Capítulo 63 - "No fim das contas, fui eu que a matei"
Oitenta e oito dias haviam se passado, mas seu sofrimento permanecia igual. Mas mesmo assim, de certa forma, era diferente pois agora ele tinha um claro propósito em sua mente o motivando. Na primeira semana desde que o corpo de Cecilie fora recuperado, ele permaneceu constantemente embriagado. Litros e litros de wísque o ajudaram a lidar com a dor e o luto, adormecendo dentro de Thomas todas as sensações sombrias que vieram junto da morte dela. Mas eventualmente sua mente entorpecida precisaria voltar à funcionar sem as muletas que a bebida fornecia, então no fim da primeira semana ele decidiu que estava pronto para encarar a nova realidade à sua frente.
Grave engano. Ele não estava pronto, e desconfiava que jamais estivesse. A falta que Cecilie fazia era gritante e abriu uma ferida purulenta em seu peito. A cada dia - a cada maldito minuto - suas entranhas se contorciam em saudade. Aquilo não era nada que ele já houvesse sentido antes, seu sofrimento não era apenas emocional, era também físico. Sua cabeça não parava de latejar, seu coração despedaçado disparava em seu peito conforme sua mente delirante buscava continuamente reviver cada momento junto dela, como se temesse esquecer algum mísero detalhe. Quando a lembrança estava bem nítida, seu estômago revirava e uma forte náusea o dominava pois ele também se recordava do cheiro de decomposição que aquela carroça trouxe para o castelo. O cheiro da morte ainda estava em suas narinas, e não achava aquilo justo pois em vida sua amada sempre cheirava à dias ensolarados e flores recém colhidas.
Saiu de seu banho frio e seguiu para se vestir, mas parou para se olhar por um momento no espelho de chão do quarto de banho. Havia perdido pelo menos dez quilos, mas a aparência doentia dos primeiros dias de luto não mais dominavam suas feições. Aquela palidez assombrosa foi substituída pelo bronzeado de seus dias ao sol, e o olhar antes perdido e vazio agora era constantemente raivoso. Isso era bom, afinal raiva era um sentimento melhor do que o nada infinito que o subjugou desde a perda dela. Seus cabelos estavam crescendo, caíam em mechas sedosas sobre sua testa e orelhas. Encarou as madeixas com profundo ódio, concluindo que já era hora de cortá-las. Jamais as deixaria crescer como um dia foram, pois não suportava sequer pensar que nunca mais sentiria as mãos de Cecilie acariciando seus fios.
Fechou os olhos com força e saiu, os passos batendo no chão como se de alguma forma quisesse liberar a violência que agora era sua companheira mais constante. Vestiu-se com uma calça de couro preta, uma camisa cinza de botões prateados e suas botas de cano alto. Pegou seu cinto e o prendeu na cintura, ajeitando a bainha de sua longa espada no lado esquerdo. Pegou duas faixas de trapos e as enrolou nas duas mãos, a fim de protegê-las durante o treinamento. Não que se importasse em feri-las, não ligava nem mesmo para a dor, mas não era nada prático sujar com seu sangue tudo o que tocasse.
Devidamente vestido, saiu de seus aposentos. Caminhou pelos corredores com ímpeto e pressa, pois gostava de chegar cedo e observar a paisagem silenciosa por alguns minutos para acalmar sua mente atribulada. Aquilo o trazia um pouco de paz, o ajudava a reunir a força sobre humana necessária para viver mais um dia. Ele estava quase saindo pelos fundos do castelo quando alguém o impediu.
-- Thomas!
Estancou com uma careta e virou-se para encarar sua tia, tentando arduamente curvar seus lábios em algo parecido com um sorriso amigável. Aparentemente, se o leve franzir de sobrancelhas dela fosse alguma indicação, ele não conseguiu chegar nem perto de sua intenção.
-- Bom dia, tia Zaya. -- cumprimentou em voz monótona.
-- Não quer tomar o café da manhã conosco hoje, querido? -- perguntou tentando soar despreocupada -- A cozinheira fez paquecas com mel, suas preferidas.
-- Não, eu comerei depois do meu treino. Obrigado, tia. Até mais. -- virou-se e saiu deixando a rainha plantada no lugar, observando seus passos decididos e imaginando como poderia ajudá-lo.
