Capítulo 21
- Marlon e Asterin estavam vivendo juntos há algumas semanas e está tão perto um do outro o tempo todo gerou uma aproximação rápida e inesperada. - disse pensando melhor - Se me permitem emitir minha opinião, acho que Marlon estava há tanto tempo sozinho que, apesar de não gostar, se abriu e permitiu que a menina ganhasse espaço dentro dele com muita facilidade, enquanto Asterin, estava se sentindo tão desamparada que aceitou com tudo a mão estendida a ela. Não posso julgar nenhum dos dois, as vezes algumas pessoas entram na sua vida por causa de uma fragilidade sua.
- Como está Valentina? - Stefan disse preocupado.
Isso me tirou algumas risadas, não estava planejando falar dela agora, na verdade desse ponto da história até o momento em que ela consegue fugir, Val, não sofria muita coisa. Porém, se um espectador deseja alguma coisa eu tenho que entregá-la.
- O castelo de Catalan andava meio esquisito, o rei simplesmente sumiu em seu escritório e raramente era visto, Akanta estava sempre correndo para cima e para baixo preparando a festa de máscaras, não falava do pai e nem de Gayla, Aires parecia um fantasma, triste e melancólico e Darlan observava a prima em uma distância segura para ninguém perceber. - disse tentando arrumar espaço para Val nisso tudo - Aires estava tentando de todas as formas se livrar das suas obrigações de príncipe, as quais pareciam aumentar cada vez mais por causa do desaparecimento de sua guarda.
"Também não queria discutir quem assumiria o espaço vazio de Gayla nas suas costas o protegendo, não suportava a ideia de alguém fazer esse trabalho que não ela. Sonhava com ela voltando para casa e as vezes chegava a vê-la acordado, nesses momentos acreditava ter enlouquecido.
Darlan as vezes parecia tentar animá-lo, mas ele mesmo não estava muito contente para isso. O príncipe até mesmo tentou conversar com o pai, mas o rei apenas passava mais trabalho para ele e ficava olhando o quadro que havia mandado pintar de Gayla.
Então, o desespero de achar algum lugar em que a sua guarda não fosse uma sombra constante de lembrança ele subia as escadas, cumprimentava o soldado e vi a garota ruiva olhando para a janela como um pássaro enjaulado. Nesses momentos ele sentia a genuína vontade de deixá-la ir.
- É impressão minha ou você está vindo aqui com cada vez mais frequência? - ela disse sorrindo enquanto sentava na cama.
- Eu tenho para mim que você está cada vez mais magra. - ele disse preocupado e se virando para o soldado - Martim, ela anda comendo?
- Quase nada, Vossa Alteza. - ele respondeu torcendo a boca.
- Não vai ganhar nada em evitar a comida. - ele disse cruzando os braços.
- Posso não ganhar nada. - ela revirou os olhos - Mas não estou perdendo também. Catalan tem uma comida bem sem gosto.
- Gostaria de comer algo em específico?
A mente de Valentina foi para a sua casa, o cheiro do fogão e da comida de Malakay, o rapaz sabia cozinhar pouca coisa, mas sabia fazer com maestria um prato em especifico. Sua boca se encheu de saliva.
- Frango.
- Frango? - o príncipe disse surpreso - Bem, Martin, avise aos empregados que trazem comida para ela. Lembre-se, se você quiser algo, Valentina, é só pedir.
- Claro, as vezes me esqueço que sou uma convidada com meu pé preso... - ela disse batendo na própria testa em um gesto dramático.
- Você tem um senso de humor fascinante. - Martim disse rindo - Beira o insolente.
- Ainda não cheguei a esse ponto? - ela disse rindo - Droga! Tenho que me esforçar mais! Alteza, espero te ofender ainda nessa visita.
Aires não pode deixar de ri diante dessas palavras, mesmo que a moça não desejasse, as visitas do príncipe fizeram com que ambos se aproximassem. Não eram amigos, porque ela não se permitiria chamá-lo assim, mas estava caminhando para algo próximo à isso.
- O castelo anda movimentado. - ela disse mudando de assunto - O que está acontecendo?
