Capítulo 57 - "Eu estou indo"
A semana passou mais rápido do que imaginou ser possível. Esteve tão atarefada que mal notou o tempo correr. Os treinamentos com os soldados de seu pai tinham mais integrantes a cada dia, e agora as sessões aconteciam pela manhã e também à tarde. Mesmo que estivesse à beira de um esgotamento físico, não se permitiu diminuir o ritmo pois aqueles homens precisavam dela, e de tudo o que Nix poderia lhes ensinar. Além de seu progresso com os soldados, que aos poucos estavam tornando-se seus amigos, uma melhora significativa havia acontecido no clima tenso que outrora rondava os corredores do castelo. Christopher não mais a atacava sempre que podia, na verdade o meio irmão vinha sendo educado e cortês. Até mesmo perguntou sobre seus feitos com os soldados uma ou duas vezes durante o café da manhã, que acabou por se tornar uma tradição onde todos sempre estavam presentes, sem exceções. Isto é, se não considerar a cadeira continuamente vazia de Thomas.
A ausência do homem agora era motivo de alarme para Nix, que estava com um pressentimento ruim apertando seu peito. Três dias atrás, a mulher conversou com Zaya lhe confessando seus temores de que algo parecia errado, e a rainha prontamente enviou um mensageiro até a propriedade do duque, que ficava há um dia de viagem. Portanto, a qualquer momento as notícias chegariam. Na verdade, esperava que o próprio Thomas chegasse para lhe tranquilizar e mostrar que sua preocupação era infundada.
-- Oh, não! O senhor Fofinho está com dor de barriga! -- Crystal anunciou de maneira dramática, tirando a atenção de Nix de seus pensamentos inquietos.
A mulher estava na sala de brinquedos da irmãzinha aproveitando seus momentos livres após a refeição do meio dia, e brincava junto da menina com seus bonecos de pano enquanto a ama lia um livro sentada numa cadeira em frente à janela. A moça - que se chamava Adelaide - apreciava muito as horas que Nix passava com a princesinha, pois esta era enérgica e exigia muita atenção, então todo descanso era bem vindo.
-- Eu lhe disse que o senhor Fofinho tinha tomado chá demais. -- pegou o urso e cheirou seu traseiro, fazendo uma careta teatral e tampando o nariz -- Céus, ele precisa de fraldas novas. Imediatamente!
Crystal riu, divertindo-se muito com a brincadeira. Buscou na cômoda ao canto um trapo que fazia as vezes de fralda e trocou o ursinho com agilidade.
-- Prontinho! -- anunciou animada e deu um beijo estalado no senhor Fofinho -- Ele está de bumbum limpinho! -- estendeu o bichinho para Nix novamente -- Cheire!
A mulher deu um largo sorriso e fungou.
-- Humm, está cheirando a flores frescas. -- disse, pois sabia o fascínio que a criança tinha com as flores.
-- Flores frescas? Como um arbusto de jasmim? Ou de peôneas? Ou então cravos? Talvez seja...
-- Crystal? -- a voz da rainha se fez ouvir vinda da porta, interrompendo a filha no que certamente seria um infindável discurso sobre todas as plantas que conhecia.
-- Olá, Mamãe! O senhor Fofinho está cheirando à rosas brancas! -- abraçou o ursinho com carinho.
-- Isso é muito bom, minha pequena. -- sua voz falhou por um instante, fazendo os pêlos da nuca de Nix se arrepiarem.
-- O que aconteceu? -- perguntou alarmada.
-- Seu pai precisa de você. -- disse apenas -- No salão de reuniões. O Conselho de Guerra está reunido.
Acenou em compreensão e deu um beijo de despedida na irmã, que fez um biquinho adorável ao demonstrar sua decepção com a interrupção da brincadeira. Ao ficar frente a frente com a rainha que ainda estava parada à porta, fez a pergunta que estava fazendo seu coração bater disparado.
-- Alguma notícia de Thomas? -- esperou, temendo a resposta.
-- Apenas vá, Cecilie.
A rainha não parecia disposta à lhe dar nenhuma informação, então se apressou até o salão de reuniões. Seus dois guardas tiveram de praticamente correr para acompanhar suas passadas, tamanha pressa que estava em saber de uma vez o que diabos estava acontecendo. Ao se aproximar do lugar, os guardas ali parados imediatamente abriram a porta para sua entrada. Já lá dentro, passou os olhos pelos presentes. O rei estava de pé na janela, observando o dia lá fora. Christopher estava sentado em seu lugar na grande mesa redonda, que estava ocupada por mais seis homens que não conhecia. Aquela era a primeira vez que o Conselho de Guerra se reunia desde que chegara ao castelo, então não tivera tempo de ser apresentada à eles anteriormente.
