Capítulo 64 - "Não senti remorso algum em tomar algo dele"
Estava na proa do navio encarando o mar calmo à sua frente, a mente vazia de qualquer pensamento. Esse estado de profunda reflexão não lhe era novidade, na verdade o hábito tornou-se cada vez mais comum apenas nos últimos seis meses, desde sua descoberta vil. Aquilo havia mudado tudo, todos os planos e ambições que nutriu em sua vida foram por água abaixo perdendo completamente a importância. Willk precisou redefinir seus objetivos e readequar suas prioridades, e até o momento seu plano secundário corria relativamente bem. Havia apenas uma certa pessoa que insistia em recusar obedecer suas ordens.
Seus olhos secaram com o sol e vento forte, e decidiu seguir para os compartimentos internos do navio. Chegariam ao porto em menos de seis horas e precisava fazê-la concordar em agir conforme queria, senão nada daquilo faria sentido. Não podia permitir que anos de luta em busca de seus direitos terminassem de maneira insignificante, que a história fosse escrita o citando como um fraco que criou uma rebelião medíocre. Já que não seria rei, queria o final digno do maior vilão que seu reino jamais viu. William queria grandeza, não importava muito a forma em que ela viesse. Desceu as escadas cumprimentando os homens que encontrava no caminho, e seguiu até seu compartimento privativo. Abriu a porta e o encontrou silencioso, as cortinas fechadas deixando o ambiente escuro. Seguiu até a pequenina janela ouvindo um conhecido tilintar metálico às suas costas, e puxou o grosso tecido da cortina deixando uma porção pequena de luz do sol iluminar o local. Virou-se e teve um leve sobressalto com a cena à sua frente. Phil estava caído no chão, os braços abertos e imóveis esticados patéticamente ao lado de seu corpo. Soltou um suspiro de tédio ao notar a tonalidade arroxeada em todo pescoço e rosto, e encarou o canto do quarto encontrando um sorriso feroz nos lábios de sua companheira de viagem.
-- Ah, fala sério! -- massageou a têmpora direita, prevendo uma crise de enxaqueca à caminho -- É o terceiro soldado que você mata essa semana, Cecilie! Isso é extremamente desnecessário!
-- Estou entediada, Willk. -- a mulher deu de ombros, desinteressada -- E eu não tenho culpa de seus homens serem tão fracos e imbecis assim. Você já foi mais severo no treinamento de seus soldados, sabe? Estou decepcionada. Além do mais, desnecessário é eu ser constantemente vigiada, já que eu não conseguiria me soltar dessas malditas correntes nem se tivesse a porcaria da chave.
O olhar cinzento e rancoroso da mulher relançeou até a mesinha do outro lado do quarto, que continha a chave das fechaduras que a mantinham presa. Acontece que apenas a chave não abria o sistema das fechaduras pois eram algemas especiais e raras, dispositivos que precisavam de uma senha secreta para abrirem completamente. Em cada grilhão havia um mecanismo de trava que só abria com a sequência numérica programada, item indispensável se quisesse realmente mantê-la presa em algum lugar, já que pessoalmente a havia ensinado como escapar de algemas simples em menos de três minutos.
-- Você sabe muito bem o porquê de eles estarem aqui, princesa. -- virou as costas para ela e seguiu até a mesa, pegando a chave e uma cadeira.
Arrastou o móvel preguiçosamente até ela, acomodando a cadeira em frente à cama onde Cecilie estava sentada. Com os pés e mãos acorrentados e presos à parede do navio, estava praticamente imobilizada. Mas nunca indefesa, afinal naqueles dois meses de viagem havia matado quase uma dezena de seus homens. Como eles conseguiram ser tão imbecis a ponto de serem mortos por uma mulher com mãos e pés acorrentados, ele não tinha ideia. Mas a questão é que ela os enforcou até a morte um a um. William jamais diria em voz alta, mas se orgulhava demais de sua sobrinha.
-- E você sabe muito bem que eu só disse aquilo porque estava com raiva. -- ela cruzou os braços, encarando-o como se fosse retardado -- Eu jamais seria tão fraca.
Na viagem até o porto, que começou assim que o duque de Longford saiu de sua casa na Vila Violeta, Cecilie disse que preferiria morrer à fazer parte do que quer que ele estivesse planejando. Portanto ela não podia realmente culpá-lo por levar suas palavras à sério e manter um guarda de olho nela à todo momento para evitar que cumprisse tal ameaça, não é?
-- Eu sei, apenas preferi não arriscar. -- sacudiu as chaves na mãos, chamando a atenção dela -- Precisamos conversar.
Cecilie encarou a chave demoradamente, depois o olhou com profundo desprezo, mas não disse nada. William sustentou seu olhar admirando o rosto da sobrinha, que estava mais pálido do que antes devido aos dias longe do sol. Ele a levava para fora duas vezes na semana por uma hora, mantendo as correntes e sob supervisão dos duzentos mercenários que contratou no continente vizinho.