- Além da nossa busca pela Gayla, logo teremos a festa do baile de máscaras. Isso é uma tradição antiga de Catalan. - o príncipe disse sorrindo - A cidade toda deve está agitada. Essa é a única festa em que os portões são abertos e o povo pode entrar para comemorar.
- Então, a confusão do lado de fora entra? - ela disse chocada.
- E muitos dos nossos saem. - ele parou um pouco com um sorriso triste - Menos o rei e seu herdeiro, ambos precisam ser vigiados de perto e receber todos os convidados.
- O que vocês estão comemorando?
- Nada em específico. - ele disse dando de ombros - As pessoas apenas se fantasiam com seus animais padroeiros e são livres para andar por aí de forma anônima. A crença geral é que essa festa serve para lembrar que todos são iguais, seres vivos merecedores de respeito.
- Estou vendo! - ela disse apontando para o pé preso.
- Você matou um de nossos soldados. - ele disse sorrindo.
- E seu pai sequestrou nossa princesa. - ela disse fazendo uma careta - Não vamos começar a nos acusar aqui, só acabaremos com isso de manhã.
O príncipe suspirou frustrado, a moça estava certa, quando ambos ficavam nervosos aquilo saia do controle rapidamente. Ele tentou acalmar seus pensamentos, mas ela disse imprudentemente.
- Qual era a sua relação com a guarda?
- O que?
Martim atrás de Aires fez um sinal para que a moça deixasse aquele assunto de lado. Isso fez a curiosidade aumentar e, consequentemente, seu senso de autoproteção diminuir.
- Eu e ela éramos amigos. - ele deu de ombros, corado - Fomos criados juntos desde pequenos.
- Mas imagino que não a via como irmã. - ela cruzou os braços - Ninguém deveria tratá-la de modo que esse tipo de impressão fosse criado em você.
De fato, Gayla, apesar de ter tudo o que ele e a irmã tinha, nunca foi tratada como uma princesa.
Aires estava desconfortável com aquela conversa.
- Gostava dela? - Valentina disse quase como um tiro.
- Perdão? - Aires disse assustado.
- Quando falo da guarda você cora levemente, sempre tem coisas positivas a falar e parece mais disposto em defendê-la a qualquer custo do que acusá-la de fugir. - ela disse listando tudo com a mão- Então, tudo isso me faz crê que você era apaixonado por ela.
Tanto o soldado como o príncipe ficaram olhando a garota, ela realmente estava disposta em ofender a realeza hoje. Suspirou cansado.
- Gostava dela romanticamente sim. - ele disse sentindo o peito ficar, pela primeira vez, mais leve - Martim, você nunca ouviu nada.
- Sim, Vossa Alteza.
Aires ficou muito tempo negando esses sentimentos para si mesmo e pela primeira vez pode ser franco com alguém sem deixar nada subentendido ou meio falado. Ele disse com todas as palavras que gostava de Gayla e foi libertador, talvez ele devesse fazer o mesmo com a própria menina se um dia a encontrasse.
Valentina observou o rosto do príncipe ficar mais leve e sorriu, mas por dentro sentiu pena do rapaz.
Na Floresta da Fronteira, dois jovens saiam de casa.
- Tem certeza que consegue carregar tudo? - Marlon disse ouvindo Asterin se movimentar para o seu lado.
- Estava carregando isso quando você me encontrou. - ela riu - Te garanto que não é muito e não me incomoda.
O rapaz sorriu enquanto entregava a faixa de pano branco para ela e abaixava. Com muito cuidado a menina amarrou sobre os olhos dele e aproveitou para prender seus cabelos de novo.
- Gosta que eu fique de rabo de cavalo? - ele disse sorrindo de canto de boca.
- Melhor do que o cabelo na sua cara. - ela respondeu enquanto ele mais uma vez deixava a altura de ambos mais distante.
O rapaz sorriu e iniciou a sua caminhada, primeiro era o bastão batendo no chão e em seguida os pés deles, as vezes Oto bicava a orelha do rapaz, indicando buracos ou qualquer outro obstáculo mais complicado que ele poderia ter.
- Está ficando muito atrás! - ele disse sem mover a cabeça.
- Minhas pernas devem ter a metade do tamanho que as suas. - a menina disse acelerando seus passos e tentando parear com ele - Mas não se preocupe.
