Capítulo 53
A porta se abriu e a garota que cresceu com a princesa a vida toda entrou. Ela estava bem diferente a imagem do dia passado na floresta, ainda magra e com os olhos cansados, mas estava bem vestida, um belo vestido branco com uma coroa delicada na cabeça, ela carregava uma bandeja de comida para dois e sorria um pouco forçado. Akanta não sabia o que pensar.
Primeiro, ela tinha sido facilmente derrotada por um cego, que não só a imobilizou, mas se responsabilizou de levá-la até os calabouços debaixo da terra. Frios e úmidos a moça deve ter ficado neles durante duas horas no máximo, para em seguida ser guiada a um quarto no castelo por dois soldados, deixando-a trancada sozinha ali com uma banheira quente e comida na cama.
O local havia sido, claramente, preparado para ela. As gavetas estavam em sua maioria vazias, com no máximo roupas mais simples, sem nenhum objeto pontiagudo, nem mesmo o espeto para revirar a lareira. Bufou, talvez pudesse ser criativa ou... ou a comida estava envenenada e eles estavam contando que nem desse tempo para ela ser criativa ou...
Ficou um bom tempo assim até que uma moça ruiva abriu a porta, viu a água quente já quase na temperatura ambiente e a comida fria na cama. Riu, enquanto pegava um pedaço de carne e um corpo de cerveja e comia na frente de Akanta, dizendo que era melhor ela aceitar as gentilezas de Avalon, pois não tinham maldade nenhuma nelas. Foi só quando a moça tinha ido embora que ela a reconheceu como Valentina, foi sua vez de ri. O mundo e suas voltas.
Mesmo que ela tivesse sido mais bem tratada do que estava esperando diante da notícia que Gayla havia matado Alec, ela não esperava uma única coisa boa diante ao almoço servido pela própria em seu quarto/prisão.
- Onde prefere? - Asterin disse olhando para a cama e em seguida para a mesa.
- Mesa... - a princesa disse se levantando e ajeitando as saias leves demais para o seu costume.
Com cuidado a monarca que entrou no quarto arrumou a mesa com os pratos de carne e legumes fumegantes e ajeitou os copos de suco adocicado com mel para as duas, puxou a sua cadeira e sentou na mesa com uma delicadeza, a qual Akanta não imaginou que ela tivesse.
- Vestida assim você me parece bem mais uma menina de Zaark do que de Catalan. - Asterin observou dando um gole em seu copo.
- Você nunca pareceu com alguém de Catalan. - Akanta disse por fim sentando na sua frente - Acho que finalmente achou seu lugar.
- Quem me dera se fosse tão simples. - ela bufou.
- Bem... assumiu essa guerra de modo tão fácil, acho que deve está com raiva do que meu pai faz a você e sua família.
A princesa bárbara abaixou a cabeça e brincou com a batata com o garfo, seu semblante ficou triste por alguns minutos.
- Como ele morreu?
- Não foi tranquilo... estava uma confusão na hora e... o coração não aguentou.
- Sinto muito.
- Para você também. - as duas se olharam por um momento, deixando esse sentimento crescer no peito até quase sufocar - O que pretende fazer comigo?
- Nada. - Asterin colocou um pedaço de carne na boca - Prometi a Caleb que a manteria segura.
- Não deve nada a um guarda de seu inimigo.
- Sim, mas devo muito a um antigo amigo. - ela olhou para fora e suspirou - Akanta, eu quero esquecer tudo o que aconteceu na minha vida. Seria mais fácil agradar meu povo e ganhar essa guerra assim, mas... não dá para apagar o passado.
- Isso é tolice, você sabe.
- Sim, mas eu não consigo ser objetiva como você. - ela riu - Não esperava uma facada.
- Eu não esperava que o cego me impedisse.
- O nome dele é Marlon. Disse para vim te visitar, mas atualmente ele está com muita raiva para vim.
- Estão juntos?
- Sim... - Asterin abriu um largo sorriso - Acredita que eu arrumei tempo para namorar nessa bagunça?
- Bem, eu também, então...
- Caleb?
A princesa estrangeira sorriu fingindo constrangimento, as duas riram e pareceu por alguns segundos que nada estava diferente, logo elas sairiam do quarto, encontraria os rapazes e seguiriam com suas obrigações diárias. A guerra existia, mas era algo distante, Gayla não fazia parte da corte, mas era bem vinda.
