Capítulo 67 - "A guerra termina aqui!"
Cecilie e William lutaram por alguns minutos, enquanto os dois exércitos se enfrentavam ao redor deles na tão aguardada batalha final. Aquilo fazia parte do plano, pois mesmo que o desfecho daquela luta já estivesse determinado, o mestre queria partir de maneira grandiosa, como ele mesmo dissera. Precisavam lutar de verdade para tornar as coisas mais reais e para atrair a atenção dos soldados do rei, que deveriam vê-la o matando. A luta foi tão real que Willk, maldito seja, cortou seu braço e quase a empalou pela barriga.
-- Não sou eu que deveria matá-lo? -- murmurou, desviando de um golpe.
-- Desculpe, queridinha! Estou só me divertindo um pouco pela última vez. -- respondeu baixinho, mas Cecilie percebeu que o fôlego começou à lhe faltar -- Mas eu acho que já deu desse nosso teatrinho. Vamos, soldado! Está na hora.
Ela aumentou o aperto no cabo de sua espada, e a levantou o mais alto que pôde, percebendo que sua lâmina se iluminou com o último resquício de luz solar que vinha do horizonte. Rangendo os dentes para conter as dezenas que sentimentos que a invadiam, baixou sua arma com força total, e William quase não foi capaz de contê-la totalmente. Repetindo o movimento que tantas vezes ela mesma fizera, o mestre torceu sua espada mandando a dela para longe, e por um instante sentiu-se indefesa. Mas ela não estava, ele mesmo havia se assegurado disso. Levou a mão direita até suas costas puxando dali uma adaga que estava escondida, arma esta que ele lhe havia entregado junto de suas roupas hà alguns poucos minutos atrás. William se aproximou, lhe deferindo um golpe, mas Cecilie desviou com facilidade ao se abaixar e dar um passo à frente. No segundo seguinte, cravou a adaga no peito dele até o cabo.
O arquejo que Willk soltou ficaria gravado em sua memória até o dia de sua própria morte. Ela puxou a lâmina para apressar sua partida, pois o homem lhe pedira para fazer aquilo o mais rápido possível. Sangue vermelho vivo começou a jorrar em grossas pulsadas, banhando William e Cecilie em carmesim, e ele se esforçou para lhe lançar um último sorriso.
-- Agora é com você, pirralha. -- sua voz soou baixa, já distante -- Adeus... Cecilie. -- um fio de sangue caiu de sua boca e o homem caiu de joelhos.
Cecilie o amparou, ajudando-o a se deitar no chão. Ao contrário do que Willk ordenou ela permaneceu junto dele, pois sabia que por mais corajoso que fosse o homem, ninguém quer estar sozinho em um momento daquele.
-- Adeus, William. -- despediu-se em voz rouca, vendo sua expressão brilhar em gratidão por ter ficado com ele até o final.
Mais um segundo e o mestre da Irmandade estava morto. Os olhos azuis arregalados ainda encarando seu rosto, a boca semi aberta. Apesar de sua vida violenta, e sua morte igualmente brutal, William parecia em paz. Morreu num campo de batalha, nas mãos da única pessoa que considerava um adversário à sua altura, alguém que ele próprio tornou tão grandiosa quanto ele um dia fora. Que mais ele poderia querer? A mulher respirou profundamente, preparando-se para se levantar, quando um grito chegou aos seus ouvidos.
-- Cecilie!
Ela reconheceu aquela voz imediatamente, e o desespero que percebeu naquele timbre fez os pêlos de seu corpo arrepiarem, fez seu coração errar uma batida. Quando começou a virar o rosto para procurá-lo, sentiu um forte impacto e um corpo quente e pesado sobre o dela, jogando-a de bruços ao chão e mantendo-a presa sob ele. Antes que pudesse reagir um barulho ensurdecedor resoou não muito longe dela, fazendo um clarão iluminar toda a praia que começava à escurecer no crepúsculo. Percebeu o chão estremecer, e mais três explosões aconteceram em seguida. Uma chuva de areia e objetos em chamas começou à cair ao redor deles, e um zumbido agudo e insistente em seus ouvidos a deixou completamente desorientada por quase um minuto inteiro. Aos poucos os sons turbulentos daquele ambiente caótico começaram a invadir a névoa densa que pairava sobre sua cabeça, e ouviu seu nome sendo chamado ao longe.
