Capítulo 67

Quando, enfim o caminho até o castelo de Zaark estava quase acabando, o príncipe Aires se deparou com um acampamento de bárbaros nobres. No fim, eles tinham ido de encontro com eles.

A aproximação deles já era esperada, uma vez que um grupo de ruivos musculosos e altos estavam enfileirados, prontos para atacar. Entre eles, haviam mulheres de rostos pintados, armadas e de saias, que claramente eram as Guerreiras, seus rostos eram raivosos, muito parecidos com a aura de Valentina.

Então ele a viu, no meio daquilo tudo, na sua cabeça uma joia brilhava e suas calças traziam semelhança a menina que ele havia conhecido. Os dois trocaram longos olhares, assustados, surpresos pelas diferenças e similaridades que ainda tinham com o passado.

O ar no peito de Avalon foi solto de uma vez, sentiu as lágrimas em seus olhos e o desespero do rei de Catalan decidir atacar de uma vez. Ele estava exatamente do mesmo jeito que ela se lembrava, mas... parecia sombrio e cansado, reconhecia a expressão no rosto dele, deveria está com a mesma. Nenhum dos dois foi capaz de dizer quanto tempo demorou esse momento.

- Vamos acampar mais para trás... - Aires disse mandando alguns de seus homens ficarem, para assim ninguém dar as costas ao inimigo.

- Até, então... - Val disse ficando ao lado da amiga - Tudo como planejamos.

A princesa concordou e sentiu as pernas tremeram e o ar faltar em seu peito. Sentiu por um segundo de suas forças haviam sido sugadas e tudo que tinha sido deixado nela o medo de perder, só não sabia o que.

- Seus pais esperaram muito por isso... - o lorde Knightley disse tocando no ombro dela, sorrindo, verdadeiramente - Fique forte!

Aquilo não ajudou, mas sentiu que deveria dar um sorriso ao lorde. Foi algo claramente forçado, apesar de ter trazido satisfação a Knightley, que saiu assobiando por entre os soldados.

- Já disse que ele feliz me dá arrepios? - Marlon disse se aproximando da moça, ele carregava o bastão de metal - Não acho que seus pais estariam empolgados para isso...

- Ninguém está. - Val respondeu.

- Está pronta? - Avalon se virou para ruiva que deu um sorriso fraco - Se não quiser fazer isso...

- Eu quero! - ela disse mais alto - Só... só estou preocupada deles não aceitarem. Prefiro acreditar que a resposta simples vai funcionar.

- Deve se preocupar também com a própria segurança... - a princesa tocou no ombro da amiga e olhou para o acampamento de homens - Eu tenho mais planos... não quero que meu povo morra.

Marlon engoliu seco e pensou nos papéis que havia trazido dentro de uma bolsa na sua tenda e suspirou, ainda não era o momento para entregar aquilo para ela. Mas, Céus! Quando seria?

- Espere até amanhã... - Avalon disse abraçando a amiga -  Deixe o acampamento ficar pronto e eles se sentirem seguros. Quero deixar claro que quero batalhas limpas, nada de ataques supresas.

- E o novo rei? Será que também deseja isso? - Marlon cruzou os braços.

- Os Saeb e as Guerreiras estão aí para vigiá-los. - a princesa sorriu e pegou a mão do amado com força, ela estava tremendo. - Vamos tentar relaxar um pouco... em breve não teremos mais isso.

Sorrindo para Valentina, a princesa guiou seu amado até a sua barraca, no caminho viu Liam e Em brincando com as espadas, o garoto tinha feito uma arma decorada para amiga. Um dos seus melhores trabalhos.

- Acha boa ideia deixar esses dois aqui? - Marlon disse preocuopado quando ela entrou na barraca.

- Eles fazem parte do plano B. Desculpa...

- Enquanto Akanta? Você a deixou no castelo, não deveríamos tê-la aqui, se pretende usá-la como moeda de troca?

- Akanta tentaria fugir com o irmão tão perto, além disso, Aires atacaria sem pensar muito se a irmã estivesse muito próxima. Desse jeito, mantemos os ânimos menores... - ela mordeu o lábio de disse baixo - E eu não poderia garantir a segurança dela assim.

- O lorde Lillac queria está aqui conosco...

- O pessoal de Zaark tem que descobrir que existe um momento para descansar... - ela bufou - Eles realmente acham que deveríamos lutar com unhas e dentes até o fim da vida.

- Somos ensinados a fazer isso. - ele riu dando um beijo na cabeça da moça - Como era em Catalan?

