Capítulo 53 - " Maldito seja!"



     Na manhã seguinte, Nix solicitou que seu desjejum fosse servido em seu quarto. Comeu devagar na companhia de Salete, silenciosa e taciturna, enquanto a jovem tagarelava sobre os assuntos mais aleatórios possíveis. Entretanto, nem mesmo as narrativas empolgadas de sua nova amiga foram capazes de distraí-la de seus inquietantes pensamentos acerca dos acontecimentos do dia anterior. Depois que Thomas finalmente a deixou em paz, Nix ficou revivendo a conversa dele com seu pai, assim como a discussão que tiveram em seus aposentos. Ela recusou o jantar pois não queria ver ninguém, também havia perdido o apetite, e passou a noite em claro tentando controlar sua decepção e acalmar sua raiva.


     Revirou em sua mente as justificativas que Thomas lhe dera a respeito de sua traição. Sim, Nix considerava aquela quebra de confiança uma traição. De onde o homem havia tirado que não seria capaz de suportar a revelação de que mestre Willk - William - era na verdade irmão do rei e seu tio, que a acolheu apenas para castigar ainda mais seu próprio irmão. Seu estômago deu mais uma volta ao pensar nisso. Willk a traiu primeiro ao usá-la daquela forma. Pensou ter sido abençoada com seu auxílio, chegou a gostar do homem verdadeiramente, sofreu em remorso quando o traiu, tudo isso para descobrir que desde sempre fora um peão no jogo de vingança dele. Sim, aquilo a feria em demasia, mas era forte o suficiente para suportar. A constatação de que Thomas escondia coisas dela, que tomava decisões pelas suas costas, lhe doeram muito mais.


-- ... daí eu tive de arrancar o vestido dela aos tapas! -- Salete dizia, indignada -- Onde já se viu! Eu passei semanas costurando aquele vestido para o jantar, e ela o rouba de mim, muda as mangas e acha que eu não perceberia! Francamente...


-- E vocês brigaram na frente de todos? -- decidiu abandonar suas divagações infrutíferas e participar ativamente da conversa -- Quem venceu a briga? Você recuperou seu vestido?


-- Oh, sim! -- seu sorriso foi feroz -- Eu venci, mas o pobrezinho ficou em frangalhos. Ainda não a perdoei por aquilo, não mesmo!


-- E você costurou mais alguma coisa? -- perguntou, verdadeiramente interessada ao perceber o quanto Lete prezava por suas vestimentas.


-- Ainda não tive a oportunidade, senhorita. -- murchou, visivelmente entristecida -- O rolo do tecido aumentou muito de preço. Devido à guerra, entende?


-- Entendo, claro. -- apiedou-se dela -- Você já pensou em mudar de profissão, Lete? Tornar-se modista ao invés de ser uma criada do castelo para sempre?


-- Esse é meu maior sonho, senhorita! -- seus olhos brilharam -- Mas exige um dinheiro que não tenho, e provavelmente nunca terei.


-- Sabe o que é mais valioso que dinheiro, Lete? -- Nix inclinou-se para frente com um sorriso no rosto, e sussurrou -- Contatos.


      Salete fez uma expressão um tanto confusa, os olhos quase negros serrados enquanto tentava compreender o que a mulher havia dito.


-- Contatos? -- repetiu -- Mas eu não tenho... oh! A senhorita... -- exclamou ao finalmente compreender o que Nix havia dito.


-- Vou ver o que consigo fazer. -- sorriu para a amiga, conspiratória -- Afinal, meu pai quer me agradar e fará tudo o que eu pedir. -- deu de ombros, sem remorso nenhum em aplicar um pouco de extorsão em seu próprio pai, afinal seria por uma boa causa.


-- Oh, eu não sei nem como lhe agradecer, senhorita! -- levantou-se e correu para abraçá-la, deixando-a sem jeito -- Quer dizer, eu sei, sim! Lhe farei o mais belo vestido! Não! Lhe farei uma dezena de vestidos. Por mês!


-- Por favor, não faça isso. -- pediu rindo da empolgação da outra -- Senão já pode dizer adeus à minha predisposição em ajudá-la.


