Capítulo Bônus - Deus é Bom!
A noite do jovem não havia sido nada tranquila, pois ele havia tido vários sonhos estranhos, todos eles com seu pai. Num deles, o senhor Antônio Durães Silva, também conhecido como seu progenitor, o prendia num quartinho escuro e o deixava lá sozinho, assustado, enquanto repetia que ele não valia nada, que não era ninguém sem ele.
Matt acordou com um peso na cabeça e um sentimento estranho no coração. Imediatamente dobrou os joelhos e derramou toda a sua ansiedade e temores nas mãos do Senhor. Sabia que não havia melhor forma de tentar lidar com o pai senão estando debaixo da graça do Senhor.
Ao se levantar, ele ficou tentando não se deixar abater e foi preparar o café da manhã, mas surpreendeu-se ao ver o Ariel já de pé, terminando de mexer em algo no fogão. Sem fazer alarde, aproximou-se devagar enquanto ouvia o loiro assobiar uma música conhecida.
Sorrindo, começou a acompanhá-lo na canção, chamando atenção do que estava no fogão. Ariel voltou-se e com gestos simulando uma coreografia com a colher, finalizaram com um longo assobio.
Matheus aplaudiu a pequena performance enquanto Ariel se inclinava como se estivesse agradecendo uma platéia invisível, ou melhor, composta apenas de uma pessoa.
— Pelo visto alguém acordou de bom humor hoje! — Matheus disse enquanto se sentava no balcão que separava a cozinha da sala estar.
— Deus é bom o tempo todo, Matt! — foram as únicas palavras de Ariel.
— Realmente, Deus é bom o tempo todo! — concordou Matheus vendo Ariel se sentar do outro lado balcão começando a tomar o seu café.
— Por que tenho a impressão que tem um certo desânimo em seu tom de voz? Não tem convicção do que disse? — inquiriu o Ariel levantando uma sobrancelha, como era seu costume.
Matheus não respondeu imediatamente. Ponderou sobre a intimação de seu pai, sobre seus sonhos estranhos, sua conversa com Deus pela manhã e as palavras que sempre se repetiam, muitas vezes sem pesar sua semântica: Deus é bom o tempo todo! Ele tinha convicção disso?
O ruivo suspirou enquanto analisava a pergunta do amigo.
— Deus é bom o tempo todo, Ariel. Mesmo que à primeira vista não percebamos, Ele está ali ao nosso lado, sim, eu tenho convicção disso.
Assim que respondeu, Matheus abaixou a cabeça para analisar a xícara de café à sua frente e não percebeu o sorriso do amigo que o observava atentamente.
— Está tudo bem, amigo? Preocupado com o almoço na casa de seus pais? — perguntou o loiro, atento.
— Um pouco. Agora estou bem sim, mas a minha noite foi permeada de sonhos estranhos.... — hesitou, pois apesar de serem amigos, o ruivo não havia desvendado todos os seus fantasmas do passado ao Ariel.
— Hum... quer falar sobre isso?
Ambos sabiam que a pergunta era apenas uma deixa para uma eventual conversa. Matheus só falaria se estivesse preparado para isso, mas Ariel abria a porta da confiança para ouvi-lo.
Suspirando, levantou o olhar em direção ao Ariel.
— Meu pai aparecia em meus sonhos... prendendo-me e dizendo palavras terríveis, ferindo a minha autoestima... — fez uma pausa e o amigo continuou em silêncio, esperando. — Foi perturbador, pois fazia muito tempo que não acontecia. Imagino que seja a apreensão pelo almoço.
— E como se sente agora? — Ariel quis saber.
— Estou bem melhor. Eu orei ao Senhor e Ele trouxe refrigério ao meu coração.
Ariel nada disse, apenas anuiu com a cabeça. Aos olhos do Matheus, parecia pensativo.
— E você ainda pretende ir?
Não precisava completar, ambos sabiam do que se tratava. Assim que o ruivo assentiu, Ariel apenas aceitou.