- Como as coisas ficaram assim? - Asterin disse com um suspiro.
- Catalan... Zaark... sempre foi assim só... não estávamos participando. - ela suspirou - Nossos pais deixaram uma herança de guerra que temos que seguir. Mesmo não sendo do nosso desejo, não é...
- Pessoal. - Avalon concordou distante.
- Não queria de esfaquear, verdadeiramente. Quer dizer eu queria, isso ia acabar com Zaark e enfraquecer a nobreza, talvez vingar meu pai ou... provar alguma coisa, mas... nem sei o que te dizer.
- Não precisa. - ela deu de ombros - Honestamente, eu não sou a pessoa mais indicada nessa função, talvez se tivesse me matado estaria fazendo um favor a Zaark.
- Não acho. Você sempre teve um senso de dever bem maior do que Aires e uma vontade de proteger as pessoas que poucos têm, estou surpresa em saber sobre a morte de Alec.
- Me arrependo.
- Não deveria. Ele era um babaca! Sempre achei exagerado a maneira que ele agia aqui. Faria o mesmo.
- Não foi uma decisão minha... quer dizer, foi, mas eu escutei os outros, não a mim.
- Temo que Aires possa está errado assim também. Darlan está puto com você.
Asterin deu de ombros.
- Um dia pensou que ia conhecer o lugar que sua mãe cresceu? - a bárbara mudou de assunto.
- Sim, mas não dessa forma. Talvez como filha do homem que conquistou essas terras... - ela sorriu - Nem sei o que é pior.
- Zaark é linda! Acho que me apaixonei por tudo aqui, o povo, a cultura, tudo... mas tem seus problemas.
- Minha mãe era daqui, mas eu nunca vou ser considerada parte disso por ser... vermelha. Conheço essas leis de segregação.
- Eu não consigo entender isso.
Akanta observou a princesa por alguns instantes, sim ela havia mudado muito desde o dia que viu a garota correndo para a floresta, mas ainda tinha algo ali, lutando para aparecer mais uma vez. Suspirou, enquanto terminava o suco e cruzava os braços se jogando contra o encosto da cadeira.
- Talvez... seja por você ter crescido em Catalan. Não dá para esquecer, certo?
A moça abaixou a cabeça e sorriu com tristeza.
- Não podemos apagar o passado. - ela levantou a cabeça - Nem desligar quem somos ou quem faz nossa herança. Acho que você tem que conhecer alguém.
A princesa se levantou e disse algo para os guardas que vigiavam a porta de Akanta, se virou e sentou no sofá sem querer dar mais satisfações. Cruzou suas pernas e se encostou com um olhar perdido e uma expressão quase de contemplação.
- Tem uma falha no teto... - ela riu apontando para cima.
Akanta olhou na direção que a menina apontava e viu os desenhos elaborados de gesso. Tinha passado um tempo tentando entender o que era todos aqueles símbolos e animais, não entendia o que a outra estava dizendo.
- Esse teto conta a história do clã Lillac. Aqueles dois cervos são Will e Liam, Will foi o primeiro lorde Lillac e Liam o primeiro príncipe consorte, a falha do teto e o animal com a flecha no ombro. - ela olhou para Akanta - Ninguém se feriu na saída de Vahall. Pelo menos nenhum dos gêmeos.
- Como você tem certeza?
Avalon sorriu e apertou os lábios, talvez a falha estivesse na história, não no teto criado um pouco depois dela acontecer. A porta foi batida com suavidade e a garota do sofá se levantou a abrindo com cuidado, viu um homem apertando as mãos nervosos, riu baixinho e disse que ia ficar tudo bem o puxando com leveza para dentro do quarto.
- Akanta, esse é seu avô, Arthur Lillac.
O lorde Lillac quase deixou as lilases caírem no chão, engoliu seco e viu a cópia de sua filha falecida se levantar da cadeira. A pele era do mesmo tom vivo e dourado, o cabelo do mesmo brilho prateado e os olhos da mesma cor das flores, até o caimento do vestido azul e a postura confiante era a mesma.
- Oi... - foi tudo que ele foi capaz de dizer - Desculpa, mas eu não esperava que...
