Capítulo 59

- Quem teria colocado acônito na comida de Akanta? - Val disse cheirando a sopa mais uma vez - E como raios você sentiu esse cheiro?

- Sabendo que está aqui... - a moça disse cheirando mais uma vez - De fato não é o veneno mais discreto, contudo, nunca teria pensado em cheira minha comida em busca de veneno.

Marlon não disse nada, apenas suspirou. Uma ordem de sua princesa não foi cumprida devidamente e causaria um estrago irremediável perante a guerra. Ele estava irritado, como nunca havia ficado na vida.

Pediu licença para as moças e ignorou os protestos de Valentina, caminhou decidido pelos corredores do castelo, até um lugar onde não conhecia direito os caminhos. Respirou várias vezes para se acalmar e pediu ajuda de Oto. Levou mais tempo do que deveria para encontrar o lorde Lillac, tomando chá calmamente em um dos jardins de inverno.

- Como foi a visita com a minha neta? - o homem disse animado.

- O senhor realmente não se importa que o seu sangue se tornou parte do sangue de Catalan? - Marlon disparou, ainda distante do homem.

- O que você quer dizer com isso?

- Você realmente gosta de Akanta?

O lorde franziu as sobrancelhas, não conseguia compreender esse interrogatório acalorado de Marlon, mas conseguia perceber a seriedade, a qual ele fazia essas perguntas e o quanto estava incomodado pela falta de respostas.

- Já perdi uma filha, meu caro. - o lorde sorriu - Uma filha que era tudo para mim. Minha neta é tudo o que eu tenho dela, ainda que brevemente. Já que... muito provavelmente, nossa rainha vá devolve-la para Catalan. Eu a amo. Espero que Akanta entenda isso.

Marlon suspirou concordando, pareceu hesitante a princípio, até que suspirou e pareceu ficar mais atento ao redor.

- Tentaram assassinar ela hoje.

- O que? - o lorde disse se levantando assustado - Minha neta está bem?

- Não cause alvoroço... - Marlon disse, ainda em tom calmo - Precisamos ser racionais. Ela está bem... colocaram acônito na comida dela. Senti o cheiro e impedi ela de comer... a questão é quem fez isso?

Arthur ficou gelado no lugar, tentando imaginar quem teria a ousadia de ir contra uma ordem da princesa, principalmente, uma tão clara quanto a que ela passou. Ele apertou os lábios e estremeceu.

- O filho da mãe do Aran... - ele soou derrotado e cansado - Quando eu colocar minhas...

- Não temos provas. - Marlon cruzou os braços - A única pista que eu tinha, que era o acônito, levava até você naquele dia no vale. Não podemos simplesmente acusa-lo.

- Então ele vai ficar impune?

- E, quando perceber que não deu certo... - Marlon disse suspirando - Vai tentar de novo. Esse homem é...

- Sim... - Lillac disse bufando - Apesar de termos o mesmo gênio difícil, a posição social de Aran ajudou a criar um homem que não entende a palavra não. Temos que proteger minha neta!

- Temos que fazer ele se incriminar. - Marlon suspirou - E, talvez, eu tenha uma ideia. Talvez... o acônito pode ter sido colocado em uma quantidade pequena e...

- Teria que ser mínima... por mais que o corpo de Akanta fosse forte...

- Exatamente! - Marlon disse rindo e saindo do quarto, deixando um nobre para trás confuso.

Enquanto isso no deserto, Asterin havia dormido ao lado do dragão, sentido o calor gostoso que vinha dele. Naquele lugar, sob as estrelas e toda aquela mágica, seus sonhos eram todos envoltos em corridas de cavalos em longas pradarias, caminhadas com lobos, lutas com fadas, vôos com dragões, guerras de clãs, coisas que deveriam fazer parte da memória de seu povo e sua terra.

Acordou, descansada como nunca antes. Não quis se afastar do animal e se manteve em um longe e reflexivo silêncio. Os dedos delas caminhavam pela escama de dragão, a textura era capaz de cortar seus dedos e a cor contra a luz do Sol, atrapalhar sua visão.

- Ele é algo incrível! - Aloïsia disse sentando ao lado da moça.

- Parece que ele... - a moça olhou nos olhos do animal, cheio de sabedoria e serenidade.

- Que ele sabe mais profundamente sobre si do que qualquer outro?

- Sim...

- Ele guarda os segredos de séculos de Zaark. - Aloïsia disse passando a mão nele - Fiquei como você na primeira vez que o vi. É como voltar para casa...

Asterin concordou, era como se reconhecer dentro de outro ser, saber quem era e para onde iria depois dali. Sorriu.