— E você, o que pretende fazer neste domingo? Não me diga que vai estudar... — perguntou Matheus.
— Vou ficar por aqui mesmo. Tenho algumas questões a resolver, vou ligar para minha mãe e talvez eu saia um pouco, mas não tenho certeza ainda.
— Certo.
— E sabe, se precisar de mim, estarei aqui.
Mais tarde, Matheus ainda pensava se havia sido uma boa ideia. Estava há exatos dez minutos estacionado em frente à casa dos pais, sentado ainda no carro, pensando se deveria entrar ou dar meia volta e desistir daquilo.
Uma música tocava baixinho e ele demorou para perceber que se tratava do seu celular. Ao olhar a tela, percebeu que havia chegado uma mensagem e logo abriu: era de um número desconhecido e ele franziu a testa ao imaginar quem poderia ser. Curioso, abriu a mensagem:
"O Anjo do SENHOR fica em volta daqueles que o temem e os protege do perigo.
Procure descobrir, por você mesmo, como o SENHOR Deus é bom. Feliz aquele que encontra segurança nele!
Que todos os que se dedicam a Deus o temam, pois aqueles que o temem não têm falta de nada!
Até os leões não têm comida e passam fome, porém não falta nada aos que procuram a ajuda do SENHOR."
(Salmo 34.7-10)
Matheus leu e releu aquelas palavras e aos poucos foi assentando em seu coração uma certeza de que Deus estaria ao seu lado, guardando-o, pois Ele era Bom! Colocou o celular sobre o peito e erguendo os olhos ao céu, agradecendo ao Senhor pela sua bondade.
Com um ânimo renovado, o ruivo desceu do carro e sem hesitar tocou a campainha. A porta rapidamente foi aberta, dando espaço para um mulher miúda, com cabelos ruivos como o seu e um olhar doce: a senhora Miranda Durães, sua amada mãe.
Assim que a senhora ficou de frente para o filho, colocou as mãos sobre a boca e seus olhos encheram-se de lágrimas. Matheus, mesmo tentando ser forte, não conseguiu conter o marejar de seus olhos ao se encontrar diante de sua progenitora. Ele agiu primeiro, dando um passo à frente indo diretamente para os braços reconfortantes de dona Miranda, dos quais tanto sentia falta.
Atrás dela, apareceu uma menina de cabelos negros, vestida como uma princesa e ao vê-lo disparou em sua direção.
— Tio Matt, você veio! — ela se jogou sobre ele, que mal teve tempo de se soltar de sua mãe.
Pegou a menina no colo e a abraçou saudoso.
— Achou que eu não viria, pequena Estéfany? — perguntou o ruivo cutucando o nariz da menina, que ria com as bochechas vermelhas.
— A tia Isadora disse que você não viria. Eu fiquei triste, mas a vovó garantiu que sim. A tia Clarice também não acreditava que você viria, mas acho que ela tinha esperanças...
Ao ver a sobrinha mencionar o nome de Clarice, Matheus franziu a testa em direção à mãe, que apenas deu os ombros e não conseguiu olhá-lo nos olhos.
Angélica, mãe da Estéfany, havia se casado com seu irmão Marcos há muito tempo, há 5 anos haviam sofrido um acidente de carro, deixando órfã a pequena que morava com os seus pais desde então. Ela tinha uma irmã mais nova chamada Clarice, que já fora companheira de aventuras do ruivo antes de se converter.
Já à mesa, após o cumprimento morno da irmã Isadora, Matheus percebeu que além do pai, que ainda não havia entrado no recinto, havia outro lugar. Não se surpreendeu no entanto, ao ver a Clarice entrar, linda como sempre e sentar-se ao seu lado.
O ruivo olhou para a mãe, mas ela continuava sem olhar no seu rosto. Sua irmã apresentava um sorriso irônico e após cumprimentar rapidamente à concunhada, baixou a cabeça tentando imaginar o que seu pai tramava desta vez. Não precisou esperar muito, pois logo o poderoso Antônio Durães Silva entrou na sala e sentou-se à cabeceira da mesa.
