Capítulo 38 - "Eu estou preparado"



Os minutos se tornaram horas. As horas se tornaram dias, e depois noites, e mais dias. O tempo parecia se arrastar cada vez mais lentamente, aumentando seu tormento, seu desespero. Thomas recebia suas refeições no quarto que se tornou seu cativeiro ao nascer e ao pôr do sol, mas nos quatro dias que se seguiram ele recusou o alimento com veemência e determinação. Tudo o que queria, tudo o que precisava, era de notícias dela. Ele não comeria aquelas delícias enquanto Nix padecia em alguma cela fétida e sombria. Ela teria sido cuidada? Christopher garantiu que sim, mas... ela fora realmente curada ou apenas a estavam mantendo viva até levarem-na para a guilhotina? Sentiu um arrepio sombrio atravessar sua coluna com tal pensamento. Thomas morreria antes de permitir que fizessem aquilo com sua amada.


     Enquanto vivenciava os piores dias de sua vida, ele reaprendeu a rezar. Pediu e implorou, fez promessas e acordos, mas nenhum milagre aconteceu. O príncipe não retornou, os guardas o ignoravam e as criadas que traziam suas refeições nem mesmo olhavam para ele. Estava, agora, sem voz de tanto gritar e urrar e chorar. Suas mãos doíam de tanto esmurrar a porta que não cedeu em nenhum momento. Sua cabeça latejava em fome e sede e tristeza, mas ele se recusava à ceder em sua punição auto imposta. Se ela sofresse, então ele sofreria também. Além do mais, sabia que aquele suplício estava certamente chegando ao fim, pois o rei não costumava se ausentar por muito tempo. Ele deveria estar em suas visitas mensais nas Casas de Misericórdia, conversando com seus súditos. Ou então estava verificando as colheitas nas plantações reais, certificando-se de que tudo ia bem. Logo o rei e a rainha estariam de volta e resolveriam aquela situação. Thomas faria com que o ouvissem, sua tia o ajudaria sem dúvidas, faria com que libertassem Nix e então ele a pegaria em seus braços e a arrastaria dali para sua propriedade na Cidade dos Montes Brancos, ou então rumariam até um navio que zarparia para o mais distante possível daquele reino sangrento, encontrariam um lugar pacato e viveriam juntos e felizes o restante de seus dias. Sim, fazer planos lhe dava esperanças, lhe acalmava a ansiedade, lhe aliviava o aperto no peito, mas ainda assim... ainda assim não conseguia evitar de pensar que talvez Nix já estivesse morta.


     Espantou aquele maldito pensamento e decidiu reviver as lembranças boas dos últimos dias que viveu com ela. Pensou em seu sorriso atrevido, seu olhar atento e lascivo, seus toques suaves, seus lábios doces e viciantes. Nix despertava tantas sensações nele que o deixava tonto, inebriado em sua presença. Mas agora, distante e cheio de saudade e temor, ele via tudo com clareza. Ele entendia o que aconteceu, como aconteceu e percebeu que nunca sequer teve chance. Thomas amava Nix desde antes de conhecê-la, desde antes de saber que ela existia ou que se encontrariam um dia nas piores condições possíveis. Seu coração nunca foi enlaçado por nenhuma dama pois já estava destinado à Nix, que o reivindicou assim que seus olhos cinza cruzaram com os dele. Mas o caminho entre conhecê-la e amá-la não foi nada fácil, e aquilo tornava tudo ainda mais intenso, mais forte e verdadeiro.


     Ele não ficou cego aos seus erros do passado. Mas pouco a pouco compreendeu o que a levou à tais circunstâncias, ao centro de uma vida brutal que jamais desejou. Ele via seus erros mas também via as qualidades dela. Sua determinação, sua força, sua coragem, sua bondade e senso de justiça. Seu amor por ele. Nas longas horas solitárias em sua prisão luxuosa, Thomas gostava de iludir-se afirmando que Nix o amava incondicionalmente, nas mesmas proporções de seu amor por ela. Sonhava que ela havia aceitado seu pedido de casamento com euforia e júbilo, o oposto do que realmente aconteceu. Suspirou frustrado, repreendendo-se por essa tolice. Ela o havia aceitado. De verdade, e não apenas em seus devaneios bobos. Mas o havia feito por amá-lo, ou foram apenas palavras vazias de alguém que  acreditava estar à beira da morte?


