Capítulo 65 - "Seja honesto comigo"


De todos os planos maquiavélicos que Willk seria capaz de criar, aquele certamente era o pior. Cecilie o encarou por alguns segundos completamente abismada, a boca levemente aberta devido ao choque.

-- Pode repetir? -- pediu consternada -- Eu acho que não entendi direito o que disse.

-- Eu disse exatamente o que você ouviu, querida. -- confirmou o homem, com um sorriso debochado.

-- Isso não faz nenhum sentido, Willk! O que realmente quer de mim?

-- Estou falando sério, Cecilie. -- deu de ombros -- Por que parece assustada? Estou lhe dando exatamente aquilo que você mais quer, não é?

     Abriu a boca prontamente para concordar, mas calou-se bruscamente. Não, não era. Matar William não estava mais no topo de sua lista de prioridades.

-- Minhas vontades não giram exatamente em torno de você, mestre. -- cruzou os braços, negando-se a dizer aquelas palavras que ele com certeza queria ouvir -- Se quer que eu colabore com seja lá o que você planeja, preciso de mais detalhes. Mas antes, quero mais algumas explicações.

     O homem sacudiu a cabeça, imaginando que ela não cederia tão facilmente. Afinal, ainda havia muita coisa que Cecilie desconhecia sobre toda a confusão entrelaçada que era a vida deles. Como por exemplo...

-- Por que me mandou naquela missão? -- perguntou curiosa, tentando fortemente esconder a intensidade da ansiedade que tentava dominá-la.

-- Foi o início do meu plano B. -- respondeu sabendo exatamente de qual missão ela falava, aquela que mudou tudo -- Eu a enviei para encontrar Thomas pois eu precisava que reencontrasse o caminho para sua antiga vida. Eu precisava que Nix reencontrasse Cecilie.

-- Mas por quê? -- quase gritou, respirou fundo e fechou as mãos em punhos.

-- Isso eu só vou dizer quando aceitar fazer sua parte no acordo que pretendo oferecer. Agora, me diga uma coisa. Você o reconheceu imediatamente?

-- Claro que não. -- sua voz soou rancorosa -- Eu me lembrava dele apenas como uma criança medrosa, um marquês chamado Thomas que tinha quase a minha idade. E em minha lembranças eu mal podia me recordar de suas feições, como eu poderia perceber que era meu amigo de infância?

-- Se não o reconheceu imediatamente, então por que me traiu tão rápido?

-- Pois eu percebi que Thomas era uma pessoa boa e ingênua, e que não poderia ter feito o que você o acusou de fazer. Então decidi fazer algumas investigações.

-- E suas investigações incluíam espionar uma reunião secreta de seu mestre? -- arqueou uma única sobrancelha em acusação e lhe lançou um sorriso ácido.

-- Como você...

-- Não conseguiu aquele ferimento em sua mão ao quebrar a bacia de louça de seu quarto. -- a interrompeu -- Você é esperta e engenhosa, meu bem. Eu a treinei para ser. Mas eu sou muito mais. Agora me diga.

-- Eu cortei a mão quando pulei da janela do seu andar para chegar até o meu quarto, pois você havia enviado um soldado para me buscar e eu não conseguiria chegar à tempo.

     Cecilie teve imensa satisfação ao ver o leve arregalar nos olhos azuis de William ao pegá-lo de surpresa.

-- Você pulou dois andares? Ficou maluca? Poderia ter se ferido.

-- Uma perna quebrada era preferível à morrer em suas mãos. -- seu sorriso foi acusatório.

-- Eu nunca faria isso. -- a encarou sério -- Nunca.

-- Não espera que eu acredite, não é?

-- Você está aqui, não está? -- apontou para ela provando suas palavras -- Inteira. Não foi torturada, nem agredida. Não fiz interrogatórios, e não deixei nenhum dos meus homens tocar em você. Acho que já provei que não desejo seu mal. -- ela manteve silêncio, confusa, dividida entre acreditar nele ou não -- Mas voltando ao nosso assunto, sua fuga foi mediana, não acha? Poderia ter feito disso um espetáculo melhor.

-- Como é que é? -- exaltou-se -- O que esperava que eu fizesse? Thomas mal se aguentava em pé!

-- Oh, sim. É verdade, eu me diverti um bocado com ele. -- o encarou furiosa -- Ah, menina, não me olhe assim! Ele está vivo também, não está? -- fechou os olhos e apertou a ponte do nariz -- Olha só, estamos nos desviando do verdadeiro objetivo dessa conversa.

