A lua de prata.

Quando faltavam apenas algumas horas para o evento nós terminamos de preparar o inventario com recursos o suficiente para realizar os combates. Foram mais de doze horas de coleta, mas foi um investimento necessário. Restava apenas aguarda no quarto da pousada para que o evento se iniciasse quando eu acabei sendo puxado para a chave de Raziel, ele me disse que já havia lançado o Patch que deslogaria todos derrotados e havia encontrado uma possibilidade de eu recuperar minha habilidade mais poderosa, mas ao fazer isso perderei para sempre o Deathkiller. Eu paralisei por um momento. Tudo que eu fiz desde o início era para recuperar minha conta, conseguir meus itens, minha habilidade, por isso criei essa nova conta... Mas no meio do caminho eu me desviei, encontrei Hana, adicionei alguém pela primeira vez, passei dias com ela, tive desavenças, me apaixonei... Seria tão importante assim manter a minha conta? 

Apenas fechei meus olhos e senti meu peito, a resposta era clara.

— Eu não me importo, não mais, só quero salvar a Hana.

Ele viu confiança nos meus olhos e concordou com a cabeça.

— Como te disse eu não posso criar um item do nada, por isso não posso te dar uma espada que derrota em um ataque, mas posso programar uma função para o jogo — de repente uma espécie de botão surgiu na mão de Raziel — Isso não é um item, é uma sequência de códigos que serão ativos quando você apertar o botão. Acredito que Ice usará a conta de administrador. Quando você apertar o botão um duelo definitivo vai se iniciar contra quem você estiver olhando. No momento que o duelo acabar, o jogador derrotado terá sua conta apagada. Isso só será possível pelos motivos que eu já te expliquei, assim garantimos que Ice não tentará mais nada. Também lancei uma proposta e consegui convencer os superiores a reativar durante a lua de prata outros eventos, como estratégia para mais jogadores ficarem on-line. Nessa brecha a ponte do grimório deve retornar ao norte, é sua chance de conseguir sua habilidade.

Eu agradeci Raziel pelo favor. Essa era a oportunidade que eu precisava. Com o grimório eu poderia derrotar meu oponente.

Então nós fomos para o evento. Todos os jogadores seriam enviados para uma área aberta cheia de inimigos, incluindo diversos boss e sub chefes. Aqueles que dentro de uma hora conseguissem mais pontos seriam transportados para a superfície da Lua de Prata. No local se iniciaria um grande Battle Royal de todas as legiões e jogadores inscritos. Apenas o último grupo ou jogador sobrevivente levaria o prêmio.

Quando o evento começou eu e Elena corremos para derrotar o máximo de monstros possível. Como uma besta furiosa, eu consegui derrotar todos movido pelo ódio. Já tinha em mente todos padroes de ataques daqueles monstros, se quer eram capazes de me causar dano. Elena também serviu como uma excelente suporte, foi capaz de afastar os jogares que se aproximavam utilizando magia, permitindo que eu facilmente derrotasse os intrusos.

A conta que Elena usava já era nível máximo, então toda experiência ganhada se direcionava para mim. Por conta disso, quando mais tempo passava, mais níveis eu subia em uma velocidade impressionante.

Elena era capaz de causar muito dando com sua conta, o que ajudava com a maior parte do duelo. Apesar de sua conta ter sido top 50 no passado, agora já havia caído para 300, mas ainda era o suficiente para fazer um ótimo estrago.

Quando a uma hora se terminou, nós conseguimos nos classificar no limite possível. Foi um alívio, mas ainda não havia terminado.

Paramos por um tempo para recuperar vida e trocar os itens gastos e logo fomos teleportado para a superfície. Para todo lado que eu olhava havia oponentes. Eles se enfrentavam em explosões de magia que cobriam uma grande parte do campo.

— Agora temos que procurar pela ponte!

Elena confirmou e nós corremos para o local que Raziel havia falado. Era minha chance de conseguir a liberação que poderia me dar a vitória.

Nós derrotamos aqueles que estavam pelo caminho, chegando ao ponto de Elena quase ser derrotada por uma das equipes. Apenas não aconteceu por ela ser uma ginasta nata, conseguindo fazer acrobacias para fugir dos ataques e realizar magias de ataque em sequência. Agradeci internamente por ela ter capacidades como essa. 

