Você é de verdade?

Terminava de preparar um lanche pesado na cozinha de minha casa. Um conforto para o corpo pois logo seguiria para Prime Live.

De repente meu celular vibrou, o que era preocupante. Sempre acontecia ao chegar um mensagem em meu aplicativo de comunicação. Apenas as mensagens sobre o jogo chegavam, sem amigos não tinha quem mandasse algo perguntando como eu estava.

Liguei a tela. Mensagem de Hana. Hana? Como um estalo as coisas fizeram sentido em minha cabeça. Diversos patrocínios eram associados ao Prime Live e meu aplicativo de mensagem era vinculado por tabela a esses patrocínios por uma empresa grande. Como nunca havia adicionado ninguém, ainda não tinha tido esse choque de realidade.

Hana me convidava mais uma vez para entrar em uma masmorra com ela. Dizia que seu amigo furou e que ela precisava urgentemente completar um evento iniciante, e que estava me esperando dentro do jogo. Com os detalhes da mensagem eu soube que ela estava logada há três dias. Era uma menina tão insana quanto eu.

Como era algo de meu interesse eu confirmei. Com ajuda eventos que eu demoraria horas para fazer sozinho, com ajuda de Hana poderia ser concluido com a metade do tempo. Ainda estava me acostumando com isso. Já fazia quase um mês desde que ela me adicionou como amigo e já tinha me chamado algumas vezes para derrotar monstros ou ajudar a escolher itens. Porém era a primeira vez que me mandava mensagem, invés de simplesmente vir até mim, rastreando-me pelo mapa. 

Todas as vezes ela me jogava uma enxurrada de palavras e não havia uma vez que não perguntasse o meu "segredo". Eu sempre desconversava e deixava ela desconfortável com o silêncio que pairava quando eu não continuava o diálogo. Mesmo assim ela insistia dizendo que queria que eu fosse seu tutor.

Isso não seria vantajoso para mim, não queria perder tempo ensinando diversas coisas para ela, eu tinha que recuperar minha conta, por isso nunca dava alguma resposta ao seu pedido de aprendizagem.

A druida me esperava na entrada da masmorra. Acenou alegremente ao me ver, seus olhos verdes brilhavam de empolgação, como sempre.

— Você veio mesmo!

— Apenas porque vou ganhar algo com isso.

— Você se faz de difícil, hein? — Quando ela reparou, eu já entrava na caverna.

— Se você ficar para trás eu não esperarei.

Durante todo o percurso Hana seguiu há alguns passos atrás de mim. Parecia um pouco inquieta, talvez os gráficos dos monstros a assustasse. Por algumas vezes pequenos goblins e morcegos apareciam, mas eu os derrotava sem muitos problemas. Com seus padrões fáceis de se ler eles passavam longe de ser um desafio.

— Cara você não errou nenhum aparar! Eu não vou nem mais perguntar, eu já sei que você é um Retornante, custa ser meu tutor?

— Mesmo sendo Retornante eu nãos serei seu tutor — decidi admitir, para que ela parasse de mencionar essa palavra.

— E você joga há muito tempo? — Ela perguntou após perceber que eu mais uma vez não responderia seu pedido.

— Dois anos digamos assim. Mas nessa conta estou há quase um mês.

— Ah, legal! Eu jogo há alguns meses, mas eu demorei muito pra progredir... não sei bem as sequencias boas. Tentei ver alguns vídeos de tutorial, como eu já disse, mas não adiantou muito... ainda mais sendo uma druida! Como que eu derroto um inimigo sozinha, não dá! — Ela reclamava balançando os braços.

— É que tem um jeito certo de prosseguir, o mapa é imenso as missões muito deslocadas, então tem que saber o caminho certo e como derrotar os monstros. Quanto a ser uma druida, você sabe que ainda assim pode usar uma espada não é?

— O problema é que eu não sou boa com espadas ou arcos... — Ela respondeu, levemente corada de vergonha. Mas de repente o rubor sumiu, abrindo passagem para um brilho nos olhos de esmeralda ao notar algo. Foi a primeira vez que eu havia a respondido tantas vezes.

— Você tá finalmente dialogando comigo? Ai meu deu você sabe como falar!

Eu corei levemente e olhei para outro lado.

