Capítulo 5 - "Eu preciso governar esse reino"


     Seu sono foi insuficiente e agitado e, em seus sonhos, olhos castanhos choravam lágrimas de sangue e lábios habituados a sorrir se contorciam num grito de dor. Um grito que ela não ouviu pois não havia mais vida para fazê-lo soar. Acordou sobressaltada e com suor cobrindo o copo. Nix sentia-se suja, mesmo depois do banho de banheira que tomou naquela tarde. Levantou-se e percebeu já ser noite, vestiu uma calça preta de algodão larga e confortável junto de uma camisa de mangas compridas da mesma cor, enquanto ignorava um aperto incômodo na boca do estômago. Fome. Isso, aquilo era fome.

Seguiu até a cozinha na esperança de encontrar um resto de ensopado, ou até mesmo um pedaço de pão. Caminhou por entre o labirinto de corredores, descalça e despreocupadamente, quando percebeu algo que a inquietou: tudo estava quieto demais. Parou e aguçou os ouvidos. Nada. Um silêncio daqueles era comum na madrugada, mas ainda não era tão tarde, então aquilo só podia significar que os irmãos estavam em reunião. Sem ela. Sem a terceira no comando. A estavam excluindo de algo e ela iria descobrir imediatamente o quê. Fazendo seu caminhar mais suave ela seguiu até o escritório particular de Willk, já que certamente eles não usariam o salão de reuniões se estavam se escondendo dela. Não demorou e ouviu vozes abafadas, porém audíveis o suficiente no silêncio noturno. O corredor onde estava agora era longo, iluminado e exposto demais, precisava se esconder para poder ouvi-los sem arriscar ser pega, o que certamente lhe garantiria uma surra de seu mestre. Sua única opção era um armário de vassouras estreito que ficava há cerca de dois metros da sala onde acontecia aquela reunião. Ficava próximo demais e, se alguém acabar por abri-lo ela não terá nem chance de se esconder ou fugir. Mas, honestamente, quem varreria o chão àquela hora da noite? Decidiu arriscar. Esgueirou-se devagar até o dito armário, mantendo a audição alerta para correr caso fosse necessário. O que felizmente não aconteceu e logo Nix chegou até seu objetivo, abriu a porta de madeira velha o mais silenciosamente que pôde e adentrou deixando uma mínima fresta aberta para poder respirar. E ouviu atentamente, pela primeira vez em doze anos espiando os seus.

-- Eles descobriram nossos infiltrados, estou dizendo. O último bilhete foi há semanas. Dizia que o rei Abenforth se cansou da Irmandade e estava prestes a enlouquecer, mas que antes disso faria de tudo para acabar conosco. -- disse uma voz que ela não reconheceu.

-- Assim como eu farei! -- exclamou Willk -- Quando tudo começou, há quatorze anos eu não esperava que fosse se estender por tanto tempo! Eu preciso governar esse reino, não apenas conquistá-lo. Conquistar o que deveria ser meu por direito!

-- Se o rei descobriu os traidores do seu meio e os expugou, como iremos descobrir o que pretende? Para onde envia os mantimentos que distribui para que possamos roubá-los e onde seus soldados estão acampados? -- disse Bruni.

-- Nossa opção mais imediata é fazer o duquezinho falar. -- respondeu o mestre -- Pretendo oferecer a vida dele em troca de informações.

-- Poupando os inimigos, Willk? -- zombou Hamós -- Que misericordioso.

-- Não seja ridículo! Os dias do rapaz estão contados. Mas ele pode ter esperança, não é?

-- Por que não envia a garota para o palácio? -- sugeriu uma voz feminina. Pauline, outra mulher soldado da Irmandade. -- Nix é bonita o suficiente e tem o treinamento. Pode enviá-la para servir ao rei e ser nossa espiã.

-- E o que uma criada seria capaz de descobrir? Acha que as reuniões do conselho de guerra acontecem no salão do chá da tarde? -- discordou Willk.

