Capítulo 76 - "Já sentiu como se toda sua vida estivesse pré determinada?"
Os irmãos pegaram o caminho para os jardins à leste do castelo, sendo escoltados por dois guardas que educadamente os seguiam vários metros atrás para dar-lhes o máximo de privacidade possível. Um silêncio tenso reinou pelos primeiros minutos de caminhada, conforme Cecilie se esforçava para amenizar a raiva borbulhante que estava sentindo pela rainha naquele momento. Quem aquela maldita mulher pensa que é? Como poderia ser tão fria ao ponto de agir daquela maneira presunçosa, como poderia sequer lhe dirigir o olhar e a palavra sem desmoronar numa poça de remorso e culpa? É por que ela não se arrepende do que fez, deduziu em seus pensamentos tumultuados.
-- Realmente acha que podemos ser atacados à qualquer momento? -- o príncipe quebrou o silêncio quando passaram próximo à estufa do jardim de inverno.
Cecilie obrigou-se a engavetar sua ira e, respirando fundo, focou sua mente no presente e na conversa com seu irmão.
-- Sim, eu acho possível. -- deu sua opinião -- Na verdade, se eu fosse a líder do reino sul atacaria assim que soubesse que a Irmandade foi finalmente derrotada.
-- Por quê? -- perguntou o jovem, cessando seus passos.
A princesa também parou e, liberando seu braço do dele, o encarou de frente.
-- Porque o pós guerra é um momento vulnerável, Christopher. Agora que encerramos nosso conflito interno, a tendência é relaxar a defesa na intenção de comemorar a paz recém adquirida. -- explicou -- Além do mais estamos todos fragilizados enquanto nos recuperamos, e ninguém está pensando na possibilidade de ser atacado tão cedo. É simplesmente o momento perfeito, você não acha?
-- Bem... colocado dessa forma, seus temores fazem muito sentido. -- o olhar do rapaz era atento e avaliador.
-- É claro que fazem!
-- Se tivesse o poder de decidir, o que você faria à respeito? -- perguntou ao cruzar os braços, uma sobrancelha levantada em genuíno interesse.
Esse momento seria decisivo para os planos que precisava por em prática, a princesa percebeu num estalo.
-- Eu construiria postos de segurança em nossas fronteiras, começando pelo sul.
-- Por que pelo sul? O reino ao norte é muito mais forte, não seria mais sábio concentrar nossas forças em nos defender deles?
-- Se o norte decidir nos invadir hoje, seríamos derrotados em menos de quarenta e oito horas. -- explicou -- Nossas forças só são eficazes contra o reino sul, que se equipara ao nosso em tamanho e número da população.
Christopher franziu as sobrancelhas, ligeiramente confuso.
-- Então está dizendo que não há nada que podemos fazer? -- perguntou o rapaz -- Apenas esperar que o rei do norte jamais decida nos ocupar?
-- Eu não disse isso. -- Cecilie deu-lhe um sorrisinho mortal -- Para derrotar o norte, devemos expandir nossas forças, Christopher. É o único jeito.
O príncipe arregalou os olhos, surpreso com o rumo que a conversa estava tomando.
-- Está sugerindo que deveríamos tomar o reino sul? -- a princesa percebeu uma pontinha de assombro e incredulidade na voz do irmão.
-- Não imediatamente, claro. Deveríamos fortalecer nosso exército primeiro, ter uma boa estratégia e pessoas bem treinadas e capazes no comando. Levaria no mínimo cinco anos para estarmos prontos.
-- Isso que está dizendo... isso é guerra, Cecilie. Guerra de verdade.
-- Eu sei disso. Mas como sua mãe tão eloquentemente apontou, eu não tenho o poder de decidir coisa alguma, certo? -- agora foi a vez dela cruzar os braços enquanto encararava seriamente o irmão, aguardando sua resposta.
O príncipe hesitou, parecendo pensativo, o olhar cinzento perdido com uma sensação de desamparo evidente.
-- Você... gosta disso, não é? -- ele perguntou baixinho, soando inseguro -- Dessa responsabilidade, desse... desse fardo que é proteger um reino inteiro.
-- É assim que você vê seus deveres, Christopher? Como um fardo?
O rapaz descruzou os braços e soltou um suspiro frustrado. Evitando responder, virou-se e retomou a caminhada lentamente andando sem rumo pelos jardins, os passos soando abafados sobre a grama úmida pela umidade da brisa gélida do inverno. Cecilie o seguia silenciosamente, dando-lhe o tempo e espaço necessários para que organizasse suas ideias. Assim eles alcançaram o grande carvalho, que tinha os galhos retorcidos repletos de folhagens secas e estéreis. O príncipe enfiou as mãos nos bolsos de sua casaca e escorou o ombro direito na árvore, gesto que logo foi repetido pela irmã que se acomodou à sua frente numa posição semelhante.
