Capítulo 47 - "Algumas coisas mudarão a partir de agora"

Oioioi! Antes de mais nada, quero desejar um ótimo feriado a vocês e dizer uma coisinha.

Estou postando poucos capítulos pois não tenho conseguido escrever tanto quanto gostaria!
Infelizmente, tenho trabalhado muito (sou técnica de enfermagem e o hospital está uma loucura!)

Então, por favor, tenham paciência e não desistam de mim, nem da Nix (se eu chamar ela de Cecilie, capaz de cortar minha garganta) e nem do Thomas.

Obrigada por tudo 🖤 ótima leitura, e não esqueçam de me dizerem o que estão achando!

A rainha estava em pé antes mesmo de os primeiros raios solares iluminarem os campos verdejantes nas redondezas do castelo. Era o dia do julgamento e a mulher não havia conseguido alcançar a paz necessária para ter um sono revigorante, pois estava ansiosa e apreensiva com o que viria a seguir. A notícia de que a filha perdida do rei fora encontrada não era mais segredo, mas aquilo não significava muita coisa em seu favor naquele dia. A lei era clara e, tendo sido enganada ou não, Cecilie era culpada de seus crimes. Zaya alertou Abenforth quanto à isso durante a conversa deles noite passada, mas o rei estava decidido à não manipular os Conselheiros Reais em favor de sua filha, pois a própria havia lhe proibido de fazer tal coisa. Achou aquilo um total absurdo e expressou veementemente sua opinião, mas o rei não lhe deu ouvidos. "Eu fiz uma promessa à minha filha e irei cumpri-la, ou então ela jamais me perdoará", foi sua justificativa. Zaya retrucou que se fosse sentenciada à morte a moça nunca teria a chance de perdoá-lo, mas aquilo só serviu para receber um olhar atravessado do rei.

     Então, como Abenforth não pretendia agir, ela o fez. O Conselho do Rei era formado por quatro pessoas, todos nobres e com condutas exemplares escolhidos à dedo. Isso em tese, obviamente. Todos na corte tinham falhas de conduta que escondiam à todo custo, mas Zaya com seu modo discreto e observador descobria cada um deles, mais cedo ou mais tarde. Sendo assim ela visitou cada um dos conselheiros, os persuadiu e chantageou para que dessem à Cecilie o veredito unânime de inocência. Não poderia haver um voto sequer contra ela, senão a corte e os súditos jamais a aceitariam entre eles, e Cecilie precisava assumir seu lugar de direito. Zaya devia isso à ela. E à Cassandra. Sentiu um calafrio passar por sua coluna ao se lembrar dela, do fantasma que a assombrava há tantos anos. Apenas trincou os dentes e espantou de sua mente a imagem daquela bela mulher, que apesar do que pudesse parecer, jamais fora sua inimiga. Nunca foram apresentadas, nunca trocaram sequer uma palavra, mas suas vidas estavam entrelaçadas de uma maneira que a rainha havia demorado muito para entender. Mas agora, depois de tanto tempo, Zaya havia aceitado que certas coisas na vida são inevitáveis.

     O dia clareou e a rainha estava pronta para enfrentar os desafios que estavam apenas começando. Vestiu-se com esmero optando por um vestido em veludo azul escuro, sóbrio e elegante, arrumou seus cabelos claros com o penteado habitual, vestiu algumas jóias e seguiu para o aposento do filho. Convencê-lo seria mais difícil do que subornar os conselheiros, mas era necessário. Bateu na porta e adentrou o quarto após receber permissão. O príncipe estava parado em frente ao espelho, já completamente vestido, enquanto seu camareiro pessoal escovava sua casaca vermelha.

-- Bom dia, mamãe! -- cumprimentou Christopher, sem olhar para ela.

-- Bom dia, filho. Acredito que já esteja vestido adequadamente. -- esse foi seu discreto pedido para que o camareiro se retirasse, o que fez de pronto.

     Percebendo que a mãe havia ido até lá com um objetivo, o príncipe rapidamente se virou para ela com olhar questionador.

-- Finalmente vai me dizer o que está acontecendo? -- perguntou o rapaz, ansioso.

-- Sente-se, por favor. -- apontou a poltrona próximo à ele.

