Capítulo 30

Depois de um farto jantar com a mesa cheia de pessoas, Asterin foi levada para um quarto simples com uma única cama e uma janela com cortinas verdes escuras. Deixou sua bolsa em um canto qualquer e recebeu de Nora uma bacia para se limpar, a moça disse que assim que terminasse era só jogar a água pela janela, pois tinha um canteiro de flores ali de baixo.

Finalmente sozinha em muito tempo, Asterin tirou a roupa e com uma caneca tentou limpar sua sujeira de estrada do corpo e do rosto, tinha recebido um produto para passar no cabelo e com muito dificuldade lavou o cabelo. Pronta e fresca ela suspirou feliz, vestiu roupas novas e jogou a água em flores de lis vermelhas, percebendo, pela primeira vez em muito tempo, que estava em contato com uma flor que não fosse os cravos de Catalan.

Olhou para o horizonte e foi agraciada pela visão do mar revolto e seus barulhos batendo nas pedras, assim como o céu, lotado de estrelas com a constelação do vaga-lume pouco a pouco chegar em seu ápice.

O que ela iria fazer? Seus olhos se encheram de lágrimas. Tudo o que ela queira era a resposta para aquilo, como toda aquela bagunça poderia ser arrumada sem que ninguém se ferisse, inclusive ela. Fechou a janela com raiva.

Deitou na cama e pensou que talvez fosse melhor se esconder para sempre no mato com Marlon, mas seus pais apareceram na mente, impedindo que aquela decisão fosse levada a diante. Então, ela pegaria aquele peso nas costas, depois do aniversário viraria rainha, um nó formou em sua garganta quando se via assumindo seu lugar contra Aires, Akanta e Vincent, ainda não conseguia desvincular a imagem deles a sua família. Girou na cama, não importava para que lado ela tentasse tomar em sua mente, tudo parecia dar em paredes, as quais ela seria obrigada a derrubar.

Uma lembrança atravessou em sua mente, ela deveria ter uns doze anos, corria com Aires e Darlan pelos corredores por alguma de suas travessuras. Ela tinha reparado que o castelo estava bem mais movimentado do que o normal, aparentemente, Catalan estava para receber visitas e enquanto passavam pelos corredores a menina acha que viu quem era esse visitante, o homem usava roupas estranhas, eram de algum país do sul.

Enquanto ela tentava compreender como um homem estava usando saias, ela bateu de frente a uma das nobres de Catalan que caiu no chão bagunçando seus cachos castanhos claros. Aquela mulher gritou com ela, chamou atenção de todos que estavam por perto, inclusive do visitante. Quando a bronca terminou, a menina de cabeça baixa saiu correndo dali, fugindo até os jardins, se escondeu sob um arbusto, sujando sua bata e calças, encolhida e chorando muito.

Depois de quinze minutos ela começou a ouvir o rei a chamando e sem demora ele a achou escondida. Sem hesitar ele ajoelhou no chão, sujando suas roupas mais formais e a convenceu da sair dali ao abraça-la e a acalmando, mesmo com um visitante importante ali, Vincent tinha ficado o dia todo com ela, arrumou doces na cozinha e concordou de brincar com ela com as espadas de madeira. Descobriu depois que quem recebeu uma longa bronca tinha sido a nobre e, assim, ela fora obrigada a pedir desculpas.

Sentia saudades deles.

Virou para o outro lado e abraçou o travesseiro frio, mas... não era o suficiente, tentou abrir a janela e fazer o som do mar a acalentar e ainda assim seus pensamentos não deixam em paz. Tirou as cobertas, sentiu frio, as colocou e sentiu sufocada, virou para o outro lado e enterrou o rosto frustrado no travesseiro. Sentou na cama bufando, aquilo já estava ficando ridículo.

Uma ideia passou por sua cabeça e ela saiu da cama, sentindo o frio da madeira em seus dedos, abriu a porta e foi para a sala em silêncio. Viu no sofá Marlon, não só ocupando tudo, mas estando apertado em um lugar tão pequeno, ele respirava tranquilamente. Indo para perto dele tocou em seu ombro com delicadeza.