-- O que aconteceu? -- pediu à ninguém em especial, porém encarava as costas de seu pai e viu quando ele enrijeceu ao ouvir sua voz.
Os conselheiros desviaram os olhares, enquanto Christopher continuou paralisado com semblante perdido. Por fim Abenforth se virou para ela e, do outro lado da sala, respondeu sua pergunta.
-- Thomas foi pego.
Tantas sensações a invadiram, que não conseguiu identificá-las. Sua visão escureceu por alguns segundos enquanto sentia o chão desaparecer sob seus pés. Em sua mente, havia apenas a lembrança daquela última noite que passaram juntos na cama dele. O calor de Thomas, a sensação de seus corpos unidos em um, a maciez de sua pele, sua risada solta...
-- Cecilie! -- ouviu a voz do pai perto demais, resgatando-a do lugar obscuro onde estava mergulhando -- Cecilie, está me ouvindo?
Piscou os olhos algumas vezes e percebeu que o rei estava à sua frente com feições preocupadas, as mãos em seus ombros prontas para segurá-la caso desmoronasse.
-- Estou. -- sua voz não passou de um sussurro fraco, deu uma tossida seca e repetiu -- Estou, diga-me o que aconteceu.
Abenforth expirou aliviado e a soltou, mas não se afastou muito.
-- Quando estava atravessando os portões de sua propriedade em Monte Branco, Thomas foi interceptado. Sua casa foi saqueada e depois incendiada. Os criados eram poucos e conseguiram fugir, mas... a Irmandade o levou.
Acenou uma vez, mostrando ter entendido. Entretanto, não sabia o que dizer. Sentiu-se subitamente vazia, à deriva, o caos se instalava rapidamente em sua alma e coração.
-- Majestade, não podemos aceitar essa afronta! -- um dos homens na mesa redonda exclamou, enfurecido -- A Irmandade foi longe demais, passou de todos os limites! Devemos marchar até eles de uma vez por todas, levando todos os nossos contingentes e derramar sobre Willk a justiça do rei!
Algumas vozes agitaram-se em concordância, mas não a única que importava.
-- E iremos para onde, Martin? -- perguntou o rei -- Eles podem estar em qualquer lugar!
-- Mas agora temos a lista das Cidades Fortes, majestade. -- intercedeu outro homem -- Podemos verificar quais são as mais próximas à Monte Branco, que logicamente é onde a Irmandade está nesse momento.
-- Isso é muito falho, Vendel. -- recusou o monarca -- Quando meus exércitos atravessarem estas muralhas deverá ser com um destino certo, não na direção de suposições.
-- Diga o restante para ela. -- a voz de Christopher se fez ouvir, baixa e tensa. Nix olhou para o meio irmão e o pegou encarando-a profundamente -- Cecilie precisa saber. E ver.
Abenfoth franziu as sobrancelhas em nervosismo, mas nada disse.
-- O que eu preciso ver? -- perguntou, mas só recebeu silêncio -- Maldição, me digam tudo de uma vez!
Percebeu uma troca de olhares de seu pai e o homem chamado Vendel, que se levantou após receber um sinal positivo do rei. O homem baixo e gorducho seguiu até Nix com um embrulho nas mãos. O tecido de cor roxa estava um tanto sujo, e quando pegou a trouxinha seu coração acelerou temendo o que encontraria ali. Engoliu em seco, respirou fundo e abriu o tecido com mãos trêmulas, revelando seu conteúdo. Grossos fios de cabelo castanho estavam amarrados num laço de veludo verde. Nix passou as pontas dos dedos por eles, sentindo a sedosidade dos fios. Lágrimas turvaram sua visão e precisou conter-se para não liberar o grito de dor que queimou em sua garganta. Ela conhecia aquele cabelo. Os acariciou calorosamente diversas vezes nos últimos meses, deliciando-se com o toque.
-- Se não quiser marchar, senhor, eu entendo. Mas pelo menos dê-me os Rangers para que possamos montar uma emboscada e assassinar o maior número de Irmãos possível numa retaliação.
-- Não vou retaliar agora! -- urrou o rei -- Não enquanto eles ainda tem Thomas nas mãos.
Depois dos gritos de Abenforth, o silêncio se instalou. Nix engoliu seu choro e respirou profundamente algumas vezes para acalmar seu crescente desespero. Embrulhou os cabelos de Thomas delicadamente no tecido roxo novamente, e os apertou entre suas mãos enquanto reunia suas forças.