-- ... me ouvindo? -- sentiu o peso do corpo do homem saindo de cima dela, e sua mente conseguiu se dissipar de seu atordoamento -- Cecilie, está me ouvindo?
Sentindo uma brisa excepcionalmente quente acariciar suas faces ela se virou, e um par de grandes mãos a ajudaram a ficar em pé. Levantou o rosto buscando o dele, e encontrou duas íris castanho douradas a encarando atentamente, cheias de preocupação. Seu cabelo estava bem curto, raspado rente à cabeça, e seu rosto sujo de sangue e fuligem. A barba que começava à crescer fazia uma sombra escura nas bochechas, e somado às sobrancelhas cerradas ele parecia um tanto perigoso, quase ameaçador. Em sua opinião, jamais o havia visto tão belo.
-- Thomas... -- sussurrou, e por um instante o mundo ao seu redor perdeu completamente a importância. Depois de tanto tempo, três meses profundamente angustiantes, ele estava junto dela e a princesa não permitiria que nada nem ninguém os separasse novamente.
As palavras lhe desapareceram, não havia nenhuma em seu vocabulário que expressasse com exatidão tudo o que estava sentindo ao reencontrar seu amado. O duque, por sua vez, parecia perplexo. Passeava os olhos arregalados pelo rosto da princesa, tentando com afinco compreender o que estava acontecendo.
-- Você estava morta! -- disse alto, sua voz sobrepondo os barulhos agonizantes ao redor deles -- Eu vi seu corpo! Eu vi...
-- Não era eu, Thomas! -- o interrompeu e avançou até ele, o abraçando pelo pescoço -- Não era eu! Estou aqui, estou viva! -- o olhar dele tornou-se desconfiado enquanto decidia se acreditava na mulher ou se estava apenas delirando -- Toque em mim, meu amor. Sinta-me. Estou aqui com você.
Obedecendo ao pedido Tom passou os dedos trêmulos e incertos por sua bochecha, sentindo grãos de areia sobre a maciez tão familiar de sua pele, sentindo a umidade de uma única lagrima que escapou daqueles olhos cinzentos dos quais tanto sentiu falta.
-- Cecilie... -- murmurou em júbilo, em reverência -- Você está aqui.
-- Estou! -- sorriu para ele com verdadeira alegria, agarrou a armadura que usava e o puxou para um beijo rápido -- O que diabos você está fazendo aqui? Perdeu a cabeça, Thomas?
-- Você está viva... -- continuou a sussurrar, agora acariciando seus cabelos -- Está viva... oh, Cecilie! Eu senti tanto sua falta! Eu fui tão estúpido e...
-- Thomas! -- o interrompeu -- Não temos tempo para isso agora. -- observou ao redor e viu a luta recomeçar mais uma vez, os remanescentes da Irmandade das Sombras e dos mercenários estrangeiros estavam se recuperando da explosão surpresa -- Temos que terminar essa batalha. Preciso que tenha foco, está bem? Consegue fazer isso? -- ele manteve silêncio, ainda embasbacado, e a mulher o sacudiu com força para chamar sua atenção -- Thomas, você consegue fazer isso?
O duque fechou os olhos e respirou profundamente, quando os abriu eles estavam determinados e um meio sorriso curvou seus lábios fazendo sua única covinha na bochecha esquerda se destacar. Esse simples sorriso, que ela já havia visto dezenas de vezes, fizeram suas pernas tremerem por um momento ao se aperceber da imensidão do amor que sentia por aquele maldito homem.
-- Eu consigo. -- garantiu com firmeza e a puxou pela nuca para trocarem mais um beijo rápido, salgado pelo sabor das lágrimas que o duque derramou -- Vamos nessa.
Cecilie acenou em concordância, recuperou sua espada que estava caída há alguns metros e deu uma última olhada para o corpo sem vida de William numa despedida silenciosa. Percebeu Thomas olhando na mesma direção e por isso ele não viu o mercenário que se aproximava por suas costas. Mas ela viu. Correu para enfrentá-lo mas ao ver sua reação, o próprio duque foi mais rápido. O homem girou e segurou o golpe da lâmina inimiga sem dificuldades, com um chute nos joelhos o afastou alguns centímetros e depois lhe cortou a garganta. A princesa admirou acena, totalmente assustada. O que aqueles três meses haviam feito à ele? Mas não teve muito tempo para suas conjecturas e divagações, pois logo certo Irmão a avistou e partiu para o ataque.
