lado pensando um pouco - Já ouvi esses nomes.

- Bom... - disse rindo e me ajeitando, minha perna estava dormente - Eles são bastantes conhecidos hoje, na época, como já devo ter dito eram apenas estrangeiros com uma importância inesperada no Conselho.

A mente do rapaz estava em busca de quem eram esses nomes. Sorri, muito em breve ele se lembraria, durante um tempo os camponeses só falavam deles.

- Bem, enquanto nisso, em Catalan, Gayla estava sentada em uma cadeira na janela de seu quarto, observando as estrelas se moverem devagar, não tinha saído do quarto durante todo o dia e ninguém veio incomodá-la.

No almoço ela recebeu um bilhete de Aires perguntando se estava bem, mas ela decidiu não responder, precisava pensar.

Em algum momento sua voz saiu de seus lábios, uma canção no fundo de sua mente, uma lembrança antiga da sua infância. Sua mente não queria pensar e o tempo parecia ter se tornado em nada.

As notas continuaram indo e se esticando, até que a porta se abriu em suas costas fazendo o som morrer aos poucos. Darlan estava parado ali, a olhando com um sorriso amplo e brilhante.

- Continua... - ele disse entrando no quarto e sentando na sua cama - Eu amo quando você canta, apesar de ser uma música bem mais triste do que o Rouxinou está acostumado de cantar.

- Rouxinou... - ela conseguiu sorrir - Sinto falta da tia Leda. Como vai a sua mãe?

- Ela está lá. - ele disse dando de ombros - Longe de casa, do marido e do dever.

- Ainda se recente? - Gayla disse se virando para o rapaz - Darlan, sua mãe sofreu cinco abortos nesse castelo, seu pai não quer que ela volte e sofra com as lembranças.

- Eu sei... - ele bufou.

Os dois ficaram em silêncio durante um tempo, o rapaz parecia ter ido para um lugar sombrio na mente. Chegou alguma conclusão, a qual não parecia disposto a compartilhar e sorriu de novo.

- Vamos ter mais sorte do que meus pais. - ele disse segurando a mão dela - Quero ter muitos filhos...

Gayla ficou branca no mesmo instante. Sentiu que tinha tomado um soco bem forte no topo do estômago e o ar faltou nos pulmões.

- Ei! - ele disse segurando o rosto dela com gentileza, seus dedos estavam quentes - Calma!

- E só que... - ela arfou - Eu ainda estou...

- Imagino. - ele disse se aproximando dela mais - Eu vim aqui para conversar sobre isso. Os empregados não param de falar que tudo o que você faz é ficar no quarto.

- Caramba fiquei só um dia... - ela disse bufando.

- Ainda assim. - ele fez uma pausa, olhando nos olhos escuros e brilhantes - Gayla, eu estou extremamente feliz com o arranjo e eu gostaria de que você também ficasse.

A menina levantou os olhos, o rapaz estava tão perto dela que as respirações misturavam. O seu primeiro impulso era se afastar, mas não conseguiria com as mãos em seu rosto, era perigoso até de se machucar se tentasse.

- Podemos ir devagar. - ele sugeriu - Eu prometo ser fiel e protetor para você, não vai te faltar nada nunca! Eu sei que não sou Aires...

- Que? - ela disse apertando os lábios, assustada.

- Eu já vi como você olha para ele. - Darlan deu uma risada fraca - Para falar a verdade, está óbvio pela forma como ele te olha. Mas ainda assim, Gayla, você vai acabar se acostumando comigo e... vai ser bom!

Sem mais nada a dizer, ele puxou a moça com delicadeza e lhe deu um longo beijo, após uma curta despedida a deixou no quarto. Sem reação, ela simplesmente voltou a cantar, sentir as notas na sua garganta e alguma coisa em seus lábios, afinal, aquele beijo não despertou nada em seu peito.

Não tardou para aquela porta se aberta de novo e mais alguém sentar na sua cama. Aires havia desistido de esperar a resposta da menina e viu o primo entrar no quarto da guarda escondido.

- O que ele queria? - o príncipe disse, surpreso de uma vez na vida interromper o canto dela.

- Me acalmar... - ela parou de cantar tão bruscamente, era quase como rachar gesso - Eu acho.

- Gayla... - Aires disse tocando seu braço, sua mão era gelada.

A moça se levantou agitada e fechou os olhos durante um momento, se obrigando a sorrir. Quem cuidava de Aires era ela, não o contrário!

- Chega disso! Ele está certo, não é o que planejamos, mas não precisa ser ruim.

- Gayla, ainda podemos conversar com meu pai e deixar essa loucura de lado!

- O rei está certo do que fez... - a menina fez uma careta de dor, mas engoliu seco e refez seu rosto de modo agradável- As coisas vão se ajeitar dessa maneira.

- Você nem está tentando!

- Aires...

- Não! - ele gritou e se assustou com a raiva crescendo no seu peito.

Gayla deu um passo para trás e cruzou os braços, não parecia ofendida, apenas confusa e triste, nunca antes o príncipe havia gritado com ela. Aires vendo a menina tão acuada, se sentiu extremamente vazio e triste, sem achar palavras para pedir desculpas apenas deu as costas e saiu do quarto batendo a porta.

Tentou achar forças para se mover para mais longe, mas só conseguiu encostar as costas na porta de madeira e travar a mandíbula. Gayla desistir assim tão facilmente da sua liberdade causava vertigem no rapaz, sentia-se traído. Como ela não queria lutar pelo amor verdadeiro de alguém? Ou o seu direito de estrangeira de seguir os costumes de seu país de origem? Ela realmente queria se casar com Darlan?

Essa última pergunta perfurou o peito do príncipe e percebeu que havia demorado de mais em entregar seus sentimentos verdadeiros para ela. O preço por essa hesitação seria ver a mulher que ama se tornar de outro, formar uma família com outro e nunca se aproximar dela da forma desejada.

👑

E galera? O que vocês acham que Ravena estava prevendo para Valentina? E esse casamento arranjado de Gayla?
Obrigada pelo apoio e até o próximo capítulo!

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