-- E uma missão de resgate? -- sugeriu outro homem -- Podemos descobrir em qual Cidade Forte estão, espioná-los por alguns dias e então os Rangers entram para salvar o duque.
Dessa vez, o rei não recusou a ideia de pronto, e pareceu realmente pensar na questão. Mas antes que decidisse enviar os soldados de elite numa missão suicida, Nix intercedeu.
-- Não há necessidade de uma missão de resgate. -- anunciou, deixando todos boquiabertos -- Thomas já está morto.
Ao ouvir tais palavras amargas deixarem sua boca, não pôde suportar permanecer ali. As paredes da sala ameaçaram sufocá-la, seu peito queimou em dor e angústia, então sem pedir licença saiu e correu até seus aposentos. Chegando lá, seguiu diretamente até a cama e puxou o bilhete de Thomas de onde estivera guardado desde que o recebera, ainda debaixo de seu travesseiro. Ela já conhecia as palavras ali contidas de cor e salteado, mas as leu novamente. Droga de homem estúpido, pensou irritada, por que tinha de ter feito tamanha tolice? Burro, burro!
Apesar de estar se sentindo furiosa e destruída, não se permitiu pensar na tragédia que estava se desenrolando, não aceitou os sentimentos de medo e desolação dentro de si. Guardou o bilhete de volta ao seu lugar embaixo de seu travesseiro, junto do embrulho com os cabelos de Thomas, e levantou-se sem saber o que fazer a seguir. A hora seguinte Nix passou de pé em frente à sua janela, observando o azul do céu sem realmente ver alguma coisa, enquanto tentava silenciar seus pensamentos frenéticos e fazer o vazio em seu interior parar de doer tanto. É hora de se mexer, repreendeu a si mesma por sua letargia. Virou-se e saiu de seu quarto indo em busca da única pessoa que poderia ajudá-la naquele momento.
Nix procurou o rei em seu escritório, mas o homem não estava lá. Cassian, um dos soldados de sua escolta naquele dia, informou que provavelmente o monarca estaria na sala privativa de sua ala. Sendo assim, a mulher seguiu até o lugar sugerido após pedir que o soldado buscasse sua amiga Salete e que a deixasse em seu quarto até que Nix retornasse. Ela teve sucesso ao encontrá-lo na tal sala privativa, então solicitou uma audiência com o rei à um dos soldados que guardavam a porta dele, e imediatamente sua permissão para entrar foi concedida. O cômodo era aconchegante e bem aquecido, e encontrou Abenforth em pé vindo ao seu encontro.
-- Cecilie! -- estendeu as mãos para ela, mas logo recuou -- Como está? Precisa de alguma coisa? Eu... -- parou ao notar sua expressão abatida -- Eu sinto muito, filha, realmente sinto muito mesmo. Thomas era um bom homem.
-- Eu não quero falar sobre Thomas. -- recusou, pois sabia que estilhaçaria em mil pedacinhos caso o fizesse -- Eu vim até aqui para ouvi-lo.
Imediatamente Abenforth compreendeu o que quis dizer e arregalou os olhos, surpreso. Mas recuperou-se rapidamente e lhe apontou o sofá para que se sentasse. Quando Nix o fez, o homem intercalou o olhar entre a poltrona em frente à filha e o lugar vazio ao seu lado. O rei hesitou por um instante, mas optou pela segunda opção. Tão próximos um do outro quanto jamais estiveram desde que ela reapareceu, Nix endireitou-se a fim de ficar de frente para o pai, que fez o mesmo. Agora frente a frente, era hora de a verdade vir à tona.
-- O que você se lembra daquele dia? -- perguntou o rei.
Nix pensou por alguns instantes, revirando as memórias da última noite que passou junto de sua mãe.
-- Nós jantamos peixe assado. -- disse num fio de voz -- Quero dizer, a mamãe jantou peixe assado. Eu comi um caldo de galinha, pois odiava peixe. Depois ela tocou piano enquanto eu desenhava no chão da sala de música. Devo ter adormecido ali mesmo, pois a próxima coisa de que me lembro é de acordar em minha cama. O que me despertou foi o som dela vomitado no quarto ao lado. Eu me levantei e segui até lá, e mamãe me disse que o peixe devia estar apodrecido. Fiquei preocupada, mas ela me acalmou dizendo que só precisava que eu dormisse abraçada junto à ela, e que quando o dia clareasse tudo estaria bem. Mas pela manhã, ela estava morta.
Abenforth acenou, passeando os olhos pelo rosto da filha, procurando os sinais da amada em seus traços. Então, iniciou seu relato.
