Capítulo 10
Valentina e Malakay não conseguiam se sentir bem nas ruas de Catalan, ali era tudo mais corrido e rápido do que em Zaark. As pessoas se empurravam nas feiras, crianças pobres pareciam prontas para tentar se aproveitar de adultos com suas bolsas de dinheiro e era estranho ver como mulheres cheias de joias estavam misturadas com a pobreza e a fome.
- Em Zaark somente a nobreza tem tanto... - Kay uma hora disse após ver uma senhora com a sua filha passar com anéis e brincos de pedras preciosas e vestidos bordados e depois uma criança esfarrapada com um irmão mais velho descalço- Mas ninguém tem tão pouco.
- Não é costume dos camponeses de Zaark acumular bens... - Val disse sentindo os empurrões nos seus braços, extremamente irritada - E vivemos em cidades bem menores do que essa! Espero que continue assim durante muito tempo!
A ideia era achar uma taverna, mas a grande maioria delas, naquela parte da cidade era acima do dinheiro disponível, então, os dois estavam pensando o que poderiam fazer: ir para uma área mais barata ou tentar arrumar trocados de algum jeito. No fim, compraram alguma fruta de uma barraca e viram lentamente as grandes casas bonitas e enfeitadas se transformarem em barracos apertados e mau construidos.
Ficaram em uma taverna cheia de meretrizes e homens bêbados de mais para notarem que duas pessoas de Zaark estavam ali.
- Faria um bom dinheiro aqui com esse cabelo... - a taverneira disse para Val enquanto entregava as chaves do quarto - Para falar a verdade, você consegue uma vaga em um bordel de luxo.
Sem nada a dizer, a moça arrancou as chaves e subiu com Kay para o quarto, assim que fecharam a porta bufaram. Queriam a calma e as árvores das cidades de Zaark, longe da confusão, a qual seriam obrigados a voltar a qualquer momento.
- Qual vai ser o plano? - a moça disse jogando a capa em qualquer lugar e sentando na cama que tinha um ligeiro cheiro de mofo.
- Ver o que acontece? - Kay riu sentando ao seu lado - Podemos sair amanhã e perguntar sobre a família real discretamente e ver o que temos.
A moça riu, pensando o quão ridículo era aquilo tudo. Seria impossível capturar a guarda real assim, a melhor chances que eles provavelmente teriam na sua vida toda já havia passado naquele dia na feira. Olhou para Kay e disse sem refletir muito.
- Por que tem tanta certeza de que ela é Avalon?
- Ela se lembrou do meu nome.
- Não, você se revelou para ela. - Val disse mais preocupada.
- Ela não me chamou de Malakay, ela disse Kay. - o rapaz olhou para o chão e deu um sorriso torto - Me senti tão feliz na hora.
- E se não for ela?
-Mas é!
- E se? - Valentina insistiu, sabia que tinha de colocar essa possibilidade na cabeça do rapaz, o mais rápido possível.
- Então Avalon está morta. - Kay disse triste - Eu serei rei e me vingarei da morte dela!
- Que sombrio! - ela disse forçando uma risada e o empurrando.
Durante um tempo os dois ficaram em silêncio, a ruiva estava tentando voltar sua mente para o dia do ataque, tinha visto a princesa e seus pais indo para floresta, estava treinando arco e flecha nos jardins. Tinha certeza que havia sido a única nobre a escutar o grito da menina, não hesitou para fugir e tentar avisar os pais sobre o ocorrido, mas não havia tempo para isso.
- Ainda é estranho... - ela murmurou.
- O que?
- O que Catalan fez, atacar do nada. Não é esperto começar uma guerra sem nada a ganhar.
- Mas eles ganharam... - Kay disse confuso.
-O que? Terras? - Val deitou na cama - Nem fazem nada nelas além de cobrar impostos, que se forem comparar com os impostos das joias não valem nada. Era melhor para o rei manter a relação de amizade que tinha com Zaark. Caramba Cordelia nasceu na nossa corte!
- Cordelia morreu e ele atacou. - o rapaz respondeu olhando as mãos - Meu pai disse que Catalan tinha raivas da nossa influência.
- Mas eles éramos amigos. - a barriga dela roncou - Não dá para pensar de barriga vazia!
- Então vamos comer! - ele disse levantando e apresentando a mão para a moça.
Sem cerimônia ela pegou na mão com luvas de couro, refletindo o quando ele havia crescido desde o dia em que ela passou a morar na casa dele. Não foi fácil no início, Kay não gostava de Valentina, os dois antes viviam brigado por besteiras e no começo continuaram com essa hostilidade, porém um dia os dois começaram a conversar sobre a falta da mãe e estranhamente após chorar abraçados se encontraram presos em uma amizade inesperada.
