A culpa é minha

Minha crise de ansiedade atacou como nunca antes havia. Meu coração tamborilava desesperado... logo quando eu pensei que tudo ficaria bem, quando imaginei que havia conseguido pessoas que confiava... eu fui traído.

Estava cansado disso, cansado de tudo. Eu corri para o banheiro, com os braços tremendo, e peguei minha Fluoxetina, mas não havia mais nada, estava vazio. Eu entrei em desespero, minha cabeça estava estourando, sentia vontade de vomitar.

Eu procurei desesperado pelo banheiro, não me importando no que eu estava derrubado, e não achava a receita em lugar algum. Procurei pelo meu quarto e nada.

Saí pela porta, sentido o sol me agredir pela mudança do escuro de minha casa com o claro da rua, mas não me importei. Apenas vaguei pelas ruas, tremendo como um louco, com capuz na cabeça. Os olhares daquelas pessoas me julgando... Não me importava se estava desajeitado, se minhas roupas estava amarrotadas, não importava nada, só queria chegar na porcaria daquela farmácia.

Minutos depois eu vi, naquela esquina a drogaria. Entrei pela porta assustando o atendente, mesmo que sem querer. Eu não conseguia falar direito, ele mal me entendia, tudo que eu queria era porcaria do meu remédio.

Quando ele finalmente entendeu, pediu-me a receita, mas eu não havia encontrado em lugar algum. Eu logo bati com a mão no balcão, deixando três notas de cem e voltei a pedir o remédio, mas ele se recusou mesmo assim.

Eu surtei, mais do que eu queria. Ameacei derrubar tudo, mas quando ele disse que iria chamar a policia eu me retirei.

Deixei-me cair, deslizando pela parede de qualquer prédio que tivesse alí, até minha bunda encontrar o chão. Eu queria chorar, queria gritar desesperado. Nem logar eu podia, pois estava em crise e por segurança o Neural Aceptor bloqueva... que merda... a vida era uma merda. Estava cansado de viver sozinho, cansado das pessoas, cansado de tudo.

Uma voz em minha cabeça dizia algo bem claro... "Se jogue na frente daquele carro, não fara diferença para ninguém".

E realmente não faria... eu me levantei, dei passadas... não conseguia ouvir nada, como se um chiado dominasse minha mente. Então eu corri para aquele carro. Seria o fim... pelo menos se não tivesse sido empurrado.

Uma menina com uma roupa de corrida me empurrou antes que o carro me acertasse. Nunca consegui me lembrar do rosto daquela garota, aquela me salvou do suicídio, apenas de um colar que saltou de seu pescoço após ser atingida. Os dois corações muito bem detalhados se partiram com o impacto e caíram a poucos centímetros de minha cabeça, que em seguida colidiu com o chão, retirando minha consciência.

Quando eu acordei estava em um hospital com a cabeça enfaixada. Os médicos disseram que eu apenas bati a cabeça e não tive muitas complicações.

Eu logo perguntei sobre a menina, mas eles me revelaram que ela foi levada para um hospital chique do outro lado da cidade, pois ela tinha condições de bancar um serviço melhor.

Tentei também procurar por uma noticia de acidente na internet, eu apenas acordei cinco dias depois do acidente, seu nome era Hatsumi Naomi, apenas dizia que ficou paraplégica, essa menina jamais poderia andar por culpa minha. E eu não poderia jogar fora essa chance que ela me deu.

Assim que me liberaram do hospital, dois dias depois, eu loguei no Prime Live. Eu estava decidido. Era o segundo mais poderoso do servidor no momento, mas ainda era um mestre em aparar, e todos sabiam disso.

Seja sozinho ou não eu darei um jeito de derrotar James.

Tentei entrar em contato com Chloé, mas ela me disse que não poderia mais jogar por causa de uma descoberta recente. Eu não me importei em perguntar, pois isso também seria entrar demais na privacidade dela e não faria diferença.  Então meu próximo passo daria sequencia ao evento que traria meu nome ao mundo.

A liberdade que os desenvolvedores davam aos jogadores permitia os papéis de vilões e heróis. Atualmente James e Mark era os vilões, e derrotarei eles.