-- Eu estava nesta sala quando recebi um bilhete dizendo que Cassandra havia morrido. Já era noite e parti imediatamente, mas levei quase dez horas para chegar em nossa casa. Quase matei meu cavalo de exaustão. Quando finalmente cheguei o sol estava nascendo, e corri até o quarto que compartilhávamos em busca dela rezando fervorosamente para que houvesse acontecido um engano, rezando para encontrá-la viva e saudável. Mas eu senti uma parte minha morrer ao ver o amor de minha vida pálida e imóvel, apenas a casca vazia da mulher que Cassandra um dia foi. Mas mesmo destruído levei apenas um minuto para perceber o perigo que você estava correndo ali, então a levei até o orfanato da cidade onde a deixei com quatro soldados.
-- Eu não me lembro de ver seus soldados.
-- E não deveria. Eles estavam patrulhando os muros do lugar, atentos à quem entrava e saia. Como, pelos céus, você conseguiu fugir, Cecilie?
-- Eu me escondi na carroça do vendedor de carnes. -- explicou -- Três dias depois que se foi, achei que o senhor nunca mais voltaria. Então quando o velho foi entregar as encomendas da semana, me escondi sob a lona da carroça e fugi.
-- Sempre tão esperta, minha menina. -- o pai elogiou, mas seu sorriso era triste.
-- O que quis dizer ao afirmar que eu corria perigo em minha própria casa? Ainda não compreendo suas razões para ter feito o que fez!
-- Cecilie, minha filha. Temo fazê-la sofrer demais com o que lhe direi agora. Tem certeza de que quer saber disso hoje? Quando acabou de descobrir que Thomas...
-- Apenas me diga. -- o interrompeu, sentindo um calafrio descer por sua espinha -- Por favor.
-- Cassandra foi assassinada, Cecilie. -- a voz do rei soou baixa, sombria.
A mulher ficou estática por alguns segundos enquanto aquelas palavras se repetiam em sua mente, ecos torturantes da verdade enfim revelada.
-- O quê? Como... ? -- revolta fez seu coração acelerar espantando a tristeza, e raiva borbulhou em suas veias -- Quem fez isso?
-- Quase dezesseis anos depois eu ainda não fui capaz de descobrir, Cecilie. -- sussurrou o pai numa angústia deplorável -- Tudo o que sei com certeza é que minha amada foi envenenada. Percebe o quão patético sou? A deixei num orfanato para protegê-la pois sabia que corria grave perigo com o assassino de Cassandra à solta, mas você escapou por entre meus dedos. Depois passei o ano seguinte procurando pistas que o criminoso tenha deixado para trás, e tentando arduamente encontrá-la. Mas eu falhei nas duas tarefas mais importantes que já tive na vida.
Lágrimas começaram a rolar pelo rosto de seu pai, que se contorcia em crescente agonia. Como pôde nunca imaginar que sua mãe havia sido assassinada? Tudo bem que era uma criança, não compreenderia aquilo na época, mas depois de ter sido treinada por Willk deveria ter passado pela sua cabeça tal possibilidade. Mas... como? Se a mulher não se permitia recordar o passado, não se permitia - há quase dezesseis anos - ser quem ela realmente é? Vendo o choro incontrolável do pai algo se quebrou dentro dela, mas a sensação foi boa. Libertadora. O que se partia em seu interior era a mágoa, o rancor e a cólera que a consumiram por tanto tempo, adoecendo-a. As amarras do ódio que nutriu por Abenforth desde aquele fatídico dia afrouxaram e ela respirou profundamente, como se aquilo a estivesse sufocando e não sentisse ar puro nos pulmões há muito. Agora, só havia uma coisa a ser feita. Estendeu as mãos e puxou o pai para um abraço num aperto ferrenho. Ali, dezesseis anos de saudade estavam sendo aliviadas. A mulher se aninhou no peito do rei, sentindo-se novamente aquela menininha que havia acabado de perder a mãe. Abenforth soluçou enquanto murmurava o nome da filha como uma prece, um agradecimento, uma declaração do mais profundo amor. Percebeu estar chorando apenas depois de algum tempo, pois estava distraída demais com tudo o que sentia dentro de si. Algo estava sendo reconstruído, partes dela estavam se reconectando, se curando. Apertou ainda mais os braços em volta do rei, e afundou o nariz em seu pescoço sentindo aquele cheiro de casa, de família, de pai. Então, ela sentiu. Sabia que já estava acontecendo gradativamente, mas nos braços do pai a última peça se encaixou e Cecilie estava finalmente de volta.
