Capítulo 78 - "Príncipe regente devasso e libertino"
Ela se sentia muito mais leve agora que não havia mais nenhum segredo entre eles, agora que não mais temia que Thomas a acharia maldosa e maquiavélica pelo que estava fazendo. Cecilie se repreendeu ao perceber o quanto fora tola em presumir que ele pensaria mal dela por tomar o trono do reino para si, o trono que considerava seu por direito de sangue. Não pelo sangue de seu pai, mas sim pelo da mãe. Uma forte intuição lhe dizia que a criança que sua mãe gerava seria o verdadeiro herdeiro de Abenforth, e fora por isso que ela morreu. Portanto a filha de Cassandra tomaria o que estava destinado aos descendentes da mulher, custe o que custar.
Na verdade tudo havia sido muito mais fácil do que pensou. Ela já tinha o apoio dos exércitos, mas aquilo não significava muito num mundo onde o poder está concentrado nas mãos de alguns poucos homens ricos, mas valeria para firmar sua posição quando divulgasse que, legalmente, ela já era a herdeira do trono há algumas horas. Ao descobrir sobre as terríveis atitudes da mãe, Christopher ficara profundamente horrorizado e amaldiçoou a coroa, garantindo que esta estaria contaminada por perversão e que não a aceitaria. O garoto praticamente implorou para que Cecilie assumisse as responsabilidades para com o reino, o que ela fez após alguns segundos de fingida hesitação. Assim que retornaram ao castelo após a decisiva conversa, o ex príncipe herdeiro fez uma carta à próprio punho onde abriu mão da coroa. A missiva foi entregue à Cecilie há pouco tempo, e jazia escondida no decote do vestido diurno que ela usava. Aquele documento era seu futuro, não poderia correr o risco de perdê-la ou de que alguém a encontrasse antes da hora. Ela perguntou sobre o meio irmão ao guarda que lhe trouxe a carta, e o homem lhe comunicou que o príncipe havia se trancado em seus aposentos para uma longa sessão de orações e que não deveria ser importunado. Mas eles haviam marcado de se encontrarem na hora do almoço, então não se preocuparia se o rapaz estaria bem. Afinal de contas, ela sabia o quão desolado ele estava, era melhor deixá-lo sozinho com sua fé para que tentasse encontrar o conforto de que precisava.
Agora já era manhã a futura rainha havia dispensado o café alegando mal estar, então fez a refeição em seus aposentos na companhia barulhenta de Salete que tagarelava sobre as amostras de tecidos que preparou para ela.
Mas a cabeça de Cecilie estava longe, divagando em coisas muito mais importantes do que seu vestido de casamento. Como sua noite com Thomas, por exemplo. Sua feminidade estava inchada e sensível, mas a mulher não poderia estar mais feliz. Ela adorava fazer amor com seu noivo, mas quando o ato era selvagem e bruto... ah, então ela adorava muito mais. Ele havia sido tão atencioso com seu jantar romântico, tão perfeito e maravilhoso ao dizer que a apoiaria em sua nova jornada como responsável pelo reino sem hesitar por um segundo sequer. O que poderia ter feito para merecê-lo? Não sabia, mas quem era ela para reclamar, afinal?
-- ... metros de renda. Princesa, está me ouvindo? -- Lete estalou os dedos à sua frente, chamando-lhe a atenção.
Cecilie piscou os olhos, obrigando-se a parar de pensar no sexo maravilhoso com Thomas. Haviam coisas muito mais urgentes para serem feitas naquele dia, portanto ela precisava ter foco e esquecer por algumas horas o corpo espetacular do noivo. Esquecer pelo menos até a noite, quando se esgueiraria pelos corredores do castelo rumo ao quarto dele novamente e pediria que trepasse com ela naquela posição estranha e absurdamente deliciosa mais uma vez.
-- Por que está vermelha desse jeito? -- Salete continuou a falar, tocando sua testa -- Está com febre?
A mulher sorriu e espantou a mão da amiga delicadamente.
-- Não, eu não estou com febre. E sim, eu a estava ouvindo e não quero uma cauda de cinco metros em meu vestido de casamento.
-- Sete, alteza. -- corrigiu a criada -- Sete metros.
-- Nem pensar!
-- Mas é a última moda! -- Lete insistiu.
-- Não, Salete. Quero meu vestido de casamento simples e discreto. -- pediu, fazendo a amiga bufar em desagrado -- Uma seda branca com algumas pedrinhas brilhantes bordadas, talvez? É possível?