-- Eu não disse para ela ser uma criada. -- respondeu de forma sugestiva, causando náuseas na mulher que ouvia a reunião secreta.

Algumas vozes concordaram com o plano malicioso de Pauline, porém ainda não a única que importava, já que Willk demorou quase um minuto inteiro para se pronunciar.

-- Não. -- disse firme.

-- Mas, Willk, seria a maneira mais eficaz! Você a protege demais, dando essas missões sem relevância só para enaltecer o ego já enorme daquela garota.

-- Eu disse não! --gritou furioso e um já conhecido estrondo o acompanhou, quando ele bateu em sua mesa -- Isso está fora de cogitação! Nix não vai sair da minha vista, não vai se envolver nisso e se sugerir isso novamente, enviarei você no lugar dela.

-- Mas eu sou sua...

-- Você não é nada! -- interrompeu com voz fria -- Eis o que faremos: eu dei até o pôr do sol de amanhã para Thomas Longford decidir cooperar, o que ele certamente não vai fazer. Depois disso eu o entregarei à você, Hamós, para torturá-lo. Não se esqueça de mencionar sempre que possível que ele pode parar de sofrer, que tudo o que precisa fazer é responder honestamente nossas perguntas e, depois, estará livre. Enquanto isso, Bruni e Devil irão terminar de treinar o novo recruta o quanto antes para o enviarmos ao palácio sob o disfarce de órfão de guerra, já que sabemos que nosso querido Abenforth tem um fraco para jovens desamparados. Precisaremos ir devagar ao repor nossos infiltrados e ser cuidadosos, pois o rei certamente será mais desconfiado a partir de agora. Agora saiam.

Sem esperar um segundo sequer algumas cadeiras foram arrastadas e mais de uma dezena de passos foram ouvidos por Nix, o som de seus irmãos se apressando para cumprir as ordens do mestre e, também, ansiosos para sair da presença dele já que sua voz mostrava severa irritação.

-- Não você. -- disse, e a mulher escondida já sabia a quem ele se dirigia -- Ouça bem, Pauline! Você é um soldado da Irmandade. Preste atenção, um soldado. Se acha que é alguém com a menor relevância aqui está enganada.

O silêncio total reinou por um momento.

-- Eu estou com você desde o início, Willk, eu permaneci aqui por lealdade. -- falou trêmula-- E com o que me recompensou? Uma missão suicida atrás da outra. Eu passo mais tempo acampando nos bosques e lutando as suas batalhas do que vivendo a minha vida. E ela? Você lhe deu conforto, você a treinou pessoalmente, você se dedicou à ela nos ultimos anos, apenas à ela e essa sua guerra estúpida que parece nunca ter fim!

-- Você quer que eu explique minhas razões para fazer o que faço? Que peça desculpas? Pauline, eu nunca lhe prometi nada. Qualquer expectativa que tenha criado sobre mim, ou sua posição na Irmandade nos últimos anos foi unicamente sua culpa. -- ela ouviu passos lentos e presumiu que fosse Willk se aproximando de Pauline -- Você nunca mais vai mais tramar contra Nix, ou eu mesmo irei matá-la. Você não vai se meter em assuntos que não pode sequer começar a compreender. Estando comigo desde o começo ou não, você está aqui apenas para cumprir ordens. Saia.

Passos velozes saíram apressados e Nix prendeu a respiração. Willk agora estava sozinho em seu escritório, o que significava que era hora de dar o fora dali antes que alguém notasse que ela estava fora de seus aposentos. Abriu a porta do armário lentamente e pulou para fora, estava na metade do corredor quando um grande grito irrompeu do escritório.

-- Bergman! -- gritou Willk chamando o homem -- Acorde Nix e a traga aqui.