-- Se pretende me dizer algo que não seja suas últimas palavras, saiba que eu realmente não estou interessada. -- ele ficou em silêncio, apenas a encarando divertido -- Agora saia pois estou muito ocupada.
-- Com o quê? -- dessa vez não conseguiu evitar um riso fraco.
-- Estou o esfaqueado mentalmente. -- deu um sorriso mortal -- É um passatempo bem prazeroso, meu preferido nas últimas semanas.
-- Pensei que seu preferido fosse assassinar meus homens.
-- Bem, esse é o segundo preferido. -- encarou sorridente o corpo de Phil estendido não muito longe deles -- Eu acho que alguns tubarões estão verdadeiramente gratos e de barriga cheia devido aos meus esforços. Quantos já foram?
-- Oito.
-- Imagino que ainda tenho tempo de arredondar esse número para dez. Você pode enviar aquele riuvo gordinho para me vigiar depois? Acho que se chama Martin. Ele tentou me apalpar uma vez enquanto eu dormia, mas o maldito foi rápido para sair de meu alcance quando o ataquei.
Suas palavras o irritaram demasiado, e percebeu Cecilie sorrir ao vê-lo franzir as sobrancelhas. Ela adorava torturá-lo, e sua natureza sádica apreciava seus ataques certeiros. A mulher tinha plena consciência de que, apesar de tudo, ele a sempre a protegia. E se aproveitava disso.
-- Prometo enviá-lo para você, se concordar conversar comigo. -- ela abriu a boca para responder mas a interrompeu -- De verdade, Cecilie. Quero que me ouça de maneira receptiva, que pense de verdade no que irei lhe dizer, e que tome uma decisão sábia quando terminarmos.
-- Nada do que me diga fará com que eu concorde em trabalhar com você novamente. Sabe disso, não sabe? -- permaneceu em silêncio esperando que ela aceitasse sua oferta, mas tudo o que Cecilie fez foi esticar as duas mãos.
Franziu as sobrancelhas num aviso claro para que se comportasse e movimentou os botões numéricos inserindo a senha nas algemas, girando em seguida as chaves. Os grilhões caíram ao chão num estalo e imediatamente um punho atingiu seu olho esquerdo. William cambaleou para trás e a encarou desconcertado, recebendo um olhar de puro ódio que ela com certeza havia aprendido com seu mestre.
-- Eu vou matá-la caso faça isso mais uma vez. -- rosnou ameaçador.
-- Não vai, não. Você precisa de mim para alguma coisa.
-- Não, não. Eu gostaria que você participasse do que tenho em mente, mas você não é insubstituível, queridinha. -- se recompôs e seguiu corajosamente até a cadeira em frente dela e se sentou -- Não me irrite, ou o próximo corpo no mar será o seu. E pode ter certeza de que nunca ninguém jamais saberá o que aconteceu com você, pois o reino todo a considera morta de qualquer maneira.
Os olhos dela antes acirrados em raiva se arregalaram em choque.
-- Do que está falando? -- sua voz saiu entre cortada.
-- Sente-se. -- ordenou -- Agora.
Cecilie hesitou, franziu as sobrancelhas em mais um olhar irritado e por fim se sentou. Passou as mãos nos pulsos, provavelmente tentando afastar a sensação do metal que os prendia.
-- O que diabos você quer de mim, Willk? -- sua voz soou cansada, exausta.
William se sentia exatamente daquela forma. Tão cansado de tudo que planejar o fim da guerra lhe era um alento, um alívio infinito.
-- Imagino que Abenforth tenha lhe dito sua história, não foi? -- recebeu um aceno afirmativo -- E você não se interessa em ouvir a minha?
Aquilo a surpreendeu, o homem percebeu pelo arquear das sobrancelhas.
-- Vai me contar como se tornou alguém tão desprezível? -- alfinetou -- Eu achei que, pela magnitude de seus talentos, já tivesse nascido assim.
-- Cale a boca e escute, garota insolente. -- falou alto, mas ela obedeceu de pronto -- Dizem que minha mãe era muito franzina e que vivia doente. Meu pai e ela estavam casados há menos de um ano quando nasci, num parto que durou quase dois dias inteiros. Como era de se esperar, ela não sobreviveu.
-- Pobre bebê Willk. -- sua voz soou fria.
-- Não zombe de uma coisa dessas. -- a alertou irado -- Não disso.
Cecilie baixou o olhar até as mãos parecendo envergonhada, e ele continuou.
-- O rei cumpriu seu ano de luto e logo se casou novamente. Dessa união, como deve imaginar, nasceu meu irmãozinho caçula Abenforth. Eu tinha cerca de três anos de idade, e crescemos juntos. Éramos inseparáveis.