-- É sim, pode ser feito facilmente. Já sei o tecido adequado, então. Nem precisarei trazer as amostras.
Ela estava terrivelmente decepcionada, o que deixou Cecilie sedenta por animá-la.
-- Ora, não fique emburrada. Eu já tenho outra encomenda para você.
-- Mesmo? -- os olhos dela brilharam em empolgação -- Já até sei! Suas camisolas e roupas intumas, não é? Eu tenho alguns desenhos lindíssimos que...
-- Camisolas? Como assim? -- perguntou verdadeiramente curiosa.
-- Ora, alteza... a senhorita sabe. Roupas íntimas para... hum, momentos íntimos com seu marido.
-- Há roupas para isso? -- surpreendeu-se pela sua inocência -- Eu achei que o objetivo fosse retirar as roupas, apenas.
-- Bem, certamente pode tirá-las depois. Mas elas servem para... esquentar as coisas no começo, entende? É isso.
Thomas gostaria que ela usasse tais roupas íntimas para ele? Quais cores ele prefeiria? Ela poderia retirá-las olhando-o nos olhos como fez noite passada com o vestido, vendo os detalhes da expressão dele escurecendo em desejo selvagem?
-- Faça-me quantas dessas você puder, Lete. -- murmurou encantada com a possibilidade de surpreendê-lo -- De todas as cores possíveis. Mas o que eu ia lhe pedir era outra coisa, na verdade. Haverá uma cerimônia em algum momento, não sei exatamente quando. Eu quero o vestido mais lindo que você puder fazer.
-- Que tipo de cerimônia?
-- Eu lhe direi mais para frente. Por enquanto vamos nos manter nos desenhos, tudo bem? Quero algo... majestoso. -- sorriu para as sobrancelhas levantadas da amiga -- Sim, essa é a palavra.
-- Tenho algumas ideias, sim. Podemos... usar quatro metros de cauda, talvez? -- ela tentou negociar, um meio sorriso conspiratória nos lábios.
-- Fora de cogitação, Salete! -- a princesa riu divertindo-se com a insistência da amiga na dita cauda -- Um metro já é mais que suficiente.
-- Três? -- tentou mais uma vez.
-- Dois. É pegar ou largar!
-- Fechado! -- a moça levantou-se da cadeira e deu alguns pulinhos animados.
Enquanto Salete fazia sua dancinha da vitória, uma batia soou na porta.
-- Tudo bem, é o Thomas. -- Cecilie a tranquilizou ao notar o arregalar de seus olhos.
A criada se recompôs e seguiu para abrir a porta. Vê-lo entrar tão lindo e imponente, com os cabelos castanhos revoltos crescendo já quase ocultado suas orelhas, fez a princesa praticamente entrar em combustão ali mesmo.
-- Poderia nos dar um momento, Salete? -- a voz dele soou, retumbante.
-- Claro! -- ela anuiu e se virou para a princesa que se levantava da mesa -- Irei mandar preparar a carruagem como pediu, princesa. Com licença.
Lete se retirou ainda carregando um grandioso sorriso de felicidade nos lábios, e Cecilie se orgulhava de ser capaz de realizar o sonho da amiga.
-- Ela está mais agitada que o normal, ou é impressão minha? -- Thomas perguntou ao enfiar as mãos nos bolsos e caminhar distraidamente até a cama, onde se sentou em seguida.
-- Estávamos acertando alguns detalhes do meu vestido de noiva. -- Cecilie respondeu ao sentar-se ao lado dele.
O duque imediatamente passou o braço pelos ombros da amada, aproximando-a de seu corpo, e depositou um beijo delicado em sua têmpora.
-- Está nervosa para hoje? -- ele perguntou, um tanto apreensivo.
-- Não, estou legal. -- ela foi honesta, mas percebeu uma evidente apreensão no castanho dourado dos olhos do noivo -- Thomas, fique tranquilo. Eu levarei quatro guardas, aquele homem não poderá me machucar.
-- Cecilie, há chances de aquele homem estar envolvido na morte de sua mãe. Não pode me repreender por estar preocupado com sua segurança. -- ele soou defensivo -- Deixe-me ir com você.
-- Nem pensar! Sua presença vai derrubar o meu teatro, Thomas. Além do mais, você tem sua parte na missão.
-- Essa é uma conversa que você deveria ter com seu pai, não eu.