-- Sua puta maldita! -- Hamós rugiu ao levantar sua espada.
A princesa, no entanto, nem se deu ao trabalho de responder a ofensa. Segurou com mais firmeza o cabo de sua espada e pulou para trás, saindo do alcance dele. Lançou-lhe um sorriso diabólico e provocador, na única intenção de atormentá-lo em seus últimos segundos de vida. Exatamente como previu, sua atitude o deixou furioso e fora de si, então Hamós partiu para uma sequência de ataques violentos e descuidados. Cecilie apenas segurou a espada dele golpe após golpe, o som de metal se chocando abafando os outros sons da praia. Viu uma sombra negra às costas do inimigo e aumentou ainda mais o sorriso debochado. Foi no instante exato em que Hamós preparou-se para uma investida, que Cecilie e Thomas o acertaram ao mesmo tempo. O homem soltou um suspiro de surpresa e dor ao sentir as duas lâminas, a dela em sua barriga e a do duque às suas costas. A princesa parou de sorrir e puxou sua espada, lançando ao inimigo um olhar de desprezo.
-- Veja, os soldados estão capturando os fugitivos. -- apontou Thomas para uma área mais distante, enquanto limpava o sangue de sua espada na roupa do homem caído que agonizava.
Cecilie observou a cena que o homem apontou e também todo o restante da praia, vendo dezenas de duelos serem travados ao seu redor. Dentre os caídos viu vários soldados de seu pai, facilmente identificáveis por seus uniformes preto e vermelho. O cheiro pungente de sangue e dejetos humanos, somados ao da pólvora queimada e de carne humana tostada, reviraram suas entranhas. Subitamente, sentiu-se farta daquilo. Das atrocidades que viu serem cometidas, das que ela própria cometeu, e decidiu dar um basta. Na luz tênue da lua cheia que clareava o lugar, somados às labaredas dos restos dos barris que ainda queimavam, viu não muito distante de si uma trombeta meio enterrada na areia. Tomou a decisão no mesmo instante em que pôs-se a correr até o objeto, o apanhou e levou até os lábios fazendo um som alto e agudo, chamando toda a atenção para si. Não parou de tocar até que todos os duelos paralelos cessarem e ter todos os olhos dos presentes presos nela. Quando por fim conseguiu seu objetivo, interrompeu o barulho e encarou um a um, notando os soldados do exército do reino totalmente abalados.
-- Já basta disso! -- gritou o mais alto que foi capaz, na intenção de se fazer ouvir sobre o som da maresia -- Já chega! Seu mestre está morto! -- apontou o corpo de William à alguns metros -- Sua rebelião acabou! Mercenários, essa luta não é de vocês! Como sinal de clemência, permitirei que embarquem naquele navio agora mesmo e retornem ao seu continente levando seus mortos para a terra que é o lar de vocês. Quanto aos homens da Irmandade das Sombras que ainda vivem, eu serei misericordiosa e permitirei que façam uma escolha: podem ir com os mercenários para reconstruírem suas vidas em exílio perpétuo, ou ficar aqui para sofrer a justiça do reino se tiverem coragem.
Percebeu uma certa hesitação por parte de seus inimigos, mas um a um os mercenários estrangeiros embainharam suas espadas e partiram em busca de seus mortos. Os soldados da Irmandade demoraram um pouco mais para fazerem sua escolha, mas logo a maioria se rendeu e ajudou a arrastar os copos dos mercenários mortos e feridos até o navio, na intenção de partirem o mais rápido possível. Com um aceno de cabeça na direção deles, ordenou aos seus soldados que os ajudassem na tarefa para apressarem as coisas. Enquanto isso, uma parte de seus homens empilhavam num canto mais afastado os companheiros que pereceram na batalha. E faziam próximo dali um outro monte com os corpos da Irmandade. Cecilie dirigiu-se até eles, mais sentindo do que ouvindo Thomas em seu encalço.