- Marlon, está acordado? - ela sussurrou.

- Não. - ele respondeu resmungando

- Eu não consigo dormir.

Ele suspirou e pareceu voltar a dormir, Asterin já tinha tirado sua mão dele e pronta para voltar para o quarto, quando ele sentou pegou suas coisas com um braço e entendeu a mão para que ela se aproximasse dele. Sem hesitar ela aceitou esse gesto e o levou até o quarto.

Ela ficou tão aliviada pelo fato do rapaz não ter questionado sua atitude, ele apenas deitou e a puxou para perto. Imediatamente a respiração dele e seu calor a acalmou, juntamente com os dedos dele acariciando suas costas.

- Você tem uma cicatriz aqui também. - ele sussurrou passando a mão em suas costas.

- Sim... - ela respondeu olhando para o rosto tranquilo dele - Fique pendurada em uma árvore quando pequena.

- Você não era uma criança legal. - ele riu - Narizes quebrados, ficar presa em árvores. Não é surpresa que agora você se mete em tantos problemas.

Isso arrancou uma risada dela, que apertou mais a sua cintura. O coração dele batia rápido.

- Você não consegue dormir, está preocupada?

- Sim.

- Com o que?

- O que vou fazer, Marlon.

O rapaz ficou em silêncio, no fundo, ele já sabia que ela havia decidido, só estava tentando negar para si mesma.

- Tenho certeza que o certo. - ele disse e em seguida cantou uma música que ninar.

Aquela era a primeira vez que Marlon cantava com ela por perto, aquilo a surpreendeu e acalmou seu coração. Antes mesmo que tivesse a oportunidade de perceber, ela caiu em um profundo sono.

Com o corpo de Asterin relaxado em seus braços, o rapaz respirou fundo sentindo o cheiro dela e sentindo que em breve a perderia para seu destino."

Dentro de mim tive vontade de cantar a música de Marlon, mas diferente do resto da minha família eu não tinha muitas aptidões musicais, então me contive em bater meus dedos na madeira da mesa em um ritmo errado.

- Quando amanheceu em Catalan, Akanta e Caleb entraram discretamente pela cozinha do castelo e tentaram ir para seus respectivos quartos sem chamar atenção, o rei se mexia na cama, após uma noite sem dormir completamente, Aires acordava pensando se Valentina encontraria, em breve, Gayla e como as coisas iam se desenrolar apatir de suas ações e Darlan, saia de um dos quartos de alguma nobre que nem lembrava mais qual, torcendo para que a mesma estivesse tonta como ele noite passada.

Nesse cenário pós-festa, um cavaleiro chegava correndo pelas portas do castelo, uma de suas bases dentro da Floresta da Fronteira havia recebido notícias dos ladrões. Não demorou muito para que o comunicado estivesse nas mãos de Darlan, o qual olhando em seus mapas a cidade em que sua noiva estava se destinando.

- Darlan... - o rei disse quando ao meio-dia a corte estava reunida - Essa cidade está fora das terras dos Breindal, entrar nela pode ser algo extremamente delicado.

- Ela se encontra tão perto da fronteira, Majestade, que eu já tenho uma desculpa feita e, se isso não for o suficiente, podemos ainda apelar pelas leis comuns de Aron e avisar o clã dono do território que há uma procurada por lá.

- Mas o que Gayla estaria fazendo em uma cidade como essa que não tem nada? - Akanta disse franzindo a sobrancelha.

- Acho que isso é o que menos importa para nós, Alteza. - o primo disse sério - Não preciso de um exército, Majestade, só mais dois homens basta.

- Primeiro a fuga de Valentina e agora isso... - o rei resmungou - Certo, mas, rapaz, se você causar problemas a mão da garota não será mais sua! Não quero que essa guerra aumente.

Aquelas palavras chamaram a atenção do príncipe, que mais tarde no escritório decidiu com uma nova onda de coragem questionar o pai.

- Temos forças o suficiente para enfrentar todos os clãs de Zaark. Provavelmente é isso que vamos ter de enfrentar... então por que se importar?