- Como criaturas tão maravilhosas foram usadas em guerras? - a moça não se conteve de perguntar.

- Celina e o dragão tiveram algo muito raro de acontecer. Antigamente, esse tipo de ligação era cultivada pelo povo tradicional, mas isso se perdeu com o tempo.

A princesa concordou maravilhada e sorrindo abertamente, sua tia a observou durante um tempo e, então tomou coragem.

- Sobrinha, preciso te fazer uma pergunta. - os olhos das duas se cruzaram - Você deseja mesmo ser rainha?

O choque percorreu o rosto da moça e estranhamente não tinha a resposta pronta em sua boca, como gostaria. Sentiu o dragão observa-la e, junto a ele, todas as suas ancestrais. Foi pesado e libertador.

- Me perguntaram a mesma coisa quando tinha a sua idade... e... acho que você já sabe a resposta. Não há vergonha nenhuma em não querer fazer o que esperam de você!

- Eu...

- Estou te perguntando isso por tradição, mas também, porque quero que seja feliz e... uma vida de rainha é algo tão sofrido... - ela disse apertando seus ombros - E... existe uma vida para além disso.

- Tia... - ela a interrompeu - Ser princesa, general ou qualquer uma dessas coisas estava longe de ser um plano meu. Queria... só continuar as coisas como estavam. Ser guarda ou camponesa.

- Se camponesa ainda é uma opção. - Aloïsia cruzou os braços - Então, como vai ser?

Asterin sentiu o calor do animal fantástico em seus dedos, próximo de queima-los. Ela não pediu para ser rainha, não desejava viver no meio de riquezas e joias, muito menos que decisões tão importantes recaissem em suas mãos e, principalmente, odiava a ideia de ter que lutar contra seus familiares, ou aqueles que ela havia considerado, durante sua vida toda. Com tudo isso em mente, ela respirou fundo e disse:

- Posso responder depois?

Aloïsia concordou e deu espaço para a sobrinha, que voltou seu carinho no animal.

- Você deve ter visto rainhas mais qualificadas do que eu... - ela sussurrou, mas veio um pensamento de que ele havia visto rainhas piores também - Não quero ferrar com tudo, mas... não quero que façam isso por mim.

Suspirou e tentou se tranquilizar a medida que a imagem de Celina, tão parecida com ela, ainda hesitava diante a morte dos seus iguais. Atacar o reino opressor, assumir uma viagem para algum lugar, se declarar rainha, mesmo que muda, esconder seu dragão, todas as decisões difíceis que já teve de tomar, nenhuma delas era seu desejo e mesmo assim não hesitou. Afinal, ela tinha o que ninguém tinha em cada ocasião, obrigando-a seguir um caminho único.

- E o que eu teria de especial? - assim que essas palavras saíram da boca dela, Avalon soube o que fazer."

Vejo a nossa contadora de histórias bocejar, já estávamos no meio da noite e não tinha dormido quase nada na noite anterior. Pensei em pedir para que ela voltasse amanhã, contudo, o rapaz ruivo estava irritado com o fato deles precisarem está em algum lugar distante quando o dia estivesse no seu ápice.

- Vai desistir agora? - o rapaz ruivo disse rindo. 

- A história vai prosseguir... - ela suspirou, contar a história pela noite tinha tido um custo para ela. 

" - Desculpa chamar os senhores... - Marlon disse sentando na mesa do Conselho, se ele fosse capaz de ver, perceberia os olhos bravos dos homens que não gostavam de ser incomodados - Mas temos algo urgente para conversar. 

Valentina tentou, mas não conseguia disfarçar sua raiva contida direcionada para o lorde Knightely, o qual mantinha a mesma expressão de desinteresse e prepotência, enquanto o lorde Lillac não encarava o amigo de longa data. Ambos se questionavam como Marlon teve a frieza de cumprimentar o homem com tanta amabilidade, fazendo a sua parte no acorde de fingir que nada estava acontecendo.

- Akanta está muito doente. Não está conseguindo manter nenhuma comida em seu estômago, febre muito alta e sua pele está enchendo de erupções. Temo que isso seja algo contagioso. 

Ninguém, tirando Marlon, percebeu que Knightely respirou aliviado, o futuro príncipe regente teve que segurar o sorriso, talvez não fosse tão difícil fazê-lo falar ou se contradizer. 

- Contudo, temos que mantê-la viva... 

- O que você quer dizer? - um dos nobres disse já desconfortável com aquela notícia e se preparando para o pior. 

- Que nossa rainha deixou uma ordem clara de manter a menina viva até o seu retorno. Se ela morrer, seja por descuido nosso, por determinar isso ou por doença, será desobediência, não lembro da última vez que um nobre fez tal ato, mas acredito que exista uma punição. 