-- Não haverá tempo. Se minhas suspeitas estiverem certas e o Curandeiro Chefe Real estiver envolvido no assassinato da minha mãe, ele certamente irá querer terminar o serviço quando tiver uma oportunidade. Então depois da minha visitinha, ele ficará de olho em mim e desconfiará quando as horas se passarem e ele não for chamado para me socorrer. A partir do momento que eu conversar com ele, começará uma contagem regressiva, Thomas. Assim que eu voltar para o castelo meu pai já deve saber de tudo, então entregaremos à Zaya o destino que ela merece.
-- Em minha opinião, você está sendo misericordiosa demais. -- ele disse sombrio.
-- Já discutimos isso ontem, amor. -- puxou a mão livre dele e beijou-lhe a palma -- Veja só, Christopher já fez o próximo movimento.
Cecilie puxou a carta do decote de seu vestido, percebendo o olhar de Thomas em sua pele. Ambos trocaram um sorrisinho lascivo quando ela lhe entregou o envelope, pois ele mantinha os olhos em sua pele exposta. Mas logo o duque piscou para se concentrar e leu o pergaminhos que tinha em mãos, as sobrancelhas arqueadas em admiração.
-- Ele foi rápido, não é? -- zombou ao guardar a carta cuidadosamente no bolso interno da casaca -- Se tudo já não estivesse encaminhado, aposto que o ex herdeiro tramaria um estratagema para lhe passar a coroa de qualquer maneira.
-- Christopher é um bom menino, Thomas. Não fale assim dele. -- apressou-se a defender o irmão.
-- Perdoe-me, minha deusa da noite. O que seu digníssimo irmão fará da vida de agora em diante?
-- Ele vai se tornar um Sacerdote e viver uma vida santa.
-- Não sei nem por que perguntei. -- simulou um arrepio exagerado, recebendo um leve tapa da princesa, fazendo-o gargalhar baixinho -- Não, sério, Cecilie... o que mais ele faria, afinal?
-- Eu só sei que estou satisfeita por ele estar feliz e finalmente seguindo sua verdadeira vocação. -- a mulher se levantou e depositou um beijo rápido nos lábios do duque -- Vamos indo, hoje é um dia importante.
-- Não tão rápido, amor. -- ele a puxou com força obrigando-a a se sentar em seu colo e tomou-lhe os lábios num beijo profundo e quente, que durou alguns minutos até que eles decidissem se afastar, sem fôlego -- Agora sim, podemos ir.
-- Duque devasso e libertino. -- Cecilie murmurou enquanto seguiam até a porta, fazendo o sorriso do homem se alargar ainda mais tomando aquelas palavras como elogio.
-- Por enquanto, minha lady. Em breve serei um príncipe regente devasso e libertino.
A viagem foi silenciosa enquanto Cecilie se preparava para o que faria à seguir. Estava seguindo até a casa do Curandeiro Chefe Real que ficava alguns quilômetros ao norte do castelo. Sozinha na carruagem, sentiu-se oprimida pelo silêncio que só era rompido pela roda de madeira esmagando o chão e pelos cascos dos quatro cavalos que a escoltavam. Uma hora antes ela havia enviado um bilhete ao Curandeiro, dizendo que teria alguns negócios nos comércios próximos e perguntando se poderia visitá-lo. Deliberadamente ela escondeu sua "razão" para ir até ele, na intenção de deixá-lo tão curioso que fosse incapaz de recusar sua solicitação. E havia funcionado perfeitamente, pois rapidamente o consentimento para a visita lhe foi enviado.
Antes que se sentisse devidamente pronta, a carruagem parou ao chegar em seu destino após um trajeto de mais ou menos vinte minutos. Ouviu os sons de seus guardas desmontando e prendendo as montarias, e só então o cocheiro abriu a porta e a ajudou a descer. A princesa arrumou sua capa longa de cor verde clara ao redor do rosto e a ajeitou para que permanecesse escondendo seu ventre como parte do plano. Então seguiu até a porta da frente da residência de dois andares que já estava sendo aberta para ela.
-- Princesa Cecilie. -- uma criada muito jovem a cumprimentou com uma profunda reverência -- Meu mestre a aguarda, seja bem vinda.
A mulher então seguiu para dentro da casa com um sorriso plácido no rosto, sendo seguida pelos soldados bem de perto. Era a primeira vez que saia para fora do castelo com uma escolta, e aquilo a estava deixando ligeiramente tensa. Bem, isso e o fato de estar desarmada. Não que ela precisasse de uma adaga para se defender, mas o frio da lâmina certamente era reconfortante. Certos hábitos nunca mudam, afinal. A princesa atravessou o hall de entrada, onde educadamente recusou entregar sua capa, e foi levada por um estreito corredor até um cômodo que presumiu ser uma sala de visitas. Lá dentro, com a cara tão antipática quanto se lembrava, estava o Curandeiro Chefe Real.
