Capítulo 48 - "Não sou capaz de perdoá-lo"
Nix estava ensurdecida. Não pela multidão que gritava à plenos pulmões numa empolgação eufórica, mas pelo zumbido agudo que ressoava em seus ouvidos. Como sempre, ela tinha um plano de ação para cada possível final daquele maldito julgamento. Mas, no fim das contas, nenhuma das opções que imaginou acabou sendo a correta. Havia bolado uma fuga para caso fosse sentenciada à morte. Também já havia traçado planos de ação para lutar contra a Irmandade. Entretanto, mais uma vez, seu pai a surpreendeu. Não esperava que Abenforth escancarasse tão rapidamente a verdade, ainda mais que mentisse tão descaradamente aos seus súditos. Anunciou sua bastarda como uma princesa e Nix o detestou ainda mais por aquilo. Por que não podia apresentá-la pelo que realmente era? Tinha vergonha dela? Temia ficar dividido entre Nix e o povo caso eles não a aceitassem? Ou pior, caso a corte não a aceitasse? Irritou-se consigo mesma ao notar o quanto aquilo a magoava, o poder que o pai ainda tinha sobre ela mesmo depois de tudo o que lhe fez.
-- Portanto, eu declaro esse julgamento encerrado. -- bradou o rei.
Os Conselheiros se levantaram, fizeram uma reverência e saíram silenciosos. Abenforth deu um discreto aceno aos guardas que imediatamente começaram à escoltá-la de volta ao castelo, e Nix os acompanhou ainda levemente atordoada. Sua audição treinada captava palavras completas por sobre a algazarra, mas sua mente estava distante demais para realmente assimilar o significado delas. Deixaria para lidar com o povo depois, pois tinha assuntos mais urgentes. Agora que o rei anunciou sua verdadeira identidade, certamente inimigos surgiriam. Algumas pessoas não gostavam de bastardas, e além de tudo Nix era considerada uma criminosa. A absolvição do rei poderia tê-la livrado da guilhotina, ou do exílio, mas não a livraria do julgamento pessoal de cada pessoa do reino.
Antes de adentrar a quietude do palácio, olhou para trás procurando por Thomas, e o encontrou conversando com o rei. Amaldiçoou o homem, perguntando-se se ele sabia que o pai faria aquela loucura, e irritou-se com a maneira íntima com que conversavam. Franziu as sobrancelhas e, por instinto, seus olhos mudaram a direção para um ponto à esquerda. Não foi um movimento que lhe chamou a atenção, mas sim a completa falta deste. A rainha permanecia em seu trono, quieta e parada, observando cada passo dela. A mulher resplandecia em sua tenda, a imagem da feminilidade e tranquilidade, usando um luxuoso vestido azul e um penteado ornamentado em seus fios dourados. Percebeu que a rainha escondia muito bem seus sentimentos, e a admirou por isso. Certamente a odiava, certamente estava se corroendo por dentro naquele momento enquanto a observava sair ilesa do julgamento que deveria matá-la. O guarda à sua frente abriu a porta e Nix adentrou a quietude fria das paredes do castelo, e seguiu até seus aposentos deixando tudo aquilo para trás. Ao finalmente ficar sozinha, sentou-se na cadeira em frente à janela onde passou a maior parte da noite, e começou a pensar no próximo passo. Primeiro, tinha que sair do castelo. Não se sentia segura ali, rodeada de desconhecidos e potenciais inimigos. Deveria encontrar uma casa próxima, ou mesmo uma pensão, e comparecer ali apenas em casos necessários como reuniões de guerra. Preferencialmente, na verdade, queria já partir em alguma missão. Queria externar sua raiva da melhor forma que sabia: usando a violência. Havia muita energia acumulada em seu interior, borbulhando para sair, e temia descontar sua ira na próxima pessoa que a irritasse.
De repente o quarto tornou-se sufocante e sua solidão tornou-se tenebrosa. Precisava chamar algum dos guardas para lutar com ela, para ajudá-la a descarregar aquela tensão contida, aquela raiva que estava prestes à assumir o controle de seus atos. Arrumaria uma briga com algum deles de fosse necessário. Levantou-se violentamente, quase derrubando a cadeira com o ímpeto de seu ato e, quando alcançou o meio do quarto, a porta se abriu.
-- Sua majestade, a rainha Zaya. -- anunciou um guarda com reverência, e deu passagem para a mulher entrar.
