Capítulo 54 - "Quero saber sua história"



     Depois de chorar a noite toda sentindo-se tão mal que parecia doente fisicamente, Nix adormeceu próximo ao nascer do sol, quando finalmente foi vencida pelo cansaço. Poucas horas depois foi despertada por Salete, que assustou-se com as marcas visíveis de sua tristeza em seus olhos inchados e avermelhados, e em seu semblante desolado. Felizmente a jovem teve o bom senso de não tecer comentários e nem mesmo de fazer perguntas, apenas preparou seu banho e lhe fez companhia durante o café da manhã que lhe foi servido no quarto sem nem mesmo solicitar. Imaginou que deveria agradecer à rainha por aquilo.


     Enquanto tomava o último gole de sua xícara de café, alguém bateu à porta. Era um criado que lhe trazia um bilhete com os horários livres que os homens dispunham para treinar naquela semana. Com tristeza percebeu que teria de ficar ociosa durante as manhãs, pois as únicas horas para os treinos seriam na parte da tarde. Não seria capaz de ficar em seu quarto por tanto tempo sem enlouquecer pensando em Thomas, na ausência dele e na falta que fazia. Então, assim que terminou seu desejeum, saiu à procura de seu pai.


     Particularmente, preferiria pedir auxílio à rainha, mas supunha que a mulher não poderia lhe ajudar na questão que precisava naquele momento. Foi pensando nisso, e sentindo o coração acelerar à cada passo, que chegou ao escritório privativo do rei acompanhada de sua habitual escolta de dois soldados. Ao ser comunicado de que sua filha queria lhe falar, Abenforth prontamente aceitou recebê-la e autorizou sua entrada. Nix adentrou o escritório sentindo-se incomumente acanhada, como se pedir um favor àquele homem fosse um passo importante para ela. Observou a expressão surpresa de seu pai e concluiu que, na verdade, era um passo importante para ambos.


-- Cecilie... -- cumprimentou, a surpresa sendo substituída pelo tom de preocupação -- Está parecendo abatida.


-- Eu estou bem. -- alcançou uma alta cadeira de mogno em frente à escrivaninha e apoiou as mãos no alto de seu encosto -- Vim lhe pedir um favor.


     Abenforth manteve suas sobrancelhas franzidas, deixando claro não acreditar que ela estava de fato bem, mas não insistiu. De onde estava, do outro lado de sua mesa de trabalho, apontou a cadeira onde Nix estava apoiada.


-- Claro, qualquer coisa que precisar. Sente-se.


     Devido à sua noite mal dormida, e à constante sensação de sufocamento que a saudade daquele maldito homem lhe causava, aceitou a oferta de pronto.


-- Preciso de armaduras completas e armas. -- anunciou assim que se acomodou -- Se possível uma cota de malha, também. E roupas mais apropriadas, vestidos não são vestimentas práticas para tempos de guerra.


     O rei a encarou por alguns segundos, a expressão vazia, até tecer algum comentário.


-- Achei que tinha vindo perguntar por Thomas.


-- E por que eu faria isso? -- irritou-se, ficando na defensiva.


-- Porque ele foi embora sem se despedir. -- deu de ombros -- E porque lhe deixou uma mensagem.


     Aquilo chamou sua atenção ao ponto de fazer seu coração parar por um segundo.


-- Mensagem? -- repetiu, aturdida -- Que tipo de mensagem?


     O rei, maldito seja, sorriu ao notar seu entusiasmo.


-- Pensei que não tivesse vindo perguntar pelo duque.


-- E não perguntei! -- reclamou soando feito uma crianca birrenta -- Foi o senhor quem o mencionou! E não quero saber de nada sobre Thomas, nem de nenhuma mensagem! Se ele quiser me dizer algo, aquele desgraçado que venha até aqui!


     Sua voz estava exaltada ao final de seu pequeno discurso revoltado. O cinza dos olhos de Abenforth ficaram escurecidos em nervosismo ao notar o quanto a partida do homem havia ferido sua filha.


-- Eu disse à ele para não ir. -- informou -- Mas Thomas não me deu ouvidos, disse que era necessário. -- Nix apenas manteve silêncio, deixando claro que não havia ido até lá para discutirem sobre o duque -- Muito bem então, Cecilie. Vamos falar sobre seu pedido.