-- Só mais uma coisa antes de me revelar seu plano maligno para dominar o mundo -- ele abriu os olhos e pareceu, por um momento, estar sentindo alguma dor -- O que quis dizer quando afirmou que o reino me considera morta?

     Para sua surpresa, William gargalhou e seus olhos brilharam em profundo divertimento.

-- Pois consideram. Foi uma última brincadeirinha que fiz com meu irmãozinho caçula. -- ele riu mais um pouco -- Mandei que Hamós enviasse o corpo de uma moça para o castelo, já desfigurado em decomposição. A única coisa reconhecível foram os longos cabelos negros iguais aos seus.

    Seu estômago se revirou ao pensar na cena terrível. Ao se apiedar da inocente mulher e ao imaginar a dor que aquela maldade causou em seu pai e Thomas.

-- Você é um maldito filho da puta! -- rosnou irada.

-- Eu sei, e não me importo. -- realmente, não havia um mísero sinal de remorso nas feições do homem -- Abenforth conseguiu tudo o que quis no fim das contas. E eu? O que eu consegui, Cecilie?

-- Ser uma grande pedra no sapato do meu pai.

-- Sim! Exatamente! A questão em sua frase é o grande. Eu fui grande no que me propus à ser e mesmo que jamais alcance meu verdadeiro objetivo, eu deixei minha marca e fiz da vida do meu irmão um inferno. -- se levantou da cadeira e caminhou até ela, sentando-se ao seu lado na cama -- Seu pai vai sobreviver à isso, não se preocupe. E Thomas... bem, se ele ainda não se matou de tanto beber, vai superar também. Agora chega, vamos discutir de uma vez meu plano pois o navio vai ancorar em poucas horas.

-- Então diga de uma vez. -- disse, encarando-o ligeiramente tensa com a proximidade ao homem que nos últimos meses havia sido seu maior inimigo -- E seja honesto comigo, Willk. Pelo menos dessa vez.

-- Eu serei, tem minha palavra. Recapitulando, você já deve ter percebido que só reencontrou sua antiga vida pois eu a empurrei até ela, certo?

-- Você me manipulou em todos os momentos. Sim, eu percebi isso.

-- Não seja tão dramática, Cecilie. -- revirou os olhos -- Só a manipulei quando era de meu interesse. O restante foi puramente escolha sua.

-- Não me lembro de ter escolhido ser uma assassina fria.

-- Isso é melhor do que ser uma vítima frágil, não é? -- ela ficou calada, incapaz de contradizê-lo -- Aliás, nós já conversamos sobre isso. A questão é que você agora está exatamente onde eu queria que estivesse. -- ela trincou os dentes e sacudiu levemente os pés fazendo as correntes tilintarem, e o homem sorriu brincalhão -- Metaforicamente, claro.

-- Você me queria dentro do castelo. -- concluiu.

-- Sim, eu a queria dentro do castelo. -- repetiu e a empolgação era evidente em seu tom de voz -- O rei fechou o porto e seus homens estão monitorando cada navio que entra ou sai. Quando atracarmos, haverá uma emboscada para me capturar.

-- Como você sabe tudo isso? -- estava verdadeiramente impressionada com a capacidade dele, que a todo momento se mostrava um verdadeiro mestre da guerra e manipulação.

-- O alerta de guerra foi soado, a primeira coisa a ser feita é fechar as fronteiras. Guarde essa informação, é importante. -- apontou um dedo em riste, como fazia ao lhe ensinar suas lições -- Sobre a emboscada, eu deixei Rosene saber que eu faria uma longa viagem de navio.

-- Você sabia que ela é espiã do rei? -- sobressaltou-se.

-- Rosene não sabe ser nada discreta na busca de informações. -- deu de ombros -- E eu nunca me incomodei em eliminá-la, pois jamais permiti que descobrisse coisas que seriam verdadeiramente úteis para Abenforth.

-- Isso quer dizer que você está indo de bom grado em direção à uma armadilha?

-- É, eu estou sim.

-- Os homens do rei superam em muito os seus, Willk. Mesmo contando com os mercenários que buscou no outro continente. Sua rebelião só durou tanto tempo pois você foi bom em se manter escondido. Você vai perder.

-- Eu nunca disse o contrário, queridinha. -- seu tom foi mordaz -- Eu nunca fui inimigo do reino, Cecilie. Fiz coisas atrozes para conseguir apoio na população, mas eu não sentia prazer nisso. Meu único inimigo era seu pai, aquele maldito...

-- Está divagando feito um velho caquético. -- o interrompeu.