-- Alteza. -- ele a cumprimentou, aproxumando-se com os lábios torcidos no que ele pensava ser um sorriso caloroso.
-- Senhor Curandeiro. -- ela estendeu a mão direita - a com o anel - para que ele beijasse, o que fez tão suavemente que ela mal sentiu o toque sobre as luvas que usava.
Às suas costas, sentia a presença dos guardas enchendo a sala tornando tudo aquilo mais real e significativo.
-- Devo parabenizá-la pelo seu noivado. O duque é um homem de sorte ao tê-la como esposa.
-- Eu devo insistir que a situação é inversa, senhor. Sou quem tem sorte em tê-lo em minha vida e... -- fungou teatralmente, já sentindo os olhos arderem com as grossas lágrimas à caminho. Quando viu o discreto arregalar dos olhos escuros do velho à sua frente, a mulher puxou um lencinho do bolso de sua capa e o levou ao nariz -- Desculpe-me, senhor. Tenho estado emotiva nos últimos tempos, sabe?
-- Toda noiva é emotiva, alteza. -- murmurou com olhar suspeito e apontou os sofás ao lado dele -- Devemos nos sentar para que me esclareça o motivo de sua visita?
-- Claro, senhor.
Cecilie seguiu até o assento que lhe foi apontado e graciosamente se sentou, tendo o cuidado de levar uma mão ao ventre enquanto o fazia. Aparentemente fingir estar grávida tinha a tendência de lhe resolver algumas questões nos últimos meses. Ela não perdeu o discreto descer dos olhos do Curandeiro, e teve o cuidado de manter uma expressão incerta e ligeiramente desesperada em seu rosto. Não demorou e uma bandeija de chá, leite e biscoitos foram servidos. Mas ela não era louca para beber ou comer qualquer coisa que aquele homem lhe oferecesse. A princesa levou o lencinho à boca fazendo uma careta ao fingir uma súbita e forte onda de náusea.
-- Oh, perdoe-me! -- fingiu ânsia de vômito -- Eu não posso... oh, céus! Tire isso daqui, por favor.
A criada olhou insegura para seu mestre que, com um aceno da mão, ordenou que ela levasse as coisas embora. Imediatamente a moça saiu apressada, passando pelos guardas que encaravam a princesa um tanto confusos e alarmados, perguntando-se o que diabos estava errado pois a mulher parecia perfeitamente bem minutos antes.
-- Eu imagino que queira falar à sós comigo, madame? -- o homem iniciou a conversa, um sorrisinho presunçoso em seus lábios.
-- Não quero tomar muito do seu tempo, senhor. Na verdade decidi vir até aqui eu mesma para não distraí-lo dos deveres que certamente possui aqui. -- mentiu numa voz estridente e alta demais, nitidamente nervosa -- Preciso de algum... hum, tônico para esse misterioso mal estar que me aflige há algumas semanas. Veja bem, meu casamento será em menos de um mês! Eu não posso estar... -- o encarou com olhos arregalados e ensandecidos de pavor -- Não posso estar assim. -- apertou o tecido da capa que cobria a barriga -- O senhor compreende?
O velho demorou alguns segundos para responder, uma expressão soberba e arrogante nas feições.
-- Perfeitamente, alteza. Esse mal começou há quanto tempo?
-- Bem, senhor, tudo começou quando eu ainda era prisioneira de William. Ele... eu... -- fingiu outra onda de náuseas deixando no ar a sugestão -- Três semanas, talvez quatro, senhor. É quase impossível compreender a passagem dos dias quando se está cativa no último convés de um navio. Diga-me que pode me ajudar. Por favor, me diga.
-- É claro, claro. Não se aflija mais, alteza. Tenho exatamente o que precisa. -- o homem se levantou -- Posso oferecer-lhe uma água enquanto espera? -- Cecilie fez um som verdadeiramente repugnante ao fingir outra ânsia de vômito -- Perdoe-me. Vejo que seu caso realmente é... grave. Irei me apressar.