-- Quantos homens nós perdemos? -- perguntou ao soldado que arrastava um corpo até a pilha.
-- Trinta e dois, alteza. -- respondeu, o olhar tristonho e ainda levemente consternado.
-- Trinta e três -- anunciou outro soldado ao despejar mais um corpo no amontoado.
-- Estevão! -- ouviu Thomas gemer ao seu lado, encarando o jovem soldado que parecia ser um Ranger.
-- Você o conhecia? -- virou-se para encará-lo, notando tardiamente que o duque usava as mesmas vestimentas dos soldados de elite.
-- Éramos amigos. Nos últimos dias, pelo menos.
-- Eu sinto muito. -- e foi sincera. Ela sentia profundamente por cada família que seria destroçada ao receber a notícia que logo chegaria até eles. Thomas deu um leve aceno em concordância, e manteve-se em silêncio -- Quero que identifiquem cada soldado aqui, por nome e sobrenome, e me entreguem uma lista. Depois juntem madeira suficiente para duas piras funerárias, e...
-- Princesa? -- ouviu alguém chamá-la.
Virou-se e viu um homem alto, aparentando seus cinquenta e poucos anos. Usava as roupas negras dos Rangers, mas sua armadura era dourada. Deveria ser o líder do esquadrão.
-- Sim?
-- Esses três se recusaram à partir. -- ela olhou para trás do homem, vendo três outros Rangers segurando três Irmãos um tanto agitados.
Cruzou seu olhar com cada um deles, vendo ali puro ódio e desprezo. Estavam desarmados e parecia terem lutado até serem subjugados, e isso não lhe deixava muita escolha. Esse momento em que tomava as rédeas para com os exércitos de seu pai, era o início de seu plano para cumprir a última ordem de William. Ela não poderia se mostrar fraca, ou jamais conseguiria o apoio dos soldados.
-- Os algemem e mantenham vigilância atenta sobre eles, pois certamente tentarão escapar assim que encontrarem uma brecha. -- ordenou e o homem acenou para seus soldados cumprirem o mandado imediatamente, o que fizeram logo em seguida.
-- Se me permite dizer, alteza, não deveria ter permitido que os remanescentes fugissem.
A mulher apenas o encarou por alguns segundos, o olhar afiado no homem que pareceu começar a ficar desconfortável. Com o canto da visão percebeu Thomas se posicionar ao seu lado, braços cruzados e a expressão séria.
-- Está contestando minhas ordens, soldado? -- sua voz foi suave e baixa, mas sabia que sua expressão era violenta.
-- Não, princesa, eu apenas...
-- Nunca mais ouse questionar sua princesa, Podrick. -- Thomas o interrompeu, irado.
-- Perdão, alteza. -- o homem lhe ofereceu uma profunda reverência.
-- Não que eu lhe deva explicações, soldado... Mas aquele navio jamais cruzará o oceano até chegar ao seu destino no continente vizinho. -- viu-o empalidecer e arregalar os olhos, surpreso -- Eu mesma me certifiquei disso. Quando eu senti o solavanco do ancoramento estava sozinha em minha cela, e consegui escapar para o convés mais profundo e abrir um buraco no casco do navio. Nada que chamasse a atenção, claro. Apenas um dano discreto, que precisará de algumas horas para afundar a embarcação. -- deu alguns passos até ficar frente a frente do homem -- Tem alguma outra objeção quanto à minha maneira de fazer as coisas?
-- Não, alteza. -- murmurou de cabeça baixa.
-- Ótimo. -- sorriu para ele e se afastou alguns passos, percebendo o homem soltar um baixo suspiro de alívio. Olhou ao redor, vendo todos os presentes paralisados observando a cena -- Mais alguém quer questionar alguma coisa? -- mais do que depressa, todos negaram com a cabeça -- Então sigam aos seus afazeres, vamos! Quero iniciar marcha antes do nascer do sol!
Observou divertida todos se apressarem para fazer alguma coisa, e ao longe viu o navio zarpar. Suas palavras anteriores foram apenas meias mentiras muito bem articuladas. Era verdade que havia um buraco no casco que afundaria o navio em mais ou menos dez horas. Quando os homens percebessem a água entrando, já seria tarde. Mas não foi ela quem fez o arrombo, fora William. As ordens dele foram claras ao anunciar que nenhum inimigo poderia sair dali vivo. De ambos os lados, pela Irmandade ou os mercenários, haveria a sede de vingança dos sobreviventes. Sentiu uma mão firme em sua cintura, e um beijo no topo de sua cabeça. Sorrindo ela se virou para ficar em frente à Thomas.