- Não vamos enfrentar toda Zaark. - o rei disse sério - Cada clã tem que pensar por si. Teremos no máximo parte de seu exército, caso nosso ataque se estenda demais teremos toda Zaark como inimiga e aí, meu filho, nem todos os exércitos de Aron serão capazes de acabar com eles.

- Não tinha medo disso quando decidiu atacar os reis deles?

- Eu não estava pensando direito na época. - ele bufou - Mas sabia que um ataque de frente era a única fraqueza deles. Eram arrogantes demais para manter um exército formado para o caso de emergência e como eu disse, cada clã por si, as vezes.

- O que ganhou com esse ataque? - Aires insistiu - Ninguém me fala o motivo dessa guerra.

- Não importa agora... - o rei bufou.

- Como não? Acho que devo saber o motivo do meu país está com relações tão complicadas com outro.

- Aires, escute-me não precisa.

- Mas e se...

- Se o que? - o rei disse irritado olhando para o Aires - Se isso for algo negociável? Filho, se Avalon chegar em casa ela tem plena ciência do que eu fiz a ela e aos seus pais, além disso, o que me aconteceu...

- Te aconteceu? - Aires suspirou cansado - Pai, faça um favor e fale o que aconteceu!

Vincent suspirou, apertando os lábios, estava cansado e dividir o fardo assim... cedo ou tarde esse menino pagaria pelos seus pecados mesmo.

- É uma longa história... - ele passou a mão no rosto - Sente aí!"

Engulo um pouco de bebida e pego um pedaço de carne, olho para minha plateia que decidiu acordar um pouco para isso.

- Nesse primeiro dia do festival...

- Para! - Stefan disse ansioso - Mas você não vai falar o motivo disso tudo?

- Não agora. - eu dei de ombros percebendo a revolta de meus ouvintes - Ainda não é tempo disso. Há tempo para tudo.

"Malakay observava o festival dos vaga-lumes que os rebeldes tinham arrumado e, pela primeira vez em treze anos, todos pareciam animados em comemorar o aniversário de Avalon. Ele virou um copo de cerveja com mel e suspirou, queria está tão animado quanto.

- E aí? - Liam disse sentando ao lado dele, tinha em mãos um copo de leite e mel e um enorme pedaço de carne de javali.

- Saeb não o deixaram beber? - o rapaz respondeu rindo.

- Eles queria descobrir o quanto eu aguentava de cerveja. Estavam pegando um barril quando eu os lembrei que tinha apenas treze anos. Não que isso fosse motivo para eles, mas...

Kay riu enquanto via um dos ruivos lançar um machado enorme uns 50 metros até um alvo e comemorar pelo seu acerto gritando e rindo. Os Saeb eram sempre tão expansivos e tão diferentes de Valentina e Liam.

- A Ilha de Maçãs deram notícias?

- Sim, mandaram mercenários. - o rapaz indicou com o queixo um grupo de homens e mulheres reunidos bebendo juntos.

- Mercenários?

- Nossos amigos de lá não são da realeza, não podem mandar um exército. Além disso eles ainda comercializam com Catalan, não querem encrenca.

-Mas eles mataram a princesa consorte, ela era de lá.

- Eu sei. - ele deu um gole na cerveja - Como eles mesmo colocaram na carta: "são apenas negócios." Meu pai não queria envolvê-los por isso.

Liam bufou tirando algumas mechas ruivas do rosto, ele achava que qualquer ajuda seria bem-vinda. Não era inteligente cantar vitória antes da hora.

- É o irmão de Adam? Temos notícias dele?

- As tropas já estão vindo.

Os dois olharam para o homem cheio de cicatrizes no rosto que havia, enfim, conquistado as crianças dos rebeldes que estavam tentado de todas as formas subir nele. Ele parecia tão satisfeito com essa nova abertura, ria e tentava chamar mais adultos na brincadeira que pouco a pouco iam cedendo.

- Ravena? Alguma novidade? - Kay disse para Liam.

- A última carta ela estava falando sobre a cidade apenas. Ela está sendo acompanhada por artistas.