     Christopher franziu as sobrancelhas em apreensão, mas fez o que a mãe pediu. Zaya observou as feições do filho sentindo um aperto no coração pelo que teria de fazer agora. Lhe diria toda a verdade e sabia como aquilo iria machucá-lo, o quão decepcionado ele ficaria com o pai. Desde criança o menino o amava com todas as forças, mas Abenforth estava tão imerso em seu luto que nunca conseguiu amá-lo de volta da maneira que Christopher merecia. Além do mais, ele era extremamente correto e fiel às leis sagradas, ainda mais do que as do homem, e isso dificultaria a aceitação dele acerca da meia irmã. A rainha se aproximou dele à passos lentos, cruzou as mãos em frente ao corpo, e expôs logo a verdade.

-- Christopher, há coisas sobre o passado que você desconhece. -- o filho apenas a observou, concentrado -- Antes de você, o rei teve uma filha.

     Deu ênfase na palavra rei, para que ele compreendesse o que quis dizer. Num segundo seus olhos azuis acizentados se arregalaram, surpresos. E depois franziu a testa em decepção.

-- Papai teve uma bastarda? -- perguntou, o desprezo visível em sua voz.

-- Não use essa palavra. -- pediu a rainha, apreensiva com a reação dele.

-- Por que não? -- levantou-se -- Um filho fora do casamento é um bastardo, se papai teve um filho sem a senhora, então teve um bastardo e...

-- Como eu disse, há coisas que você não sabe. -- o interrompeu, mantendo a voz baixa e calma -- E não saberá se continuar agindo como uma criança. Agora sente-se.

     Claramente à contra gosto, ele a obedeceu.

-- A verdade é que Abenforth sempre teve uma outra família, Christopher. Uma mulher que amou, e uma filha que nasceu dessa relação. -- explicou de uma vez -- A menina desapareceu antes de completar dez anos, e isso aconteceu há quinze anos atrás. Mas agora ela está de volta.

-- Mamãe? -- seu olhar era angustiado ao finalmente perceber a verdade.

-- Sim, querido. -- confirmou as suspeitas dele -- A prisioneira Nix na verdade é filha de Abenforth. Ela é sua meia irmã.

-- Não! -- bradou e levantou-se num salto -- Eu não aceito isso!

     O príncipe passou a andar de um lado ao outro do quarto, consternado, e a rainha apenas observou a cena esperando que se acalmasse. Por fim, Christopher parou e a encarou, o olhar brilhando em expectativa.

-- Mas ela será julgada em algumas horas. -- animou-se -- O pecado de papai será expurgado desta terra, onde jamais deveria ter colocado os pés.

-- Ela será julgada, sim. -- informou -- E será inocentada.

-- Mas, como isso é possível? -- sobressaltou-se -- Papai pecou ao gerar uma bastarda, e Nix é uma criminosa declarada mesmo que seja filha dele! Merece ser punida!

-- Christopher, eu não vim aqui pedir sua opinião acerca desse assunto. -- falou tranquilamente, mas sentia as costas rígidas em tensão -- Ela não é relevante agora. Vim apenas informá-lo sobre o que realmente está acontecendo e deixá-lo ciente de que algumas coisas mudarão a partir de agora.

-- Mas isso é absurdo! Papai comprou os Conselheiros, não foi? Os chantageou à favor da bastarda dele? -- sua voz adolescente tornou-se infantil devido ao desgosto.

-- Não. -- recusou a acusação -- Cecilie pediu que o rei não interferisse, e ele a obedeceu.

-- Mas então, como...? -- seu olhar confuso tornou-se julgador -- A senhora?

-- Como eu disse, coisas demais aconteceram no passado, Christopher. -- suspirou a rainha, demonstrando um pouco de seu cansaço -- Não espero que compreenda tudo agora, nem mesmo que aceite. Apenas não faça uma cena no julgamento.

     O silêncio raivoso do príncipe foi a confirmação de que ele havia entendido a ordem da mãe, o que finalizava a conversa. Zaya virou-se e saiu em passadas leves e elegantes mas, antes de tocar a maçaneta, a voz de Christopher soou mais uma vez. Esganiçada pela mágoa.

-- É por causa dela que papai nunca me amou? -- perguntou -- Nunca nos amou?

     A rainha virou-se para ele, sentindo o coração apertado pela percepção do rapaz.

-- Seu pai te ama, Christopher. -- apontou a mulher -- Você é o...

-- O herdeiro dele. -- a interrompeu -- É só o que sou. É só o que sempre fui.

-- Você nasceu poucos meses depois do desaparecimento de Cecilie. Abenforth estava... -- seu semblante ficou inexpressivo ao se recordar daquela época sombria -- destruído. Não havia espaço para você no coração dele na época. Aquela ferida jamais se curou, mas ele foi o melhor pai que pôde para você. E faz o melhor que pôde por Crystal.