     O quarto dia de tormento acabou, trazendo o quinto, que passou tão lentamente quanto os demais. Nessa altura ele estava em profundo torpor, e em seu interior, em seus pensamentos, apenas o nome de Nix ressoava num eco constante. Thomas sentia-se vazio, submerso, afogando-se em inércia e desconsolo. Viu o movimento do sol através da vidraça da janela e não saiu da cama uma única vez, a noite veio e se foi e, em algum momento, ele adormeceu. Sonhou com ela. Sentiu sua mão pequena na dele, quente e firme. Aquela sensação o deixou eufórico e levantou o olhar para encará-la, mas não conseguiu vê-la. O rosto de Nix estava embaçado, indefinido, uma névoa espessa ocultava seus olhos, seu nariz e boca.


-- Não esqueça de mim, Thomas. -- ouviu a voz dela e sua mão se soltou da dele.


-- Nix! -- chamou ansioso, tentando recuperar o toque mas ela começou a se afastar rapidamente.


-- Não esqueça de mim... -- repetia enquanto um vento forte a levava para longe dele enquanto Thomas corria desesperado -- Não esqueça de mim.


-- Não! -- gritou sentindo-se estilhaçar -- Volte! Por favor, Nix!


     Acordou com um aperto no peito e não foi capaz de se mexer. Nem mesmo de abrir os olhos. Estava concentrado em atender o pedido dela, então lembrou-se exatamente do tom azul acizentado de seus olhos. Lembrou-se do formato de seu nariz, as curvas de seus lábios atraentes. Suas maçãs do rosto e o ângulo do queixo. Lembrou-se de seus longos cabelos negros, da sensação deles entre seus dedos. Lembrou-se da temperatura de sua pele, da sensação dos corpos deles unidos em um. Jamais vou esquecê-la, prometeu em sua mente. Apenas depois de ver o rosto de Nix nitidamente na escuridão de suas pálpebras fechadas, ele as abriu. E se surpreendeu com o que viu.


-- Tia Zaya! -- exclamou sobressaltado e se levantou de súbito.


     A rainha estava de costas para ele, observando a paisagem através da janela que abriu para permitir a entrada do ar fresco da manhã que havia clareado há pouco. Tão elegante como sempre, usando um vestido rosa escuro que lhe caía com perfeição, os cabelos louros presos num penteado alto. Ao ouvi-lo chamá-la, a mulher virou-se para ele com um sorriso preocupado.


-- Que confusão é esta em que se meteu, Thomas? -- perguntou calmamente.


     Sentiu vertigem por ter se levantado tão rápido e também pelos seis dias sem comer, cambaleou até o aparador próximo à parede e sua tia apressou-se em seu socorro. O segurou pelo braço e o ajudou à sentar-se na mesa que ficava à esquerda da janela.


-- Por favor, tia Zaya. -- pediu em voz rouca e fraca -- Me diga se ela está viva.


-- Christopher me avisou mas me recusei a acreditar até ver com meus próprios olhos. -- o repreendeu, desgostosa -- Em que estava pensando ao se envolver com essa criminosa? Diga-me de uma vez o que aconteceu, como você a capturou e como ela o enfeitiçou dessa forma.


-- A senhora n-não entende! -- exclamou, tentando não se irritar com a tia, a única pessoa que poderia ajudá-lo -- Foi ela quem me capturou à mando de Willk. E depois, ao descobrir como foi enganada por ele, me libertou e então seguimos juntos até aqui, sendo perseguidos pela Irmandade que a quer morta por sua deserção. 


