Capítulo 45 - "A princesa perdida e o castelo em polvorosa"


Antes do pôr do sol o castelo já estava em polvorosa. Todos sabiam da mais recente novidade: a princesa perdida fora encontrada. Claro que o fato ainda era segredo absoluto, mas isso nunca impediu que as fofocas rolassem soltas entre a criadagem e os soldados. Sussurros e cochichos se tornaram o tom de voz mais usado entre eles enquanto espalhavam a notícia. Arquejos surpresos e chocados também eram comuns ao ouvirem a impressionante história. Tão impressionante que deveria ser registrada e passada à posteridade como forma de entretenimento, um livro contando como o destino sempre cumpre seu desígnio, de uma forma ou de outra.

     A questão é que o segredo não era mais segredo. Vários soldados solicitaram um turno de guarda da princesa aos seus superiores, apenas para terem a chance de vê-la, mesmo que de relance. As criadas se revezaram para levar as refeições dela na intenção de poder ver a mulher com os próprios olhos. Por fim a novidade tornou-se massante e, à noite, o assunto principal já era outro. Todos já sabiam que a filha perdida do rei - eram respeitosos demais para com sua majestade, então evitavam o termo bastarda - havia retornado. Agora, comentavam sobre como ela era. Depois dos grandiosos esforços dos mais curiosos, ao cair da noite um bom número de pessoas havia visto a mulher e não demorou a anunciarem imediatamente suas opiniões sobre ela. As palavras mais utilizadas para descrevê-la foram, predominantemente, três: belíssima, imponente e assustadora.

     Dizia-se entre os corredores de serviço que a filha do rei era idêntica à mãe, uma mulher chamada Cassandra, que todos sabem fora o verdadeiro e único amor de sua majestade. Também dizia-se que tinha, além da beleza, o porte de guerreira que se espera de um soldado da Irmandade das Sombras. E o fato de a princesa perdida ser também uma criminosa procurada colocou mais lenha na fogueira crepitante dos mexericos. Tanto que apostas começaram a serem feitas ainda naquela madrugada. Uns apostaram que a rainha exigiria a cabeça da princesa, revoltada pela afronta e motivada pelo ciúmes de sua falecida rival. Em contraponto, outros apostaram suas moedas na ideia de que o rei expulsaria a esposa para alguma propriedade longínqua para dedicar-se à filha e recuperar os anos perdidos. Ainda houve aqueles que apostaram que a mulher que ocupava o quarto principal da ala oeste era uma impostora enviada por Willk, o maior inimigo do rei, para assassiná-lo durante o sono.

-- Se a concubina do rei era linda assim, entendo por que a manteve por tantos anos! -- riu um guarda enquanto fazia sua refeição na cozinha junto de outra dezena de criados.

-- Se o rei pegá-lo falando assim da falecida dele, vai parar na forca! -- repreendeu a cozinheira.

-- Amélia! -- guinchou uma criada -- Você trabalhava na casa da concubina antes de vir para o castelo, não é? Se mudou para cá junto de Lúcia e Ciro depois que a mulher morreu. Diga-nos como ela era.

     A velha cozinheira olhou feio para a mocinha, que se contorceu sob o peso daquele olhar, arrependendo-se imediatamente de seu pedido. Amélia não era conhecida por sua bondade e gentileza, mas sim por ter uma colher de pau muito rápida e certeira.

-- Se eu fosse você, Miranda, não me meteria em assuntos que não lhe dizem respeito. -- disse a velha apontando a colher -- Deixe os mortos em paz, e me deixe fora desse assunto!

     Os gritos de Amélia não incomodaram os fuxiqueiros, então o falatório continuou normalmente. Estavam todos tão imersos e empolgados com o furor da novidade, que não se aperceberam de que certa pessoa estava agindo de maneira um tanto estranha. Estavam tão extasiados e eufóricos que não notaram a ausência de outro alguém que havia se trancado em seu quarto, na intenção de esconder sua culpa. Estavam tão ansiosos pelo desenrolar daquela história fantástica que ninguém percebeu, ninguém sequer imaginou, que todos os responsáveis pelas tragédias do passado estavam ali, escondidos naquele castelo.

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