-- Não espera que eu acredite nessa ladainha, não é?
-- É a verdade. -- deu de ombros -- Eu amava meu irmão, e ele me amava.
-- Então o que aconteceu?
-- Aos dez anos nós nos afastamos um pouco. Por ser o herdeiro, eu precisava aprender minhas obrigações desde cedo. Estudava da manhã ao pôr do sol. Participava das pequenas reuniões do Conselho, tinha aulas de lutas e equitação e tudo o que puder imaginar. Abbe começou a se sentir solitário e abandonado, mas isso não durou muito tempo.
-- Por que não? -- ela perguntou, agora verdadeiramente interessada.
-- Ele conheceu sua mãe. -- Cecilie deu um sorriso, provavelmente sem nem mesmo perceber -- Ela era filha de algum criado do castelo, nunca me importei o suficiente para saber de quem. Mas a questão é que desde que se conheceram, nunca mais se desgrudaram. Passavam o dia todo correndo pelos jardins e pelos corredores do castelo. Por ser só o segundo filho, ninguém impediu Abbe de se envolver com a criadagem. Então os anos foram passando, seu pai e sua mãe cada ficavam vez mais íntimos até que ela engravidou aos dezessete anos. Foi um verdadeiro escândalo. A rainha, sua avó, não aceitou a notícia muito bem e queria abortá-la. Não conseguiu pois Abbe e eu nos impomos e não aceitamos isso, mas a decisão não era nossa, afinal, e muito menos daquela vaca. Era do rei. Oliver, meu pai e seu avô, decidiu que você poderia nascer. Afinal, Abenforth era apenas o segundo filho. Que mal faria ele ter um bastardo ou dois?
-- A realeza é sempre tão gentil. -- murmurou Cecilie.
-- Você ainda não viu nada. -- concordou, nostálgico -- Eu estava lá quando você nasceu, Cecilie. Eu a embalei em seu sono por uma hora enquanto seu pai ajudava sua mãe a se limpar depois do parto. Nós três, Abenforth, Cassandra e eu, éramos amigos. Eu era seu tio Will.
-- Eu pensei que fosse me contar a sua história, William. Mas até agora só contou a minha.
-- Estou tentando te mostrar, antes de chegar na melhor parte, que eu não nasci um monstro como você pensa. Assim como eu extraí de você o seu pior, fizeram o mesmo comigo. Igual à você, me fizeram um monstro, eu não fui sempre assim. Somos mais parecidos do que você jamais imaginou.
-- Eu me reservo o direito de decidir isso. Agora continue.
-- Tudo aconteceu logo depois de seu nascimento. Estávamos jantando certa noite, o rei, a rainha, Abbe e eu. Nós dois conversávamos animadamente, talvez empolgados demais pelo vinho, e seu pai comentou em voz muito alta sobre seu futuro casamento com Cassandra. A rainha Minerva engasgou com a batata que comia, indignada com o absurdo que ouviu. Completamente alheio a ira que iluminava os olhos da mãe dele, pois sempre foi um idiota cego à maldade, Abenforth anunciou que quando eu subisse ao trono eu autorizaria seu casamento com Cassandra.
-- E você faria isso?
-- É claro que eu faria! -- exclamou -- Eles se amavam, e ainda havia você. Meu pai também autorizaria, se não fosse aquela vaca maldita o envenenando contra a ideia.
-- Por que insiste em chamá-la assim?
-- Você não entendeu ainda, Cecilie? Foi a rainha Minerva que tramou contra mim! Aquela puta! -- gritou exaltando-se -- Ela não admitia que seu preciso filho se casasse com a ralé, jamais aceitou que eu fosse o herdeiro e não Abenforth. No dia seguinte à esse jantar, um criado apareceu morto. E na semana seguinte outro, e mais um na próxima e outro depois. O castelo viveu dias de terror, todos estavam assustados e em alerta pois ninguém sabia quem seria a próxima vítima. Tentei convencer meu pai a cancelar o baile de inverno, mas era uma tradição que ele não estava disposto a ignorar. Jurei, como futuro rei, que deveria proteger aquelas pessoas pois eles precisavam de mim. Fiquei nas beiradas do salão, atento à qualquer movimentação suspeita. Sem ver nada fora do normal, segui para fora para tomar um ar fresco. Foi quando ouvi um grito e saí correndo. Na estufa encontrei uma lady, uma convidada, agonizando no chão com um cutelo ao seu lado. Tentei conter o sangramento, tentei acalmá-la, mas não nem um minuto se passou e ela estava morta. Então soldados que também ouviram os gritos chegaram e me pegaram ali. Ensanguentado sobre o corpo sem vida, a arma do crime aos meus pés.
Se encararam por alguns segundos enquanto a sobrinha absorvia as informações.