- Eu fosse tão parecida com a minha mãe? - a menina sorriu cruzando os braços e sorrindo de canto de boca.
- Sim... - ele bufou, dando um passo em frente - Eu queria te dar algo, mas não sabia o que. Nem se eu poderia trazer algo... eu sei que é bobo, mas... mas é a flor da família e toda vez que um Lillac nasce levamos isso ao bebê. Não pude fazer isso para você e Aires, Aurora ainda nos visitou antes...
- Achei que eu não era parte da sua família... eu sou vermelha.
- Aurora também era, mas continua sendo minha neta. - ele disse insistindo com as flores.
Akanta olhou para o senhor na sua frente, franziu as sobrancelhas, pensou em contestar sobre o sangue da irmã, mas percebeu que nem se lembrava do rosto dela, quem dirá um detalhe desse. Sorriu e pegou as flores com cuidado.
- Obrigada.
- Akanta... - o avô sorriu - Um nome bem diferente, igual a Aires.
- Aires literalmente significa príncipe herdeiro. - a moça riu - Mamãe queria nomes diferentes, mas todos iniciados com A. Aurora foi o único nome escolhido pelo meu pai e foi pelo horário que ela nasceu.
- E o seu?
- Espinho. - ela deu de ombros - Nunca tive a oportunidade de perguntar a minha mãe o motivo.
Nesse momento foi que os dois perceberam que Avalon havia saído do quarto, sabe se lá quanto tempo. Riram sem graça e a garota ofereceu a cadeira a sua frente.
- Então, vovô... - aquilo era estranho - Como era minha mãe? Papai falou tão pouco dela.
- Uma luz no mundo. Gentil, mas prática. - ele disse com um sorriso triste - Praticidade era algo ligado a avó dela, os Lillac são... orgulhosos acima de tudo e isso gera inimigos, antipatias e muitas dores de cabeças desnecessárias. Mas é complicado não ser assim...
- Orgulho... ser mulher em Catalan e ter isso gera muita frustração. - ela bufou - Se eu crescesse aqui, talvez eu deixasse isso florescer em mim.
- Não... isso é um defeito sério. Inclusive, um defeito sério de Zaark como um todo! - ele suspirou - Precisei que minha filha nascesse vermelha para compreender o nosso preconceito com o resto do mundo é bizarro. Sofremos no passado pelo nosso sangue, mas isso não justifica...
- Não justifica?
- Transformar o diferente em possível inimigo ou ser humano inferior. - ele olhou para a janela - Fiquei tão feliz quando minha filha casou com um príncipe, aquilo seria a melhor vida possível para ela e... Cordelia era tão apaixonada por Vincent. Tenho cartas dela, me escrevia todas as semanas desde que sua avó morreu.
Enquanto isso Asterin ia até seu quarto, sua respiração estava descompassada e seu peito pesado, quando, enfim estava com a porta do quarto fechado correu para abraçar Marlon, o qual estava de costas, com um livro na suas mãos. O rapaz riu e apertou os braços dela com leveza.
- Deu tudo certo com Akanta?
- Sim... - ela respirou o cheiro dele e sorriu - O que você está fazendo com um livro?
- Você estava lendo isso? - ele disse - Só estava curioso.
- Sim, são os livros que Aloïsia pediu para eu ler. Ainda não acabei nenhum, mas... sei alguma coisa ou outra sobre meu país. - ela disse o soltando - Não consigo ainda levar a sérios as lendas de Zaark.
- Tudo bem... - ele riu - Quando você ver uma fada ou duende de verdade, pode ser que você comece a acreditar na magia do mundo.
- Coisas assim seriam usadas em guerras. Prefiro que não existam.
- Coisas assim são seres vivos com vontades próprias. Podem decidir por si só não se envolver nas brigas humanas, como fazem. - Marlon disse dando um selinho nela - Mas você tem um bom argumento... escuto cavalos lá fora.
Franzindo a sobrancelha, Asterin andou até a janela para ver Aloïsia descer do seu cavalo de guerra com mais Guerreiras chegando aos poucos. Blair, de cabelos trançados, falava alguma coisa com sua senhora, a qual não tinha uma expressão amigável.
O lorde Knightley foi recebê-la e ela acertou o punho em seu rosto.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top