-- O melhor dele nunca foi o suficiente para nós. Ou melhor... nós nunca fomos suficiente para ele. -- franziu as sobrancelhas, raivoso -- A senhora não se ressente disso?

-- Há uma explicação para toda essa história, filho, mas é um tópico para outra conversa. -- abriu a porta e pôs-se em retirada -- Nos vemos no julgamento, caso decida aparecer.

     Zaya recusou o café da manhã. Mesmo que seu semblante fosse calmo e sereno, seu interior se retorcia em agitação. Passou quase uma hora brincando com a filha mais nova em seu quarto, rodeada pelos ursos e bonecas de Crystal. Mas, enfim, o momento chegou. Três batidas na porta anunciaram que o julgamento começaria em breve. Deu um beijo na cabeleira ruiva da filha, deixou-a com a ama e seguiu até o pátio do castelo acompanhada de sua guarda pessoal. A luz do sol da manhã já estava forte e a fez semicerrar os olhos castanhos, mas sua expressão continuou plácida e neutra. O pátio estava apinhado de plebeus, todos certamente curiosos para ver a filha do rei e soldado da Irmandade. Acenou em cumprimento educado para alguns que chamaram seu nome em admiração, e alcançou seu lugar numa tenda montada ao lado do palco principal. Sentou-se mantendo as costas eretas, as mãos repousadas sobre o encosto de seu trono, e observou a cena se desenrolar. O rei lhe lançou um olhar discreto em cumprimento, e durante esse milésimo de segundo, as portas do castelo foram abertas com força para dar passagem aos acusados. Um frio gélido se apoderou de seu interior ao colocar os olhos sobre a figura feminina que caminhava até o palco de maneira imponente. Apertou as mãos frias e suadas com força no apoio, como se perdesse o chão sob seus pés, sendindo-se prestes a cair em queda livre. Cecilie era tudo o que Cassandra foi, tudo o que Zaya jamais chegou perto de ser. Alta e esbelta, a mulher seguiu até o degrau mais baixo do palco com a cabeça erguida, ombros para trás e olhar compenetrado. Ignorou totalmente o rei, ignorou os quatro Conselheiros enfileirados ao lado do trono real. Cecilie olhou apenas para a multidão agitada, seus verdadeiros sentimentos ocultos sob uma expressão fria. Cecilie olhou apenas para a multidão... e para a rainha. A troca de olhares entre as mulheres foi abrupta, mas intensa. Os olhos cinzas da filha do rei sentiram a atenção de Zaya e dispararam até a mulher. Entretanto, a rainha estava concentrada demais nela para desviar o olhar, estava mergulhada demais em sentimentos que não deixava transparecer então apenas sustentou a troca entre elas até que o rei se levantou, interrompendo o momento e calando multidão imediatamente, deixando-os ansiosos para o início do espetáculo.

-- Estamos aqui hoje para o julgamento de... -- parou, receoso, encarando a filha -- dessa mulher conhecida popularmente por Nix. Ela é acusada de traição por ter servido à Irmandade das Sombras e ao inimigo da Coroa conhecido como mestre Willk. Inúmeros são seus crimes, todos conhecidos pelos Conselheiros do rei. Que a justiça, real e divina, sejam feitas sobre esta criminosa.

     Abenforth claramente desprezava as palavras que dizia, mas aquele era o discurso tradicional do julgamento e era esperado que tudo transcorresse como de costume. Em seguida, repetiu as palavras apresentando Thomas como culpado de associação à Nix, e insubordinação ao príncipe herdeiro Christopher. Em seguida, a palavra foi passada aos acusados. Por ser membro da realeza, Thomas se pronunciou primeiro. Disse toda a história, desde a noite em que recebeu a missão do rei de resgatar os espiões de Willk, até a luta na floresta que quase ceifou a vida da mulher e em como esteve desesperado por ajudá-la e nesse ímpeto cometeu insubordinação ao seu príncipe. Zaya sentiu parte de sua apreensão se dissipar ao notar em como o sobrinho era bom com as palavras, em como enriquecia seu discurso com detalhes e como conquistava a todos com os sentimentos que criava nos ouvintes.