-- Estou mesmo, não é? -- seus olhos azuis ficaram distantes por um segundo -- Divagando, quero dizer, não velho ou caquético. Desculpe-me. Suponho que, inconscientemente, eu queria passar meus últimos momentos relativamente bons junto de você. A única família que me restou, a única que tenho há quase trinta anos.

     William silenciou por um momento, parecendo estar pensando em como dizer as próximas palavras. Passeou seus olhos pelo rosto dela, parecendo absorto por algum sentimento que a mulher não era capaz de decifrar.

-- Eu estou morrendo, Cecilie. -- disse de uma maneira tão simples, tão honesta e direta, que a fez perder o fôlego -- Eu poderia ter tomado o poder pois Abbe não tem uma mente à altura da minha, ele jamais me combateria por tanto tempo. Mas como eu sempre disse, sentimentos são fraquezas, e eu protelei um ataque ao rei pois tive medo de perder uma pessoa.

-- Quem? -- perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

-- Você, garota burra. -- tentou falar bravo, mas soou carinhoso -- Quando a encontrei, a Irmandade estava começando a surgir. Nos anos seguintes eu nos preparei e fortaleci, mas quando senti que estávamos prontos eu não fui capaz. Se nós perdêssemos, Abenforth a reconheceria e a tiraria de mim, ou pior, você poderia morrer em batalha. Se a vitória fosse minha, você descobriria que matei seu pai e jamais me perdoaria. Em nenhuma de minhas opções você ficaria ao meu lado.

     Cecilie tentou, de verdade, mas não conseguiu dizer nada. Então apenas permaneceu encarando-o intensamente, sentindo os olhos arderem e uma dor incômoda tomar conta de seu peito.

-- Quase um ano atrás eu tive muitas dores abdominais. -- prosseguiu -- Dores realmente muito, muito fortes. Chamei um curandeiro que disse não haver nada errado, mas a dor não melhorava. Foram preciso três curandeiros até encontrar um que foi capaz de me ajudar.

-- O que você tinha?

-- Eu ainda tenho. -- a corrigiu -- É uma doença sem nome, Cecilie. Ninguém sabe o que a causa, tudo o que dizem é não ser contagiosa. Tem uma... uma coisa crescendo dentro de mim sugando minha vida, e não há nada que possa contê-la. O curandeiro me envia tônicos para suportar a dor desde então, e a cada dia preciso de porções maiores. Além disso, tomo sempre um tipo de composto fortalecedor para evitar sucumbir à doença tão rápido. -- um silêncio estranhamente calmo reinou entre eles por alguns segundos -- Compreendeu agora? Mesmo que eu reconquiste meu trono, não reinarei por muito tempo.

     Cecilie pensou naquilo um pouco, recordando-se de seu pedido insano alguns minutos atrás. Finalmente toda aquela loucura começava à lhe fazer sentido.

-- E você certamente não quer partir de modo pacífico numa cama quentinha, dopado de algum láudano de opiáceos, certo? -- deu-lhe um meio sorriso.

-- Com certeza não. E também não quero perder a cabeça na guilhotina.

-- Mas por que eu, Willk? Qualquer soldado pode te matar nessa emboscada.

-- Tem que ser você. -- insistiu -- Eu confio em você, pirralha. Sei que fará um trabalho preciso e limpo. Além do mais, para o que quero que faça depois, isso é imprescindível.

     O sorriso maligno que William lhe deu fez um frio invadir seu estômago. Então ele finalmente lhe contou o que queria que ela fizesse, e chamou aquilo de última missão. À princípio ela recusou a ideia veementemente, mas conforme ele insistia as peças pareciam se encaixar em sua cabeça. Aquela partezinha cruel e sombria que vivia dentro dela, dentro deles, começou a achar aquela insanidade algo extremamente atraente. Ainda assim ela não demonstrou seu interesse, e foi aí que William decidiu usar de sua cartada final.

-- Não quer vingar o assassinato de sua mãe, queridinha?

-- O que você sabe sobre isso? -- afiou o olhar em irritação.

-- Eu sei que ela foi assassinada. -- silenciou, tentando torturá-la, mas depois apenas deu de ombros e prosseguiu -- Envenenada. Eu sei que Cassandra parou de respirar no meio da noite subitamente, depois de tomar um copo de leite quente na cozinha.

-- Como você...

-- Eu sei -- a interrompeu -- que alguém colocou na jarra de leite um certo óleo de uma planta venenosa de aroma adocicado, que nós já estudamos. -- abriu a boca para falar mas o homem levantou um dedo, silenciando-a -- Eu sei que Cassandra estava no início de sua segunda gravidez.