-- Sem vestidos, então? -- fingiu desânimo, mas seu olhar ainda brilhava -- Nem unzinho? -- levantou um dedo tímido.


-- Depois veremos isso, certo? -- serviu-se de mais uma xícara de café, enquanto Lete ainda dava pulinhos em êxtase -- Agora, preciso que faça por mim.


     Salete parou de pular e arregalou os olhos na expectativa de lhe ser útil.


-- Qualquer coisa, senhorita.


-- Soube pelo soldado Asper que hoje é dia de treinamento. Por favor, procure o capitão James e lhe transmita a minha solicitação para participar.


-- Quer que eu envie um recado seu ao bonitão do capitão James? -- pareceu ainda mais animada do que antes -- Esse é, sem dúvidas, o melhor dia da minha vida!


     Nix riu da alegria leve e despreocupada da nova amiga enquanto finalizava seu café, depois levantou-se e trocou de roupa, vestindo uma calça e camisa limpas, acompanhada de uma bota de cano médio. Não demorou e Salete retornou informando que o capitão James a encontraria no campo além da muralha norte em meia hora, e que uma carruagem já estava sendo preparada para levá-la até lá. Então ela foi, deixando uma Salete um tanto aborrecida para trás, que ansiava por participar "daquela aventura", como disse a mulher. Chegou alguns minutos atrasada pois o caminho estava esburacado devido ao uso constante de carruagens naquele trecho, quando desembarcou deparou-se com mais de cem homens posicionados em fileiras de dez pessoas. Todos uniformizados com armaduras leves de treino, e munidos de espadas sem corte. Ao longe, um cavaleiro segurava a bandeira do rei num longo mastro enquanto tentava controlar um cavalo agitado. Um leão desenhado em contornos vermelhos num fundo preto rosnava e se agitava conforme o vento balançava a bandeira. A marca do rei. A marca de seu pai.


     Respirou profundamente e encaminhou-se ao homem à frente do pequeno batalhão, que gritava ordens e orientações. James silenciou seu discurso acalorado assim que viu a princesa se aproximar, e suas mãos começaram a suar frio. Nix estava no momento exato em que começaria a mostrar sua competência. Até o momento, aqueles homens a respeitavam apenas devido à sua linhagem. Agora, a respeitariam por suas ações.


-- Bom dia, alteza. -- cumprimentou o capitão com um aceno de cabeça, certamente lembrando-se de sua aversão à reverências.


-- Bom dia, capitão. Agradeço por ter aceitado meu pedido tão rapidamente.


-- É sempre uma honra ter membros da família real assistindo os treinamentos. -- apontou seus homens -- E um incentivo e tanto.


-- Acho que Salete não transmitiu meu recado corretamente, capitão. -- levantou uma mão tapando o sol que lhe feria as vistas -- Eu não vim assistir, vim participar.


     Agora que conseguia enxergar adequadamente, viu o homem franzir as sobrancelhas.


-- Não pode treinar desse jeito. -- apontou suas vestes -- Precisa de pelo menos ombreiras e um peitoral.


-- Bem, eu ainda não visitei o ferreiro para encomendar minha armadura. Mas tenho certeza de que deve ter algumas sobressalentes por aí, não?


-- Sim, mas são grandes demais. -- cruzou os braços, o sinal claro de que não cederia.


     Nix sentiu uma tremenda frustração invadir seu peito, queimando como labaredas de fogo que ameaçavam sufocá-la enquanto se lembrava de tudo o que aconteceu no dia anterior. Viu-se novamente em seu quarto, parada em frente à aquela maldita janela, vendo os dias passando.


-- Então eu não duelarei, capitão. -- sentiu sua voz estremecer e amaldiçoou-se por isso -- Por favor, eu só... preciso fazer alguma coisa.


     James franziu as sobrancelhas ainda mais, e percebeu que trincou os dentes por um movimento característico em seu maxilar. O homem pensou por alguns segundos, deixando-a tensa e esperançosa, até que soltou um suspiro alto e assentiu dando-lhe permissão para participar. Nix deu um sorriso grato e conteve-se para não pular de empolgação, como Lete havia feito uma hora atrás.