-- Cecilie... você já sentiu como se toda sua vida estivesse pré determinada? -- perguntou seriamente -- Quero dizer, eu tenho quinze anos e posso ver cada detalhe do meu futuro.
-- E você gosta do que vê?
-- Eu vejo o Conselho me pressionar para firmar matrimônio em alguns anos, e claro que irei ceder pois é o meu dever. -- levantou o rosto para o céu, e passou a observar um pássaro que planava no alto -- Depois virão as crianças, e reuniões intermináveis, visitas às Casas de Misericórdia, treinos dos soldados, coleta de impostos, resoluções de conflitos internos desde os mais insignificantes até os mais graves.
-- Sim, você resumiu bem as tarefas de um monarca. -- a princesa apontou suavemente -- Qual é o problema, Christopher?
-- Eu não sei... -- o rapaz deu de ombros, desolado, e voltou à encará-la -- Eu nunca tive escolha quanto ao futuro, sabe? Já havia me conformado com a vida que teria. Mas desde que você retornou com os exércitos e a vitória sobre a Irmandade das Sombras, eu sinto que pela primeira vez posso ter uma escolha.
A princesa sentiu o coração acelerar ao perceber que aquele era o momento pelo qual tanto esperou nos últimos dias. Ela havia traçado diversas estratégias sobre como iniciar aquele assunto com o príncipe, pois jamais imaginou que ele facilitaria tanto as coisas. Agora ao observar as feições joviais e entristecidas do irmão, percebia que o que pretendia fazer era uma favor ao rapaz. Ela o libertaria. Ainda que tudo estivesse correndo melhor do que o planejado, precisava ser discreta quanto às suas ambições. Cecilie manteve a expressão neutra, limpando-a de qualquer sinal de emoção que seu inquieto coração sentia no momento.
-- Não sei se estou entendendo, Christopher. -- ela disse.
-- Eu acho que entende, sim. -- o rapaz lhe deu um sorrisinho cúmplice.
A princesa suspirou, pensando no que fazer a seguir. Deveria desconversar e manter suas intenções ocultas, ou abrir o jogo logo e começar a agir de uma vez em busca de seu objetivo? Perguntou-se se poderia confiar no meio irmão, se ele a apoiaria verdadeiramente quando descobrisse a totalidade do que ela pretendia fazer. Encarou seus olhos de tempestade, tão iguais aos dela, e ainda assim tão diferentes. No olhar de Christopher ela viu bondade, ingenuidade, fé e esperança. Nesse instante a princesa fez uma escolha, que mudaria para sempre o rumo de suas vidas.
-- Antes de continuarmos com essa conversa, há algo que precisa saber.
Depois da saída estratégica que o príncipe inventou para encerrar o silencioso embate de Zaya e Cecilie, o duque permaneceu exatamente onde estava em pé na sala de refeições, deveras interessado na expressão furiosa que retorcia as feições do rei. Sua tia, por sua vez, manteve a postura altiva e impassível, entretanto ele a conhecia bem e percebeu seu nervosismo na força que via em seu maxilar rígido.
-- Thomas, nós dê licença. -- pediu o rei em voz baixa, os olhos fixos na esposa -- Por favor.
Decepção invadiu suas entranhas com a ordem disfarçada de pedido, mas infelizmente não havia como recusar.
-- É claro, majestade. -- ofereceu uma discreta reverência e partiu em retirada.
Seus passos sobre o piso de mármore soaram altos, rompendo o silêncio que se tornava cada vez mais opressivo. Gostaria de ser uma mosca para bisbilhotar a discussão que certamente se seguiria entre o rei e a rainha, mas não havia maneira. Sendo assim, decidiu que o melhor seria arranjar algo para fazer. Estava atravessando o corredor em direção à biblioteca quando se lembrou da passagem secreta da cozinha, que passava pela sala de refeições e desembocava nos dormitórios dos criados que ficavam nos fundos. Aquele lugar era familiar à Thomas pois em seus períodos no castelo em sua infância, o menino se dedicava arduamente à descobrir tais caminhos ocultos pois o rei o recompensava com doces a cada novo achado.