     Com essa revelação ela arquejou, buscando um fôlego que foi insuficiente para espantar a sensação de sufocamento que a tomou. Por um mês inteiro mestre Willk a treinou no reconhecimento de venenos. Aquele óleo adocicado seria quase imperceptível num leite quente. O que matou sua mãe foi uma dose concentrada de essência de beladona. De olhos arregalados, encarou o homem à sua frente estática, sem reação. Nos três meses que esteve ali, em cárcere naquele maldito navio, Cecilie pensou sem cessar em quem seria o assassino de sua mãe. Fez e refez uma lista medíocre diversas vezes, mas foi completamente incapaz de encontrar um suspeito.

-- Meu pai não me disse isso. Ele sabia?

-- Creio que não, ainda era muito recente.

-- Mas que diabos, como você sabe de tudo isso, Willk? -- explodiu -- Quem a matou? Meu pai disse que nunca encontrou o culpado. Me diga tudo de uma vez!

-- Ele nunca encontrou o culpado, pois eu o fiz primeiro. Quando descobri de sua morte, fui visitar o túmulo. -- o encarou descrente -- Não me olhe assim, eu já disse que fomos amigos no passado. Enfim, fiquei alguns dias na cidade aproveitando para ver se conseguia alguém para se juntar à causa. Conversando numa taverna eu conheci um homem, um criado que havia trabalhado no seu antigo lar. Esclareci todo o necessário, que ele seria um criminoso procurado e blá blá blá. O maldito riu dizendo que ele já era, pois havia matado uma mulher não muito tempo antes. Eu só juntei as peças e desvendei a charada. E em cinco minutos de tortura ele assumiu a culpa.

-- Você o matou? -- perguntou e recebeu um olhar zombeteiro, afirmando que a resposta à sua pergunta era óbvia, fazendo com que se lamentasse por ela não ser capaz de matar o homem pessoalmente.

-- Na tragédia de minha vida, a rainha foi a culpada. -- de sua voz pingava escárnio -- Quem acha que foi a culpada da sua tragédia, Cecilie?

-- Não pode ser... -- sussurrou, recusando-se a acreditar naquilo.

-- Não seja inocente, queridinha. Zaya tinha todos os motivos e meios.

     Sim, ele tinha razão. Como ela pôde ser tão estúpida? A rainha havia sido cortês, educada e solícita, sempre disposta à ajudá-la. E a razão única e exclusiva para tanta gentileza era a culpa que a mulher sentia. Agora sim o comportamento nada natural da rainha fazia sentido, e suas suspeitas de que ela escondia algo se mostraram corretas. Entretanto, sentiu verdadeiro pesar e tristeza com a descoberta daquela traição. Mas sua decepção com Zaya não foi maior do que a raiva que a dominou.

-- Vaca maldita. -- murmurou, arrancando uma gargalhada de Willk que se levantou em seguida.

-- Viu só? Nós dois iremos sair ganhando, Cecilie. -- estendeu-lhe a mão direita -- Temos um acordo?

     Depois de esfregar aquela verdade em sua cara, a oferta de William se tornou ainda mais tentadora. Que os céus a ajudassem, pois ela estava prestes a fazer um acordo com o diabo.

-- Se eu recusar, o que acontece? -- perguntou apenas por mera curiosidade.

-- Eu mandarei o capitão dar meia volta no navio agora mesmo. E viveremos o restante de meus dias em algum lugar do outro continente, enquanto você mantém seus novos acessórios. -- relançou o olhar nas correntes e algemas que a prendiam -- Só vou perguntar mais uma vez, Cecilie. Temos um acordo?

     A mulher se levantou, sentindo as pernas fraquejarem levemente e o coração bater forte contra suas costelas. Ela não queria fazer aquilo, realmente não queria matá-lo. Apesar de tudo o que Willk fez, ele gosta dela. De sua maneira torta e toda errada, ele realmente a protegeu, a cuidou. Apesar de ser um crápula sanguinário, Cecilie gosta dele. Mas não tinham mais tempo, a guerra estava acabando e a vida dele se esvaia a cada dia com aquela doença desconhecida. Sua proposta daquele plano maluco era o jeito dele de continuar cuidando dela, e ao mesmo tempo de vencer Abenforth de alguma forma que só ele compreendia. E estaria mentindo para si mesma se dissesse que não queria o poder que teria em suas mãos.

-- Temos um acordo. -- garantiu com um aperto firme na mão grande e fria de Willliam, e a contagem regressiva começou.

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