-- Antes de tudo, vamos aquecer. -- virou-se de lado e apontou-lhe a primeira fileira, onde ela prontamente se alocou -- Corrida de duzentos metros, soldados! -- o homem gritou em voz endurecida -- Sem corpo mole, o que estão esperando, um convite? Vamos!



     Nix estava deliciada, sentindo a energia vibrando em suas veias. Suor lhe pingava, escorrendo por suas costas em curvas sinuosas. Já era quase fim da tarde, e a mais de uma centena de soldados havia se reduzido à uma dezena apenas. Depois da corrida treinaram táticas de defesa, e depois diversas formações de ataques e emboscadas. Então vieram os duelos, que como combinado, Nix apenas observou. E avaliou. Quando o treinamento enfim terminou pediu ao capitão que duelasse com ela, e surpreendentemente o homem aceitou prontamente. Os soldados haviam sido dispensados e partiram para seus afazeres, restando uns poucos curiosos que ficaram para trás a fim de observar o embate de seu capitão e a bastarda do rei. James retirou sua armadura de treino, segundo ele para deixar a luta mais justa, e lhe arrumou uma pesada espada. Então, lutaram. E depois de James, Nix enfrentou Caius, e depois Rafe, e depois Caleb, e Jonas, e Davie, e agora duelava com Marco.


-- Se eu fosse você... -- avisou entre um golpe e outro, que o homem mal conseguiu conter -- daria mais atenção aos meus pés.


-- Minha prioridade está sendo sua espada, senhorita! -- respondeu sem fôlego.


-- E é por isso que está perdendo! -- apontou, diminuindo o ritmo para que ele pudesse compreender suas instruções -- Você não tem que apenas conter minha lâmina, tem de prever meu próximo movimento, fazê-lo antes de mim, e usar isso como um contra-ataque.


-- Mas como eu farei isso? -- sua voz saiu emburrada e desanimada.


     Nix decidiu que era hora de terminar aquilo e enfrentar seu próximo oponente. Acelerou mais uma vez suas investidas, que Marco mal dava conta de segurar, e num giro de sua lâmina conseguiu desarmá-lo fazendo a espada dele cair sobre a grama num baque surdo, seguida da algazarra que o restante dos homens fez ao comemorar sua vitória. Não compreendia a empolgação deles, já que ela estava derrotando um por um - com excessão do empate com o capitão - mas ver os homens se alegrarem pelo seu sucesso fez com que esquecesse todos os seus problemas por algumas horas. Marco pegou sua espada do chão, mantendo a expressão contrariada em sua testa franzida. Nix se aproximou e apertou o ombro magricela do rapaz, dando-lhe um sorriso encorajador.


-- Se quiser, e seu capitão permitir, podemos treinar juntos todos os dias em seu horário de descanso, o que acha? -- Marco arregalou os olhos, surpreso pela oferta -- Tenho muito tempo livre enquanto o rei não me dá uma missão, ajudaríamos um ao outro.


     O rapaz levou seu olhar para James em clara expectativa, mas este tinha sua atenção sobre ela, encarando-a profundamente. Nix tentou não demonstrar a pontada de insegurança que a alfinetou, a sensação de estar onde não pertencia. Afinal, qual era seu lugar? Não era na Irmandade. Seria ali, entre os soldados de seu pai? Apenas poucos segundos se passaram permitindo seus temores, que logo foram dissipados pela autorização de James em permitir que ajudasse Marco a melhorar seu desempenho. O que Nix não esperava era que outros pares de mãos se levantassem, pedindo para também serem inclusos nas futuras sessões de treino. Ela encarou os quatro homens, um tanto impressionada, e buscou o olhar do capitão que estava um tanto alarmado.


-- Vocês sabem que isso... -- fez um sinal em círculo com o indicador -- não vai lhes garantir pontos com sua majestade, certo? E nem comigo.


-- Sabemos, senhor! -- anunciou Davie.


-- Só vai nos garantir uma chance maior de sobrevivência. -- explicou Caleb -- Pensem bem! Ela aprendeu tudo o que sabe com o mestre da Irmandade, se soubermos como eles lutam estaremos em vantagem.


-- Uma vantagem mínima, não se engane. -- apontou, incapaz de refutar por completo o argumento, mas com a necessidade de não permitir ilusões.


