Capítulo 32
Liam foi até a cidade, aquele seria o último dia de festividades e ele sempre gostava de ver como a população tinha se organizado. Como o dia tinha iniciado, não havia muitas almas vivas na rua, mas a fogueira acessa na última noite havia deixado cinzas na praça central, as flores silvestres ainda estavam enfeitando cada canto do lugar e até um resto de comida estava nas mesas por todos os lados. Ele sorriu, ajeitando a capa prateada de Valentina no corpo, era a primeira vez que passava por aquelas festas sem ela.
Meio sem jeito ele puxou seu cabelo para trás, mais alguns meses e ele poderia começar a prender os cachos ruivos em um pequeno rabo de cavalo. Se permitiu imaginar mais velho, de cabelo comprido e barba, como seus familiares mais distantes. Será que seu pai tinha um estilo parecido?
- Garoto... - uma mão tocou seu ombro.
Se virando o rapaz encontrou os olhos de Alec, engoliu seco e deu um passo para o lado. A porcaria do havia marcado o seu rosto? Bem... ruivo e muito alto, talvez não fosse tão difícil.
- Olá, senhor.
- Sua irmã, ainda não voltou?
- Não... - ele engoliu seco - Ela teve que ficar mais tempo com a família, passar por essas festas por lá.
- Isso é bom... - ele olhou o garoto de cima a baixo - Ficou mais forte?
- Estou treinando. - ele se encolheu um pouco, engolindo seco.
Alec concordou com um sorriso nos lábios, aquele moleque seria um soldado valioso, teria apenas convencê-lo de largar de Zaark, mas nada que umas moedas de ouro não bastasse, além disso, tendo o menino em suas mãos poderia conquistar mais facilmente sua irmã. Iria dizer algo, mas o barulho de vários cavalos vindo chamou a atenção de todos.
Aquele som não era de um pequeno grupo vindo, estava tão alto que mesmo não sendo capazes de ver os animais, eram capazes de distinguir o barulho de uma cavalaria de guerra. Por um momento o homem temeu que Zaark estivesse reagindo antes de hora, mas o que ele viu fez querer que aquilo acontecesse.
- Merda... - Alec disse torcendo o nariz e saindo correndo, tinha que enviar uma mensagem.
Enquanto isso Liam ficou parado, maravilhado com os vários cavalos que atravessavam a praça, eram enormes e bem lustrosos das mais diversas cores, em cima deles, mulheres das mais diversas e armadas de cima a baixo, estavam se dirigindo a estrada abandonada que dava ao castelo de Zaark. Eram as Guerreira que finalmente voltavam para o berço em que foram fundadas!
Para Aloïsia era estranho voltar para o local em que nasceu, após anos a pequena estrada de terra que levava da cidade até o castelo tinha ficado menor pela falta de cuidado e os rios cristalinos vazios, mesmo com o clima quente, só que aquele vento batendo no seu rosto, carregando aquela aura, parecia que ela nunca tinha ido embora.
Vendo as velhas árvores, a grama verde e o Sol por entre as copas, se lembrava de sua juventude ali, caçando com seus amigos, perturbando seu irmão mais novo e se preparando para um reinado que desistiu de ter. Parou em frente ao castelo, em frente ao seu antigo lar, percebeu algumas janelas quebradas e o pátio da frente sujo, mas nada mais que indicava seu abandono.
Desceu do cavalo e chamou Blair e mais duas de suas moças mais próximas para acompanhar, mandou o restos das meninas se prepararem para acampar. Seu coração estava batendo muito forte e rápido, sentia que sairia de sua boca, a medida que se aproximava da entrada, abriu a porta e sorriu, apesar da sujeira, tudo estava exatamente como sempre esteve.
O chão adornado, as paredes pintadas e com relevos de ouro, as várias tapeçarias e os animais de ouro no teto, representando cada governante que o país já teve. Parou para procurar a joaninha da mãe e o puma de seu irmão, sentiu uma dor no peito, até então não tinha prestado as devidas homenagens aos mortos.
- Puta merda! - uma voz no alto da escadaria soou mais alto naquele lugar vazio.
Os olhos azul bem escuros da moça desceram, encontrando o lorde Knightley de boca aberta e olhos arregalados, deu um sorriso torto e cruzou seus braços sobre seu único seio. Como ele havia envelhecido! Imaginava que era isso que o homem estava pensando também. Doce engano, o homem não conseguia ver as linhas de expressão que o rosto dela ganhará, nem poucos fios brancos no cabelo preto, ele só via a mulher que assombrava seus sonhos e pesadelos.
- Ora, ora Aran. - ela disse rindo - Quando tempo!