Juntos eles fundaram a guilda "Espada do Carrasco". Eram a maior guilda do servidor e deslocavam jogadores para cobrar pedágio na maior parte do mapa do jogo. Em todas rotas havia um grande grupo de "guardas" cobrando.

Se não pagassem eles eram abatidos e a grande maioria desses jogadores utilizavam pontos de Carnificina no máximo de tantos jogadores abatidos. Mesmo com esse bônus de dano eu irei derrotá-los sem utilizar tais pontos.

Comecei pelas áreas mais distantes, onde os postos mais fracos estariam, teoricamente. E os derrotei facilmente. Então avancei, derrubando posto pós posto ininterruptamente. Os jogadores que tinham o caminho liberado começaram a se inspirar novamente ao me ver derrotando aqueles inimigos. E a chama da derrotada "Espada da Justiça" foi acesa novamente no coração de todos.

O que começou com apenas eu derrotando alguns postos, tornou-se uma enxurrada de jogadores inspirados atacando vários ao mesmo tempo. Aos poucos o mundo ficou sabendo daquele evento, e em todo lugar passou a ser falado sobre isso. Os jogadores bons contra os maus, os heróis contra carnificina.

James e Mark começaram a temer o meu avanço, eles sabiam que eu era capaz e a quantidade de jogadores que passou a me seguir novamente. Eles perdiam postos mais rápido do que podiam recuperar e eventualmente chegaria a um ponto insustentável. Então, prevendo suas derrotas eminentes, um acordo foi selado.

Para acabar com essa guerra eu iria batalhar em um duelo definitivo contra James e Mark ao mesmo tempo.

Mark ainda era o top 1 e James estava no top 4. Seria um combate difícil mesmo eu sendo o atual top 2. Aparar contra um inimigo só era mais tranquilo, mas dois tiraria a minha atenção. Não era como aparar diversos monstros ao mesmo tempo, eles tem padrões que podem ser previstos, mas jogadores eram irregulares, aparar o ataque de dois deles ao mesmo tempo seria um desafio. Era diferente da primeira emboscada, onde James estava muito longe de ser um perigo, mas atualmente ele era uma ameaça. 

Ainda assim, mais uma vez os corações de todos estavam torcendo pela minha espada.

Havia muito em jogo, minha conta estava em risco, eu não poderia ser derrotado. Pela menina que perdeu o movimento das pernas para eu estar aqui, eu não deixarei minha vida chegar a zero!

Eles avançaram. Eram muito ritmados, conseguiam golpear sem brechas, suas liberações de espada eram poderosas, como se tivessem treinado especificamente para me derrotar. Aos poucos eu conseguia desferir dano neles, mas eu também era golpeado quando vacilava ao aparar. Aos poucos minha vida chegou a vinte e cinco por cento, e eles ainda estavam em quarenta. Seria mais fácil se eu conseguisse focar em um só, mas eles trocavam constantemente de posição, o que dificultava.

Nós estávamos sobre um pilar de pedra imenso, que era uma arena, e os gritos de todos clamavam por Deathkiller. Aqueles que imploravam e aplaudiam na arquibancada ao redor, nas televisões e celulares. Todos acreditavam em mim, e eu sabia, que talvez até mesmo Hatsumi poderia estar torcendo por mim. Aquela batalha havia furado a bolha do jogo e estava sendo televisionada por todos canais de relevância. Era um evento comparado a uma guerra, todos estavam ansiosos para o desfecho.

Então eu respirei fundo e me concentrei, estava perdendo o combate. Nesse ritmo eu estaria fadado a derrota... mas eu não seria o melhor jogador desse jogo se não tivesse uma carta na manga. Era a hora de mostrar o verdadeiro poder de Deathkiller.

Muitos se perguntavam porquê eu não usava habilidades de espada, sempre aparava e utilizava liberações corporais que ninguém fazia questão, como intangibilidade momentânea ou aparar superior, que eram habilidades de nível básico.

A resposta era simples: nunca houve a necessidade de usá-lo, mas agora seria uma exceção.

Com a lâmina da espada eu causei dano a mim mesmo, cortando superficialmente meu braço. Meus oponentes estranharam aquilo, mas meu objetivo não era me render, eu queria baixar minha vida de 25% para 20%.