-- Obrigada. 


-- Para que precisa de uma armadura? -- perguntou o rei, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão num gesto casual.


-- Como para quê? Para lutar!


-- E quais são seus planos, Cecilie? -- perguntou o rei, afiando o olhar -- Emboscada? Ataque surpresa? Marchar com todos os meus contingentes na intenção de enfrentá-los de frente ou enviar apenas os Rangers para assassinar os pilares da Irmandade? Qual sua estratégia?


     Abenfoth, percebeu, não a estava testando. O rei estava verdadeiramente curioso sobre o que ela planejava fazer, só havia uma única questão.


-- Eu... -- trincou os dentes com raiva, mas forçou-se a admitir -- eu não sei.


-- Então, para quê precisa de uma armadura? -- repetiu a pergunta, com um sorriso acolhedor nos lábios.


     Aquele sorriso, o brilho carinhoso que viu nos olhos tão conhecidos, olhos que via em si ao olhar-se no espelho, fizeram um bolo de lágrimas contidas queimar em sua garganta. Como ela podia ainda ter lágrimas para derramar? Engoliu em seco e prosseguiu a conversa, ignorando o intenso desejo de pedir um abraço ao pai.


-- Ontem participei de um treinamento com o capitão James. -- o rei acenou afirmativamente, mostrando já saber daquele acontecimento -- Eu ofereci ajuda para treinar alguns soldados menos... habilidosos. Então, gostaria de estar vestida adequadamente. Além do mais, nunca se sabe quando a Irmandade vai nos arrastar para um campo de batalha. Precisamos estar prontos.


     O rei pareceu considerar seu pedido por alguns instantes enquanto analisava cuidadosamente cada parte de seu rosto.


-- Cecilie, preciso ser sincero e avisar-lhe que não me sinto minimamente inclinado à permitir que sequer pise num campo de batalha. -- sua voz foi baixa, mas potente, claramente a voz de um monarca que não estava habituado à ter suas vontades contrariadas.


-- Mas o senhor não pode me impedir! -- não pôde evitar, novamente, à parecer uma criança à quem foi negada um doce.


-- Aí é que está. -- ele sorriu, um meio sorriso de canto -- Eu posso. Sou o soberano deste reino, afinal, e minha palavra é lei.


-- Mas... o senhor precisa de mim! -- anunciou orgulhosamente -- E eu preciso fazer algo de útil!


-- Eu preciso da minha filha viva, apenas isso. -- o sorriso desapareceu e o rei inclinou-se para frente cruzando as mãos sobre a mesa, agora sério -- Ouça com atenção o que irei lhe falar: eu admiro suas habilidades e entendo que tem informações importantes sobre William e a Irmandade. Mas mesmo assim, não estamos mais perto de vencê-los do que estivemos antes de você chegar aqui.


-- Não pode estar falando sério! -- indignou-se.


-- Cecilie, não quero que se sinta responsável por terminar essa guerra. -- o pai explicou calmamente -- Essa luta não é sua.


-- É sim, desde que Willk me encontrou e me transformou numa arma para usar contra você!


     Pai e filha se encararam, tão parecidos em tantas formas diferentes.


-- Você está proibida de participar de qualquer batalha contra a Irmandade até que eu decida o contrário. -- preparou-se para reclamar, mas o rei continuou -- No entanto, permitirei que participe das reuniões do Conselho de Guerra, e também que prossiga com seu treinamento junto dos soldados que tiverem interesse. Lhe providenciarei uma visita ao ferreiro hoje mesmo para que tenha uma armadura sob medida. -- Nix sentiu uma pontinha de alegria por sua pequena vitória, que logo foi dissipada -- Com uma condição.


-- Que condição? -- perguntou desanimada.


      Abenforth retirou uma chave do bolso interno de sua casaca, e abriu a primeira gaveta de sua escrivaninha. Dali retirou um envelope de pergaminho amarelado pelo tempo, e o estendeu à filha.