-- Apreciei demais sua lealdade, soldado. -- disse baixinho em voz sugestiva -- Talvez mereça um prêmio quando chegarmos ao castelo.
-- Estou com meu prêmio em mãos nesse exato momento, alteza. -- aumentou o aperto em sua cintura e colou ainda mais seus corpos -- Não há mais nada no mundo que eu queira, além do que eu já tenho bem aqui.
-- Não? -- perguntou desapontada -- Bem, isso é uma pena, pois eu tinha algo grandioso em mente.
-- Quão grandioso? -- se interessou o duque, arqueado uma única sobrancelha.
-- Muito grandioso. -- sussurrou conspiratória -- Mas já que não quer... -- deu de ombros e tentou se afastar, mas imediatamente uma mão forte segurou sua nuca e a trouxe para perto dele, o rosto à centímetros do seu.
-- Eu quero qualquer coisa que me dê. -- soou sedento, quase raivoso, os olhos castanho dourados em chamas.
Ele estava tão diferente. Aquele brilho de inocência e descontração que havia nele quando se conheceram naquela taverna tão distante, já não existia mais. Thomas agora era outro homem. Mais forte, mais duro, mais sofrido. Passou as mãos com suavidade pelo rosto dele, tentando fazê-lo relaxar a expressão, tentando afastar o medo que continuamente viu ali desde que o reencontrou antes das explosões.
-- Sim. -- sussurrou, mantendo o olhar preso no dele -- Eu aceito me casar com você, Thomas.
Ele demorou apenas um segundo para reagir, então colou sua testa na dela, os olhos fechados com força, as mãos ainda a segurando firme pela nuca.
-- Isso é mesmo real? -- murmurou em voz partida -- Tem certeza de que não é um sonho? Por que se eu acordar de manhã e não tiver você, Cecilie, eu não sei...
-- Shh... -- o silenciou com um beijo nos lábios -- É real, meu amor. Estamos juntos.
-- Para qualquer fim. -- deu-lhe um abraço apertado, levantando-a -- Eu te amo, Cecilie... eu amo muito.
-- Eu também te amo, seu duque idiota. -- acariciou a cabeça dele sentindo os cabelos curtos espetarem a palma de sua mão, sensação tão diferente da maciez que antes sentia nos longos fios -- Agora me solte, os soldados estão começando a olhar.
-- Tudo bem. -- a colocou de volta ao chão, mas Cecilie ainda tinha a impressão de que Thomas temia que, a qualquer minuto, ela desapareceria numa nuvem de fumaça.
Apenas sorriu para ele, decidindo que era melhor não insistir em fazê-lo entender que ela estava mesmo ali. Precisaria dar-lhe tempo para assimilar o que havia acontecido, e por isso deixou-o e seguiu para os soldados que retornavam com punhados e mais punhados de madeira nos braços. Deu-lhes as orientações de construírem duas piras funerárias, uma para os soldados reais e outra para os mortos da Irmandade. Não demorou e tudo estava pronto. Cecilie se postou em frente à pira maior e ordenou que lhe trouxessem os reféns da Irmandade que se recusaram à partir. Imediatamente os soldados à obedeceram e o restante se aglomerou ao redor, curiosos.
-- De joelhos. -- rosnou, encarando os homens à sua frente.
Eles se recusaram à se ajoelhar perante a mulher, mas receberam chutes na parte de trás das pernas e não conseguiram permanecer em pé.
-- A lei é clara, e esta noite vocês três descobrirão que também é rápida. -- olhou para seus homens, que a encaravam atentos -- Eu não vou arriscar nossa jornada de volta ao castelo levando prisioneiros que tentarão fugir a cada hora do dia, que poderão matar mais um dos meus soldados, do meu povo. Eu, princesa Cecilie Strong, legítima primogênita do rei Abenforth Strong, sentencio estes três homens à morte pelo crime de traição à coroa, por se aliarem ao traidor mestre da Irmandade das Sombras e ingressarem numa rebelião ao rei.