Dito isso o velho saiu à passos muito mais ligeiros do que seria o esperado para alguém que aparentava tanta idade. Sentindo o olhar de seus homens sobre si, a princesa olhou para trás e os encontrou encostados na parede com olhos confusos pregados nela. Imediatamente eles desviaram os olhares para todas as direções, e ela precisou conter a súbita vontade de rir do desconforto deles. Ela aguardou pacientemente o retorno do homem, admirando os detalhes da sala de visitas que mesmo pequena era luxuosa, se esforçando para não sentir as batidas cada vez mais rápidas de seu coração. Quando ouviu passos vindo até onde estava concentrou-se para tornar as feições torturadas e ansiosas, e virou-se nervosamente para ver o Curandeiro Chefe Real seguir até ela com um vidrinho pequeno em mãos.
-- Aqui, madame. -- entregou-lhe o recipiente que estava cheio até a metade de um líquido esverdeado e espesso -- Isso irá acabar com seus problemas.
Ela apanhou o vidro agradecidamente e o levou ao coração, como se o abraçasse carinhosamente.
-- Obrigada, senhor! Não sei como expressar-lho o tamanho da gratidão que estou sentindo.
-- Estou aqui para servi-la. -- fez uma discreta reverência, os olhos idosos brilhando em zombarias -- Tome todo o frasco de uma vez, sim? Sentirá algumas dores de estômago, mas tente não vomitar para que faça o efeito desejado. Aconselho que repouse para que tudo termine mais rápido, um cochilo seria bom. Quando acordar, estará tudo resolvido.
Cecilie se levantou com um sorriso que era a definição de esperança em seus lábios.
-- Mais uma vez, muito obrigada. Agora devo ir antes que notem que... -- tossiu fingida -- Eu já me demorei demais. Adeus, senhor. Creio que posso contar com sua discrição.
-- Mas é claro. -- antes que ela pudesse sair, o velho se postou à sua frente impedindo-a -- Mas a madame pode contar com a discrição de seus soldados? -- ele disse silenciosamente, quase sem som.
Muito interessante, ela pensou ao notar a mudança de atitude do homem.
-- Esses homens são de minha total confiança, não se preocupe. -- falou igualmente baixo e depois se dirigiu aos guardas ainda parados à porta -- Soldado Rafe, o que eu os instruí sobre esse pequeno passeio?
-- Nós não vimos nada, pois não aconteceu nada. Demos uma volta no comércio local pois a senhorita estava curiosa sobre como ele seria. Paramos apenas para comprar uma fita de cabelo e algumas amêndoas doces. -- Rafe repetiu com exatidão o discurso que ela o obrigou a decorar.
Uma expressão de satisfação iluminou as feições do Curandeiro, que se virou para a princesa já retirando um segundo vidrinho de suas vestes. Um bem menor que o outro, com óleo de coloração arroxeada.
-- Nesse caso, acho que posso acrescentar esse láudano para que a ajude a passar por isso sem sentir dor alguma. É um sonífero apenas, que a ajudará a descansar enquanto seu corpo... expulsa seu problema. -- as últimas palavras soaram extremamente baixas, e Cecilie precisou ver o movimento dos lábios dele para compreendê-las.
-- Qualquer coisa para acabar com esse pesadelo logo, senhor. -- lhe estendeu o vidrinho verde que o homem abriu e acrescentou todo o óleo roxo à mistura, devolvendo-o à princesa -- Sou tão grata ao senhor, devo-lhe minha vida. Até logo, Curandeiro Chefe.
-- Alteza. -- ele ofereceu-lhe uma reverência.
Agitada e trêmula Cecilie saiu, segurando o vidrinho em mãos que parecia pesar mais a cada passo. Ignorou os olhares aturdido dos soldados, que compreenderam exatamente o teatro que ela encenou tão esplendidamente. Mas a mulher não se apressou à explicar a verdade para eles, de forma alguma. Sua mente estava presa ao fato de que tinha plena certeza de que aquele homem fora o responsável por providenciar o veneno para Zaya assassinar sua mãe. Ela poderia não ser uma mestre em venenos, mas sabia a aparência do óleo de beladona. Roxo. Quanto mais púrpura, mais concentrado. Ela mal notou o cocheiro abrindo a porta da carruagem, ou os barulhos dos primeiros minutos da viagem de volta ao castelo
Quando se apercebeu sozinha na privacidade do coche, a princesa retirou a tampa de rolha do frasco e cuidadosamente o levou ao nariz inspirando seu aroma adocicado e familiar. Ela não era mestre em venenos, mas havia estudado os mais comuns e com propriedade Cecilie podia dizer: o Curandeiro Chefe Real acabou de tentar assassiná-la.
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