Logo depois mais pessoas iam aparecendo e por onde eles vieram, a mulher percebeu que deveriam está na sala do Conselho, entre eles um rapaz muito parecido com Aran surgiu, tão branco quando ele. Ela sorriu, da última vez que o viu ele era um garotinho pequeno e magro.
- Kay! - ela disse abrindo os braços - Venha cumprimentar a tia.
- Aloïsa? - o rapaz disse gaguejando e descendo as escadas devagar - O que...?
- Espera! - ela disse o interrompendo e pegando algo da sua bolsa - Antes do que qualquer pergunta, gostaria de saber como minha sobrinha parou aqui.
A mulher mostrou o cartaz com o rosto de Avalon estampado, o rapaz terminou de descer a escadaria correndo e pegou o papel da mão dela.
- Então eu estava certo! - o rosto dele se iluminou - Ela é Avalon!
- Aparentemente... - a moça riu colocando a imagem da moça ao lado do rosto para mostrar a semelhança - Ainda preciso conversar com ela, mas... tem uma chance grande!
- Onde você esteve? - a voz do lorde Lillac disse enquanto torcia o nariz.
- Isso importa? - a moça ajeitou a postura e levantou o queixo - Agora estou aqui.
- Vai participar da guerra? - Aran disse descendo as escadas também.
Os olhos da mulher foi do lorde para Kay, ela suspirou e disse suavemente:
- Apenas se minha sobrinha voltar dos mortos.
O dia foi passando e, na pequena cidade onde Asterin estava escondida, começava a se preparar para festa bem antes do que qualquer outro dia, porém a moça só conseguia ficar com a mão na cabeça, resmungando baixinho.
- Isso que dá beber esse tanto! - Marlon disse puxando ela para perto de beijando seus cabelos, nas mãos tinha um copo - Minha mãe disse que isso vai ajudar.
Tinha um cheiro esquisito, mas a moça não questionou, apenas virou o copo e procurou a senhora com os olhos, agradecendo com um leve abaixar de cabeça. A mulher sorriu e voltou as suas atividade de construir várias coroas de flores.
- Estou me sentindo péssima para não ajudar. - ela disse infeliz - Deveria ter escutado você e parado de beber.
- Fique tranquila... - ele disse sentando na rede ao lado dela a abraçando - Essas tarefas estão divididas desde sempre e eles consideram uma convidada, no fim você estaria aqui nessa rede.
Asterin olhou ao redor e percebeu que de fato, Ravena, Anneliza e as demais moças não estavam fazendo nada além de papear. Encostou no peito do rapaz e se permitiu ser abraçada, talvez não tivesse mais isso.
- Não deu para conversar muito de manhã... - o rapaz engoliu seco - Eu querida saber se...
- Me lembro de tudo que aconteceu ontem. - seu coração bateu alto e seu rosto queimou, a coragem havia deixado seu corpo - E eu disse que eu tinha plena consciência do que estava falando. Reafirmo tudo que já havia dito.
- Está... está bem. - o rosto de Marlon ficou completamente vermelho, ela achou aquilo tão fofo.
- Ainda tem tempo para pensar... - ela disse pegando na mão dele.
- Eu sei. - ele beijou os dedos dela e entrou em um silêncio reflexivo.
- Asterin... - Ravena disse se aproximando com Anneliza ao lado - A carruagem vai está esperando por nós quando a festa acabar. Deixe as suas coisas na sala da casa que vou mandar alguém pegar.
- Está bem... - ela disse apertando os lábios.
- Vocês já vão? - Em disse ouvindo a conversa na rua - Nossa... pra onde?
- Elas vão para a capital, minha querida. - Anneliza disse sorrindo.
- Capital! - os olhos dela brilharam - Sempre quis ir lá! Ravena, por que nunca disse que veio da capital?
- Bem... este está sendo o mais recente capítulo da minha vida. Uma história inacabada.
- Posso ir com vocês?
- Gwen! - Marlon chamou a atenção dela - Acho que sua mãe não vai deixar.
- Mamãe é chata... - ela revirou os olhos - Sempre quis ir para uma cidade nova, viajar e voltar para cá, apenas uma vez no ano! Mas ela sempre diz que isso é bobeira minha.
- Ainda é nova para isso... - Anneliza disse bagunçando o cabelo dela - Quando eu era criança também não podia viajar, tudo tem seu tempo.
- Sei não... - ela bufou e seus olhos foram para Marlon - Asterin também vai? E você, tio, também?
- Bem... - Nora disse com três coroas de flores na mão - O Sol vai se por, vamos nos arrumar!
Felizes por não ter que responder a pergunta da criança, tanto Marlon quanto Asterin se levantaram correndo e entraram na casa, trocarem de roupas. Acabaram não percebendo que entraram no quarto ao mesmo tempo para fazer isso.