-- Como prometi, eu esperarei até que aceite ouvir o que tenho a dizer, mas até lá preciso que leia isso para que saiba ao menos parte de sua história. -- ela hesitou por apenas alguns segundos, mas apanhou o envelope com mãos trêmulas -- Pode ler em seus aposentos se preferir, para ficar mais à vontade. Temos um acordo?


     Nix intercalou o olhar entre o pai e o envelope em suas mãos, mas logo assentiu em afirmação. Abenforth lhe sorriu, claramente esperançoso com aquele pequeno avanço. Sem mais nada a dizer, levantou-se e ia saindo da sala quando o rei lhe chamou novamente. Parou e olhou para trás, vendo-o se aproximar com um bilhete em mãos.


-- Thomas pediu para que lhe entregasse isso. -- passou o pedaço de papel para suas mãos, não dando-lhe a chance de recusar a oferta -- Vou pedir que a levem até o ferreiro, em alguns minutos a carruagem estará pronta.


     Acenou uma despedida e saiu sentindo o bilhete de Thomas queimando sua mão, mas conteve a curiosidade de lê-lo imediatamente. Estava chegando no corredor que levava aos seus aposentos quando ouviu uma risadinha feliz vindo de um cômodo que tinha as portas semi abertas. Seu coração deu um salto ao pensar que a princesa Crystal, sua meia irmã, estava ali tão próxima. Não foi capaz de conter o impulso que fez seus passos a levarem até o lugar onde a criança estava, agora tagarelando sem parar. Sorrateiramente alcançou as portas da sala que parecia ser uma biblioteca, e as abriu silenciosamente. Colocou-se, então, à observar a cena que ali se desenrolava. Crystal corria em círculos ao redor de sua ama, que fingia tentar capturar a menina. Ambas gargalhavam divertidas com a brincadeira, o vestidinho da criança no meio das canelas farfalhava com a correria, o tecido azul claro trazendo estampas indistintas devido ao movimento. Nix pegou-se sorrindo, sentindo certa leveza aquecer seu coração com a pureza daquela criança, mas... alguma coisa - ainda não sabia o que  - parecia fora de lugar. Seria...


-- Espiando, Cecilie? -- uma voz feminina soou atrás de si, assustando-a, e sua reação denunciou que sim, estivera espionando.


     Nix virou-se para a rainha tentando não demonstrar culpa em seu semblante, entretanto nada disse. Encarou a mulher, suas feições delicadas e vazias, os fios louros encaracolados, os olhos castanhos astutos. Depois, levou a atenção sobre a menininha que agora havia cessado suas estripulias e a observava cheia de curiosidade, os escassos cabelos ruivos ondulados emoldurando seu rosto infantil, os olhos verdes brilhando ingenuidade. Então, a compreensão do óbvio se encaixou em sua mente num clique.


-- Você é minha nova irmã? -- a criança perguntou numa voz baixa e tímida, enquanto entrelaçava as mãozinhas à sua frente.


     Mais uma vez Nix buscou o olhar da rainha, que já a observava atentamente, avaliando-a. Porém a mulher não fez menção de querer tirá-la de perto de sua filha, parecia apenas... vigilante.


-- Crystal lhe fez uma pergunta, Cecilie. -- Zaya repreendeu-a ao escancarar as portas e, enfim, adentrar a biblioteca.


     Nix piscou, guardando o choque de sua descoberta e entrou logo atrás da rainha.


-- Sim, querida. -- respondeu à menina ao parar em sua frente, ajoelhando-se para ficar da mesma altura -- É quase isso.


-- Quase? -- virou a cabeça de lado, pensativa -- Como algo pode ser quase alguma coisa? Não deveria ser apenas sim ou não? Mamãe, eu não entendi!


     Crystal virou-se para a mãe um tanto confusa, enquanto Nix se espantava com a esperteza da menina.


-- Não se lembra do que eu expliquei, Crystal? -- a rainha não se abaixou para conversar com a filha, porém sua voz era amorosa e cheia de paciência -- Cecilie não saiu da minha barriga, é por isso que ela é quase sua irmã.


     A menina virou-se para Nix de olhos arregalados e um misto de surpresa e aflição distorcendo suas feições infantis.


-- Então você não tem mamãe? -- exclamou totalmente chocada.