- Consegue imaginar Ravena no meio de vários artistas? - Kay disse rindo.

- Adam disse que ela toca violino. Quero um dia ouvir isso. - Liam olhou para o rapaz ao seu lado, apesar da sombra de um sorriso constante e verdadeiro no rosto dele, não dava para ignorar suas novas olheiras - Como você está?

- Bem... - ele disse dando mais goles na bebida.

- Não parece.

- Agora você está me julgando? - Kay riu bagunçando o cabelo do menino - Se for fazer isso corte seu cabelo primeiro!

Uma música soou em algum lugar chamando a atenção de Kay, algumas moças haviam começar a dançar e tentando puxar mais participantes. Todos os três ritmos de Zaark estavam misturados ali, assim como o seu povo.

- É sério, Kay... - o menino insistiu - Você parece cansado.

- Eu estou. - pela primeira vez aquela alegria vacilou - Liam, sabia que todas as transições de reuniões do Conselho de Zaark da época do ataque estão sumidos, assim como duas das reuniões dos governantes de Aron.

- E daí?

Kay olhou para o pai e depois para a criança.

- Acho que temos uma coisa podre sendo escondida."

- Acho que vocês já são capazes de adivinhar o que está acontecendo... - eu digo rindo - Não sou a melhor pessoa para esconder segredos.

- Foi Zaark que provocou a guerra?

Toco no meu nariz com delicadeza para sinalizar o acerto do meu ouvinte, um silêncio assombroso passou por entre eles. Coitados, ouviram a vida inteira que o rei Vincent tinha sido um louco e que todos nós éramos filhos de uma pátria caridosa e amável.

- Mas por que? - Stefan falou com as sobrancelhas franzidas.

- Calma... - eu rio da sua indignação - No dia seguinte em Catalan, Akanta andava suspirando pelos cantos e pouco se importava do fato de seu primo ter saído do castelo atrás de Gayla/Avalon, muito menos que Malakay estava prestes a fazer vinte um anos, ela havia beijado Caleb, não apenas uma vez.

"A princesa e o guarda estavam sempre a uma distância respeitosa um do outro, tentando de todas as formas evitar um contato, pelo menos na frente dos outros. Sempre que podiam eles entravam em cantos ou salas vazias para sentir o toque um do outro, seus lábios e respiração descompassada. Nesse pouco tempo em que começaram com essa relação, ambos sabiam que não poderiam se manter assim sem se meter em grandes problemas.

Sentada em seu quarto sentindo a brisa quente do dia entrar pela janela aberta, enquanto ela tentava não pensar nas mãos do rapaz percorrendo seu corpo, sem sucesso, a moça fingia está bordando algo despreocupadamente. Não estava bonito, ela nunca soube fazer essa atividade de forma satisfatória.

- Irmã... - a porta foi aberta e a voz de Aires veio junto - Posso desabafar com você?

- Claro... - ela franziu a testa ainda olhando para o tecido, o rapaz nunca havia pedido isso - O que deseja falar?

- Não pode sair daqui.

Os olhos lilás da moça saíram do que estava fazendo para seu irmão e o susto não foi algo disfarçado.

- Você está péssimo! - ela disse deixando tudo de lado - Céus, peça para o papai uma folga!

- Não tem nada haver com a guerra... quer dizer... tem sim, mas...

O rapaz passou a mão em seus cabelos desalinhados e olhou para baixo. A princesa engoliu seco, ele estava deprimente e parecido com o rei. Ele levantou a cabeça, abriu a boca e bufou, faltava nele palavras.

- É sobre Gayla, Aires?

- Sim e não... - os olhos dele encheram de lágrimas - Caramba, Gayla, eu não aguento mais olhar o rosto dela no quadro do escritório do meu pai. Aquilo parece está sugando minhas energias... Gayla... ela é...

- Avalon Breindal II. Eu sei.

- Akanta, se tivermos ela de novo aqui ela será uma prisioneira, mas, se não...

- Teremos uma guerra contra ela. - a moça disse suspirando - Papai fez uma enorme besteira em não matá-la.