Nix fechou as mãos em punhos e as escondeu atrás das costas. Sua postura ficou ainda mais rígida do que já estava e rangeu os dentes, no esforço de manter sua expressão neutra. A mulher adentrou o aposento praticamente flutuando, as saias do elegante vestido farfalhando a cada passo, até que ela cessou o movimento. As duas mulheres se encararam por quase um minuto inteiro, a primeira vez que estavam frente a frente mesmo depois de compartilharem uma longa história. Zaya trazia no rosto a mesma expressão que ostentou o julgamento inteiro, pura calma. Mas o castanho de seus olhos, alguns tons mais escuros que o de Thomas, anunciavam a verdade. A rainha estava incomodada com aquela situação, mesmo que não transparecesse, e apesar de tudo Nix a compreendia e não a julgava por isso.
-- Devo fazer uma reverência? -- perguntou, usando um tom de voz calmo.
-- Não, por favor. -- fez um leve movimento com a mão, negando sua pergunta com uma voz melodiosa e firme -- Peço desculpas por interromper seu descanso, mas imagino que esteja na hora de nos apresentarmos. Não esperei que seu pai o fizesse pois, como bem sabe, ele está pisando em ovos em tudo acerca de você e sem dúvidas não faria as apresentações tão cedo. Abenforth sempre temeu a união de suas duas vidas.
Não foi mais capaz de conter suas expressões, e arqueou as sobrancelhas em espanto.
-- Você sabia? -- perguntou -- Sobre mim? Sobre minha mãe?
-- Sim, eu sempre soube. -- cruzou as mãos na frente do corpo -- Você tinha cinco anos quando me casei com seu pai.
Nix permaneceu em silêncio pois não sabia exatamente como deveria proceder a partir dali. Aparentemente, havia muitas coisas que ainda desconhecia acerca de seu passado.
-- Vejo que a surpreendi. -- sua voz era leve, mas a rainha não sorriu -- Sinto muito.
-- Eu não entendo. Você sempre soube sobre nós? E não se incomodou? Isso não faz nenhum sentido!
A mente dela trabalhava à toda, tentando encontrar uma explicação para aquilo. Sua voz tornou-se acusatória, como se estivesse irritada com a mulher por sempre ter tido conhecimento da verdade. Queria que Zaya tivesse sido tão enganada por Abenforth quanto ela, queria encontrar na rainha alguém que compartilhasse o ódio dela pelo rei.
-- Receio que esse seja um assunto que apenas seu pai deva discutir com você, Cecilie.
-- Não me chame assim. -- cruzou os braços, negando mais uma vez quem realmente era.
-- Mas este é o seu nome.
-- Não é mais.
A rainha a encarou profundamente, com escrutínio detalhado em cada parte de seu rosto, que sentiu queimar sob o peso daquela atenção. Depois a mulher desceu a avaliação até seus pés, e levantou o olhar com calma até cruzar com os olhos dela novamente.
-- Está sendo tola se acha que um nome é capaz de mudar quem você realmente é. -- apontou com frieza na voz -- Nada mudará o fato de que é filha de Abenforth, mesmo que você odeie seu pai e o que ele lhe fez. Sua recusa e pirraça acerca disso tudo está sendo infantil. Não ouvi-lo está sendo infantil, Cecilie, pois há muitas coisas que precisa saber, coisas que seu rancor desvairado está impedindo que descubra. O passado já passou, e você está moldando seu futuro neste exato momento. Pense claramente e aja com cautela, pois estamos em tempos de guerra e você pode não ter uma segunda chance de concertar sua vida e de assumir o lugar que é seu.
As palavras da rainha a recordaram do sonho que teve com sua mãe. Cassandra disse aquela mesma coisa quando a mandou de volta àquele mundo, quando lhe deu forças para reviver naquele momento em que estava à beira da morte. Está na hora de se tornar quem nasceu para ser. Mas não queria. Temia aquilo mais do que tudo, pois temia o que precisava fazer para seguir os desígnios do destino.
-- Eu não sou capaz de perdoá-lo. -- confidenciou à rainha -- As coisas que vivi... as coisas que fiz por culpa dele... quem eu me tornei. -- tocou o peito com uma mão, fazendo um baque soar.
-- Não precisa perdoá-lo agora, Cecilie. -- a voz dela tornou-se branda -- Apenas ouvi-lo.