-- O que aconteceu depois? -- perguntou em voz intensa.
-- O que você acha? Fui imediatamente considerado culpado. Meu julgamento aconteceu no dia seguinte e fui deserdado e exilado. Tudo o que me sobrou foi a casa ancestral de minha mãe. -- deu um soco no próprio joelho -- Eu disse à ele! Disse à Abenforth que era inocente, que a mãe maluca dele estava tramando contra mim para levá-lo ao trono. E o que ele fez? Nada, Cecilie! Ele não acreditou em mim, deixou-me ser castigado por um crime que não cometi e tomou o lugar que é meu por direito!
-- Então foi assim que criou a Irmandade das Sombras?
-- Não, eu demorei um tempo para isso. Me mantive escondido nos primeiros anos, apenas remoendo meu ódio, fazendo-o crescer, nutrindo tudo de ruim que eu estava sentindo. Cinco anos depois meu pai morreu e Abenforth subiu ao trono. Aquele imbecil! Em um comentário impensado destruiu nossas vidas! Se não fosse aquele jantar, Cecilie, eu seria rei e seu pai e sua mãe teriam se casado.
-- Tudo bem, isso eu já entendi. Quero saber como você criou a Irmandade.
-- Oito anos depois de meu exílio, eu já tinha uma nova vida e alguns amigos. Chamavam-me de Willk, e mais nada do príncipe herdeiro que eu um dia fui restava em mim. Numa noite de bebedeira, confessei minha identidade e o tamanho de minha revolta pelo que fizeram comigo. Eles me apoiaram, disseram que não deveria deixar tamanha injustiça sem uma vingança igualmente cruel. Foi a faísca necessária para inflamar o ódio contido em mim, causando uma explosão que libertou o pior que eu poderia ser. Uma venda pareceu ser retirada de meus olhos, e eu vi claramente depois de tanto tempo o que eu deveria fazer. Eu precisava tomar o meu lugar de direito.
-- Você se vingou da rainha?
-- Infelizmente ela morreu num acidente de carruagem, enquanto visitava uma amiga condessa. -- riu um sorriso letal -- Trágico, não acha?
-- Absolutamente trágico. -- concordou, compreendendo a necessidade de vingança dele. Não julgando, compreendendo.
-- A Irmandade ainda não existia na época, essa foi apenas minha pequena vingança pessoal. -- silenciou por um instante, pensativo -- O que mais me feriu, Cecilie, foi meu irmão não ter acreditado em mim. Depois de matar a rainha, juntei os ladrões, mercenários e toda a escória do reino e os trouxe para a minha causa. Você sabe como sou persuasivo, não foi muito difícil.
Cecilie apenas acenou afirmativamente, o olhar cinzento vazio por alguns segundos. William quase podia ver as engrenagens em seu cérebro girando. Então, bruscamente, firmou a visão nele de maneira acusatória.
-- Por que fez isso comigo, William? -- sua voz soou ferida, magoada, causando-lhe verdadeiro desconforto -- Eu jamais lhe fiz mal algum. Por que fez isso?
-- O que eu lhe fiz de tão mal, minha querida? -- inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos -- Eu lhe dei uma casa, um propósito. Eu a ensinei a se defender.
-- Uma casa que mais parecia uma prisão, um propósito errado e me ensinou a ser um monstro! -- gritou furiosa.
-- Eu sempre te amei, sua pirralha! -- sua voz saiu embargada -- Quando a encontrei tentando roubar minhas moedas, a reconheci imediatamente. Eu já tinha ouvido sobre a morte de sua mãe e seu desaparecimento. Quase achei que meus olhos estivessem me pregando peças, mas você estava ali, na minha frente. Parecendo uma ratinha assustada, o bem mais preciso de meu odiado irmão em minhas mãos. Como Abbe tomou algo de mim, eu não senti remorso algum em tomar algo dele. Eu apaguei Cecilie e criei uma Nix imbatível. Sei que me odeia, mas eu não vou pedir desculpas pelo que fiz. -- deu de ombros -- Você foi a droga da filha que eu nunca tive.
Aqueles olhos cinzas o encararam por um tempo, que pareceu longo demais. Cecilie suspirou e seus ombros rígidos e altivos caíram um pouco, cedendo. Ela percebeu, afinal, que realmente eram mais parecidos do que pensava.
-- O que você quer que eu faça, William? -- perguntou por fim.
-- É algo bem simples, na verdade, Cecilie. -- a encarou profundamente com um sorriso mortal -- Eu quero que me mate.
Oiee!! Gente, vou fazer de tudo pra continuar no ritmo de postagem em 2 capítulos na semana! Mas está bem difícil terminar a história kkkk caso eu não consiga, pelo menos 1 capítulo por semana eu garanto (tenho alguns prontos).
Era só isso! Não desistam de mim nem dessa história! 🖤
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