A moça pegou uma saia que ia até seus tornozelos e a camisa branca que usava no dia que tomou a facada, Genoveva fez o seu melhor, mas agora a blusa deixava um peque a parte de pele a mostra. Soltou seus cabelos e decidiu ficar descalça, meio sem jeito começou a arrumar a sua bolsa e suas armas. Seus olhos pararam em sua mão alguns instantes e fez um movimento para tirar o anel.
- Asterin... - Marlon chamou e tocou no seu ombro, ela virou e viu o rapaz sorrindo com um pacote em mãos - Feliz aniversário!
Ela riu, ainda era estranho ter uma data de aniversário. Sem hesitar ela abraçou o rapaz com força sentindo o seu cheiro e coração batendo com força, Asterin não queria soltar, não queria... mas soltou. Aceitou o pacote e levou ele para sentar na cama ao seu lado, sem muito jeito ela abriu e encontrou uma flauta feita de madeira.
- Vai me ensinar a tocar? - ela disse já ansiosa.
- Na verdade... - o rapaz estendeu a mão e pegou o instrumento - Isso é só parte do seu presente.
Sem mais palavras a dizer o rapaz se levantou e levou a moça para fora do quarto, ela sem jeito pegou suas malas e viu alguém levá-las embora, alertou a Nora e Mael que em breve seguiria viagem e agradeceu toda a hospitalidade. Os dois não puderam conter olhares preocupados em cima de Marlon, que realmente parecia mais mucho.
O Sol começou a caminhar para o seu fim e eles saíram da casa e começaram a caminhar em direção da floresta, descendo uma pequena rampa de terra construída na pedra, um lugar estreito e perigoso, todos os momentos, Asterin olhava para Marlon que apenas com seu bastão e Oto prosseguia tranquilamente. Chegando na praia de areia negra, a moça via como o céu laranja e a luz do Sol sobre o horizonte era arrebatador de bonito, até a cor exótica da areia compunha o cenário.
Ela suspirou e se abraçou, aquele momento poderia durar para sempre! Nora passou e entregou uma coroa de flores de lis vermelhas para ela e colocou a sua de lavanda na cabeça, indo para perto da sua filha com madressilva e seu marido. Marlon pegou a mão dela e, tateando, a abraçou, colocando as costas dela em sua barriga.
- Lembra que eu disse que o último dia aqui era especial? - ele sussurrou - Feche os olhos um pouco.
A moça assim o fez, a princípio o som das ondas do mar nas pedras atraíram sua atenção, a sensação da água que vinha e ia embora em seus pés, a sua respiração compassados com a de Marlon e até mesmo o cheiro de maresia, mas nada mais acontecia. Quando estava prestes a abrir os olhos e questionar o rapaz um barulho a pegou desprevenida.
Era uma barulho antigo, grande e parecia atingir cada osso seu, sentiu medo e paz invadindo o seu corpo e não resistiu de não abrir os olhos. Foi a tempo de ver uma enorme baleia saltar das águas e cair, provocando uma onda maior na praia, soltou o ar do seu peito, percebendo que havia parado de respirar.
- Marlon... - ela disse maravilhada.
As pessoas voltaram a conversar no local, comemorar e a falar sobre o belíssimo animal e os sons que todos os outros que começavam a aparecer estavam fazendo.
- Uma vez por ano elas aparecem aqui, sempre pontuais e sempre com uma música nova. Apesar da última parte ninguém acreditar em mim.
- Isso é... - ela perdeu a capacidade de terminar a frase, tentou mais duas vezes, mas decidiu deixar em aberto.
- Escute!
Então um som, um pouco mais altos do que os anteriores e ligeiramente diferente começou, até uma baleia gigantesca e completamente branca saltar para fora do mar. Aquilo chegou a dar muito medo nela, como poderia existir um animal daquele tamanho?
- Essa canta diferente, coitada.
- Com aquele tamanho? - ela disse apertando os braços do rapaz mais ao seu redor - Duvido que ela seja uma coitada.
- Essas músicas são sempre diferentes, cada uma está cantando alguma coisa, mas daqui a pouco partes dessas melodias vai fundir entre si. - ele disse com um sorriso triste no rosto - Já descobrimos que isso é para que esses animais encontrem parceiros e se ninguém gosta da música... a baleia fica sozinha.
Demorou um pouco para a moça compreender o que isso significava.
- Então a diferente...?
- Sempre fica sozinha. - ele bufou e apertou ela mais - Sabe? Eu amo esse momento tanto! Sinto que não estou perdendo nada por não ver, muito pelo contrário, estou apreciando uma nova composição de música.
Asterin conseguiu sorrir e fechou seus olhos, curtindo o momento como nunca imaginou curtir. Talvez nunca mais tivesse a presença do rapaz na sua vida e bem... amanhã ela juntaria seus cacos.