     Zaya arquejou abalada pela fala da filha, talvez com receio da reação que Nix poderia ter. Entretanto, em contra partida aos temores da rainha, a mulher apenas riu deliciando-se com tamanha inocência. Ao longo de sua vida Nix não teve muitas interações com crianças, então aquilo lhe era algo novo e absolutamente divertido.


-- Eu tive uma mamãe, sim. -- explicou para a princesa com um sorriso que trazia um pequenino toque de tristeza -- Mas ela se transformou numa linda estrela há muito, muito tempo.


-- Oh! -- sua boca rosada se abriu e seus olhos brilharam em empolgação -- Sua mamãe vive no céu? Igual um anjo?


-- Sim. -- seu sorriso agora foi de puro carinho -- Igualzinho um anjo.


-- Mas... -- franziu as sobrancelhas ruivas -- Você não sente falta dela?


-- Todos os dias. -- confessou Nix em voz solene.


     A próxima ação de Crystal a pegou desprevenida e, quando deu por si, a criança estava em seus braços dando-lhe um abraço de conforto. Tardiamente retribuiu o gesto, sentindo uma explosão de calor em seu peito e encarou a rainha à procura de alguma reprovação da parte dela. Zaya observava a cena, suas feições tipicamente neutras, mas carregava um brilho diferente nos olhos castanhos. Amor e orgulho. Se Nix fosse a mãe daquela doce criança, certamente carregaria aqueles sinais também.


-- Eu sempre quis uma irmã! -- anunciou a princesa ao interromper o abraço -- Se quiser, posso dividir minha mamãe com você! Não é, mamãe? -- buscou o olhar da mãe, que sorriu para a menina.


-- Claro, princesinha. -- Zaya se inclinou e afagou as bochechas da filha -- Agora, está na hora de suas lições. Nos vemos mais tarde.


-- Ah, mas já? -- questionou frustrada -- Minha quase irmã pode ir comigo?


     Sorriu para a mãe, piscando os olhinhos numa tentativa de dissuadi-la à seu favor.


-- Cecilie tem os próprios afazeres, Crystal. -- a rainha recusou o pedido.


     A criança soltou um suspiro tristonho, que apertou o coração já angustiado de Nix.


-- O que acha de passarmos um tempo juntas antes do jantar? -- perguntou à menina, que lhe sorriu radiante -- Se a senhora não se importar, é claro.


     Zaya demorou à responder, provavelmente avaliando a oferta e os motivos de Nix. Mas por fim, após apiedar-se da alegria da filha acerta da novidade de sua "quase irmã", cedeu.


-- Tudo bem. -- a menina começou a dar pulinhos em comemoração -- Mas agora vá, senão irá se atrasar.


     Mandando um beijo no ar para a mãe, e outro para Nix, Crystal saiu da biblioteca acompanhada de sua ama. A mulher se levantou e apenas encarou a rainha que claramente parecia rer algo a lhe dizer.


-- Crystal é uma criança extremamente afetiva. -- deu de ombros -- Sinto muito por sua impertinência, ela ainda não compreende assuntos delicadas.


-- Quantos anos ela tem, mesmo?


-- Cinco.


-- Não é de surpreender que não entenda. -- Nix não pôde “evitar sorrir ao perceber que a rainha queria que sua filha se portasse como uma adulta, mesmo tendo ainda apenas cinco anos -- Crystal é um doce. Zaya, se minhas interações com sua filha a deixam desconfortável, pode se juntar à nós antes do jantar.


     A rainha a encarou por um instante, antes de respondê-la.


-- Você realmente quer passar um tempo com ela? -- Nix acenou afirmativamente -- Cecilie... você compreendeu a verdade aqui, certo?


-- Está se referindo ao fato de Crystal não ser filha do meu pai? -- ela cruzou os braços, apreciando a oportunidade de confirmar suas suspeitas tão rapidamente, mas surpresa com a boa vontade da rainha em esclarecer-lhe um assunto que certamente não lhe dizia respeito.


-- Sim. -- Zaya soltou um suspiro e deu-lhe um ínfimo sorriso, as maiores demonstrações de emoção que viu na mulher até então -- Você é uma mulher observadora. E perspicaz.


-- O príncipe sabe? -- não foi capaz de conter sua curiosidade -- E meu pai?