— Eu só me cansei de ficar mantendo o silêncio — Apesar de usar essa desculpa, até mesmo eu havia me surpreendido. Foi fluido, eu simplesmente respondi, diferente de todas as outras vezes.

— Vamos lá, agora que você tá conversando comigo me responde sobre aquilo de ser meu tutor! Por favor me ajuda a ficar melhor! Eu preciso muito conhecer alguém que tá nesse jogo, mas pra isso eu preciso de prosseguir melhor... consegui ver que você é um ótimo jogador, por favor me ajuda!

Aqueles olhos não paravam de me sufocar, ela estava com os punhos cerrados e braços colados no corpo, levemente inclinada na minha direção. Um ar de piedade e muita esperança pairava ao seu redor. Meus olhos tentavam inconscientemente desviar para não cruzar com os dela, em um tentativa de evitar aquela pressão que seus olhos causavam.

— É que... desculpa, não dá. É conveniente que eu venha nessa masmorra com você, só isso — um marejar surgiu no olhar dela, mas tentei ignorar.

Antes que ela pudesse questionar eu segui, passando por ela e logo cruzando a curva da caverna, quando de repente o barulho de espadas colidindo ecoou do final. Seguimos para verificar e avistamos dois jogadores em uma declividade de pedra enfrentando monstros. Hana logo pareceu querer chamá-los, mas rapidamente tapei a boca dela. Realmente era uma iniciante inocente.

— Você é louca? — Sussurrei — Não chame eles.

— Mas podem nos ajudar! — Respondeu após eu liberá-la.

Minha cabeça balançou em negação, com um pouco de decepção.

— Você é uma druida, use a visão da verdade neles. Provavelmente tem essa habilidade.

A menina me olhou confusa por alguns segundos e logo procurou em sua árvore. Um tom roxo tomou sua visão, e quando Hana mirou os jogadores, sangue surgiu gotejando das mãos deles.

— O quê? Por que as mãos estão gotejando?

— Como eu imaginava. Áreas de cavernas podem ser usadas para combate livre, jogadores como eles infernizam a vida de novatos só para acumular pontos... mesmo depois de uma guerra ainda tem jogadores que fazem esse tipo de coisa...

De repente, após derrotar o monstro, um dos jogadores fez a ativação de uma habilidade de rastreio. Tal poder mostrava localização de oponentes próximos.

Eu rapidamente puxei o braço de Hana e corri para o lado oposto. Ela me perguntou confusa o porquê, afinal se eles queriam nos enfrentar e eu sou um Retornante, poderia facilmente derrotá-los. Porém ser um Retornante e ser burro são coisas diferentes. O evento estava há poucas horas para terminar, e mesmo que aparasse todos os ataques, dependendo do nível do oponente minha espada de nível baixo nãos seria capaz de dar dano o suficiente e com certeza ela quebraria durante o combate.

Paramos atrás de uma parede da caverna, mas os jogadores ainda estavam atrás de nós. Procurei em minha mente maneiras de evitar aquilo, até que visualizei uma porta ao longe.

— Venha por aqui! — Quando atravessamos a porta, uma mensagem de ativação de objetivo surgiu — Temos que derrotar o Minotauro de Clava para concluir o evento, não é?

— Sim, mas para derrotar isso precisamos de muitos jogadores, esperava encontrar alguém no caminho para nos ajudar.

— Não se preocupe, derrotaremos ele sozinhos.

— O quê? Mas isso é impossível! — Hana deu passos para trás, com medo. Realmente seria muito difícil se fosse eu sozinho, por isso demorei muito quando era o DeathKiller, mas com essa druida seria milhares de vezes mais fácil, tinha que convencê-la a lutar.

— Você quer que eu te ajude a ficar mais forte, não é? — disse a melhor coisa que pensei no momento.

Hana parou de recuar, mas o cajado continuou tenso contra seu peito.

— Eu quero, mas...

— Não, não! Sem mas. Se você conseguir me ajudar a derrotar esse boss eu vou acreditar que você merece ser minha aprendiz.

Uma empolgação que antes não existia surgiu no semblante dela. Seu corpo se soltou e ela veio para meu lado. Eu logo ativei a liberação da criatura. A sala acendeu com o inicio do confronto e a barra de vida da criatura surgiu no topo da visão. A estátua de minotauro ao longe se partiu em diversas rachaduras e o monstro surgiu dela.