-- Ainda assim, é algo melhor do que temos agora. -- Caleb cruzou os braços, firme em seu ponto -- Qualquer coisa que possa garantir minha vida, é algo que vou usar. Tenho alguém que precisa de mim.


     O olhar esverdeado do homem escureceu ao pensar na possibilidade de não estar mais ali para proteger sua família, fazendo-a perceber - tardiamente - que não havia passado a tarde apenas entre soldados, mas entre pessoas. Aqueles homens eram pais de família, maridos, filhos, irmãos... ser um soldado da coroa não era nem metade do que eram de fato. Mais uma vez amaldiçoou Willk e aquela maldita guerra, imaginando quem dali ainda estaria vivo quando tudo acabasse. Passou seus olhos sobre cada um presente, guardando seus rostos na memória, prometendo fazer tudo o que pudesse para evitar futuras mortes. Eles eram seu povo. Não por ser filha do rei, mas por se importar verdadeiramente com cada um.


-- Eu os ensinarei cada golpe que sei. -- garantiu em voz firme, encarando Caleb -- Eu odeio promessas, mas... esta será uma.


     O homem apenas lhe deu um aceno pequeno e endurecido, mas Nix percebeu o discreto brilho da esperança lampejando em seu olhar.


-- Muito bem, pessoal! -- anunciou Rafe -- Nosso turno começará em breve, vamos logo comer alguma coisa.


     Sob a garantia que de Nix receberia um bilhete com os horários livres de cada um, os rapazes partiram numa corrida de volta ao castelo. Quando deu por si, estava à sós com o capitão James que parecia um pouco aturdido.


-- Algumas horas... -- começou o homem, de braços cruzados e expressão aturdida -- Apenas algumas horas e eles já gostam mais de você do que de mim!


-- Não seja dramático. -- revirou os olhos mas não conteve um sorrisinho, pois ela também havia gostado deles.


     Levou sua espada para o caixote de armas num canto do gramado e a guardou ali junto das demais. Como havia dispensado sua carruagem, retornaria ao castelo numa caminhada acompanhada por James.


-- Eu não estou sendo dramático! -- anunciou ele ao iniciarem sua jornada -- Estou sendo sincero.


-- Eles só estão com medo, James. E acham que irei lhes ensinar algo que não sabem ainda. A verdade é que eles precisam de confiança. -- deu de ombros -- Se querem ouvir da traidora da Irmandade que são capazes de lutar contra aqueles malditos e sobreviver, então eu lhes direi.


-- Dirá? -- a olhou de soslaio -- E se eles não forem capazes?


-- Então farei com que sejam. -- garantiu, e o encarou abertamente -- Nós faremos. Já que tive seu aval, você está junto comigo nessa.


-- De acordo. -- lhe deu um sorriso, que logo desapareceu -- Temos que comunicar sua majestade, claro. Pedir permissão e...


-- Eu conversarei com meu pai. -- o tranquilizou -- Não se preocupe com ele.


     James voltou a sorrir, visivelmente aliviado por ter sido poupado de importunar o rei, e passaram a caminhas num ritmo calmo e silêncio confortável. Foi apenas alguns minutos mais tarde que percebeu o que havia dito: meu pai. Estancou seus passos imediatamente ao perceber o que fez, amaldiçoando-se internamente, mas logo percebeu que sua reação não fazia sentido. Por bem ou por mal, o rei era seu pai. Não se referir à ele daquela forma era irrelevante, e dizia mais sobre suas feridas do que sobre sua necessidade de distanciamento do homem que tanto a feriu. Percebeu, devido àquele deslize, que a única pessoa capaz de curar seus traumas seria quem os causou: seu pai.


-- Está tudo bem? -- James perguntou preocupado, ao notar que havia ficado estática por alguns momentos.


     Nix encarou seus belos olhos verdes e lhe sorriu, sendo invadida por uma calma e leveza que não sentia desde que ouviu clandestinamente a conversa de Thomas e Abenfoth. Subitamente sentiu necessidade de conversar com seu amado, dizer-lhe como foi seu dia, que conseguiu encontrar algo de útil para fazer. Eu te amo, dissera-lhe Tom pouco antes de sair por aquela porta. Previsava confessar que sentia o mesmo, precisava, mais do que tudo, dizer-lhe que o perdoou pelo erro de tolo que cometeu ao tentar protegê-la sem necessidade. Se os papéis fossem inversos, quem garantia que ela não faria o mesmo?