- Netos eram um excelente sinal de que estavam na hora de evitar campos de batalhas. - ela sentou na rede improvisada e passou suas mãos na calça - Estamos quase no fim disso, não é?

- Estamos quase no fim disso.

No dia seguinte, Liam ajeitava a roupa formal enquanto observava a irmã limpar as botas antes de colocá -las. Apertou os lábios e tirou, no meio das poucas coisas que trouxe do acampamento, a capa prata da irmã.

- Acho que você ia querer usar isso hoje... - ele disse hesitante - Como representante da família real e...

- Use você, meu irmão... - Val sorriu pegando a roupa do irmão e colocando ao redor dele - Acho que combina mais com você!

- A capa é para marcar quem está no Conselho, irmã... - ele disse tenso.

- A capa era minha e eu escolho o que fazer com ela. - a moça disse sorrindo - Agora, deixa disso! Temos que ir!

Constrangido o menino colocou a capa sobre seus ombros e puxou o capuz sobre sua cabeça. Apertou os lábios e sentiu o peso do papel que Avalon havia entregado em seus dedos.

Saíram da cabana e viram os olhos de todos as pessoas tensas em sua direção. Mesmo que a missão fosse pacífica, havia uma chance deles não quererem nem ao menos que os dois se aproximassem e os acertassem, isso ia ser o suficiente para começar uma batalha.

Caminharam até a borda e encontraram Avalon com os dedos sujos de tinta, calmamente ela passou a tinta pelo rosto dos dois, com símbolos de paz e proteção. Ao terminar os abraçou e colocou um colar com o selo da família real em Valentina.

- Lembre-se de voltar. - a moça sorriu com tristeza.

Val riu e pegou a bandeira branca que Marlon segurava e depois a mão do irmão.

Do outro lado, os soldados de Catalan observavam a movimentação com um certo receio. Eles viram quando duas pessoas saíram do acampamento de Zaark e uma balançava uma bandeira branca, pediram para que Aires fosse chamado e olhasse a situação.

- Atacamos? - Darlan disse indo para o lado do primo.

- Eles estão com bandeiras brancas e é a Valentina. - ele disse esboçando um sorriso diante do cabelo ruivo familiar. - Vamos ver o que querem.

Aires fez um sinal para que os guardas abaixassem as armas e ficou mais próximo à barreira do acampamento para recebê -los.

- O que eles querem ao enviar a bárbara de volta? - o rapaz continuou ao seu lado.

- Talvez um estejam se rendendo? - o rapaz disse dando de ombros.

- Não acredita nisso, não é?

- Nem você. - ele disse suspirando - Pode ser um acordo ou termos para a batalha. Honestamente, não sei o que esperar de Zaark e a rainha. Afinal, ela matou um dos nossos, mas manteve minha irmã.

Antes que Darlan pudesse fazer um comentário, os dois bárbaros chegaram e a presença da ruiva sem as algemas causou um grande desconforto, além disso, ela estava ao lado de um rapaz. Na realidade, o rosto do menino revelava pouca idade, mas a sua estatura poderia ser de um homem.

- Vossa Majestade Aires é um prazer revê-lo. - Valentina disse fazendo um reverência e o ruivo indo logo atrás, meio constrangido - Meu irmão, Liam.

- Valentina... - o rei disse se mantendo no lugar, mas permitindo sorrir - Bom saber que você chegou na sua casa inteira.

- Estou com uma mensagem de minha rainha a você. - ela disse e o menino apresentou a carta.

- Rainha? - Darlan levantou uma sobrancelha - Já está coroada?

- Não, não até o fim disso. - Liam disse rapidamente e ficando vermelho em seguida - Senhor. Mas... ela é nossa rainha, no final.

Aires agradeceu com um gesto e pegou o papel nas mãos do garoto, sua mão tremia um pouco. O que Gayla iria falar com ele? Ou seria apenas a nova pessoa no corpo dela? Avalon não era nem de longe a pessoa que ele mais gostava no mundo.

Olhou para o acampamento inimigo e refletiu um pouco, ali no meio estava ela. A última vez que a viu, causou tanta confusão em seu corpo que não era capaz de pensar se tudo causava raiva ou tranquilidade. Bem, no final, ele precisava ficar tranquilo, não queria parece descontrolado para seus homens, nem triste.