- É fácil se perder na floresta. Do jeito que a sorte parece gostar de você tem alta probabilidade de você se perder completamente e me obrigar ficar gritando seu nome por aí.
- Engraçado... - ela disse ofegante, mas ao seu lado - Mas, de novo, não precisa se preocupar comigo! Sei lutar e me defender bem.
- Sei que você sabe. - ele disse pegando, com a sua mão livre, na mão dela - Eu percebi que você se livrou de alguns ladrões sozinha, mas também ficou com a cintura completamente aberta.
A garota sorriu e apertou de leve na mão de Marlon. Era reconfortante ter a presença dele por perto, sentiria muita falta quando ele a deixasse, mas por enquanto aproveitaria o sentimento que uma montanha estava ao seu lado.
O dia calmamente ia caindo, o céu brilhava em tons de vermelho sobre as copas verdes da árvores, o barulho dos animais parecia quase que embalá-la a fazendo sentir sono. Entre tudo aquilo ela pensou que poderia esquecer das obrigações e seu verdadeiro nome, poderia ser uma simples camponesa.
- Qual é o plano de viagem? - ela disse se tirando dos próprios pensamentos egoístas.
- Vamos ter que dormir bastante no chão da floresta. - o rapaz disse sorrindo - Mas iremos passar por uma vila e cidade as vezes.
- Tenho que me lembrar de ficar escondida. - Asterin torceu o nariz - Será que o capuz da capa é o suficiente?
- Bem... - Marlon disse rindo - Não sou a melhor pessoa para atestar isso.
Apesar de não responder aquelas palavras, Asterin sentiu o rosto corar de leve. Era tão fácil se esquecer completamente que seu companheiro era cego.
- Use o capuz e ande atrás de mim... - ele falou - Irei dizer por onde passarmos que você é minha irmã e estamos saindo da nossa vila para apresentações.
- Se alguém me ver vai perceber imediatamente a mentira. - ela riu - Seria mais fácil eu ser irmã de Oto do que se você.
- A ideia é que ninguém a veja mesmo... - o rapaz deu de ombros - Estou apenas te contando para caso alguém te pergunte.
- Não tem nenhuma parte de Zaark que convenientemente a mulher deve esconder o rosto?
- Meu pai falava que alguns dos nossos antepassados tinham disso, mas que Celina acreditava que essa prática era ridícula. Então, não, esse costume não existe no país.
Assim os dois continuaram caminhando até a luz solar desaparecer e deixar ambos na escuridão da floresta. Asterin, completamente sem referência visual do chão se aproximou mais de Marlon e confiou completamente nele, chegou a comentar esse fato rindo diante da sua incapacidade de mover sem ver. O rapaz, sem tecer algum comentário, apenas segurou a mão da moça com mais firmeza e a ajudava falando de obstáculos na sua frente.
Quando o frio começou a incomodá-los pararam de caminhar para montar o acampamento. Deixando a sua bolsa no chão, Marlon cobriu o chão com um enorme tapete e retirou duas cobertas, entregando uma a Asterin, sem mais demora, pegou também as pedras para acender uma fogueira, a qual Oto montava calmamente.
- Já está acostumado em fazer isso... - ela disse impressionada com a rapidez de ambos.
- Oto é uma coruja esperta, sabe que depois de fazer isso poderá caçar um pouco.
- Não tem medo dela fugir não? - a moça disse preocupada com o rapaz, afinal, aquele animal era quase como olhos para ele.
- Isso nunca passou pela minha cabeça antes. - ele disse acendendo o fogo - Oto sempre volta e se um dia não voltar terei apenas que me acostumar com isso. Ele está me seguindo desde sempre e nunca compreendi o motivo de ficar. Acho que seria egoísta o prender assim.
O rapaz ficou em silêncio por mais um tempo enquanto pegava os suprimentos de comida da bolsa e entregava a Asterin. A carne da caça dela seca e salgada com um pouco de cerveja, fazia um tempo que a moça não tomava álcool.
- Acho que isso deva ser assim que minha família sente em relação a mim. - ele disse dando uma mordida na comida - Afinal, estou sempre voltando para casa.
Asterin abraçou as pernas e suspirou. Ele estava certo. Estremeceu de frio.