- Existe. - Val disse tentando controlar a própria respiração nervosa - Normalmente envolve uma grande humilhação pública e exílio. 

- Mas a princesa pode decidir de aplicar isso ou não... - outro lorde disse com uma calma falsa.

- Entre nós e a garota que cresceu com ela? - Val disse levantando uma sobrancelha - Não podemos esquecer que ela foi durante muito tempo família dela, isso não se apaga de um dia para o outro. 

Um silêncio desconfortável passou por entre a nobreza, talvez fosse bom eles tomarem algum tipo de atitude, nem que fosse para falar que haviam tentado salvar a garota. Mesmo assim, queriam manter seu exercito e a si mesmo a salvo e não tinham ideia de como manter aquela doença contida no quarto, juntamente a cuidar da princesa estrangeira. 

- Bem... - Valentina disse suspirando - Eu passei muito tempo com  ela esses dias, se alguém tiver que acompanha-la dentro do quarto, vai ser eu. Se for de fato contagioso, devo já está infectada. Contudo, terei que cortar a minha circulação de dentro do castelo, precisamos que alguém envie remédios e comida. 

- Eu faço isso! - o lorde Lillac disse suspirando profundamente - Ela é tudo o que me restou da minha filha, desejo profundamente que a sua vida seja preservada. 

- Então... - Marlon disse  calmo - Temos tudo resolvido. 

- Os nobres, cavaleiros e soldados que preferiram dormir fora do castelo...? - o lorde Knightely se limitou a disser nessa reunião. 

- Acho desnecessário, transferir as pessoas, que se sentem desconfortáveis, para alas mais afastadas do castelo... - Marlon deu de ombros - Claro que se a doença se espalhar demais, talvez tenhamos de tomar medidas mais drásticas, mas não queremos que chegue nisso. 

- Claro... - disse levantando - Já acabou? 

Marlon, sorriu e escutou as pessoas saírem uma por uma, até ficar sozinho com Oto em seu ombro. Puxou o ar para seus pulmões e soltou devagar, achou engraçado como ninguém percebeu seu tremor, colocando a mão na frente do corpo, tentando se acalmar, respirou fundo mais uma vez. Sentiu falta da sua companheira e percebeu o quanto deveria ser difícil para ela esse papel, a ideia em si era bem diferente de está no lugar dela. Chegou a conclusão que quando ela voltasse, a seguraria mais forte a noite, tentaria escutar mais seus problemas e, talvez, tomasse mais a frente das situação, o fardo tinha que ser dividido. 

Já calmo, o rapaz se guiou para fora da sala e foi se guiando para seu quarto, vazio e frio sem ela. Pronto para qualquer coisa que poderia acontecer diante a sua ação de agora pouco. 

- Sabe que isso não é recomendado... - a voz familiar do lorde Knighley soou em seus ouvidos e, logo, seus passos estavam pareados com os seus. - Manter todos nós em um castelo fechado... 

- Disse que poderiam fazer o que acham melhor, mas gostaria que o castelo continuasse sendo o nosso refúgio. - ele disse ouvindo Oto piar em tom de ameaça - Por que me emboscar? 

- Não estou te emboscando... apenas quero ajudá-lo. 

- Me ajudar? 

- Marlon, você não tem visão. - essa foi dolorosa e desnecessária - Não foi criado para ser governante, nem você, nem Avalon, temo pelo país que você e sua amada estão tentando manter com boas intenções. Acho que a falta  de seus olhos o tornou com um bom senso mais apurado, então, vai me escutar... 

- E o que você tem a me disser, lorde? - ele parou de caminhar bruscamente e cruzou os braços, nesse momento, Aran não conseguiu disfarçar o medo que sentiu diante ao tamanho do rapaz.

- Finja que está cuidando da princesa estrangeira. Não maltratar, nem acelerar seu processo de doença, mas polpar remédios mais caros para nossos soldados quando a guerra começar. - o lorde disse observando o rosto neutro do rapaz na sua frente - Olha, a presença de Akanta aqui, só dificultará para Avalon quando a hora de tomar uma atitude mais séria chegar. Vamos apenas deixar o Criador decidir isso sozinho... 

Marlon torceu a boca, suspirou e concordou com a cabeça. 

- Mas isso fica entre nós! - o cego voltou a caminhar em paz para seu quarto. 

- O que for do seu desejo, meu senhor! - o lorde Knighley não aguentou não abrir um sorriso. 

Marlon fez o mesmo quando, após acender a lareira do quarto, ouviu a respiração dos seus misturada. 

- Ele mordeu a isca! 

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