Então finalmente chegamos na ponte. Para minha surpresa Ice estava lá, de pé em frente a ponte. Sua armadura prateada era a mesma, os cabelos brancos balançavam no ar e a espada elemental de gelo pronta para atacar.

— É impressionante como um rato sempre acaba indo na direção da ratoeira, apenas para conseguir um pequeno e perigoso pedaço de queijo — Ele disse, tentando me intimidar.

— Você não vai vencer Ice, muito menos sair impune. Eu vou acabar com você!

Artur sabia que se eu passasse pela ponte eu conseguiria recuperar minha habilidade, ele teria que impedir minha passagem. Todavia não permiti que ele iniciasse, eu avancei primeiro e ele usou diversas liberações para me impedir. Eu aparei a maior parte dos ataques, esquivei de outros, por fim terminando com uma troca de forças entre as espadas.

— Você não vai passar!

Ele forçou com um poderoso golpe, arremessando me para trás, então avançou contra mim. Eu aparei o máximo que foi possível, mas estava sendo muito pressionado, aos poucos um entre vinte ataques acertaram, eu estava nervoso não conseguia concentrar. O coração acelerado bombeando lava pelas veias, meu corpo sabia tudo que estava em jogo, a adrenalina quase saltava pela pele. Minha mente aos poucos se perdia, os ataques de Ice deixavam meu personagem mais lento a cada acerto, eu estava cedendo, a barra de vida quase na metade. Eu não seria capaz de derrotá-lo?

— Se concentre Saito! Você não está sozinho!

Olhei por cima do ombro, Elena havia preparado uma magia. Eu esqueci completamente que estava acompanhando. Ainda mantinha dentro do meu coração o meu estilo de jogo solitário, mas não deveria continuar assim: eu não estava sozinho. As pessoas contavam comigo. Com a ajuda dela eu conseguirei passar!

Quando aparei o último golpe de Ice, uma magia de explosão foi lançada por Elena. Ele se esquivou, mas a sequência acabou sendo impossível de esquivar, pois alguns golpes meus foram desferidos, forçando-o a bloquear, então Elena finalizou minha passagem com vinhas de enraizamento.

Quando cheguei na ponte minha vida se reduziu, assim como o evento original. Eu tinha que me concentrar, eram incontáveis inimigos que apareceriam por todos os lados e, após atravessar, recuperaria meu poder. Após respirar fundo eu avancei. Junto aos meus passos as memórias com Hana surgiram em minha mente, cada passado, cada aparar, cada golpe era por ela, por uma lembrança dela, para salvá-la. Era tudo por ela, eu não ousaria morrer aqui.

Um por um os mostros foram derrotados. Ordas caíram aos meus pés e eu avancei ainda mais, avancei com toda minha alma, correndo como se não ouvesse amanhã, correndo com as pernas que emprestei para Hana naquela noite, com a mente que abriu-se para ela, com os olhos que a admiravam, com a mão que a acariciava, com os braços que a abraçavam, com o coração que a amava. Quando percebi estava do outro lado, ofegante, vitorioso.

Uma mensagem de conclusão apareceu, dizendo que aceitar o grimório significava perder todas outras liberações que não fossem básicas. Eu aceitei, terminando o evento e desabilitando a ponte.

Quando retornei, minha vida havia retornado a quantia inicial e Ice havia deixado Elena no chão, ela o segurou o máximo que conseguiu e eu estava muito grato.

— Eu fiz o máximo que eu pude — Ela disse ofegante e eu assenti com a cabeça, sinalizando minha gratidão pelo esforço dela — É com você agora.

Foi a última coisa que ela disse antes de ser finalizada. A este ponto quase todos os jogadores haviam sido mortos, restando muito poucos. Eu não precisava ganhar o evento, isso era o de menos, tudo que eu precisava era derrotar Ice.

— Esse é o último duelo Ice, as cosias acabam aqui — Eu logo utilizei o recuso que Raziel me deu para forçar um duelo definitivo. Era eu contra Ice, uma conta de administrador. Tudo que eu poderia fazer era usar a espada dada por Raziel e usar minha habilidade.