- Amanhã a noite teremos teto. - ele disse sorrindo - Vamos visitar uma outra amiga minha que vai tirar esses pontos de você e se der tempo comer comida que não foi feita para durar dias.
- Posso tirar a faixa branca de você? - ela disse mudando de assunto bruscamente.
- Não faz diferença para mim...
- Mas para mim faz! - ela disse já tirando o pano branco - Amanhã eu coloco de novo, mas por hora, no meio da floresta à noite e só nos dois, não vejo motivo de manter isso no rosto.
- Te incomoda tanto assim? - ele disse rindo e guardando a faixa.
- Um pouco... - ela admitiu feliz em ver os olhos dele - Ainda acho essa medida meio estranha.
- A maioria das pessoas dizem que meus olhos são estranhos, não o contrário.
Asterin se assustou com o comentário, aquelas palavras não foram feitas da mesma forma que ele normalmente dizia quando tocava no assunto da cegueira, elas era tinham alguma outra coisa por trás, uma mágoa. Suspirou, talvez Marlon tivesse mais a falar sobre sua vida antes de ser esconder na floresta.
- No castelo de Catalan eu era chamada de bárbara o tempo todo.
- Mania que eles têm de nos chamar assim... - ele respondeu tomando um gole da bebida - Encontrei uma vez com um soldado de lá, ele ficou cuspindo essa palavra toda vez que ia se referir a outra pessoa.
- Sim... - ela riu - Mas, quando eu era pequena, eu não entendia muito o motivo deles estarem me chamando assim. Achava que era porque eu não brincava com as outras meninas ou pelo fato de está sempre de castigo com os garotos por alguma brincadeira. Tentei ser amiga das garotas mais vezes do que eu podia contar, mas nunca funcionou, até que um dia, enquanto eu estava ajustado um vestido de baile com a princesa um dos nobres me chamou de bárbara, percebi que não era porque eu era menos delicada ou educada, era porque eu só não era igual a eles.
Marlon ficou em silêncio, olhando para a moça enquanto essas palavras saiam de seu peito, Asterin nunca tinha falado sobre isso antes.
- Não tinha um único dia que eles não me chamavam de bárbara e não tinha um único dia que eu não me sentisse péssima por não ser igual a eles. - ela travou o maxilar - Sempre gostei de Zaark e suas crenças, sempre me senti muito mais parte dessa terra do que Catalan. Me pergunto se é pelo fato de ter nascido aqui ou porque a corte me lembrava disso o tempo todo.
O rapaz ficou em silêncio durante um tempo, suspirou e, sem jeito, colocou a sua mão na cabeça dela com um peso reconfortante. A menina compreendeu aquilo como carinho.
- Olha, eu sinto por isso. - ele disse torcendo a boca - Quando eu disse que as crianças só ficavam perto de mim por causa do meu irmão, eu estava falando sério. Sempre que íamos brincar elas tentavam colocar brincadeiras, nas quais eu não poderia participar e, assim que meu irmão saia de perto de mim elas paravam de conversar e sumiam. Teve uma vez que...
Ele suspirou cansado e negou com a cabeça, parecia muito desconfortável em se abrir assim.
- Eu insisti em brincar de esconde-esconde e uns meninos me seguiram, durante um tempo eles brincaram de me empurrar e jogar no chão, até hoje não tenho ideia de quais pessoas estavam ali. No fim eu acertei um dos meninos e a mãe dele veio tirar satisfação com a minha. - um sorriso apareceu em seus lábios - Não sei o que aconteceu, lembro da gritaria e da minha mãe falando que se o menino dela aparecesse de novo na frente dela ele ia ficar coxo. Meu irmão ficou encarregado de cuidar de mim e me vigiar, só que eu não queria dar trabalho para ele, então, passei a ficar mais com meu tio e os instrumentos.
- E assim se tornou o melhor músico da família?
- Do país, minha cara convidada de vida confusa. - ele disse rindo.
- Com uma grande humildade.
- Isso não poderia faltar. - ele disse suspirando, cansado por ter se aberto assim.
Sem muito pudor, Asterin abriu um enorme sorriso, havia descoberto uma forma de fazê-lo ser mais franco com ela. Talvez ficasse exposta demais no processo, mas era uma troca justa.
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