     A rainha o encarava claramente desconfiada, a boca retorcida anunciando seu desagrado com aquela situação.


-- Nix quer ajudar a acabar com essa guerra, tia. Ela sabe muito sobre a Irmandade, sabe quais são as Cidades Forte. -- tentou fazer com que compreendesse a utilidade dela-- Ela irá nos ajudar a vencer Willk de uma vez por todas. P-por favor, me diga como ela está.


-- Acha que me preocupo com uma criminosa? Minha única preocupação é você, Thomas, é tirá-lo desta enrascada. -- anunciou aflita -- Sabe como Christopher é obcecado por leis e justiça, ele está acusando-o de traição! Estou tentando acalmá-lo, afastá-lo deste assunto agora que o rei está de volta mas o garoto está irredutível. Insiste em participar de cada coisa, na intenção de aprender a ser um governante sábio para quando subir ao trono.


-- O que o rei tem a dizer disso tudo? -- perguntou com medo da resposta.


-- Abenforth queria apenas realizar a execução de uma vez.


-- Tia Zaya... -- ela o calou com um aceno de mão.


-- Christopher insistiu num julgamento, dizendo alguma coisa sobre lei ancestral. -- o acalmou -- O rei concordou, mas você sabe como ele detesta esse tipo de coisa, então acontecerá em breve.


-- Quando?


-- Amanhã. -- um zunido invadiu seus ouvidos e ele sentiu-se desaparecer por um instante -- Thomas? -- sua tia o chamou e ele a encarou -- Ah, Thomas... o que você fez?


-- Eu me apaixonei. -- anunciou num dar de ombros desolado.


     Zaya pensou a respeito, atenta às expressões torturadas do sobrinho. Sabia que o amor era inesperado e inconveniente, e sabia a dor que poderia causar em circunstâncias tão cruéis como aquela.


-- Não conheço essa mulher, mas conheço o seu caráter. -- acariciou as bochechas dele -- Me garante que vale a pena enfrentar tudo isso por ela?


     Pela primeira vez em seis dias, ele sentiu alegria e esperança verdadeira, não aquela ilusória que imaginava só para manter a sanidade.


-- Vale, tia Zaya. -- garantiu emocionado -- Nix vale isso e muito mais.


-- Pois então eu vou interferir. -- prometeu e ele quase caiu ajoelhado em gratidão -- Exigirei ao rei uma audiência privada ainda hoje, onde vocês dois poderão se reportar à ele. Mas quero que fique claro que isso é o máximo que posso fazer, Thomas.


-- Obrigado, tia Zaya! -- puxou as mãos dela e as beijou agradecidamente -- Obrigado, muito obrigado. 


-- Espero que não se arrependa de sua decisão. -- se levantou e o encarou de cima a baixo -- E fique apresentável para a audiência. Também coma alguma coisa, pois parece prestes a desmaiar à qualquer momento.


-- Sim, senhora. -- concordou num aceno feliz em obedecer a ordem, afinal, precisaria de todas as suas forças para lutar pela liberdade de Nix.


     Ao chegar à porta a rainha se virou para ele uma última vez.


-- Essa é sua única chance de convencê-los à poupá-la. Só quero que esteja ciente de que será uma batalha árdua.


-- Eu estou preparado. -- disse em voz firme.


     A rainha deu apenas um aceno discreto e saiu, as saias do vestido farfalhando com os passos suaves. Thomas ficou encarando a porta por alguns segundos, já planejando como começaria seu discurso em defesa de Nix. Em poucos minutos seu banho foi preparado, e roupas limpas lhe foram entregues junto de uma refeição quente. Apenas uma hora depois de tia Zaya ter saído de seus aposentos ele foi convocado para seguir até a presença do rei. Seus passos soavam altos no piso de mármore enquanto se encaminhava apressado até o salão principal, escoltado por dois soldados armados. Ele também seria julgado, percebeu, mas não se importava. Tudo o que havia em sua mente era a alegria exultante em saber que logo viria Nix novamente.

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