O que a tia ainda não havia compreendido, mesmo depois desses três longos e torturantes meses, é que ele não precisava de nenhuma ajuda. Estava se saindo muito bem sozinho, lidando com o luto à sua própria maneira. Duas semanas depois daquela tarde maldita em que viu o corpo de Cecilie já em alto estado de decomposição, onde a única coisa que pôde reconhecer em sua amada eram seus longos cabelos pretos que já descolavam de sua cabeça em mechas pútridas, Thomas iniciou seu treinamento como Ranger. Claro que apenas conseguiu entrar no seleto grupo de soldados de elite devido ao seu título e seu parentesco com a rainha, mas àquela altura isso não importava nem um pouco para ele. Tudo o que queria, —tudo o que precisava —, era fazer alguma coisa. Então certo dia se lembrou do conselho de sua tia lhe dizendo para encontrar algo em que se agarrar, e foi aí que uma luz acendeu em seu cérebro e encontrou seu propisito: vingança.
Mesmo em seu estado melancólico, o duque sabia exatamente tudo o que acontecia ao seu redor e à que pé estava a guerra. Logo depois do corpo de Cecilie aparecer, um bilhete de uma espiã do rei infiltrada na Irmandade chegou informando que mestre Willk havia partido num navio no porto antes que este fosse fechado. Também disse que sem o mestre eles nada fariam, e isso explicava o súbito desaparecimento da Irmandade das Sombras. Eles haviam recuado, estavam escondidos esperando que seu mestre retornasse de onde quer que tenha ido. Infelizmente, a mulher chamada Rosene não conhecia o destino da misteriosa viagem de William, mas de acordo com ela os planos eram de que ele retornasse em cerca de dois ou três meses, o que significava que o homem estava quase para regressar.
Sendo assim, Thomas teve apenas esse curto tempo para se preparar e precisava ser suficiente. Portanto Podrick, o líder dos Rangers, o estava treinando pessoalmente todos os dias desde o sol nascer até ele se pôr. Corridas, escaladas, levantamento de peso, mira com flechas e lançamento de facas. Luta corpo à corpo, duelos de espadas, dentre tantas outras coisas. Desde que iniciou aquele pesado treinamento, duas coisas muito importantes aconteceram, coisas essas que o estavam ajudando a seguir em frente sem enlouquecer de desespero: agora Tom conseguia dormir todas as noites e se sentia cada vez mais próximo de Cecilie.
Era estranho perceber isso, afinal sua amada estava morta, mas aprender a lutar e a matar sentindo aquele ódio constante em seu coração o faziam se identificar com o que ela um dia lhe dissera quando ainda era Nix. "O ódio é meu combustível". Sim, hoje ele entendia aquilo perfeitamente, pois apenas ódio e seu desejo de vingança o impulsionavam adiante. Correu o último quilômetro para chegar ao campo de treino sem nem se cansar como no início, pois realmente ele havia melhorado em suas habilidades físicas. Claro que jamais seria tão bom quanto os outros Rangers, mas ele não queria ser o melhor, apenas queria matar alguns desgraçados da Irmandade.
Depois de alguns minutos em silêncio observando as nuvens deslizarem no céu azul do início do inverno, Podrick finalmente chegou. O homem o fez correr mais algumas horas e depois duelaram por outras tantas. O almoço lhes foi entregue por um criado e na parte da tarde praticaram tiro ao alvo.
-- Se me permite dizer, você será o pior Ranger da história, vossa graça. -- zombou o homem ao vê-lo acertar todos os lugares ao redor do alvo, menos o círculo pintado de vermelho.
-- Eu não me importo, Drick. -- deu de ombros enquanto seguia para retirar as facas do tronco da árvore que estavam usando para treinar.
-- Apesar de continuar abaixo dos padrões dos meus soldados, você melhorou, Thomas. Praticando por mais alguns meses, você certamente deixaria de ser o pior de nós.
-- Nós já conversamos sobre isso. -- terminou de tirar a última faca e voltou para sua posição anterior.
-- Vossa graça vai morrer na primeira missão. Aquele porto vai estar infestado de soldados da Irmandade, vai ser um banho de sangue. -- insistiu, tentando fazê-lo desistir de seu plano.
-- Já conversamos sobre isso, também. -- atirou uma faca, acertando o tronco centímetros acima do círculo vermelho.
-- Está tentando se matar? -- acusou Podrick em voz baixa -- Por que se estiver, saiba que a princesa jamais aprovaria as tendências suicidas que está criando.
-- Bem, ela nunca mais irá aprovar nada, não é mesmo? -- atirou outra faca, que fincou à esquerda do centro do alvo dessa vez.
-- Onde quer que ela esteja, deve estar furiosa com o senhor. -- resmungou baixinho.