Ele abriu a carta e encontrou a caligrafia embolada e familiar. Apertou os lábios para esconder o sorriso, respirou fundo e notou como os olhos estavam sobre ele quase de forma opressora. Tomou o fôlego e disse:

"Prezado Rei Aires de Catalan,
Honestamente, nunca escrevi uma carta oficial e não tenho ideia de como fazer o certo, então peço perdão para eventuais erros.
Enfim, olha onde chegamos? Nunca achei que estaria em uma posição como essa, ainda mais contra o senhor, mas aqui estamos. Não me sinto confortável e nem quero dar continuidade a essa loucura.
Seria tão fácil se eu simplesmente desistisse de tudo, contudo, tenho uma obrigação com o meu povo e todos que me esperaram para esse dia. Não posso correr o risco que mais dos meus morram injustamente."

Aires parou por um momento, aquelas palavras: meus e injustamente, saíram amargas pela sua boca e ele precisou limpar a sua garganta. Olhou ao redor e percebem a expressão estranha no rosto de Valentina.

"Sendo assim, gostaria de abrir um via pacífica para resolver tudo o que o ataque do seu pai causou em ambos os reinos. Não necessidade de mais mortes, nem gastos com batalhas, muito menos manter essa rixa.
Eu te conheço e você também a mim. Vamos aproveitar esse laço para sermos o que irá trazer paz!
Por favor, considere conversar sobre um tratado para acabar isso antes de começar! Isso ajudaria limpar o nome de Vincent. Lamento profundamente a morte dele.

Avalon II "

- Eu, honestamente, não acredito que ela tenha escrito isso. - Aires disse entregando a carta para Darlan que lia tudo em voz baixa mais uma vez.

- Isso é um absurdo! - Darlan gritou - Você viu que ela falou em seu pai? O homem que a criou e ela faz questão de abandonar?

- Na realidade... - a ruiva disse assustada e irritada pela reação do homem - Ela abandonou você!

- Não vamos tocar nesse assunto. - Aires suspirou e fez um sinal para o primo se calar, o rei estava vermelho - Eu dizia que não acredito que ela teve a coragem de falar isso! Nada disso! Sua rainha jogou toda a culpa em cima do nosso país... do meu pai.

Val e Liam trocaram olhares confusos e o garoto tomou coragem em dizer.

- Ela estava se referindo ao ataque supresa e sem sentido do rei Vincent.

Aires ficou mais vermelho, respirou fundo, mas percebeu que a expressão confusa continuava no rosto dos dois ruivos na sua frente. Não queria perder a postura.

- Meu pai disse que vocês não gosta de falar de história. - ele cruzou os braços - Desculpa, acho que vocês não devem saber mesmo do que estou falando, mas a sua rainha sabe, não é possível que vocês esconderam isso dela. Não acredito que Avalon escreveu esse texto. Voltem para os seus! A guerra vai continuar!

Uma onda de comemoração passou por entre os soldados enquanto os irmãos que engoliram seco e deram um passo para trás,  não queriam voltar com essa notícia. Assim que o barulho terminou, a ruiva começou a guiar seu irmão para fora e fez uma reverência para o rei, achou forças em si para sorrir e falar.

- Nada pessoal?

- Nada pessoal. - Aires concordou dando as costas para os ruivos.

Quando Avalon viu Valentina e Liam entrando no acampamento, conseguiu perceber que a guerra ia se manter. Com a cabeça a moça chamou os dois para dentro de sua tenda, pediu para Em buscar Aloïsia e entrou. Marlon, puxou uma cadeira para ela e colocou sua mão em seu ombro, buscando palavras de consolo.

Assim que todos estavam reunidos, ela olhou na direção de Val esperando uma explicação para tudo que havia acontecido.

- Ele leu a carta e ficou bem alterado. Eu não consegui entender direito o que ele queria, aparentemente, o novo rei tem em seu conhecimento o que fez o antigo nos atacar. Algo que você, Avalon, deveria saber.

- Eu? - ela franziu a sobrancelha - Isso foi o que fez ele não aceitar meu acordo?

- Sim. - Liam disse apertando os lábios e vendo o rosto pálido de Marlon - E acho que eu sei o que ele estava falando.

- Eu também. - Marlon soltou o ar - Devia ter te falado antes. Droga!

A princesa se levantou e olhou para o rapaz cego e depois para o garoto ruivo, assim como Valentina. A ruiva percebeu que Aloïsia apenas tinha fechado os olhos em uma expressão de dor.

- Então podem me explicar? - a moça disse por fim após um longo silêncio - Porque, tudo o que eu sei sobre o início dessa guerra é que Vincent atacou e me sequestrou e, honestamente, isso é loucura ainda para mim! O que mais tem nessa história?

Marlon bateu seu bastão duas vezes até as suas coisas e tirou alguns papéis e estendeu nas mãos de Avalon tudo. A garota passou os olhos algumas vezes e abaixou os papéis.