O tempo foi passando e as pessoas da praia foram saindo e o céu ganhando várias estrelas, antes que ela desse conta, havia um grupo diminuto ali.
- Temos que ir antes que a água chegue em nossos joelhos. - Marlon disse rindo e de fato ela já estava no tornozelo de ambos e indo até as pedras - Mas, primeiro...
Ele tirou a flauta do bolso e começou a tocar. Era esse o presente de aniversário para ela, uma música, ela ficou parada, completamente encantada com isso. Ele terminou e sorriu...
- Gostou? - ele estava vermelho como pimentão - Eu sei que não é nada demais...
- Marlon foi lindo... - ela tocou no rosto dele, os lábios deles estavam entreabertos - A melhor coisa que eu recebi.
- Eu... - ele engoliu seco - Eu tenho a resposta para o que você me perguntou... E primeiro, quero que você saiba que eu estou completamente apaixonado por você, e nunca pensei que um dia eu iria querer ou consegui ficar perto de outra pessoa e não desejar soltar ou... ou... Asterin, eu sei que não é justo, porém, um dia, quero chamá-la de esposa, quero acordar e ter você ao meu lado e dormir ouvindo respirar. Só que eu não posso... não posso pedir para você abandonar seu lugar nessa guerra, nem desistir de parte de quem é. Então...
- Então eu vou embora sozinha. - a voz dela saiu chorosa, ela apertou os lábios e sentiu as lágrimas vindo.
- Então, eu vou com você. - o rapaz disse sorrindo - Não sei se pode uma princesa ficar com um bardo, muito menos eu ter o prazer de sentar ao seu lado, mas eu quero, eu desejo ficar com você! E eu vou! Vou está lá para ser seu apoio!
A menina ficou sem reação, a ideia dele a seguir para a capital tinha passado pela sua cabeça, mas... mas... nunca achou que ele iria.
- Você... você tem certeza disso?
- Sim. - ele tocou no rosto dela e se aproximou sussurrando - Mais do que tudo nesse vida!
A respiração dos dois se juntou em uma, com as faces vermelhas e o coração martelando alto, os lábios deles se tocaram rapidamente e um doce suspiro foi solto. Acabaram rindo, aliviados.
- Eu não quero saber... - o rapaz disse a abraçando com força - Assim que você tiver vinte um estaremos casados!
A moça sorriu, sentindo a felicidade invadir seu peito. De mãos dadas eles subiam a encosta para a cidade, a qual deveria está em festa, as mesmas músicas alegres, conversas e histórias, mas cedo eles perceberam um silêncio estranho e assim que atingiram seu topo, compreenderam o motivo: a cidade estava cheia de soldados de Catalan.
Os homens estavam entrando e indo para a praça que reunia todos os habitantes, encurralados, todos eles estavam armados, com seus uniformes azuis escuros brilhante em cavalos marrons. As crianças corriam para perto de seus pais, os adultos tentavam pensar em maneiras de se defenderem e os idosos engoliam seco.
- Asterin? - Marlon disse confuso.
- Catalan... eles estão aqui. - ela sussurrou se encolhendo, tentando se misturar na multidão.
- Vamos sair... - ele disse - Sabe onde está Ravena?
- Nem ideia.
- Vamos para a floresta então...
Enquanto eles discretamente tentavam usar as pessoas na frente ao seu favor para serem discretos na fuga, Asterin viu Darlan surgir em um cavalo branco e com várias medalhas em seu uniforme, indicando seu sangue nobre. Ela gelou e o rosto ferveu de raiva. Agora? Assim?
- Senhores... - ele disse bem alto - Desculpe por interromper tal festividade, mas recebemos a informação que uma fugitiva de Catalan está aqui! Gostaríamos que a entregasse...
Sem mais nada para dizer ele tirou o cartaz de Gayla da bolsa e mostrou a todos, Nora, Mael e Em, os quais estavam na primeira fila não tiveram dúvidas de quem era a garota na imagem, souberam que tinham de fazer algo.
- Achava que vocês não poderiam entrar nas nossas terras... - Em falou.
Darlan ignorou a criança, enquanto sua mãe dava um pequeno beliscão em seu braço, mas isso não foi o suficiente para a menina.
- Além disso, não são bem-vindos aqui! - a garotinha gritou - Estão atrapalhando uma grande festa para nós! Vão embora!
- Controle a boca da criança. - Darlan disse para Mael.
O homem ia achar ruim do comportamento da filha, mas não ia abaixar sua cabeça para alguém de Catalan.
- Se for assim... - Darlan desceu do cavalo.
Asterin viu ele agarrar Em pelo braço.
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