Bergman, aparentemente, estava mais perto do que a mulher imaginava e logo o ouviu se aproximando. Rápido demais. Indo diretamente até ela, pois o caminho mais curto até seus aposentos era por aquele maldito corredor. Sem pensar demais Nix correu até a janela mais próxima, que graças ao calor estava aberta naquela noite, e pulou segurando-se com força no parapeito. Os passos do homem se aproximavam cada vez mais e ela tinha apenas alguns segundos para agir, para dar um jeito de chegar ao seu quarto - um andar abaixo - imediatamente. Não olhe para baixo, repetia incessantemente enquanto se impulsionava para a direita sustentada apenas por suas mãos, e seguia se arrastando no parapeito até um ponto específico há três metros dali, na intenção de ficar exatamente na direção da janela de seu quarto. Um metro, um e meio, dois... Nos últimos centímetros seus braços começaram a queimar e quando finalmente chegou, eles tremiam compulsivamente. Teria que soltar. Bergman já deveria estar nas escadas, não demoraria nem um minuto inteiro para que chegasse e descobrisse que ela não estava onde deveria. Uma queda de três andares não a mataria, mas Willk faria exatamente isso ao pegá-la em flagrante. Um, dois, três. Ela se soltou.

A queda foi rápida e lhe causou frio no estômago. Mas não durou nem quatro segundos e logo ela conseguiu apoio novamente, agora no parapeiro da janela de seu quarto, com um tranco abrupto e dolorido. Cerrou os dentes quando sentiu a mão esquerda ser ferida, sentiu o sangue quente fluir e deixá-la escorregadia. Suas forças estavam prestes a se esvair. Apoiou os pés na parede da maneira mais firme que pôde e usou o restante de suas forças para se impulsionar para dentro do cômodo. Caiu no chão fazendo mais barulho do que gostaria e correu até a porta para trancá-la. Se apoiou ali, ofegante e trêmula, e tentou se acalmar respirando profundamente. Não demorou a ouvir passos e se lançou em sua cama, pegou a camisola que estava jogada ao chão e a apertou na mão machucada. Depois se enrolou com o lençol para esconder suas roupas e aguardou as batidas que soaram, altas, em seguida. Limpou o suor do rosto e esperou um pouco mais, afinal, Nix estava fingindo um sono profundo e inocente. Alguns segundos de espera bastaram para fazer o homem perder a paciência e Bergman logo passou a esmurrar a porta.

-- Nix! -- gritou o homem -- Acorde, pirralha!

Ela contou até 10 enquanto esfregava os próprios olhos para deixá-los vermelhos e inchados e, só então, seguiu até a porta e a abriu apenas um pouco.

-- Eu espero que a fortaleza esteja em chamas. -- disse com voz sonolenta.

-- Se fosse o caso, eu certamente não estaria aqui.

Ela soltou um grandioso bocejo enquanto ele falava.

-- O que diabos você quer, Bergman?

-- Willk quer vê-la. -- explicou -- Imediatamente.

-- Onde?

-- No escritório particular dele.

-- Preciso me vestir. -- disse apenas e bateu a porta, trancando-a em seguida, e o homem imediatamente se foi.

Jogou o lençol de volta à cama, trocou a camisa suja por uma limpa e a escondeu na última gaveta de sua cômoda junto da camisola ensanguentada. Seguiu até a bacia de louça sobre a mesa do canto e ali despejou uma pequena porção da água limpa que havia na jarra, e lavou seu ferimento. O corte fora na palma, era irregular com cerca de quatro centímetros e ardia como o fogo do inferno. Depois de limpar e secar, encontrou um trapo de tecido azul escuro no fundo do armário de vestidos e o usou para enfaixar a mão com força. Calçou seus sapatos de veludo, e seguiu apressada para atender o chamado de seu mestre, enquanto sua mente recordava compulsivamente tudo o que ela ouviu e uma sensação cada vez mais forte a invadia: desconfiança.

Nunca confie plenamente em ninguém, apenas em mim. Esse foi o ensinamento de Willk há doze anos, e Nix fora tola o suficiente para obedecê-lo cegamente. Até agora.

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