- Vocês só podem está de brincadeira! Isso é... isso... - ela se levantou.

- Onde achou esses papéis? - Aloïsia disse arrumando a postura.

- Você sabe, então! - Avalon disse irritada - Por que não me disse nada?

- Fiquei a base de juramento do seu pai e mesmo que ele esteja morto, tenho minha palavra. - ela se virou para Marlon mais uma vez - Onde você achou esses papéis?

- Não foi ele. - Liam disse - Achamos no quarto do lorde Knightley, eu e Em.

- Era para isso morrer ao longo dos anos. - ela concordou - Mas nada que esteja escondido que não venha a luz, não é?

Asterin negou com a cabeça e saiu da tenda quase correndo, os nobres que estavam do lado de fora se assustaram e a observaram a medida que a moça corria olhando ao redor. A tia da princesa foi logo atrás, a chamando, enquanto Valentina pegava os papéis para entender o que estava acontecendo.

- Vocês estão de sacanagem! - a ruiva disse quando terminou de lê - Isso é...

- Horrível. - Marlon concordou - Não foi Vicent que começou a guerra, foi Eric e Aran.

Nesse momento a moça encontrou o lorde afiando sua espada e um sorriso abriu em seu rosto, mesmo que contido.

- Minha princesa, a guerra ainda está de pé?

- A sua guerra? - ela disse se aproximando - Sim, Aires não quis perdoar o assassinato da mãe e irmã mais velha!

O lorde soltou a espada e suspirou levantando. Aloïsia alcançou os dois e viu os olhos do homem irem na sua direção.

- Sua tia quebrou o voto?

- Não. - ela bufou - Duas crianças acharam os documentos. Planejava me contar? Acho que é importante saber que o senhor e meu pai mandaram assassinos atrás de Cordelia e Aurora.

- Era só atacar Cordelia. - ele suspirou - Íamos sequestrar Aurora. Acha que somos o que para matar uma criança com o nosso sangue? Eu não te contar, Catalan mexeu com a sua cabeça, não entenderia.

- Então admite que é responsável pela morte das duas... - ela negou com a cabeça - E que o ataque de Vincent foi uma resposta de retaliação ao seu ataque!

- Não, isso não. - ele viu uma plateia se formando - O rei Vincent junto com Cordelia enganou a todos nós! Temos leis bem rígidas sobre o casamento entre sangues, na nobreza isso é considerado traição! Cordelia era uma de nós, mas se casou com Vincent, traiu seu sangue e reino! Você leu as leis, estávamos apenas cumprindo o que deveria ser feito.

- Estavam cumprido um punhado de papel velho e com leis confusas! Havia outras formas de resolver isso e você preferiu tirar um vida ou melhor duas!

- Eu? Seu pai concordou comigo! - o homem bufou - As outras nações cedo o tarde receberiam a notícia sobre nosso pequeno deslize e logo, íamos ficar fracos e doentes diante de todos. Precisávamos deixar claro que Zaark era forte e continuaria assim, foi algo limpo. Apesar da cena que mandamos montar para que Vincent encontrasse a esposa e soubéssemos que nós não tínhamos gostado.

- Que cena?

- Não acho que seja pertinente te contar.

- Que cena? - ela insistiu apertando os lábios.

- Mandamos cortar a garganta dela e deixar o sangue espalhar pelo chão. - ele não conseguiu encarar mais a princesa - E pendurar ela na parede.

- Fizeram isso com Aurora? Ela tinha menos de sete anos.

- Sim.

Um silêncio passou entre os dois, como se a imagem das duas naquele estado invadisse completamente a mente deles. Respiraram fundo ao mesmo tempo e, então, se olharam.

- Quem mais sabe?

- Sua mãe. - ele deu de ombros - Não queríamos que isso se expalhasse. Apenas...

- Um lembrete. Isso causou treze anos de guerra! Um sangue igual ao nosso! O derramamento inicial foi entre nós! - ela gritou - Não me diga que essa guerra é sobre isso. Sobre sangue.

- Toda guerra é sobre isso. - ele deu de ombros - A nossa é sobre lealdade a esse sangue, a nosso poder e força!

- Estou lutando, então, por toda aquela loucura de que o sangue dourado é o melhor?

- Sim. Sangue de dragão não se mistura.

Avalon sentiu lágrima escorrendo pelo seu rosto. O ar não entrava em seus pulmões, começou a sair dali, mas parou para dizer, ainda que de costas, ao lorde.

- Da próxima, eu vou conferir sobre o que é uma guerra antes de me envolver.

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