Valentina as vezes se via perguntando se as coisas fossem mais simples ela não tentaria ficar com ele, mas em seguia percebia que não adiantava viver no mundo do "e se" e a amizade dos dois era algo precioso demais para ser colocada a prova por algo assim. Andando ao lado dele, deixou o rapaz pedir a comida e sentou em uma mesa no meio do salão, vendo uma moça de cabelos cor de palha sentar no colo de um homem bem mais velho. Nojo.
- Espero que a comida não esteja contaminada... - Val disse a Kay assim que ele sentou na sua frente com um prato de pão e carne salgada.
-Boa sorte com isso. - ele disse sem olhar para o pão e dar um grande mordida e engolir com o vinho barato - Amanhã vamos comprar mais frutas.
- Por favor...
Nesse instante entrou um grupo de pessoas, eram dois soldados, uma moça bem nova e uma mulher com mais idade, estavam claramente alcoolizados.
- Posso saber para quem estou perdendo os meus clientes? - a taverneira disse assim que um dos soldados pediu uma cerveja.
- Para ninguém... - o homem ria - Estão fazendo uma festa para os soldados e guardas reais.
- Um dos seus vai casar? - a mulher disse franzino a testa, essas festas eram feitas apenas quando alguém muito importante do exército aposentada ou casava.
- Sim! Mas não é um dos nossos qualquer! - o outro disse arrastando a moça mais nova, enquanto cambaleava - Essa festa foi dada pelo capitão da guarda a mando do próprio rei em homenagem a guarda do príncipe!
Valentina que ouvia toda essa conversa com um certo desinteresse bateu no ombro de Kay e sinalizou para prestar atenção.
- A bárbara vai se casar? - a taverneira disse rindo - Quem em sã consciência pediu a mão de uma mulher tão bruta?
- Olha como fala... - a outra moça disse rindo - Gayla possui alguns admiradores pela cidade. Acho que os homens se atraem pela aparência dela.
- Mesmo assim, aposto que foi um outro criado do castelo...
- Não! - a menina disse - Foi pelo filho do duque Jhon, o próprio sobrinho do rei. Ele pediu a mão dela em casamento no equinócio de primavera, no meio da festa.
- Sendo assim...- a taverneira riu - Acho que agora eu mesma tenho chances com o rei.
- A senhora? - um dos soldados disse...
Mas pouco importa a conversa que desenrolava naquela grupo, Valentina e Kay trocaram olhares preocupados, aquele encontro que tiveram com a princesa teve suas consequências. O rei havia tramado um casamento!
- Já ouviram a história de que a princesa Avalon é a guarda? - a moça nova disse enquanto tomava um gole de vinho deixando suas faces mais vermelhas.
- Parece aquelas que fadas vivem na floresta e focas viram mulheres! - a mais velha disse rindo.
- Não é sério! - a menina insistiu - Dizem que foi o próprio Malakay que reconheceu ela! Imagina se for verdade!
- Bem, a ameaça de guerra iria embora de uma vez por todas... - a taverna suspirou - Seria tão bom!
- Então para sua sorte é possível que essa história seja verdade. - o soldado disse batendo no copo na mesa.
- Ah! - a mulher disse rindo - Está bêbado!
- Você também está! - ele disse revirando os olhos - Só estou dizendo que aquela garota foi levada para o castelo após o ataque de Zaark, com a mesma idade que a princesa e usando um vestido de seda. Se ela não é a princesa é no mínimo alguém importante!
- O que vocês estão olhando? - o outro soldado disse a Valentina e Kay.
Kay travou a mandíbula diante daqueles homens, suas mãos usavam frio e parecia que seu corpo estava prestes a sair de controle. Casar sua prima, assim,com um nobre sujo de Catalan era algo nojento de se pensar! Aquilo seria bom para evitar a guerra? Bem, a luta já estava pronta há anos e não seria agora que alguém recusaria! Não!
Seu corpo se projetou para frente para levantar, mas Valentina foi mais rápida, já estava em pé, mostrando a sua altura consideravel e expressão de desprezo. Ambos os soldados hesitaram.
- Nada, senhores, só escutando. Curiosidade. - ela olhou ao redor, para o resto das pessoas que encaravam a cena - Digamos que ninguém aqui pode deixar de ouvir...
O soldados analisou Val por mais uns instantes e deu de ombros, voltando para a a sua bebida, mas a mulher mais velha manteve seu olhar nela.
- Vocês não são daqui... - ela disse apontando para Kay e depois para a ruiva - São de Zaark.
Kay manteve o olhar no grupo, tentando identificar se estava com problemas, mas só conseguiu olhares curiosos.