-- Ela não está. -- sorriu de leve ao imaginar o quão orgulhosa Cecilie estaria de sua dedicação nos últimos meses e finalmente, pela primeira vez, ele acertou o centro do círculo vermelho.
Virou a cabeça buscando os olhos de Podrick e lhe lançou um sorriso sarcástico, o que apenas fez o homem revirar os olhos.
-- Nós partiremos amanhã. -- anunciou à contra gosto, pois claramente preferia que Thomas não se juntasse à eles -- Esteja no portão oeste com sua montaria ao nascer do sol.
-- Estarei lá. -- ia buscar as facas novamente quando o homem o parou, segurando seu braço com firmeza.
-- Preciso que compreenda que nenhum de nós se preocupará em defendê-lo, vossa graça. -- disse sério -- Quando encontrarmos a Irmandade, será cada um por si.
Thomas encarou a mão de Podrick que o segurava, e depois encarou seus olhos escuros, quase negros. O duque não gostava que o tocassem sem sua permissão pois depois de tudo o que passou, considerava à todos um potencial inimigo. Puxou o braço com força lançando-lhe um olhar furioso, um claro aviso para não repetir aquilo, e retornou ao seu treino.
-- Eu não preciso que se preocupem comigo.
A viagem até o porto durou mais de uma semana. Podrick estava ocupado demais para continuar treinando-o pessoalmente, então a cada dia um soldado diferente era designado à tarefa. Nesses dias, cada um dos que lutaram com o duque reagiram de maneiras diferentes. O primeiro zombou dele à cada maldito minuto até o fim do dia, e a cada vez que se encontraram depois o homem ria de sua morte iminente. Imbecil. O segundo ficou revoltado que o duque houvesse obtido permissão para participar da missão sem estar completamente capaz. O terceiro cessou o duelo logo no início para rezar pela alma de Thomas. Nesse dia ele revirou os olhos com tanta força que pensou que eles jamais voltariam ao lugar. No quarto dia de viagem conheceu Estevão, um soldado que parecia ser bem mais jovem que todos os outros. Diferentemente dos anteriores, o rapaz não troçou dele quando não se defendeu adequadamente de um golpe, ou quando reagiu tarde demais. Estevão apenas parou e repetiu o movimento bem lentamente explicando o que Thomas deveria fazer. Depois, começou tudo do início.
Desde que se conheceram, criaram um tipo de amizade silenciosa. Bem, na verdade o duque era silencioso, já Estevão falava pelos cotovelos. Algumas noites Tom apenas encarava os lábios do rapaz se movendo sem parar enquanto sua mente não captava absolutamente nada do que ele estava dizendo. Então apenas acenava em concordância, e se Estev se importava com sua falta de atenção, nunca lhe disse nada. Descobriu que ele era o Ranger Zero - o que significava novato - até que Thomas chegou, tomando seu lugar. Além disso, era o mais jovem Ranger que já existiu na história do reino, pois confirmando suas suspeitas o rapaz tinha apenas dezenove anos e, assim como Thomas, essa era sua primeira missão.
Ao decorrer do restante da semana desde que conheceu Estev, o duque passou a praticar duas vezes ao dia. Antes do nascer do sol com algum soldado aleatório e outra depois que anoitecia, logo que paravam para acampar. Apesar do que todos ali pensavam, Tom não praticava com essa frequência para melhorar suas parcas habilidades - segundo os altos padrões Rangers. Não, ele só queria distrair sua mente atribulada. Agora estavam na última noite de acampamento, sob a luz da lua cheia e em volta da fogueira crepitante que os mantinha quase aquecidos naquela noite fria. Já era consideravelmente tarde e a maioria dormia, ou pelo menos fingia, então o silêncio era tranquilo e confortável. Thomas estava de guarda junto de seu novo amigo e mais dois soldados, que sequer havia se dado ao trabalho de perguntar os nomes.
-- ... disse que um martelo não é uma arma eficaz. Idiota! Acha que só o que mata são lâminas e flechas. Pois eu lhe digo, Tom, para tirar a vida de alguém até mesmo uma pedra basta. Ou um toco de madeira. Até mesmo uma cadeira de jantar poderia funcionar. Uma garrafa de vidro também, e então poderia usar os cacos e...
-- Já entendi seu ponto, Estev. -- o interrompeu senão o rapaz não se calaria tão cedo, narrando uma interminável lista de objetos potencialmente mortais -- E concordo.
-- Claro que concorda, eu estou certo. -- e misericordiosamete ficou quieto, observando o céu noturno. Thomas suspirou sentindo profunda paz quando Estevão começou de novo -- Sabe, me lembrei de uma história engraçada! Teve uma vez que...
