Capítulo 39 - "Escolha"
Ela havia morrido. Tinha certeza disso pois estava, agora, nos braços quentes e confortáveis da mãe. Apertou o abraço e afundou o rosto nos cabelos dela, sentindo aquele cheiro familiar que nos últimos anos existiu apenas em sua memória. Quando deu por si, lágrimas espessas desciam por seu rosto, manchando o vestido branco que a mãe usava.
-- Shh, minha pequenina. -- acariciou os cabelos dela, enrolando uma mecha entre seus dedos como ambas costumavam fazer em sua infância -- Eu estou com você agora. Sempre estive com você, minha filha amada, e sempre estarei.
-- Mamãe... -- soluçou, liberando o luto que estava preso em sua garganta há quinze anos -- Eu não pude... não pude me despedir. Eu senti tanto sua falta, mãe, tanto, tanto!
-- Eu sei, eu sei, pequenina. -- lhe deu um beijo na testa -- Doces sonhos os anjos trarão, para a criancinha do meu coração... -- cantou a canção de ninar favorita dela em voz suave -- A lua e as estrelas divertem-se no céu, numa cirandinha naquele lindo véu. Durma criancinha do meu coração, pois lindos sonhos os anjos trarão...
Aquela canção esquecida fundo na memória a acalmou e, ao final da letra, havia cessado seu choro. Afastou-se um pouco da mãe, apenas para observar seu rosto.
-- Eu senti sua falta, mamãe. -- observou cada detalhe dela, percebendo que sua memória infantil não lhe fazia justiça.
Cassandra era uma mulher estonteante, mas não era apenas bela. Havia... um magnetismo ao seu redor. Ela marcou as feições da mãe, tão parecidas com as suas, e ainda assim tão diferentes. Os cabelos negros, as sobrancelhas, a boca... ela reconheceu aqueles traços em seu próprio rosto.
-- Estaremos juntas para sempre agora, pequenina... -- acariciou suas bochechas com ternura -- Se você quiser.
-- Como assim? -- perguntou confusa e, num rompante, suas memórias retornaram.
Lembrou-se de Willk, da guerra. Da faca envenenada que a havia matado. A dor que sentiu, o veneno a enfraquecendo a cada segundo. O desespero de Thomas enquanto tentava com todas as forças salvá-la.
-- Thomas... -- disse baixinho, tristemente.
-- Precisa escolher, filha. -- a mãe disse, agora séria -- Se deseja voltar e cumprir seu destino, ou se deseja partir e deixar tudo para trás.
-- Eu tenho que escolher? -- indgnou-se -- Ninguém deveria ter de escolher esse tipo de coisa, mãe! Não é justo!
-- Você aprendeu desde cedo que a vida não é justa, pequenina. -- lhe ofereceu um sorriso triste -- Escolha. Seu coração está quase parando e seu tempo está acabando. Escolha agora.
-- Eu não posso! -- sacudiu a cabeça em negativa -- Eu não posso deixá-la novamente, mamãe!
-- Eu estarei com você a cada passo. -- colocou as mãos em suas bochechas e aproximou seu rosto do dela -- Você confia em mim? -- ela encarou seus olhos castanhos que a encaravam com firmeza e acenou afirmativamente -- Escolha.
Seu instinto imediato foi abraçar a mãe e não soltá-la nunca mais. Mas... e Thomas? E o reino que sangrava no meio daquela disputa sem fim pelo trono?
-- Eu... -- suspirou e decidiu-se -- Eu preciso voltar.
Cassandra abriu um sorriso luminoso, que diminuiu um pouco o aperto no peito da mulher por ter de perder a mãe pela segunda vez.
-- Estou orgulhosa de você. -- beijou-lhe a testa e ela inspirou fundo para guardar seu perfume na memória -- Faíscas da mesma chama irão incendiar o mundo para refazê-lo a partir das brasas e cinzas de carvão. Uma única alma dividida em dois corpos, predestinadas à se encontrarem nesta vida e nas outras que virão.
Aquela fala a deixou confusa e atordoada. Levantou o olhar para a mãe, mas ela apenas lhe sorria amorosamente.