- Achava que vocês preferiam morrer do que entrar no nosso país. - o soldado disse rindo.
- Não é para tanto... - Val revirou os olhos - Estamos apenas de passagem e não queremos problemas.
- Eu também não. - o soldado saiu do seu lugar e sentou na mesa com Kay - Sua namorada? As mulheres de Zaark são assustadoras!
- O que está fazendo? - Kay falou vendo o grupo dele migrar para a sua mesa.
- Queremos uma troca cultural... - o homem deu de ombros - Conhecem Malakay?
- Por que iria conhecer? - Kay disse tentando manter a calma.
- Ele está como cogitado para ser o próximo rei... - a mocinha disse rindo boba - Deve ter feito aparições públicas.
- Sim, assim como todos os nobres devem fazer isso... - Val disse sentando por fim - Mas ninguém sabe muito sobre isso, eles fazem questão de manter identidades secretas.
- Faz sentido. - a mulher disse pegando parte do pão de Val - Mas o que vocês acham dessa história de Gayla ser Avalon?
- Está falando da traidora? - Val disfarçou - Preferimos que Avalon esteja morta do que viver assim.
Os dois estavam torcendo para que todos estivessem bêbados o suficiente para não perceber o estado nervoso que se encontravam.
- É verdade que ninguém toca no castelo, mesmo vazio?
- Roubar dos mortos é maldição. - Val disse franzino a testa - Além disso, não está completamente vazio.
- Mesmo assim... - o soldado disse - Ouvi dizer que o castelo é praticamente todo feito de ouro, deve ter sido mais caro construir ele do que o de Catalan.
- Celina era um pouco megalomaníaca. - a mulher disse rindo.
- Sério? - o homem disse irônico - A rainha que deixou o boato de que ela tinha um dragão se espalhar era megalomaníaca?
Os comentários e as risadas fizeram a boca de ambos os bárbaros serem ligeiramente retorcida para o lado. Ninguém tinha o direito de falar da sua primeira rainha daquela forma tão desrespeitosa. A moça mais nova percebeu isso.
- Ouvi dizer que ela era muda... - a moça sorriu, ligeiramente assustada - E mesmo assim ela conseguiu ser uma governante e diplomata maravilhosa.
- Isso é verdade. - Val disse - Celina não era capaz de dizer uma única palavra, mas seu marido Liam era capaz de entendê-la.
- Mas chega de falar de Zaark! - Kay disse tomando um gole da vinho - Quem é esse tal de Darlan que Gayla está para casar?
- Um nobre, sobrinho do rei. - a mulher disse rindo - Tive o prazer de passar uma noite com ele. A guarda estará bem assistida.
- Que mulher da vida não passou uma noite com ele? - o soldado disse rindo - O rapaz vivia mais fora do castelo e em locais deploráveis do que realizando seu papel de nobre.
- Se bobear os dois vão se casar por causa de uma gravidez. - o outro homem disse.
- Você disse uma vez que o rei trata a garota como uma filha... - a menina falou pensativa - Faz sentido ele querer que a moça tenha o mínimo de respeito.
- Uma bárbara ser tratada como filha do rei! - mulher bufou, mas olhou para os outros dois ali presentes - Sem ofensas, mas o rei Vincent perdeu a cabeça depois da morte da filha e da rainha! Tapar a falta das duas assim, não vai conseguir nada!
A conversa continuou assim, Val e Kay mantiveram a pose de educados, mas não puxavam assunto e nem davam muitos motivos para a conversa continuar. Quando a ruiva bochejou de sono pediu licença para voltar ao quarto, Kay falou que a acompanharia.
- Gente estranha. - o soldado disse assim que eles estavam longe.
- Queria o que? - a mulher disse rindo - São arrogantes igual o resto de Zaark!
- Não fale isso... - a menina disse um pouco resentinda - Eu tinha uma avó que nasceu lá.
- E ela se envolveu com um homem de sangue vermelho? - a mulher riu - Imagino que seus bisavós a expulsaram de casa.
- O que o sangue tem haver?
- Zaark, Ilha do Dragão e Ilha das Maçãs são os únicos lugares do mundo em que você encontra uma população de sangue dourado, todos descendentes de cavaleiros de dragões ou de seres mágico, de acordo com as lendas. - a mulher franziu a testa - As ilhas não se importam muito com isso, mas Zaark... digamos que é crime para eles se misturar.
- Mas Cordelia era de Zaark e se casou com o rei e teve três filhos.
- Cordelia era vermelha. - o homem disse suspirando - Um erro na família.
- Assim como minha avó... - acrescentou a menina.
👑
Gostaram desse momento de troca cultural?
Garanto que Kay e Val não kkkkkkk!
Obrigada pelo apoio e até o próximo capítulo!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top