Excitação invadiu-lhe o peito ao pensar no que estava prestes à fazer, mas não se permitiu pensar muito naquilo. Não havia tempo. Subitamente mudou sua direção, andando o mais rápido possível sem correr para evitar de chamar a atenção. Não poderia correr o risco de ser pego, pois então não ouviria nada de qualquer maneira. Além de ser humilhante, sem dúvidas. Alcançou a entrada da passagem, que ficava alguns poucos metros à frente da porta do salão de refeições. Procurou na parede o tijolo exato que a abria e o empurrou com um ruído baixo. Imediatamente a porta oculta destravou, e o duque não perdeu tempo entrando o mais rápido que conseguiu.
Com uma parte distante de sua mente, percebeu o lugar um tanto menor do que lhe parecia em suas memórias. Mas tal pensamento foi ignorado quando vozes exaltadas alcançaram seus ouvidos.
-- ... lhe dá o direito! -- o rei gritou -- Ela é minha filha, não pode tratá-la assim!
-- Por Deus, eu não fiz nada de mais! -- a rainha respondeu em voz bem tarde contida -- Entretanto em uma coisa você tem razão. Ela é sua filha, então é você quem tem o dever de colocá-la em seu devido lugar.
-- Devido lugar? O que você quer dizer com isso?
-- Que Cecilie não deve se meter em questões que não lhe dizem respeito. Não é por que ela matou William que pode opinar em questões do reino dessa forma, Abenforth. Tais assuntos só dizem respeito à você e Christopher, apenas.
-- Ela tem o maldito direito de falar o que quiser! Cecilie compreende muito mais do que você os assuntos do reino, poetanto se alguém deve manter a boca fechada aqui, esse alguém é você.
-- Você está preferindo as opiniões inoportunas dela, em detrimento às do nosso filho que é o herdeiro de direito? -- a voz da rainha era acusatória.
-- Eu nunca fiz tal coisa! Considero ambos igualmente, sabe disso.
-- Pois não deveria! Christopher é o seu verdadeiro herdeiro, Cecilie é apenas... -- a rainha interrompeu-se subitamente ao perceber que suas próximas palavras seriam perigosas.
-- Eu a aconselho à ter cuidado, Zaya. -- o rei aconselhou em voz baixa e sombria.
-- Não quero ofender sua filha, Abenforth. Desculpe-me. -- aos ouvidos de Thomas, sua tia não soou sincera -- Apenas estou defendendo a posição de Christopher.
-- Mas por qual motivo a posição de Christopher deve ser defendida? -- perguntou o rei, prestes à se exaltar novamente.
-- Você realmente não percebeu ou está fingindo não ver? Cecilie tem os exércitos na mão, Abenforth! Seus homens olham para ela como se fosse alguma divindade encarnada! Os criados à reverenciam como uma deusa, nossos convidados quase flutuam de alegria quando ela lhes dá o mínimo de atenção! Ela se infiltrou nesse castelo silenciosamente e envolveu à todos com seus talentos e charme...
-- Zaya, você está se ouvindo? -- o rei parecia um tanto perplexo.
Thomas, por sua vez, estava se divertindo muito. Não pôde evitar o sorriso que curvou seus lábios ao perceber que aquilo tudo era verdade, e que sua tia estava amedrontada. Sim, ele ainda a amava, mas a mulher merecia cada coisinha que receberia em breve.
-- Abenforth, qualquer pessoa fará exatamente o que ela quiser. Entende o que quero dizer?
-- Escute-me com atenção. Atenha-se às suas frivolidades, ao seu amante e à sua bastarda. Se destratar Cecilie novamente, eu a enviarei para alguma propriedade longínqua e a manterei lá pelo resto de seus dias. -- um silêncio desconfortável reinou por alguns segundos -- Eu fui suficientemente claro, Zaya?
-- Sim, majestade. -- a mulher murmurou.
-- Ótimo. Então estamos entendidos.
Passos rápidos e pesados foram ouvidos enquanto o rei se retirava. Thomas ficou parado por alguns instantes, absorvendo tudo o que ouviu ali. Crystal não era filha do rei? Como não havia percebido antes? Abenforth sabia e nunca fez nada? Por quê? Não teria tais respostas tão cedo, mas poderia imaginá-las. Zaya aceitou a bastarda do marido, o mínimo que ele poderia fazer era retribuir o favor. Sim, fazia sentido. Quanto à desconfiança da rainha... a mulher não poderia estar mais certa. Mas havia algo mais ali, um desespero quase irracional. Sua tia era uma mulher lógica e com emoções bem controladas, Tom não a vira se exaltar nenhuma vez sequer antes desse episódio. Era como... como se pressentisse estar perto de perder tudo o que lhe é mais importante: poder e prestígio. Como se percebesse que, no fim das contas, não valeu de nada sujar suas mãos.
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