Capítulo 2

Malakay tinha certeza que havia enlouquecido, só isso para explicar o que estava acontecendo. Primeiro ele e Valentina estavam negociando os cabos quando percebem que estavam cercados por vários soldados de Catalan e, por um segundo, pensaram que seriam presos, mas perceberam a aproximação do duque e da guarda.

Passou pela cabeça dele onde estaria o príncipe, mas deixou isso quieto quando escutou a voz da garota. Era um som tranquilo e melodioso, era até mesmo meigo e infantil, esse conjunto fez o sangue dele ferver. De certa forma aquilo tudo não parecia combinar com quem aquela garota era ou representava.

Depois dela elogiado o trabalho e entregando dinheiro ao ferreiro seus jeitos gentis se voltassem para eles e ficou inevitável olhar para a guarda. Se perguntou como era a sua aparência,  havia ouvido que ela era uma moça bonita, mas isso era relativo, além disso temia reconhecê-la, afinal, havia a possibilidade dela ser filha de algum nobre.

Nem em seus mais loucos sonhos ele estava preparado para aquilo. Chegou a olhar para Valentina e ver sua reação.

Os longos cabelos pretos estavam presos em várias tranças, os olhos brilhavam contra a luz do Sol e os lábios carnudos mostrava um belo sorriso. Tinha no cinto uma bolsa, machado e a nova adaga, usava uma túnica azul escura, botas de couro preto e calças. Calças! Não tinha como reagir ao ver a prima e rainha voltar dos mortos assim.

- Meu irmão... - Valentina pigariou - Meu irmão que faz esse trabalho.

- É incrível... - ela mantinha o sorriso aberto, mas franziu as sobrancelhas - Vocês estão bem? Estão pálidos.

- Sim... - Valentina engasgou e olhou para Kay, que abaixou o capuz.

A traidora não poderia se Avalon, isso seria muita crueldade por parte do rei, até mais do que ele achava capaz dele fazer, mas se não fosse isso, o que era aquela semelhança?

Gayla sustentou o olhar neles, confusa diante ao interesse genuíno e sem raiva presente em ambos. Não estava acostumada com isso, ensaiou a dar um passo para trás, mas viu o rosto de Malakay sem qualquer proteção e algo ali chamou sua atenção, ela culpava os olhos azuis.

- Perdão... - ela riu sem graça - Mas, a gente se conhece?

Essa pergunta chamou atenção do duque que pagava a espada para o filho. Olhou para os dois que conversavam com a menina e reconheceu o cabelo ruivo bronze de Valentina e os olhos cristalinos de Malakay, quase derrubou tudo. Era tarde de mais.

- Eu vim para Zaark há alguns anos... - a menina acrescentou forçando o cérebro a funcionar - Não tenho certeza se...

-Prima. - Kay disse se aproximando e segurando sua mão o toque quente dele a assustou, mas não pulou para trás como sua razão mandava - É você?

Prima... seria possível? Após todos aqueles anos Gayla ainda tinha uma família em Zaark?

- Acho difícil eu ser sua prima. - ela disse se soltando e olhando para baixo vermelha, os soldados começaram a prestar atenção - Não havia quem cuidasse de mim quando o rei Vincent me resgatou.

- Resgatou? - Val disse se aproximando também - Você foi arrancada de casa. Você foi sequestrada.

Os soldados reagiram, viraram para o grupo e apontaram suas armas. Gayla levantou a mão e eles confusos deram um passo para trás, espaço para que a conversa continuasse.

- Garota... - Jhon disse puxando o seu braço.

- Espera. - ela falou olhando melhor a ruiva, aquela cor de cabelo não seria facilmente esquecida. Tinha que se lembrar de algo - Fui achada na Floresta da Fronteira, sozinha e suja de sangue, essa é a minha primeira memória. Se eu sou sua prima, por que eu fui abandonada lá?

- Porque seus pais foram mortos lá. - Kay se aproximou, seus olhos estavam cheios de lágrimas, aquela garota era Avalon! - O rei os matou e tirou você de mim! Não se lembra de nada?

- Não... - ela disse assustada. O rei matado seus pais... aquilo era uma teoria, mas pensar nisso com verdade deixava enjoada - E pouco importa também.

- Bem... - Valentina engoliu seco - Podemos está enganados também.

Jhon quase gritou que era aquilo mesmo que estava acontecendo, mas engoliu seco e continuou observando tudo.

- Não! - o rapaz disse caminhando até a menina, os soldados avançaram um pouco, mas não iriam atacar sem o comando de Gayla - Eu sei quem é minha prima, seu rosto me assombra, sua memória aperta o meu peito! Avalon...

O rapaz segurou seu rosto com carinho e devoção absurdas, a fez olhar em seus olhos enquanto aquelas estranhas palavras iam fazendo sentido na cabeça das pessoas, se o rapaz achava que aquela garota era sua prima e estava chamando-a de Avalon, ele só poderia ser Malakay ou um completo louco.

Gayla, porém, ainda não conseguia fazer aquela associação, aqueles olhos azuis marejados eram conhecidos, amigos. Uma memória atravessou sua mente, um menino cuidando de seu joelho ralado, pegando ela pelas costas e saindo de entre as árvores.

- Kay? - a voz dela saiu sofriada, sussurrada, a qual só o rapaz ouviu.

Um sorriso surgiu no rosto enquanto uma lágrima escorria, ele fez um carinho na bochecha dela e se afastou, já correndo, puxando Valentina, mas aquilo não foi necessário, os soldados, camponeses e a própria guarda estavam em assustados. Após anos eles enfim viram Malakay e ele reconheceu a traidora como sua prima.

- Bom... - Jhon disse tentando esboçar um sorriso - Acho que acabamos de ver uma grande bagunça. Ainda bem que ninguém dá ouvidos aos loucos."

Parei um pouco com a narrativa para tomar um longo gole com a cerveja. Meus ouvintes estavam ainda atentos e chocados, nunca tinha ouvido aquilo antes.

Busquei os olhos do rapaz ao meu lado e ele parecia distante, molhou os lábios e se virou para mim.

- É possível? - ele disse.

- O que? - sorri.

-  O que você disse... - o coitado estava confuso- Como a rainha ficou tanto tempo em Catalan? Você está inventando isso!

- Bem, não cabe a mim acreditar no que eu conto. Mas durante o tempo que Avalon sumiu as pessoas acreditavam em tudo, por que agora isso é tão diferente?

- Porque sabemos onde ela estava! - alguém na plateia disse - Na Floresta da Fronteira com o amante.

- Acha que Catalan e os rebeldes não a procuraram antes por lá? - silêncio - Além disso, procure o ferreiro real, ele irá comprovar que isso a conheceu!  Só que, de novo, eu estou contando uma história, não tenho obrigação em ser completamente fiel aos acontecimentos.

- Então de que adianta te ouvir? - o rapaz disse.

- Qual é seu nome? - disse sem me abalar.

- Stefan.

- Stefan, acha mesmo que nos livros de História todos os fatos estão escritos ao pé da letra? - a pergunta doeu neles - Acha que ninguém contou o que era melhor para eles?

O rapaz abriu a boca, mas fechou em seguida.

- A História é sempre na versão do vencedor, sempre tem buracos abertos e páginas arrancadas. - dei de ombros - Estou explorando essas falhas!

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