Ice nada disse. Ele apenas avançou contra mim. Eu aparei os ataques e desferi dois golpes certeiros. Com aquela espada a vida extra de um administrador não fazia diferença, dez ataques deveriam ser o suficiente. Minha vida já estava baixa ao ponto de ativar o poder do grimório e Ice já sabia que era minha próxima ação. Então ele usou a segunda habilidade mais forte do jogo.

Nós avançamos um contra o outro, era o último empasse, eu conta ele. Espada contra espada.

Sua rapiera era veloz, dois golpes atravessaram muito rápido, reduzindo minha vida para seis por cento, mas não me deixei abalar. Mais golpes foram desferidos por mim, reduzindo muito sua vida. Então uma sequência de golpe e aparar se seguiu. Eu golpeava e ele bloqueava, ele golpeava e eu aparava. Mas isso não poderia durar para sempre, eu estava com tempo limite, dois por cento da vida, dez segundos era o limite.

Em um último avançou eu girei o pé para desviar a lâmina, que invés de acertar o peito, cortou as pernas, então girei rapidamente cortando a cabeça. Com dois ataques críticos a vida do administrador se reduziu a um por cento. 

Ice saltou para trás, restava cinco segundos.

Eu corri, quatro segundos. Ice aparou e revidou, três segundos. Eu aparei e cortei, dois segundos. Ice bloqueou no último instante e caiu no chão, um segundo, e então o finalizei, cravando no meio do seu peito. Com a vitória do combate, minha vida travou em um porcento.

Eu caiu de bunda no chão pelo cansaço, as gotas de suor caiam no chão, o corpo estava quente e o coração se recusava a se acalmar. Eu logo verifiquei a lista, Hana foi deslogada. Um suspiro aliviado se lançou de minha boca, seguido de algumas gotas que escorreram de meus olhos, de encontro contra o chão.

Eu me levantei e alguns jogadores que havia restado me viram. Eu apenas abri meus braços e esperei ser derrotado.

Quando acordei corri para ver Hana, ela estava um pouco desnorteada e desabou ao me ver. Disse ter sentido muito medo, mas agora estava resolvido, ela estava salva. Revelei a ela que Artur seria preso, pois a polícia já havia sido acionada. Ela sorriu feliz ao saber que finalmente estava tudo bem... Pelo menos foi o que pensamos.

Elena havia descido para falar com a mãe de Hana, que estava preocupada, enquanto eu e Hana ficamos sozinhos no quarto.

Neste momento escutamos um barulho peculiar, como uma roleta girando, um engatilhar. Quando olhei para o lado, foi apenas tempo o suficiente para me jogar com Hana na lateral da cama. Artur estava prestes a atirar, o disparo foi realizado. Por sorte fugimos a tempo, mas outros dois seguiram, atravessaram a cama e quase nos acertaram.

— Eu só queria ser feliz! Você não entende isso?! — Ele estava histérico, gritava a plenos pulmões.

Elena não demorou ao ouvir a confusão e correu para nós ajudar. No momento que ela apareceu, Artur atirou, acertando em sua perna. O desespero banhou o corpo de Hana ao ouvir os gritos de dor de sua babá, mas não poderia deixar ela levantar.

— Tudo vai acabar agora — ele disse, ainda havia um disparo em sua arma — Você destruiu minha vida desde o primeiro momento que apareceu, roubou ela de mim! Vou roubar tudo de você!

Artur não queria errar, apenas teria mais um disparo. Então se aproximou pelo canto da cama. Por sorte eu consegui ver um espelho que ele não havia notado, então, no momento que se aproximou eu avancei.

Consegui levantar suas mãos antes que ele conseguisse disparar. Uma luta corporal se iniciou, nós caímos no chão, aquele que dominasse a arma primeiro sairia vivo. Artur conseguiu me chutar algumas vezes, mas não teve força o suficiente e como eu estava por cima fui capaz de socar seu rosto. Ele perdeu um pouco da força e golpeei mais vezes, golpeei até ver o sangue escorrendo por sua boca, após isso eu dominei a arma.