-- Portanto, senhores, esta mulher deve ser inocentada. Nix foi uma vítima, foi ludibriada para servir à Irmandade. Esconderam-lhe a verdade, encheram sua mente de mentiras e invenções e lhe roubaram o que há de mais sagrado na humanidade: a liberdade de escolha. -- o silêncio tornou-se total enquanto todos encaravam a mulher, que se mantinha impassível, a atenção sobre Tom que continuava seu discurso acalorado -- Eu confio na lei, eu confio no meu rei, nos grandes e sábios Conselheiros, e confio nela. -- encarou-a cheio de emoção -- Nix salvou minha vida, e se há alguém capaz que fazer a diferença ao lutar do nosso lado, esse alguém é ela. Nix é a resposta para salvar à todos nós. 

     A platéia estava atordoada. Zaya passou os olhos sobre os súditos notando alguns cochichos aqui e ali, mas todos sem exceções, encaravam Cecilie. Alguns pareciam confusos, outros decepcionados. Esses certamente vieram até ali na intenção de ver a filha perdida do rei, mas encontraram apenas uma criminosa sendo julgada. Poucos fizeram a associação de que ambas eram a mesma pessoa, poucos compreenderam a dimensão do que estava acontecendo ali. A rainha deu um discreto sorriso, orgulhosa em perceber que seu sobrinho havia hipnotizado à todos com suas palavras bem orquestradas. Era irônico que na infância houvesse tido tanta dificuldade em falar, e mesmo que ainda gaguejasse vez ou outra, sua defesa foi impecável. Ele havia praticado provavelmente a noite toda, assim como o havia instruído.

     Uma coisa que quase ninguém sabia, era que Thomas foi como um filho para Zaya. Quando aceitou tornar-se rainha de Abenforth, sabia sobre sua outra família, mas não se importou com aquilo na época. Entretanto sua demora em gerar um herdeiro a deixou solitária, então encontrou alento no sobrinho negligenciado pelo irmão. O menino passava temporadas cada vez mais longas junto dela, até que o desastre aconteceu e Thomas foi praticamente exilado do castelo. O rei não suportava olhar para ele, assim como Tom não aceitava o erro de Abenforth, então ambos passaram a se evitar. A relação entre os homens deixou de ser familiar e tornou-se fria, a única coisa que ainda mantinham era sua dedicação às suas responsabilidades para com o reino. Mas, mais uma vez, Cecilie mudou tudo. Ambos estavam ali, unidos, buscando a absolvição dela, mas dessa vez a vantagem era de Thomas. Em nenhum momento a mulher lançou um olhar para o pai, em nenhum momento sequer demonstrou notar sua presença, nem mesmo percebê-la, sinal da profunda mágoa que nutria pelo homem.

     O Conselho se levantou, interrompendo os devaneios da rainha, que se atentou aos quatro homens que brandiam um martelo de madeira prontos para lançarem a sentença.

-- Após um pronunciamento tão eficiente, o Conselho descarta a necessidade da acusada se manifestar pois já tem uma decisão. -- anunciou em voz alta Cassian, o líder do Conselho Real -- Visto que após análise prévia dos fatos há embasamento para cada sentença proferida pelo duque Thomas Longford Segundo, o Conselho retira todas as acusações sobre a mulher conhecida por Nix, e a aceita e acolhe nos braços do reino, sob o acordo de se tornar fiel súdita de vossa majestade, rei Abenforth, por meio de um voto de lealdade realizado aqui e agora perante o Conselho e os súditos presentes. Caso contrário, sua sentença será o exílio total e eterno desta farta e abençoada terra.

     Este era o momento que deixou Zaya insone por quase toda a noite. O acordo que firmou com Cassian foi difícil, e o máximo que conseguiu para ajudar Cecilie foi a sentença de exílio ao invés da guilhotina. Porém, não queria aquilo para ela. Assim como Abenforth, a rainha precisava concertar algumas coisas, e para isso precisava da mulher ali. Mais uma vez apertou o apoio de seu trono, contendo suas emoções com força para não demonstrar a ansiedade que sentia. Cecilie tirou seu olhar de Thomas e, finalmente, encarou o pai. O rei estava no trono, a postura rígida, a expressão tão dura que parecia esculpida em mármore. O rei e a rainha tinham o mesmo pensamento rondando suas mentes com clareza: Cecilie jamais se curvaria.

     O olhar rancoroso dela era a prova daquilo, da decisão já tomada. A mulher virou-se para Cassian e pronunciou-se.