Após isso eu entrei em posição de combate, uma que ninguém tinha visto antes. Meu pé esquerdo à frente e o direito mais atrás, proporcionando uma boa base. Joelhos levemente flexionados, meu braço esquerdo esticado, com o punho cerrado e a espada no direito, paralelo ao esquerdo na altura do rosto.

— Dança do Grimorio! — Toda a torcida que chamava por meu nome agora estava em silêncio, era a primeira vez que eu utilizava uma liberação de espada. Minha lâmina brilhou em um fogo roxo reluzente e eu avancei muito mais rápido que antes. Mark mal notou quando eu apareci em sua frente. Quando minha espada balançou, a dele tentou aparar, mas a velocidade de meu ataque era maior que seu tempo de reação. A lâmina perfurou a armadura e acertou em cheio, deixando Mark com poucos pontos de vida e arremessando-o para trás.

— O quê? Quanto poder esse ataque tem? É muito desbalanceado!

James sabia que poder era aquele. Uma liberação de tão alto nível que somente Deathkiller havia conseguido. Foi em um evento onde precisava-se atravessar uma ponte com uma sequencia de inimigos pré-determinados. Ao entrar no desafio você automaticamente ficava com 0,00001% de sua vida. Mesmo bloqueando um ataque você ainda recebe um pouco de dano, mas ao aparar todo dano é perfeitamente defendido. A maioria do servidor tentou passar por aquela ponte, mas somente eu consegui passar aparando todos ataques. Não à toa era considerado um mestre em aparar.

Porém ainda assim era uma habilidade que custava caro. Ao se obter um aviso é dado, alertando que ao confirmar aquisição, todas as habilidades que não sejam de nível básico serão eternamente perdidas. Além disso, a Dança do Grimorio consumia um por cento da vida a cada cinco segundos e só poderia ser utilizada com vinte por cento de vida ou menos, isso quer dizer que eu tinha menos que um minuto e quarenta segundos para terminar de derrotar eles.

Mark voltou a se levantar, mas outro ataque terminou com sua barra de vida. James arregalou os olhos ao sentir o vento percorrer velozmente ao seu lado, sem poder ao menos reagir. Todo o publico comemorou ao ver o primeiro derrotado.

James de repente virou-se, quase não conseguindo bloquear o próximo ataque que eu desferi.

— Aparentemente você entendeu que deveria defender... Dança do Grimorio é uma habilidade que concede uma velocidade tão alta que torna o ataque quase impossível de aparar, ainda assim ele tentou... — Eu admiti — Mark era um tolo, mas eu sei que você é mais inteligente que ele. Ouvi muito das suas piadinhas acreditando que você era alguém bom, mas saía às escondidas para negociar com o inimigo, não é?

— Mas é claro! Que ideia estupida criar uma guilda para salvar os jogadores indefesos! Se você tem poder você deve utilizá-lo para ficar mais forte ainda! Pense, os desenvolvedores nos deixam fazer o que quisermos! Porra, você pode até foder nesse jogo!

— Idaí, isso não muda nada! Não é porque você pode fazer que convém, James — a ponta de minha lâmina apontou para ele — Eles apenas nos dão essa liberdade para tornamos quem nós realmente somos, infelizmente isso traz monstros como você à tona.

— É um jogo Deathkiller! Venha comigo e vamos nos divertir! Esqueça todo esse moralismo e  seremos muito poderosos juntos! Vamos acabar com esse combate e como uma dupla ficaremos mais fortes ainda!

Mas eu balancei a cabeça, decepcionado. Faltava trinta segundos para minha vida chegar a zero.

— Isso não é só um jogo, é outra vida. Todos deveriam poder experienciar esse mundo, podendo jogar de forma justa sem abusadores, não permitirei que apaguem a chama dos futuros jogadores! Eles tem que poder sentir a beleza desse mundo! — O brilho em meu olhar fez ele engolir em seco.

Eu avancei antes que James continuasse a me atrasar, faltava quinze segundos. Minha espada balançou em diagonal e quando ele posicionou para defender, eu mudei a trajetória, girando e cortando sua barriga em horizontal. Sem perder tempo eu finalizei com um último ataque, zerando a vida de James e tomando sua conta.

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