- Não... - Aires disse suspirando e secando algumas lágrimas - Ela não tinha nada haver com isso tudo, se tivéssemos matado ela...

- Tivéssemos? Aires, você está se incluindo nisso tudo?

- As decisões de nosso pai irão recair sobre nós. Então tudo o que ele fez, nos fizemos também, preciso assumir essa herança e suas consequências.

Aquilo surpreendeu a princesa, nunca antes seu irmão tinha mostrado aquelas ideias, muito pelo contrário, sempre pareceu alheio a tudo que dizia respeito a governar e a política externa de Catalan. Ela cruzou seus braços e umideceu seus lábios.

- Então, tudo o que o rei Erick fez irá recair sobre Avalon?

- Se ela aceitar o seu lugar. - ele suspirou

- Aires...

- Eu que libertei Valentina. - ele interrompeu.

- Que?

- É isso. Fiz besteira.

- Aires, o que? Por que?

- Culpa? - ele riu - Não sei, não me parecia certo deixá-la naquele quarto.

- Mas que merda! - a moça disse colocando seus dedos entre as sobrancelhas - Ela era uma moeda de troca boa, veio junto com o próprio Malakay.

- Eu sei... - ele cruzou os braços e suspirou - Se eu soubesse de algumas coisas não teria feito isso, mas, já é tarde.

O príncipe ficou vários minutos assim, em silêncio e infeliz, murmurava as vezes que não era capaz de fazer uma única coisa certa. A garota ajoelhou ao lado do irmão e segurou suas mãos, queria animá-lo.

- Também tenho algo a confessar... - ela sorriu - Estou beijando Caleb.

- Akanta! - Aires disse surpreso, mas então começou a sussurrar - Como isso aconteceu?

- Longa história... - ela deu de ombros - E pouco importa.

- Se alguém descobrir...

- Nosso pai vai arrumar imediatamente um nobre para eu casar... sei disso, mas preciso ser feliz agora! Só um pouco...

Aires segurou o rosto de sua irmã que cada dia mais parecia com a lembrança que ele tinha da mãe, doce e delicada. Assim ele prometeu guardar segredo e incentivou a moça em sua busca por felicidade, o príncipe se arrependia de não ter feito nada nos dias mais simples.

Fora do quarto da irmã e caminhando seu rumo pelo castelo, via Gayla em todos os lugares, sorrindo, correndo e cantando, seu peito doía com aquelas lembranças, queria sua guarda de volta e, dessa vez a arrastaria para seu quarto e a beijaria inteira, só se privaria dessa felicidade se ela não o aceitasse. Demorou muito para que ele chegasse nessa conclusão e, talvez todo o seu amor estivesse completamente perdido.

Como ele odiava seu título de príncipe e como ele odiava ainda mais Avalon.

E por falar nela, vamos sair desse clima mórbido que o príncipe se encontrava e ir diretamente para o segundo dia do festival dos vaga-lumes.

Asterin estava maravilhada com tudo que havia acontecido no primeiro dia, as ruas coloridas cheias de vida, as crianças corriam, os jovens dançavam e os adultos bebiam, havia música em todos os cantos, luzes e apresentações de lendas ou histórias antigas. Ela comeu coisas que nunca antes pensou que existia e se deliciou com o vento forte que vinha do mar.

A medida que a lua ia subindo no céu, Marlon a conduziu para a rua de sua família, onde um pequeno festival, quase que próprio acontecia. As crianças reencenavam lutas antigas e os adultos tocavam instrumentos para os camponeses que ali passavam. A mãe de Marlon ficou muito feliz quando percebeu que os dois estavam passeando juntos e mais feliz ainda quando a moça concordou em cantar um pouco, como parte da família.

Depois de várias canções o rapaz teve que tirar a menina das garras de sua família na marrar, caso o contrário ela teria que apresentar a noite toda. Logo em seguida, Asterin se juntou as moças de Anneliza em uma dança, a qual rapidamente pegou os passos, conquistou a confiança de Em quando a ensinou a dançar. Essas lembranças passaram por sua mente a medida que uma tia de Marlon desenhava vários padrões em seu rosto.