-- Está tudo ótimo. -- respondeu ao capitão com um sorriso contido.


     Quando enfim chegaram ao castelo o pôr do sol já havia começado. Seguiu até seus aposentos, na intenção de se limpar apressadamente para só então ir procurar Thomas. Suas intenções de estar limpa ao fazer as pazes com ele eram total e completamente impuras. Desejava a selvageria do sexo de reconciliação, o primeiro da relação deles. Afinal, aquela era e sempre seria a melhor parte de uma briga, certo? No corredor de seus aposentou, encontrou duas criadas e pediu que lhes providenciassem água quente para um banho o mais rápido possível. Adentrou seu cômodo privativo e retirou do armário um vestido limpo, de tonalidade lilás, e o deixou preparado para vesti-lo depois. Cerca de meia hora mais tarde Nix rumava até o quarto do duque mais lentamente do que gostaria, mas na velocidade necessária para não demonstrar a totalidade de sua ansiedade. Na metade do caminho, foi interceptada por um guarda que a alcançou esbaforido.


-- Alteza! -- o homem de certa idade fez uma reverência -- Sua majestade, a rainha, solicita sua presença. -- ao perceber sua hesitação, o guarda insiste -- Sua majestade me pediu para não retornar sem a senhorita.


-- Tudo bem. -- concordou de má vontade.


     O guarda grisalho e de aparência cansada expirou aliviado e lhe apontou o caminho. Nix o acompanhou de perto, passaram por alguns corredores e um lance de escadas em direção ao terceiro andar do castelo. Por fim, chegaram à um aposento com portas duplas que logo lhe foram abertas revelando uma sala privativa que pertencia à rainha. A mulher estava em pé, do outro lado do cômodo, observando os últimos raios do sol poente. Quando as portas foram fechadas Zaya virou-se de frente para ela, com expressão insondável.


-- Aconteceu alguma coisa? -- perguntou, apreensiva.


-- Chamei-lhe aqui na intenção de lhe perguntar exatamente isso. -- Zaya aproximou-se, apontando para o sofá estofado num convite.


     Confusa, Nix ignorou o pedido e ambas permaneceram em pé, encarando-se.


-- Não entendo.


-- Thomas foi embora, Cecilie. -- anunciou a rainha, simplesmente.


     Uma vertigem assombrosa lhe assolou, tirando-lhe o fôlego dos pulmões e a firmeza do chão sob seus pés. Seu olhar ficou perdido e desfocado, tentando assimilar as palavras que a rainha continuava a dizer, mas que sua mente entorpecida não compreendia. Thomas foi embora. Como assim ele havia ido embora? A deixado ali num lugar que não considerava seguro, sem aliados? Ora aquele... duque idiota e irresponsável! Nix o havia caçado uma vez, o caçaria novamente e o arrastaria de volta até ali pelos cabelos se fosse necessário! Maldito, maldito!


-- Cecilie? -- a rainha a tirou de seus devaneios -- Está me ouvindo?


     Nix tentou focar a visão na mulher, mas tudo o que viu foi um borrão indefinido. Percebeu a umidade em seus olhos, o tremor em seus lábios e saiu dali em disparada, sem nem mesmo pedir licença. Não poderia chorar na frente dela, não poderia escancarar sua fraqueza daquela forma. Correu e correu, só parando quando alcançou seus aposentos, jogou-se na cama e abraçou um travesseiro. Maldito seja Thomas, maldito seja! Um vazio profundo se apoderou dela, o buraco que o duque havia conquistado pouco a pouco em seu coração, em sua alma, em sua essência. E agora... sozinha. Estava sozinha, como sempre esteve nos últimos anos, à deriva. As lágrimas lhe caíam soltas, quentes e molhavam o lençol, mas ainda assim tentava contê-las. Depois de alguns minutos perdeu o controle que mal conseguia manter sobre si, levou o travesseiro até o rosto e gritou, fazendo a garganta doer, permitindo que toda a dor angustiante que sentia saísse de dentro de si naquele som desesperado.


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