— E agora seu desgraçado!

A massa de mira apontou bem entre seus olhos, ele estava desnorteado e a raiva borbulhava em minha alma. Tudo passou pelos olhos de Artur naquele momento, o bullying físico e mental que sofreu desde sua infância por ser obeso, a forma que lutou contra os pesos da academia para em fim se olhar no espelho e se orgulhar de seu corpo. Desde sempre Artur foi um garoto solitário, não havia quem se aproximasse, sem amizades, sem parentes. A única pessoa que se aproximou dele desde a infância foi Hatsumi, ela se importou com seus machucados, enfrentou os valentões que o batiam e mostrou o que era ter alguém em sua vida.

Artur logo se apaixonou por aquela menina, um amor não correspondido desde sempre, mas no geral nunca foi uma pessoa ruim. Apesar de sua vontade interna de se vingar daqueles que o machucavam, Hana sempre pôde afirmar que ele jamais faria mau a uma mosca. A maior parte do tempo Artur era um amor, gentil, atenciosos, um bom amigo. Foi assim até que conheceu o prime live, Artur demorava mais a responder, passou a ter crises de raiva, tornou-se mais agressivo e auto-confiante. A liberdade que o jogo deu foi o suficiente para que suas crises de vingança viessem à tona, desferia aos outros jogadores a dor que sentiu desde a infância, sua vontade de ser o mais forte, de ser aquele que ninguém tem coragem de mexer.

Ele quase conseguiu tal feito, pois foi eu quem o derrotou, trazendo consigo mais uma derrota, acabando com seu reinado da Carnificina.

Agora estava ele, mais uma vez, rendido, derrotado com uma arma em sua cabeça, mas dessa vez ele não retornaria, seria um game over eterno. Toda dor que ele redistribuiu para Hana era imperdoável. A gritava ao fundo, desesperada, mas mal conseguia ouvi-la, os ouvidos estavam com um chiado peculiar, os olhos cegos e sedentos por vingança.

— Saito! — Elena gritou de repente. Ela havia se apoiado na porta e estava tentado se aproximar, ignorando a dor na perna — Eu sei que você está com raiva, mas não faça isso por favor. Você não precisa conviver com isso, ele já está derrotado.

— Mas ele merece!

—  Eu sei — Ela disse compreensiva. Suas mãos finalmente chegaram até às minhas, Elena as tocou, implorando fisicamente para evitar o gatilho — Acredite, eu sei o que eu estou falando. Você vai matar porque quer, não precisa fazer isso, escute a Hana também, quanto mais você alimenta esse ciclo, mais dor todos irão sentir, seja melhor que Artur e finalize isso da forma correta.

Eu olhei por cima do ombro, minha respiração já estava se acalmando. Os olhos de Hana imploravam em lágrimas para não fazer aquilo e, no último segundo, eu soltei a arma. Elena respirou aliviada e guardou a mesma. Minutos depois a polícia chegou, levando Artur que posteriormente receberia vinte anos de cadeia.

Felizmente o escândalo da conta acabou não sendo muito divulgado e poucos souberam o que aconteceu desde então. Algumas pessoas estranharam o sumiço de Deathkiller, até mesmo fazendo teorias mirabolantes do que teria acontecido. A verdade é que a conta se perdeu naquele duelo, foi necessário.

Eu e Hana continuamos jogando desde então. Chegamos a finalmente montar uma guilda depois de ela ter me convencido com muita insistência.

Como o evento se reativou durante a lua de prata, muitos ficaram sabendo que eu consegui como Saito passar pela ponte, por isso acabei ganhando uma certa fama na nova conta, tornando-me uma espécie de "novo" Deathkiller.

A guilda cresceu por conta disso e fizemos muitos novos amigos. Eu acabei me casando com Hana no jogo, em uma comemoração que até mesmo Elena e a sogra apareceram. Paulo também fez questão de comparecer.

Era um casamento fictício, em um jogo virtual, mas era a minha realidade, com a pessoa que eu amava. Eu ainda me casaria com ela na vida real. Mas aquele era o começo, o início de nossa história juntos.

Pela primeira vez, verdadeiramente feliz.

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