-- Eu o perdoo, papai. -- anunciou em voz embargada -- Eu o perdoo.
-- Oh, filha... -- Abenforth estava tão tomado de emoção que mal conseguia falar -- Eu.. te amo. -- beijou o topo de sua cabeça como fez tantas vezes quando era menina -- Eu a amo tanto, tanto!
Ficaram incontáveis minutos ali, e por um tempo o mundo deixou de existir para ambos. Só haviam Abenforth e Cecilie e o amor que sentiam um pelo outro. Mas por fim o choro foi cessando, e ambos sentiam o peito leve em regojizo. Ela se afastou e o encarou profundamente.
-- Eu também te amo, pai. -- confidenciou com um sorriso -- Mesmo quando eu o odiei, sempre o amei na mesma medida. Desculpe ter sido tão dura, eu só...
-- Shh, pequenina... -- puxou a mão da filha e a beijou carinhosamente -- Você fez o que precisava ser feito, assim como sempre fará. Eu entendo e admiro sua força. -- ela acenou em agradecimento -- Nós... -- hesitou, inseguro -- Nós estamos bem agora?
-- Estamos sim. -- sorriu -- Mais do que bem. Porém eu devo ir, está quase na hora do treinamento e preciso me aprontar.
-- Não acha melhor cancelar? -- Abenforth parecia preocupado -- Cecilie, devemos discutir sobre Thomas e...
-- Não. -- levantou-se num ímpeto -- Não quero falar disso.
O rei se levantou em seguida, as sobrancelhas franzidas.
-- Você parece estar em negação.
-- Talvez eu esteja. -- deu de ombros, desolada -- Pai, eu não vou conseguir lidar com isso agora. Simplesmente... -- fechou os olhos apertados e o rosto dele apareceu na escuridão com aquele costumeiro sorriso travesso que revirava suas entranhas -- eu não conseguirei.
Mais uma vez Abenforth a abraçou, tentando lhe passar alguma força naquele contato. Beijou-lhe a testa e se afastou.
-- No seu tempo, minha filha. Se precisar de qualquer coisa... estarei aqui para você.
-- Eu sei. -- sorriu agradecida -- Obrigada. Agora devo ir.
O rei concordou, mas a mulher não se mexeu. Passeou os olhos pelo rosto do pai sentindo um aperto no peito. A vida foi injusta com eles de tantas maneiras, e estava sendo mais uma vez agora. Ainda assim, não doía menos. Gravou os detalhes do homem na memória: a cor arenosa dos cabelos, as linhas de expressão redor dos olhos cinzentos, o sorriso de gratidão e felicidade que lhe dirigia, alheio ao que estava realmente acontecendo. Aquela era a última vez que veria o pai, e de alguma forma já sentia falta dele. A dor que a golpeou ao constatar aquele fato a fez abraçá-lo uma última vez em despedida.
-- Vai ficar tudo bem, minha princesinha. -- garantiu o homem -- Aqui, antes que vá gostaria que levasse isso. -- buscou um pequeno livro que estava na mesa ao canto e lhe entregou -- Todos em nossa família devem lê-lo, são as leis de nosso reino. As leis da família real, obviamente.
Pegou o livro nas mãos e mentiu que o leria o quanto antes. Sorriram um para o outro enquanto o rei murmurava um "nos vemos no jantar", que ela não respondeu. A mulher seguiu até seus aposentos deixando uma parte de si para trás, imaginando a dor que o pai sentiria quando descobrisse o que ela fez. Mas como ele mesmo havia dito, ela sempre faria o que precisava ser feito, e desta vez partiria de encontro à Willk sem chance de retorno.
Os cabelos de Thomas naquela trouxinha roxa eram um convite enviado exclusivamente para ela, a única que conhecia a mente engenhosa do líder da Irmandade. Willk e seu séquito de desgraçados estavam na Vila Violeta, uma cidadezinha minúscula nos arredores de Monte Branco. Não era uma Cidade Forte, portanto estava fora da lista que havia entregue ao pai dias antes. Na verdade, aquele lugarzinho esquecido fora onde o ex príncipe seguiu após ser deserdado e foi onde iniciou seus planos maléficos de retomar o trono que outrora deveria ter sido seu. Ali foi onde William tornou-se Willk. Ali seria onde ela morreria, entregando-se de bom grado para salvar seu amor que sabia estar vivo e refém da Irmandade.
-- Aguente firme, Thomas. -- Cecilie sussurrou aos atravessar os corredores do castelo em passadas firmes -- Eu estou indo.
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