-- Cristopher?! -- Zaya exclamou e soltou uma risada ácida -- Ele tinha quase onze anos quando Crystal nasceu, mas já compreendia as leis básicas da Igreja. Mais do que isso, ele as seguia. Christopher é extremamente religioso, você acha que aceitaria minha bastarda de braços abertos? Sem causar algum transtorno?


-- Certamente que não. -- anunciou Nix, simpatizando com a rainha num nível que não havia sentido até aquele momento.


-- Certamente. -- repetiu a mulher -- Quanto à Abenforth, ele soube desde que anunciei minha gravidez. E em momento algum me repreendeu, ou reclamou. Afinal, pode o sujo julgar o mal lavado?


-- Essa relação de vocês... -- apontou o espaço vazio entre elas -- Essa nossa relação estranha que estamos construindo... Eu não compreendo.


-- Eu sei. -- pensou por um segundo apenas, e apontou o sofá de estofado avermelhado próximo à elas. Nix compreendeu o significado do convite, e sentou-se rapidamente. -- Pergunte, Cecilie.


-- Quero saber sua história, Zaya. -- pediu sem rodeios -- Não a de meu pai, a sua.


     A rainha deu um aceno positivo, sem se surpreender com o pedido. Então seu olhar ficou vago e o silêncio preencheu o ambiente por alguns instantes enquanto a mulher organizava as ideias.


-- Meu pai era um marquês falido. -- começou sua narrativa -- Minhas vestes eram de segunda mão, minhas jóias escassas. Os convites para festividades, praticamente inexistentes... Desde que minha mãe morreu de complicações de uma gripe, o antigo marquês acabou com nossa fortuna em bebidas, jogatinas e prostitutas. Até que finalmente, dois anos depois, o velho morreu afogado em seu próprio vômito. Eu tinha vinte e um, e meu irmão Tomyson beirava os trinta anos. Tomy já estava casado, Thomas tinha oito, quase nove anos. Então, meu irmão deixou sua familia por alguns meses pois ambos compartilhávamos uma característica importante. Ambição. Nós vendemos as poucas propriedades que nos restaram, mantendo apenas a casa ancestral da família, que é onde Thomas mora hoje em dia. Com desse dinheiro, adquirimos alguns pares de vestidos descentes e viemos para uma temporada aqui na Cidade Real, na intenção de me arranjar um marido adequado. O rei Oliver, seu avô, nos recebeu no Palácio devido à nossa longa e respeitada linhagem de marqueses, mesmo que meu pai houvesse manchado aquela imaculada reputação. Eu participei de apenas um baile até descobrir duas coisas importantes.


     Zaya fez um suspense, apontando dois dedos para Nix que a ouvia atentamente.


-- Que coisas? -- perguntou, ansiosa pela continuação.


-- Primeiro, eu não queria um marido qualquer. Descobri-me desejando não apenas estabilidade e conforto, Cecilie, eu desejava poder. Segundo, o rei estava em busca de uma esposa para o príncipe Abenforth, que havia acabado de se tornar seu herdeiro ao trono. Pelo que eu soube na época, quase uma dezena de mulheres havia sido cogitada para a posição, mas em algum momento todas as candidatas desistiam da oferta. Quando chegou a minha vez de receber a proposta, eu entendi a razão. -- mais uma vez o olhar de Zaya tornou-se vago, agora perdido em lembranças -- Certo dia, numa manhã depois do penúltimo baile da temporada, príncipe Abenforth convidou-me para um passeio nos jardins ao norte. Imediatamente eu compreendi o que aconteceria, já havia ouvido vários burburinhos e estava pacientemente esperando aquele momento. Vesti meu melhor vestido, tão verde e brilhante quanto as novas folhagens da primavera, e segui até o encontro já determinada à mudar meu destino naquela manhã ensolarada. Conversamos alguns assuntos triviais enquanto estivemos aos olhares de todos, mas ao alcançarmos alguma privacidade ele fez a proposta. E esclareceu detalhadamente do que se tratava. Na sombra de uma distante macieira no jardim norte, Abenforth me explicou que tudo se trataria de apenas negócios. Eu seria sua esposa oficialmente, mas tal posição não passaria de faixada, pois na verdade ele já tinha uma família que não pretendia abandonar. Tudo o que exigiria de mim, era um herdeiro.