Nix ainda sentia um frio na barriga ao ouvir aquele nome. Seu nome. Seria ela capaz de voltar à usá-lo com orgulho? O nome escolhido por sua mãe e seu pai desde antes de Cecilie estar sendo gerada no ventre de Cassandra? Certa vez, a mãe lhe disse que sonhou com ela a vida toda. Não o sonho materno que existe em algumas mulheres, mas sim nos sonhos em seu sono, noite após noite. Neles, a mulher dizia ver uma menina de longos cabelos negros e olhos cinza, disse nunca ter visto nitidamente sua expressão, apenas aquelas duas características mais marcantes. Num dos sonhos, Cassandra perguntou à menina qual era o seu nome, e ela lhe respondeu entre risos: Cecilie. Na época, a mulher achou aquilo aleatório e sem sentido, mas ao contar ao seu amado o ocorrido o então príncipe lhe disse que havia sonhado com a primeira filha deles. A nossa princesinha se chamará Cecilie, Abenforth anunciou antes mesmo de Cassandra descobrir sua gravidez, meses depois. Abandonou seus devaneios ao sentir a dor férrea da saudade de sua mãe, e voltou seu olhar perdido para a rainha silenciosa à sua frente. Algo na postura dela era reconfortante. Mesmo que fosse extremamente formal e se esforçasse para ter modos impecáveis, Zaya causava em Nix o desejo de ser honesta. Sentiu vontade de sucumbir ao seu desespero, ajoelhar-se diante da rainha pedindo colo e afago, pois a rainha era mãe, mesmo que não fosse a dela, e Nix precisava desesperadamente sentir-se acolhida e protegida por um laço materno. Não, Cecilie precisava... Suspirou irritada consigo, não sabia mais quem era ou quem deveria ser. Mesmo à contra gosto suas personas estavam se fundindo e não gostava das reações emocionais que isso causava nela.
-- A senhora tem mais algo à dizer? -- perguntou ao esconder sua expressão sofrida.
A rainha parecia querer dizer alguma coisa pois hesitou ao responder. Por fim, depois de apertar os lábios, deu um leve aceno positivo.
-- Eu voltarei à tarde com a modista real. -- deu-lhe as costas e dirigiu-se elegantemente até a saída -- Aproveite para descansar, Cecilie, pois teremos muito à fazer.
-- Modista real? -- aquilo a surpreendeu -- Como assim?
Zaya cessou seus passos brevemente, e lhe lançou uma olhadela por sobre o ombro.
-- O rei anunciou publicamente sua identidade, então precisará estar vestida de acordo com sua posição.
-- Eu não quero vestidos e nem nada disso! Preciso apenas de uma espada e armadura decentes.
-- Imagino que isso também deverá ser providenciado devido às... -- tossiu levemente -- suas habilidades de combate. Apesar de duvidar que Abenforth permita que realmente participe de uma batalha, sua presença será necessária para elevar o moral dos soldados quando chegar a hora, já que deixou bem claro que pretende lutar pelo povo. Mas até lá, suas vestimentas serão as padronizadas pela corte e aprovadas por mim, e isso não está aberto à discussões.
Sem se despedir, a rainha saiu majestosamente, deixando uma Nix enfurecida para trás. Desde que chegou ao castelo, desde que encontrou o pai, estava sendo arrastada de um lado ao outro, recebendo ordens e direcionamento de todos que lhe cruzavam o caminho. Faça isso, pense naquilo, faça aquilo outro... Estava cansada daquilo tudo e sua raiva anterior voltou em força total, a explosão de fúria lutando para se libertar da jaula. Apressou-se até a porta por onde Zaya saiu poucos minutos atrás e a abriu com força. Imediatamente os dois soldados presentes endireitaram as posturas em posição de sentido.
-- Vocês tem algum lugar de treino aqui que eu possa usar? -- perguntou em voz contida.
Os dois se encararam, confusos e surpresos com o questionamento inesperado.
-- Treinamento, alteza? -- confirmou um deles -- De luta?
-- Sim, soldado. -- ignorou o tratamento formal do homem, imaginando que aquilo devia ser mais por respeito ao rei do que à ela -- Preciso praticar com urgência. -- o homem apenas a encarou, claramente duvidando de suas capacidades e tentado à recusar seu pedido. Mas Nix nao era tola, e mesmo que abominasse seu odioso pai, não poderia ignorar a influência que o nome dele trazia -- Talvez eu deva reportar ao rei sua recusa em atender meu pedido, o que acha?
O homem arregalou os olhos, amedrontado, e apressou-se em se mostrar mais solícito.
-- Há um salão de treinamentos, alteza, que fica depois do jardim norte do castelo. Irei notificar o comandante da guarda e solicitar a permissão para que o use imediatamente. -- fez uma reverência, mas permaneceu no lugar -- Que tipo de treinamento prefere?
-- Espadas. -- pensou melhor -- Ou adagas gêmeas, tanto faz. -- virou-se para o outro soldado que se mantinha em nervoso silêncio -- E você, por favor, me arranje roupas adequadas, sim?
Dito isto, retornou ao seu quarto deixando ambos soldados um tanto atônitos para trás. Os dois homens demoraram alguns segundos para cumprirem as ordens da princesa, pois estavam surpresos e maravilhados com ela. A mulher trazia um ar de mistério e autoridade natas, e se impunha com muito mais eficiência do que o príncipe herdeiro. Ao despertarem de seus segundos de admiração paralisante, partiram apressados para realizar suas tarefas enquanto um deles imaginava o que aconteceria se a bastarda do rei nunca tivesse desaparecido.
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