-- Se quiser minha lealdade, meu lorde, eu a ofereço. Mas não será à um rei que em nenhum momento lutou por mim. -- olhou para o pai com desprezo e continuou em voz firme -- Não será à um rei que me abandonou. -- virou-se de frente ao público que a encarava atordoado -- Eu ofereço minha lealdade à vocês! À cada homem, mulher e criança que já sofreu nesta guerra. À cada um que já perdeu um ente querido, à cada um que perdeu sua propriedade, seu sustento, sua tranquilidade! Eu ofereço minha lealdade à vocês! -- abriu os braços apontando a multidão, que começou à dar vivas e acenar afirmativamente em concordância, em aceitação -- Desde o início, minha intenção foi acabar com a guerra, fiz o que fiz pois achei que minhas ações ajudariam a todos. Mas agora sei a verdade e estou disposta à brandir minha espada lutado ao lado do reino, mas sempre lutarei por vocês apenas. Quero me vingar da Irmandade que me usou e enganou, quero livrá-los de todo o mal que Willk lhes causou, e se for da sua vontade, irei vingá-los também. -- aplausos começaram, acompanhados de gritos de empolgação -- Mas não vou me curvar ao seu rei, meu lorde. -- Cecilie virou-se novamente para o Conselho -- No povo, e apenas no povo, é onde estará minha lealdade.

     Os Conselheiros estavam claramente chocados com aquele discurso perigoso, o único som era o da multidão enlouquecida. Todos no palco principal estavam tensos, os Conselheiros tinham olhares perdidos e confusos, não sabendo exatamente como prosseguir. Cecilie mantinha a postura altiva e aguardou a decisão deles. A salva de palmas persistiu por muito tempo e a atenção da rainha dirigiu-se até o rei de maneira analítica. Abenforth parecia perdido em pensamentos, o olhar desfocado imerso em algo que apenas ele sabia, mas que Zaya por conhecê-lo tão bem, desconfiava.

    

-- Sendo assim, depois dessa clara insubordinação, não nos resta alternativa. -- vaias ensurdecedoras soaram vindas da platéia, que ficou insatisfeita em perceber que o discurso dela não foi importante para a Coroa como foi para eles -- O Conselho dita a sentença de exílio para Nix. Esta é a decisão da Coroa e é a lei. Que assim seja.

     Os quatro Conselheiros novamente levantaram seus martelos para encerrar a cerimônia, sob cruéis reclamações do povo, quando abruptamente o rei se levantou.

-- Parem! -- bradou em voz alta e todos obedeceram imediatamente, ficando estáticos em seus lugares, o silencio total aumentando a apreensão de todos-- Agora que o Conselho proferiu sua opinião, eu clamo pela Suprema Justiça do Rei para a sentença final.

     Os Conselheiros fizeram uma reverência silenciosa e sentaram-se, os guardas ficaram mais atentos e a população ficou eufórica. A lei da Suprema Justiça do Rei era convocada em casos únicos e específicos: julgamentos da família real, onde apenas o rei era o juiz e o Conselho não tinha poder. Zaya apertou os lábios em repreensão, pois não achou prudente aquela atitude. Achava que a identidade de Cecilie não deveria ser levada à público tão cedo. Uma coisa eram os burburinhos e especulações, outra era uma proclamação oficial do rei em meio à um julgamento sob a lei da Suprema Justiça. Aquilo poderia causar conflito na corte, que certamente ficaria descontente ao ver o apoio do rei em alguém que julgavam uma traidora. Além disso, a aclamação do público após o discurso de Cecilie poderia inflamar ainda mais os ânimos, já que metade da corte não tinha tanta aprovação dos súditos quanto ela conseguiu com apenas algumas palavras.

-- Pelo poder irrefutável da Suprema Justiça do Rei, eu a absolvo de toda e qualquer acusação. -- virou-se novamente para a platéia agitada -- Meu povo, vocês testemunharam os crimes e verdades expostas neste julgamento, mas ainda há coisas que não sabem. Nix teve uma família na infância, mas subitamente perdeu tudo. Desprotegida, ela viveu nas ruas por alguns anos até que Willk a encontrou e, então, começou a enganá-la em benefício próprio. Mas ele não fez isso deliberadamente. Willk sabia perfeitamente o que esta mulher, na época ainda uma criança, significava para mim. Para o reino. Se há algum culpado pelos crimes de Nix, esse alguém sou eu. -- olhou rapidamente para a filha, como se lhe pedindo perdão, mas a mulher não esboçou reação -- Eu lhes apresento Cecilie Mayser Strong, minha primogênita, a princesa perdida que finalmente voltou para casa.

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