-- Céus, homem! -- exclamou, sentindo estar sendo mentalmente torturado pois não era capaz nem de ouvir os próprios pensamentos com essa incessante falação -- Você não sabe calar a boca?
-- Realmente, tenho certa dificuldade com o silêncio. -- deu de ombros sem se ofender -- Minha mãe disse que comecei a falar com apenas cinco meses de idade.
-- Pobre mulher. -- apiedou-se da mãe dele.
-- Sabe, eu não preciso falar tanto. -- o encarou com suspeito interesse.
-- Isso me deixa feliz.
-- Eu não preciso falar tanto, caso você preencha o silêncio em meu lugar. -- levantou as sobrancelhas três vezes de maneira engraçada, uma expressão de piedade nas feições.
-- Nem pensar. -- recusou imediatamente.
-- Vai, me conte alguma história. -- implorou -- Qualquer coisa, pode ser uma receita de bolo que fez e deu errado.
-- E eu lá tenho cara de alguém que faça bolos? -- exclamou revoltado -- Jura?
-- Você entendeu o que eu quis dizer. -- sacudiu a mão, despreocupado -- Ande, me fale qualquer coisa. Se você diz vinte palavras por dia é muito, você me deve isso, Tom! Eu quase estou ficando rouco de tanto conversar sozinho quando estou com você.
-- Então é só calar a maldita boca.
-- Sabe que eu não vou fazer isso. -- sorriu ameaçador.
-- Estev, eu não tenho nenhuma história interessante para contar.
-- Nem eu, mas isso não é impedimento.
-- Diga-me, qual a punição por assassinar um colega soldado? -- tentou soar ameaçador.
-- Imagino que seja a forca, mas sabe que entre nós dois quem sobreviveria sou eu, certo? -- ele riu, completamente inabalável.
-- Droga, eu sei disso. -- dessa vez, Thomas deixou escapar um leve sorriso.
-- Fale sobre ela. -- o sorriso murchou e seu coração doeu -- Como conheceu a princesa?
O duque não disse nada, apenas baixou o olhar para suas mãos as encarou por alguns momentos. Os dedos se mexiam nervosamente e tremiam conforme as lembranças o invadiam com a força de um raio. Passaram-se alguns pares de minutos e Estevão manteve-se em silêncio, apenas aguardando. Por fim, o rapaz soltou um suspiro desanimado e ia se levantando para deixá-lo sozinho quando Tom começou a falar sem nem mesmo decidir conscientemente fazê-lo.
-- Eu estava numa taverna, comemorando o sucesso de minha missão. -- sua voz não passava de um sussurro -- Cecilie... -- tossiu para espantar o bolo em sua garganta -- Nix se fingiu de garçonete para se aproximar de mim.
Levantou o olhar e encontrou Estevão encarando-o, vidrado. Depois as palavras pareceram jorrar dele numa torrente incontrolável e sem fim. Narrou sua captura, disse sobre o cantil que Nix lhe oferecera antes de chegarem à Fortaleza da Irmandade. Detalhou as torturas que sofreu, a conversa secreta deles durante a madrugada. Contou detalhes da fuga, como ela lutou contra os seus para salvá-lo, como o deu forças para sair dali praticamente carregando-o nos braços. Disse como cuidou de seus ferimentos naquele esconderijo, e como Thomas foi estúpido para denunciar sua localização com um espirro. Narrou a luta espetacular de Nix aquele dia, em como percebeu finalmente como ela era imbatível. Contou sobre o restante da jornada, sobre a noite que adormeceu em guarda e como ela o castigou por aquilo quase rasgando sua garganta. Confidenciou sobre a profundidade da tristeza que a mulher carregava, o quanto se esforçou para ajudá-la a cada interação e o quanto ela o rejeitava até que aos poucos foi cedendo. Disse sobre aquele dia em que ela caçou uma jiboia, logo antes de serem emboscados e como matou aqueles quatro homens sozinha. Recordou-se da tempestade que sempre via no cinza de seus olhos e seu peito aqueceu. Ao narrar sua história, parecia estar revivendo aqueles dias. Disse sobre a queda que ela sofreu do cavalo, ferindo-se brutalmente e da encenação que fizeram ao se passar por recém casados para garantir um quarto numa estalagem. Narrou também os detalhes de como a Irmandade os encontrou e como escaparam uma outra vez. Abreviou o restante da história pois era doloroso demais, disse apenas sobre o dia que Pauline a pegou sozinha e completamente distraída e a esfaqueou com uma adaga envenenada e como isso quase a matou. Contou como chegarm à Cidade Real e como estava totalmente desorientado e ansioso por salvá-la, disse o deslize que cometeu anunciando a identidade dela e os dias angustiantes que ficaram separados. Por fim, detalhou sobre como conseguiram uma sessão com o rei e o olhar de puro assombro do monarca ao reconhecer a filha perdida há tantos anos.