-- O que isso significa? -- perguntou -- Mamãe, o que isso significa?
-- Que está na hora de se tornar quem você nasceu para ser. -- a mãe disse, mas a voz soou distante -- Acorde!
Cassandra empurrou a filha para trás, que mergulhou num vazio profundo e sem fim. Ela caiu e flutuou na escuridão, agora completamente sozinha, até que sentiu uma dor às suas costas que se espalhava em direção ao seu peito. Como se estivesse amarrada à uma corda, ela foi puxada bruscamente em direção à algum lugar e aterrisou ali num baque forte.
Nix abriu os olhos.
Tudo o que pôde fazer por alguns segundos foi encarar o teto mofado do lugar em que estava, respirando profunda e rapidamente, enchendo o pulmão de ar abafado. Mas aquilo não importava pois Nix ainda estava imersa nas sensações do sonho que tivera com a mãe. Afinal, aquilo foi um sonho? Não era capaz de responder essa pergunta pois ainda sentia o perfume de Cassandra em suas narinas, ainda ouvia a voz dela ressoando em sua mente. Escolha. Bem, ela escolheu e agora pagaria o preço.
Acalmou sua respiração e nem precisou olhar ao redor para saber que estava numa cela nas masmorras reais. Se a escuridão não denunciasse sua localização, o cheiro o faria. Além do mais Nix já esteve em celas suficientes para ser capaz de reconhecer uma. E se ela estava ali, alguma coisa havia dado errado. Onde estava Thomas? Estaria preso também ou estava são e salvo em algum lugar no palácio? Torcia pela segunda alternativa, mesmo suspeitando que a primeira estivesse mais próxima da realidade. Bem, não havia muito a ser feito no momento. Era uma prisioneira e não tinha forças para lutar, então fechou os olhos e adormeceu imediatamente.
Acordou ao sentir alguém virar seu corpo. Fez força para se levantar e sair do alcance de seu agressor, mas tudo o que conseguiu foi cair de cara no chão.
-- Senhorita! -- uma voz jovem exclamou -- Não faça tanto esforço!
-- Thomas! -- disse entre dentes enquanto se sentava no chão -- Onde está Thomas?
O quarto, percebeu apenas agora, estava iluminado por duas tochas, uma em cada lado da porta com grades. Aquilo era claridade demais depois da escuridão total em que Nix esteve nas últimas horas. A jovem se aproximou dela devagar, tentando não assustá-la.
-- Eu não sei. -- ela se ajoelhou à sua frente e Nix conseguiu ver seu rosto com clareza pela primeira vez.
-- Você... -- sua voz morreu devido ao espanto.
-- Sim, senhorita. -- a menina acenou com um sorrisinho tímido -- Consegui chegar em segurança e já estou trabalhando, cuidando dos doentes na Casa de Misericórdia. Graças à senhorita.
Quando ajudou aquela jovem semanas atrás, antes de toda aquela loucura, jamais imaginou que suas vidas se cruzariam novamente. Mas ali estava ela, nas profundezas da prisão de Nix. A jovem que, sem saber, confirmou que ela havia sido enganada a vida toda, a jovem que mudou tudo.
-- O que faz aqui? -- perguntou olhando ao redor, procurando pelos sentinelas.
-- Vim fazer seu curativo. -- apontou uma bacia de barro cheia de ataduras e outros apetrechos -- Eu troco as bandagens duas vezes ao dia.
-- Duas vezes ao... -- parou surpresa-- Há quanto tempo estou aqui?
-- Cinco dias, senhorita. Achamos que não fosse sobreviver. Havia perdido muito sangue e o veneno circulava livre pelo seu corpo. O Curandeiro Chefe mestre em venenos foi convocado, e lhe deu o antídoto para o que ele chamou de "cerbera". Levou horas para fazer com que bebesse tudo, mas por fim eu consegui. E estamos esperamos que acorde desde então. Fico feliz que esteja se recuperando.
-- Imagino que o rei também, assim ele terá o prazer de me sentenciar à morte. -- murmurou e esticou uma mão -- Por favor, me ajude a levantar.