Imediatamente dona Miranda, sempre uma anfitriã refinada, fez um discreto sinal para a governanta, que orientou o início do almoço.
Seu Antônio não dirigiu a palavra a ninguém ao seu redor durante a entrada. Enquanto traziam o prato principal, ele pigarreou e olhando em direção ao filho, agiu como se o estivesse vendo pela primeira vez.
— Então o filho pródigo resolveu aparecer... — disse com um tom sardônico.
Matheus suspirou e lembrando-se que Deus era bom, olhou firme para o pai.
— Depois da intimação que eu recebi, não poderia me dar ao luxo de faltar.
— Mas já o fez outras vezes. Não seria uma surpresa, como ovelha negra que se esforça para ser...
O senhor mais velho se calou quando entraram com o prato principal e o ruivo sabia que o pai não conversava enquanto comia e não aceitava nada parecido estando à mesa, apenas nos intervalos ou no momento da sobremesa.
Ele gemeu internamente imaginando quanto tempo deveria permanecer ali, diante do pai que mesmo sem dizer uma palavra, apenas com sua presença o fazia sentir-se novamente como um garoto assustado que nunca conseguiria agradar ao pai, como o finado irmão mais velho o fazia.
Ao fim da refeição, o senhor Antônio chamou o filho para uma conversa no escritório. Era o momento que ele mais temia. Lá chegando, surpreendeu-se com a presença da Clarice, muito à vontade no ambiente onde seu pai se sentia um rei.
Após alguns minutos constrangedores, nos quais Clarice parecia deslocadamente feliz, enquanto os dois homens presentes exalavam tensão a cada poro, o pai do Matheus levantou os olhos do papel que jazia em sua mesa e foi direto ao ponto.
— Você já foi longe demais com esse seu jogo de rebeldia. Eu já tive muita paciência com isso, mas ela já se esgotou. A partir de amanhã você voltará para casa e no sábado será o seu noivado com a Clarice.
Matheus ficou calado, pois não podia acreditar no que o pai dizia. Como assim, ficar noivo da Clarice? Em que época que estavam para o pai obrigá-lo a se casar?
Atônito, olhou em direção da jovem tão bonita, mas vazia. Ela olhava para baixo, mas de repente ergueu os olhos e ele viu um brilho decidido em suas íris. Sem que o ruivo pudesse prever, a moça tocou em sua mão e começou a falar com uma voz falsamente doce.
— Eu contei a ele, meu amor. Contei sobre nossos planos de casamento e das promessas que você me fez, lembra-se? Que eu era a única mulher em sua vida e quando fosse a hora, seria comigo que se casaria. Eu nunca esqueci e por isso nunca me envolvi com outra pessoa, esperando por você....
Matheus sentia preso, sufocado... aquilo não poderia estar acontecendo! Era uma piada de mal gosto. Olhou ao redor, imaginando que seus amigos apareceriam de repente, entregando a pegadinha. Mas nada aconteceu. Olhou para frente e seu pai permanecia hirto, com a sobrancelha negra erguida e olhando-o ironicamente.
— Então, Matheus, não tem nada a dizer?
Mais uma vez o jovem olhou ao seu redor e levantou-se resoluto enquanto dizia:
— Sim. DEUS É BOM! — olhou em direção à uma estupefata Clarice — Sinto muito.
Olhou seu pai pela última vez e saiu em disparada da casa que um dia havia sido seu lar.
Como explicar o grau de loucura daquele senhor e a necessidade de mantê-lo sempre sob controle, sob sua vontade?
Entrando no carro, encostou a cabeça no volante, passou poucos segundos assim, ligou rapidamente o carro e saiu em disparada, para longe dali.
Olha só que novidade boa: capítulo bônus do nosso ruivão!!!
Quem aí gostou?
Se for boa a aceitação, postaremos nas terças e sextas!! Ouvi um amém?
Sexta-feira voltamos, pessoal!
Beijos e até lá.
Produção PDC
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top