- Pronto, meu bem! - ela sorriu satisfeita.

Asterin se levantou ansiosa e deu uma longa olhada no espelho. Céus! Aquela pessoa não era ela! Pelo menos não parecia com a imagem que ela tinha da última vez que se viu por completo, como guarda. Usava um belo vestido verde claro providenciado por Nora, era leve e tinha longas mangas com cortes que deixavam seus braços desenhados a mostra, usava um longo decote que quase revelava o potente de seu colar, seu longo cabelo negro se encontrava solto e os desenhos, tão mais bem feitos do que ela jamais faria, todos em verde claro fez ela se ver pela primeira vez como parte integral daquele povo, do seu povo.

- Obrigada! - ela sorriu para a mulher que já estava ocupada com Em.

- Muito bonita! - a mãe de Marlon disse segurando as mãos dela e com um grande sorriso - Espero que não te cause problemas o meu filho irresponsável! Tem certeza que não deseja dormir na minha casa?

A moça corou sorrindo, claro que a família dele sabia que os dois compartilhavam o mesmo espaço na hora de dormir, na realidade os dois nem disfarçaram muito.

- Sim, vai ficar tudo bem.

- Bom... - a mulher riu - Espero que sim!

- Está pronta? - a voz do rapaz soou em suas costas.

Marlon usava uma blusa simples branca, Oto em seus ombros e calças marrons, nada novo, mas a sua mãe tinha feito vários desenhos em seu rosto. Ele estava tão bonito.

- Sim, mas você não... - ela disse se aproximando e o rapaz já se abaixando sabendo que ela prenderia seu cabelo.

Todas as pessoas na casa apenas olhavam os dois com um sorriso discreto no rosto, apenas Em que olhava toda a demonstração de afeto dos dois e torcia o nariz.

- Onde eu vou ficar esse ano papai? - a menina disse se virando para Mael com sua pintura pronta.

- Com a vovó aqui na rua. - ele disse ajeitando o vestidinho dela.

- Achei que ia na praça esse ano... - ela cruzou os braços fazendo bico.

- Já te falamos a praça é só quando você fizer quinze anos. - Nora disse entregando uma espada de madeira para a menina.

- Por que Em não vai com a gente hoje? - Asterin disse terminando com o cabelo de Marlon.

- Hoje a festividade não é para crianças. - Marlon disse com um sorriso malicioso.

- Agora me deixou preocupada. - ela disse com um sorriso nervoso.

- Ele só está querendo te assustar... - Mael sorriu - Vamos, se não iremos atrasar.

Em questão de minutos os adultos, menos a matriarca da família se encaminhavam para a praça central da cidade, onde uma enorme fogueira crepitava em alturas absurdas e aquecia todos ao redor, Anneliza e suas mulheres já se encontravam dançando e cantando músicas antigas, todas as pessoas tinham seus rostos pintados e entravam nesse clima quase que mágico, havia uma grande mesa com muita comida disposta e, realmente, sem sinal de crianças.

- Toma... - Mael disse entregando um copo com um líquido amarelo para ela e Marlon.

- Bebida de milho... - o irmão constatou após cheirar o copo.

Asterin se lembrou que tinha de afirmar que aquilo era bom, deu um gole e sentiu o calor descer da sua garganta até o estômago. O gosto era doce e a bebida mais encorpada, deu mais um logo gole, aquilo era ótimo!

- Vai com calma, garota... - Nora disse rindo e pegando o copo vazio da mão dela - Isso daí é mais forte do que parece.

Ela riu, tentaria não beber muito, mas vendo Marlon tomar um copo de uma vez e pegar mais uma rodada não trazia boas ideias na sua cabeça. Imitando seu companheiro ela percebeu uma fila sendo formada em um canto da praça, eram casais que ficavam de frente para um homem.

- O que é aquilo? - ela apontou para o grupo.

- Vamos! - Nora disse animada e puxando Mael - Andem!