-- E você aceitou? Simples assim?


-- Está prestando atenção, Cecilie? -- o tom de voz da rainha poderia ser uma reprimenda, mas logo depois a mulher lhe sorriu -- Abenforth me ofereceu exatamente tudo o que eu queria.


-- Sim, eu entendi! Conseguiu o poder que almejava, mas... e o amor?


-- O que tem o amor? -- Zaya arqueou uma única sobrancelha, e a encarou divertida.


-- Não a incomodou a certeza de que nunca seria amada pelo seu marido?


-- Eu compreendo seu ponto, Cecilie. Mas está pensando nessa questão pois está sendo afetada por suas próprias emoções em relação ao meu sobrinho.


-- Mas... -- a rainha levantou uma mão e a interrompeu, tirando-lhe a chance de corrigi-la e dizer que não amava Thomas.


-- Não venha mentir para mim, por favor. -- Nix mordeu a parte de dentro da bochecha para silenciar sua reclamação, e para conter a raiva por estar ciente de que sim, iria mentir ao dizer não amar aquele homem -- A questão é que, como eu nunca havia me apaixonado, eu apenas vi ganhos naquele acordo. Eu seria a rainha, a mulher mais poderosa no reino. Rica, prestigiada, invejada. Meu irmão ganharia o título de duque e quase uma dezena de propriedades valiosas. Abenfoth exigiu fidelidade apenas até que desse à luz um herdeiro, depois pediu apenas discrição. -- Zaya deu de ombros -- Pense com racionalidade e me responda, o que mais eu poderia querer?


     Analisando a questão daquela forma, Nix compreendeu exatamente o que a rainha tentava lhe dizer.


-- Nada. -- concluiu, aliviada por finalmente poder dizer que conhecia aquela pessoa à sua frente. Não profundamente, claro, mas aquela conversa havia sido deveras esclarecedora de muitas formas -- Foi o acordo perfeito para vocês dois.


-- Exatamente. -- Zaya franziu as sobrancelhas e seus olhos castanhos pareceram aflitos por alguns segundos -- Cecilie, eu não quero fingir que somos amigas. Sei que mal passamos de desconhecidas uma para a outra mas, não somos inimigas. Apenas quero que saiba que, na pior das hipóteses, seremos aliadas. Sempre.


     Sem saber ao certo como responder àquilo Nix acenou em compreensão e, tão rápido quanto veio, a expressão verdadeira da rainha desapareceu dando lugar à sua habitual feição vazia de emoções.


-- Fico satisfeita que tenhamos esclarecido essa questão. -- levantou-se elegantemente -- Devo seguir para alguns afazeres agora, Cecilie, desejo-lhe um bom dia.


-- Igualmente, Zaya. -- respondeu, ainda sentada, refletindo.


     Os passos da rainha soaram ao se retirar da sala, mas não demorou a silenciaram. Nix voltou sua atenção à mulher, que segurava a maçaneta da porta parecendo ligeiramente constrangida.


-- Se você puder... -- sua voz falhou e deu uma tossida para disfarçar -- Eu apreciaria muito se...


-- Eu jamais direi alguma coisa sobre Crystal. -- garantiu solene -- Para todos os efeitos, ela é sim minha quase irmã.


     A rainha soltou um suspiro aliviado e retirou-se sem mais demora. Nix ficou ali, sozinha, pensando em todas as informações que havia acabado de receber. A história da rainha não era exatamente como havia imaginado, isso se a mulher tivesse sido honesta em seus relatos. Repreendeu-se e abandonou tais pensamentos, pois sabia que sim, Zaya havia sido verdadeira. Willk - tio William - havia lhe ensinado à descobrir os mentirosos, pois eles sempre davam sinais de suas tentativas de ilusão. Não olhar nos olhos, movimentos excessivos de mãos ou pernas, ou a invenção de detalhes irrelevantes para mascarar lacunas na história e criar uma distração elaborada e floreada demais. Segundo seus árduos treinamentos, e sua intuição, a rainha Zaya havia lhe dito a verdade. Embora isso não quisesse dizer que havia lhe dito tudo.


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