-- Em que momento de tudo isso vocês ficaram juntos? -- uma voz que não reconheceu perguntou.
Thomas levantou os olhos e encontrou pelo menos quinze homens ao redor deles, encarando-o com atenção. Esteve tão imerso em suas lembranças que não se apercebeu daquela pequena platéia se aglomerando ao seu redor para ouvi-lo.
-- Sim, em que momento? -- outro homem perguntou -- Soube que já eram um casal quando chegaram no castelo.
-- Tomamos chuva um dia inteiro e nos abrigados numa caverna. -- disse, quase sentindo na boca o sabor do beijo de Cecilie -- Nós brigamos, como quase todos os dias. Mas depois... -- sua voz morreu em na garganta e sentiu os olhos marejados -- Eu sinto tanta falta dela que tem momentos em que não consigo respirar, não consigo pensar. Isso sem falar na minha parcela de culpa na...
-- Você não teve culpa, Tom. -- Estev o interrompeu.
-- Mas é claro que eu tive! -- gritou raivoso -- Se não tivesse sido tão estúpido não teria sido capturado, e então Cecilie estaria viva! Posso não ter enfiado uma espada no peito dela, mas no fim das contas fui eu que a matei.
O silêncio foi profundo e brutal, ninguém ali foi capaz de contradizê-lo. Tornou sua atenção para as suas mãos, mas não tinha mais forças para sequer entrelaçar os próprios dedos.
-- Em poucos dias o navio do mestre da Irmandade vai atracar no porto. -- Podrick disse, surpreendendo Tom que não o havia visto ali -- As tropas reais estão nos arredores, já montando guarda para capturar os fugitivos e prontos para nos darem reforços. Quando Willk desembarcar, os Rangers entrarão em ação e só descansaremos quando o último Irmão estiver morto. Custe o que custar, vossa graça, a princesa será vingada.
Thomas levantou o olhar e o passou por cada um ali presente. Todos os soldados acenaram em afirmação, as expressões determinadas e ferozes. De alguma maneira em tão pouco tempo ela os havia conquistado. Cecilie nem sequer conheceu todos os soldados de seu pai pessoalmente, mas eles a admiravam demasiadamente. Tom foi informado de que em seus últimos dias ela estivera oferecendo treinamento à quem quer que desejasse, e a cada dia mais e mais homens compareciam. Alguns pediam para duelar com ela não para aprender algo, mas para poder dizer que já tiveram a honra de lutar com a princesa guerreira. Mais do que que a filha do perdida do rei que foi criada pelo inimigo e encontrada anos depois, Cecilie era uma deles. Em sua essência, ela era um soldado igual à eles. Cansado até os ossos, Thomas cumprimentou os homens com um aceno e partiu para uma barraca vazia pois seu turno de vigia havia acabado. Deitou-se e adormeceu quase imediatamente.
Teve sonhos agitados, com ondas turbulentas e uma banheira vermelha que sacudia ao bel sabor do vento e maresia. Uma corrente se arrastava num compartimento nas entranhas de um navio, fazendo um som metálico. Seguindo o barulho, um aroma que não sentia há muito invadiu seus sentidos fazendo o coração acelerar. Uma porta surgiu e Tom a abriu, encontrando apenas uma profunda escuridão infinita. Mas ele sentiu a presença familiar naquele lugar sombrio, e nem mesmo hesitou em seguir até seu encontro. Deu um passo à frente e caiu num abismo que cheirava à mar e flores e luz do sol. Ainda em queda livre, sentiu um corpo pequeno e firme abraça-lo com força, aquecendo sua alma ferida e seu coração partido. O duque retribuiu ao abraço como se sua vida dependesse daquele toque e prometeu que jamais a soltaria, repetindo incessantemente que a amava. Ainda sem ver seu rosto sentiu um toque leve na bochecha, uma carícia idêntica à que recebeu quando ela o resgatou e a voz doce de Cecilie sussurrou em seu ouvido, causando arrepios por todo seu corpo e o despertando imediatamente.
-- Eu estou chegando, Thomas. -- ela lhe disse e, agora acordado, um calafrio anunciando algum presságio estremeceu seu corpo e seu coração.
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