A menina atendeu ao seu pedido depressa. Precisou de muito esforço para se levantar e logo sentou-se na beirada da cama respirando com dificuldade, sentindo as pernas e braços trêmulos, o coração acelerado.
-- Precisa se alimentar, eu trouxe um pouco de caldo. -- buscou uma cumbuca que estava oculta atrás da bacia de barro.
Nix estendeu as mãos para pegar sua refeição mas uma dor cruel a fez baixar os braços. O corte em suas costas, aparentemente, ainda não estava cicatrizado. Atenta às suas dificuldades a jovem se sentou ao seu lado e a ajudou a comer, levando o caldo colher por colher até sua boca. Sentiu-se envergonhada por estar sendo tão fraca e inútil, mas ao sentir a fome se dissipando sentiu gratidão por aquela boa alma que a auxiliava, tão prestativa.
-- Como se chama? -- ela perguntou depois de engolir a última colherada.
-- Elsa. -- respondeu -- E você é Nix.
-- Infelizmente. -- confirmou -- Elsa, será que você conseguiria descobrir onde Thomas está? Conseguiria levar um recado meu até ele?
-- Sinto muito, mas eu não tenho permissão para andar pelo castelo. -- recusou com visível tristeza.
Aquilo pelo menos respondia uma de suas dúvidas: Thomas não estava nas masmorras. Isso era bom. Não era?
-- Tudo bem. -- disse pensativa -- Pode me dizer que horas são, aproximadamente?
-- Quando cheguei aqui o sol estava se pondo. Eu posso fazer seu curativo agora ?
Nix apenas acenou afirmativamente e Elsa se pôs a trabalhar. Levantou-se e seguiu até suas costas, baixou a alça do vestido dela - na verdade o que vestia era um conjunto de trapos velhos que fazia as vezes de roupa - e desenrolou as bandagens. Tentou cooperar o melhor que pôde, o que foi quase nada fraca como estava, e logo a jovem jogou fogo em sua ferida.
-- Que diabos é isso, mulher? -- gritou num pulo.
-- Tenho que limpar para que a ferida não infeccione, senhorita! -- explicou em tom de desculpas -- É um tônico que o Curandeiro Chefe real criou para desinfectar feridas abertas.
-- Bem, aposto que o Curandeiro Chefe real nunca precisou usar esse tônico no próprio corpo, ou não queimaria tanto. -- suspirou cansada -- Me desculpe, não é culpa sua. Pode continuar.
-- Eu sinto muito, senhorita. -- disse antes de prosseguir com sua tarefa.
Nix cerrou os dentes para evitar se contorser e extravasar sua dor. O líquido queimava feito fogo do inferno e sentiu lágrimas lhe umedecerem os olhos. Queria que aquilo acabasse, queria o abraço confortante de sua mãe de novo, queria... queria Thomas. Onde ele estava, onde ele estava? Sem suas interrupções, Elsa terminou o curativo rapidamente e logo terminou de enfaixar seu ombro com uma bandagem limpa.
-- Obrigada, Elsa. -- agradeceu sentindo-se profundamente exausta.
-- É o mínimo que eu poderia fazer, depois que me ajudou tanto.
A jovem ajudou Nix a se deitar e, antes mesmo que sua cabeça encostasse no travesseiro, ela adormeceu.
Esperava sonhar com sua mãe de novo, mas decepcionou-se. Em seu sono só encontrou um vasto e profundo vazio, porém quando acordou sentia-se restaurada. Claro que ainda estava fragilizada depois de escapar da morte por um fio, mas seu corpo não estava mais tão trêmulo e sua mente não estava tão entorpecida e distante. Deveria ter dormido uma boa porção de horas então decidiu sair da cama um pouco, recusando-se a ser uma inválida. Levantou-se e ficou de pé, testou o ombro machucado fazendo movimentos com o braço direito. Franziu as sobrancelhas com a dor, mas conseguiu suportá-la sem muito esforço. Caminhou pela cela algumas vezes, observando detalhes que antes não percebeu. Havia uma jarra de água ali, não muito grande para não ser usada como arma, provavelmente. Acreditava que havia sido uma recomendação do Curandeiro Chefe, afinal depois de perder tanto sangue ela precisaria de muita água. Seguiu até a jarra e bebeu todo o líquido precioso num gole, o que lhe causou uma onda severa de náuseas. Caminhou mais um pouco para tentar se fortalecer e fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Infelizmente, seu plano não foi eficaz. Os minutos ali pareciam infinitos e Nix sentia-se à beira de um ataque de nervos. Precisava saber o que havia acontecido à Thomas, precisava saber o que aconteceria com ela. Essa incerteza era a pior das torturas e ela precisava desesperadamente ver alguém, qualquer pessoa, para fazer algumas perguntas. Minutos ou horas depois - a noção do tempo numa cela era quase inexistente e deveras perturbadora - um soldado apareceu e entrou em sua cela.