Com quatro metros de altura e uma feição assustadora ele se aproximou com passos pesados. A clava na mão direita.

Hana, por mais que tentasse manter uma postura determinada, seu cajado ainda tremia em suas mãos. E então um jogador surgiu da mesma porta que nós. Ele estava determinado a nos derrotar, com um sorriso maldoso em sua feição.

— Parece que vocês ficaram encurralados, nunca vi novatos tão burros! — O jogador que nos perseguia caiu numa gargalhada — Correram com o rabo entre as pernas e deram de frente com o boss, que ridículo! Eu não sei se agradeço vocês ou tenho pena, mas não se preocupem, logo estarão no lobby!

Quando ele avançou na minha direção, eu usei tudo que eu tinha para desviar dos ataques e, ao mesmo tempo, conciliar o movimento para evitar o minotauro. Até que, em determinado, deixei-me ser estocado pelo ataque do jogador. Ele gargalhou satisfeito, pensado que me derrotaria. Até mesmo Hana gritou pensado que eu seria derrotado, mas não passava de parte do meu plano.

Eu rapidamente segurei os braços do meu oponente o mais forte que consegui. Impedindo-o de se afastar, o boss agora bem acima de nós, seus olhos vermelhos brilhavam demonstrando a intenção de atacar com a clava. No exato momento que ele atacou, eu fiz a ativação de uma das habilidades mais descartadas pelos jogadores: Intangibilidade momentânea. Por um único segundo meu personagem ficaria intocável. E por ser por tão pouco tempo que quase ninguém usava, ou se quer upava, mas de tanto usar essa habilidade eu aprendi o memento exato de ativar em muitas situações.

Quando a clava acertou, apenas meu oponente foi derrotado e como eu fui o último a interagir com o inimigo, as recompensas do abate foram para mim. 50% de todo seu dinheiro e bastante experiência.

Não perdi tempo ao correr depois do abate, pois o boss não havia cessado os ataques. Parei apenas ao chegar do lado de Hana.

— Agora temos que derrotar esse inimigo.

— Como? Você disse que eu posso ajudar, mas eu simplesmente não sei o que fazer!

— Então você não pode vacilar agora. Só faço uma pergunta antes: você estuda esse jogo?

Ela inclinou a cabeça para o lado, sem entender o que eu estava me referindo, um suspiro lançou-se de minha boca. Ela poderia ao menos ser um pouco mais prática, espero que no combate sério como esse seja mais que um rostinho bonito.

— Na nuca desse boss há uma camada de barreira, se quebrarmos isso e acertamos o cristal ele toma um crítico de toda a barra de vida.

— Nossa! Então por isso você estava tão confiante! Eu jogo como uma viciada, mas nunca parei para estudar... — De repente ela balançou a cabeça em uma tentativa de manter o foco — Como vamos acertar? Ele tem quatro metros de altura...

De repente o boss puxou muito ar. Um sopro de fogo viria em seguida. Eu logo peguei Hana em meus braços e corri em um círculo em volta dele, evitando o ataque.

— Você é uma druida e tem muitas habilidades de suporte, só precisa enraizar ele! — Falei soltando-a no chão. Ela assentiu.

Depois de fortalecer sua base, começou a proclamar uma magia de enraizamento. Eu não perdi tempo e corri para atacar o boss, evitando que ele mirasse na pequena druida, porém por um descuido eu falhei em aparar o ataque do inimigo e recebi um golpe em cheio do boss. Meu corpo foi arremessado para trás, em colisão com uma parede.

— Saito!

— Não foque em mim! Termina a magia!

Passei a mão pela boca, um pouco de sangue escorreu. Era fictício, mas sentia como se fosse real e eu sorri. Um minotauro simples desse não era nada comparado a um boss de nível alto com um nome propositalmente intimidador, mas, mesmo assim, algo me fazia dar muito valor para aquele combate... aquele calor que surgiu em meu peito... essa vontade de duelar... finalmente, depois de tanto tempo, eu me senti empolgado jogando esse jogo. Não tinha os status do "DeathKiller" não poderia de forma alguma aparar aquele ataque poderoso, precisava de usar da agilidade!

— Estou pronta! — Hana gritou — Vinhas de enraizamento!