O silêncio era sepulcral, sendo quebrado apenas pelo som das ondas do mar arrebentando à distância. Os soldados do rei pareciam hipnotizados enquanto admiravam a ferocidade de sua princesa implacável. Cecilie puxou sua espada da bainha que havia pegado de um soldado morto, e se aproximou do primeiro soldado.
-- Quer dizer suas últimas palavras? -- perguntou ao pousar a lâmina na nuca do homem, que ficou tenso ao sentir o beijo frio do aço.
-- Vá para o inferno, sua piranha maldita. -- rosnou o homem.
Sua única resposta foi o golpe certeiro de sua espada decepando-lhe a cabeça. Ordenou que o jogassem à pira funerária e rumou até o segundo homem, que não disse nada e permaneceu encarando o chão, os lábios trêmulos talvez numa oração. Quando terminou com ele, chegou ao terceiro que parecia jovem e amedrontado.
-- Eu nunca quis, senhora! -- implorou o rapaz -- Poupe minha vida, por favor. Eu só precisava do dinheiro, só isso eu...
-- Silêncio. -- ordenou e o rapaz obedeceu imediatamente, mas manteve os olhos chorosos sobre a mulher -- Por que não foi para o navio? Se ficou, deveria ter conhecimento do que o esperava aqui.
-- Eu tenho um irmãzinho, não poderia deixá-lo. Foi por ele que entrei na Irmandade, para conseguir algum dinheiro e...
-- Qual o nome dele?
-- Marcus Vinden, ele tem seis anos. Somos da Vila do Córrego. Eu preciso cuidar dele, senhora... princesa, por favor. -- implorou, as lágrimas correndo soltas.
Cerrou os dentes com força, amaldiçoando-se pelo que deveria fazer. Mas Cecilie não tinha escolha.
-- Quem aqui sabe onde fica esse lugar? -- viu entre seus soldados uma dúzia levantar a mão -- Dois de vocês irão buscar o menino e levá-lo até algum abrigo na Cidade Real. -- eles acenaram em concordância, e a mulher se voltou para o homem ajoelhado que ainda tremia -- Pode ficar em paz. Eu irei cuidar dele.
Os olhos amendoados do rapaz se arregalaram, perdidos e apavorados, mas ele acenou afirmativamente em aceitação. Depois curvou a coluna, apoiando as mãos no chão à sua frente, entregando-se. Cecilie odiou fazer aquilo, mas o fez mesmo assim. Não era o primeiro inocente que matava, mas silenciosamente implorou à todas as divindades que fosse o último. Quando terminou, o corpo do rapaz se juntou à pira e uma tocha acesa foi entregue em suas mãos. Se virou de frente ao exército real, seus homens, e encarou um a um.
-- Senhores! -- levantou a tocha o mais alto que pôde -- A guerra termina aqui! -- Cecilie virou-se e ateou fogo à pira, que estava polvilhada com restos de pólvora e acendeu rapidamente.
Mais do que cadáveres, a princesa queimou um passado hostil, um presente sombrio e cheio de dor e mentiras. Junto daquela pira funerária, junto do corpo de seu antigo mestre e tio, ela queimou Nix e todas as sombras da culpa e remorso que ainda carregava dentro dela. Claro que alguns traumas não seriam superados com tanta facilidade, mas para fazer o que deveria ela precisava se libertar das amarras de seu passado. Amarras estas que sempre impediram que sua melhor versão viesse à tona. Ela cumpriria a promessa que fez à William, mas não por honra ou por amor ao homem. Ela não aceitou a oferta dele de pronto para causar nele a necessidade de insistir, pois caso concordasse rapidamente levantaria alguma suspeita. Não... na verdade, Cecilie já pretendia fazer o que lhe foi pedido. A sementinha daquela decisão foi plantada pelo livro que seu pai lhe dera quando fizeram as pazes, então ela germinou com o pedido de Willk e criou raízes ao se aperceber da culpada pela morte de sua mãe. Agora, Cecilie já sabia exatamente qual castigo aplicar na rainha. E a forma de fazer tudo ser o mais doloroso possível.
Zaya ainda não sabia, mas perderia exatamente tudo o que pretendeu conquistar ao matar sua mãe.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top