-- Vista isso. -- atirou uma porção de pano em suas mãos -- Rápido.
-- Por quê? -- perguntou encarando o tecido azulado.
-- Prisioneiros não fazem perguntas! -- rosnou o homem, feroz.
-- Esta prisioneira faz. -- retrucou, encarando-o altiva.
Os olhos verdes do homem brilharam em cólera e raiva genuínas, suas narinas inflaram ao puxar o ar profundamente e, antes que Nix pudesse desviar, ele lhe deu um belo soco no queixo. Ela cambaleou para trás mas conseguiu se firmar, levou a mão até o lugar latejante e o encarou irada, avaliando se conseguiria derrubá-lo. Seria fácil, pensou, se eu não estivesse tão ridiculamente fraca.
-- Poderia ficar de costas? -- perguntou contendo seu ódio, mas o soldado apenas cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
A real compreensão de que era uma prisioneira ali caiu sobre ela com um peso em seu estômago. Até o momento sua única interação fora com Elsa que havia sido amigável e solícita. Mas agora que havia recuperado o mínimo de suas forças, Nix seria tratada como quem era: uma criminosa à espera de seu julgamento. Suspirando ela virou-se de costas para o homem, tirou sua camisola de trapos e colocou o vestido com dificuldade, sentindo-se profundamente humilhada por ser obrigada a se trocar na frente daquele estranho. Por fim virou-se de volta para ele, que a esperava com um certo objeto em mãos.
-- Isso é mesmo necessário? -- perguntou encarando as algemas de ferro -- Eu pareço capaz de lutar com alguém? Mal estou me aguentando em pé!
O olhar firme do soldado não se suavizou, ele apenas tomou suas mãos de maneira brusca e prendeu as algemas em seus pulsos com tanta força que quase interrompeu sua circulação sanguínea. Segurando-a pelo braço ferido - ela suspeitou que fez aquilo de maneira premeditada - a arrastou rapidamente durante uma porção de corredores infindáveis. Certamente estava tentando confundi-la, mas estava apenas conseguindo com que Nix se familiarizasse com o lugar. Por fim subiram quatro lances de escadas, e no topo mais três guardas os aguardavam.
-- Quem estão pensando que eu sou? -- perguntou em voz alta -- Alguém com super poderes?
Ninguém respondeu sua pergunta retórica, na verdade nenhum dos quatro homens sequer olhou em sua direção. O soldado que a agrediu a soltou bruscamente e então eles começaram a marchar, arrastando-a entre eles. Dois à sua frente, dois às suas costas. As correntes tilintavam a cada passo, lembrando-a de quem ela era ali: nada. Ninguém. Amaldiçoou-se por ter escolhido voltar. Poderia estar em paz na companhia de sua mãe mas não, havia sido estúpida o suficiente para ter escolhido voltar à sofrer. Caminharam por alguns minutos, Nix já sentia falta de ar devido ao esforço, até que finalmente chegaram ao seu destino. Pararam em frente à portas duplas tão altas que alcançavam o teto. Tingidas por tinta branca e enfeitada com detalhes em carmim, a porta denunciava a riqueza do lugar, assim como cada centímetro do caminho que percorreu até ali. Um dos soldados à sua frente deu duas batidas na porta, e depois mais uma. Imediatamente elas se abriram e Nix foi arrastada para dentro.
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