Vinhas verdes quebraram o chão e envolveram as pernas do minotauro, impedindo que se movimentasse por alguns segundos. Então eu corri, ao me aproximar rolei para esquerda, evitando um ataque onde a clava se prendeu no chão, criando uma ponte para seu braço. Eu logo escalei a clava, subindo por seu braço e por fim rapidamente desferi um ataque contra a barreira, quebrando-a e acertando o cristal em seguida.





Hana corria animada de um lado ao outro em um campo gramado. Era uma área do outro lado da caverna, onde pequenas recompensas poderiam ser obtidas após a derrota do boss. 

— Você é muito elétrica, já pensou em parar e descansar por um momento? Tá toda hora correndo, seja no lobby ou aqui.

— É que eu gosto muito de correr!

— Isso eu percebi — Caí para trás, de costas na grama, o olhar fixo no céu. Não lembro qual foi a última vez que me diverti em uma batalha. Sempre que estava em meu castelo e alguém me desafiava eu o derrotava sem dificuldade. Poucos eram aqueles que conseguiam me dar um duelo satisfatório. Apesar de ser um bom passa tempo, quase sempre era tão entediante quanto a vida real.

De repente Hana se jogou do meu lado, assustando-me. Seus olhos verdes me olharam e um sorriso gentil surgiu.

— Parece que você vai ter que me ajudar a ficar forte agora! — ela revelou com um ar sapeca.

Um suspiro lançou-se de minha boca.

— Por favor não fique me lembrando da minha sina.

— Ah seu bobo — ela reclamou em um tom cômico, dando um leve tampa no meu ombro — Posso te fazer uma pergunta um pouco inconveniente?

— Vai depender de qual for.

— Você é um menino de verdade?

— Por que a pergunta?

Ela pareceu pensar por um tempo.

— É que eu já vi meninas que usavam personagens masculinos, então você poderia ser uma menina!

Eu ri por um momento, parecia uma pergunta bem inocente.

— Eu sou um menino. Eu usei de minhas próprias feições para fazer esse personagem, não tenho criatividade para criar coisas como os personagens estranhos que dá para se encontrar por aí, então optei pelo caminho mais fácil.

— Nossa! — Ela rapidamente ajeitou-se para sentar — Eu também!

Eu acabei sentando também, um pouco surpreso.

— Quê? Você realmente é uma menina? — A imagem de eu a pegando em meus braços veio em minha mente. Pelo fato de não saber se aquilo era um garoto ou uma garota eu acabava não me incomodando, mas pensando bem eu acabei segurando na mão na bunda dela, mesmo que sem querer, por conta do movimento, e isso rendeu um rubor em minhas bochechas.

— Sim! Eu sou assim, do jeito que está vendo! Só o que muda é a cor do cabelo, dos olhos e... um pequeno detalhe que não vem ao caso! — Um sorriso gentil no rosto dela. Usei mais alguns segundos para apreciar as feições da Hana, um grande cabelo verde dançando suavemente com o vento, orelhinhas fofas escapando pelas mechas, olhos de esmeralda me fitando. Realmente era muito bonita.

No meio de meu devaneio minha mão se levantou inconsciente, e tocou o rosto dela, tentando constatar o que eu havia escutado. Era uma pele parda sutil e macia. Minha palma cobriu toda sua bochecha e grande parte da lateral do seu rosto. Sua pequena boca estava um pouco aberta e meu polegar sentiu sua respiração esquentar.

— Saito?

Eu finalmente notei o que estava fazendo quando chamou pelo meu nome. Eu me afastei por alguns centímetros enquanto meus olhos não conseguiam largar o rosto de Hana, que estava completamente corado. Uma certa surpresa em sua feição.

Eu logo balancei a cabeça e me levantei. Eu provavelmente tinha estragado tudo, o que diabos deu em mim... eu simplesmente toquei o rosto dela sem mais nem menos... e agora como ela iria reagir?

— Bom temos que terminar de coletar as recompensas do evento, você vem? — Perguntei, tentando disfarçar e estendi a mão.

Não soube o que estava se passando na cabeça dela naquele momento e eu tive medo dela simplesmente se afastar de mim por esse avanço repentino. Porém, ao contrario do que eu imaginava, ela sorriu e segurou-a.

— Vamos!

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