Curiosa e com uma ordem muito animada em sua direção ela se sentiu obrigada a acompanhar os dois, quando estavam mais perto a moça percebeu que todas as mulheres na fila usavam uma coroa de flores na cabeça, assim como os rapazes com uma de ramos, os primeiros estavam de mãos dadas e enroladas em um pano vermelho completamente bordados de dourado.

- Eu serei a primeira pessoa a sorri para vocês todas as manhãs e a única a chorar quando não estiver lá. Te oferecei sempre um pedaço da minha comida e um gole de meu copo, te ofereço a minha vida até a minha morte, estarei sempre ali para cuidar de você. - o rapaz disse com olhos marejados - Porém, sempre lembrarei que você merece a liberdade, esperarei seu retorno todos os dias aos meus braços, ao meu amor.

A senhora que estava na frente dos dois olhou para a garota, que tomou o ar com força, sua voz saiu rouca e falha.

- Você não pode me possuir, pois eu sou de mim mesma, mas se for o seu desejo, entrego o que é meu para você. Você não pode mandar em mim, pois sou uma pessoa livre, mas enquanto estiver viva estarei disposta a cuidar de você com todo o amor do meu coração. - ela suspirou - Estou confiando a você meus bens mais preciosos e estarei protegendo os seus, o coração, a felicidade e sua vida.

Nora encostou a cabeça no ombro de Mael, sorrindo de canto a canto do seu rosto, já o rapaz olhava com toda a ternura do mundo sua mulher. Enquanto Asterin se surpreendia.

- Um casamento? - ela olhou para a fila - Todas as pessoas daqui vão casar?

- Sim... e os votos são os mesmos. - ele disse sussurrando - Vamos fazer outra coisa?

A moça concordou, mas ficou olhando as mãos do casal serem libertas do tecido vermelho e a velha entregar o pano dobrado para a mão dos dois aberta com as palmas para cima.

- Casamento em grupo?

- Um costume dos nativos. - Marlon deu de ombros e pedindo um copo de bebida de milho - Nas áreas mais influenciadas pelos povos tradicionais eles fazem apenas um seguido de vários costumes simbólicos, já os influenciados pelos nômades o casal foge e devem voltar vestidos de vermelho com vários adornos de ouro.

- Uau! - ela disse rindo e dando um gole em um copo enquanto entregava outro para ele - Em Catalan a moça fica noiva, faz uma série interminável de festas para atrair boa sorte e então casam com uma cerimônia gigantesca para então começar uma festa, a qual os noivos não participam.

- Por que eles não participam?

- Eles são encaminhados para seus aposentos. - ela deu de ombros - Voltam apenas no amanhecer para uma valsa, apenas.

Marlon riu, pediu com gentileza para Oto guiar os dois até um local para se sentar, a coruja achou um toco de árvore na beira da floresta e os dois ficaram ali um tempo, de mãos dadas aproveitando o som dos instrumentos de cordas e percussão.

- Quando me falaram eu não acreditei! - uma voz tirou os dois da paz, Marlon respirou fundo, até fechando os olhos - Primo, como está?

Um rapaz alto, mas nem perto de ser tão alto quanto Marlon, apareceu, ele tinha cabelos castanhos escuros, assim como seus olhos e um sorriso de escárnio.

- Oi... - o rapaz respondeu seco - Ótimo, obrigada por perguntar.

- Essa deve ser a sua nova amiga. - ele disse pegando a mão de Asterin e a beijando - Muito bonita.

- Obrigada... - a moça respondeu desconfortável.

- Gostaria de dançar? - ele disse a puxando para ficar em pé - Creio que Marlon não possa te oferecer uma dança, então...

- Na realidade... - ela o interrompeu nervosa - Marlon é um excelente dançarino, estou descansando e mais tarde irei com ele até lá!

Dizendo isso ela sentou e pegou a mão do rapaz cego, Oto piou duas vezes de modo agressivo, como quem pede permissão para atacar, sem graça o rapaz sai e vai importunar outra menina.

- Babaca... - ela sussurra fazendo carinho em Oto.

- Quero saber agora como é que eu vou dançar? - Marlon disse rindo.

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