Capítulo 37 - "Resposta errada"
Thomas sentia-se dilacerado. Quando Nix desmaiou de vez em seus braços e nem mesmo suas contínuas súplicas foram capazes de despertá-la, ele ouviu seu coração ser partido em milhares de pedaços torturados. Agitou as rédeas e bateu os calcanhares no cavalo, forçando-o a ir mais rápido, e apenas o vento batendo em seu rosto o fez perceber que estava chorando."Minha resposta é sim", ela lhe dissera antes de apagar e ele começou a repetir incessantemente aquelas palavras em sua mente, como uma prece. Ela o aceitou. Ela o aceitou e não poderia deixá-lo agora. Essa viagem insana não poderia acabar assim, era simplesmente impossível, era inadmissível!
A cada cinco minutos checava se Nix estava respirando, e a cada cinco minutos agradecia por sentir o ar suave em sua respiração entre cortada.
-- Aguente firme, minha deusa da noite. -- disse depois de recuperar o controle e cessar seu choro -- Aguente f-firme.
Já estavam cavalgando há duas horas, podia sentir sua montaria à beira da exaustão, mas não lhe deu descanso. Principalmente agora que estavam tão próximos. Passaram pelos acampamentos reais com a velocidade de um raio e seguiram para as muralhas de contenção que já estavam à vista, altas e imponentes, cercando toda a Cidade Real. Sussurrou palavras calmantes e encorajadoras para Nix e a apertou ainda mais em seus braços, sentindo-a fria. Sua pele tinha aparência pegajosa e doentia, extremamente frágil desacordada daquela maneira. Sentiu seu interior se contorcer em agonia e atiçou ainda mais seu cavalo.
-- Quem vem lá? -- ouviu a voz distante de um dos guardas que patrulhava as muralhas de contenção, soando por sobre o barulho dos cascos incessantes do animal.
-- Vida longa ao rei Abenforth e sua descendência! -- gritou o mais alto que pôde.
Um conjunto de vozes respondeu em coro "vida longa ao rei Abenforth e sua descendência", e logo o grande portão de madeira foi baixado para que eles pudessem atravessar. Em dois minutos estavam no pátio da entrada do castelo na Cidade Real e Thomas mal podia acreditar naquilo. No último mês o único objetivo deles era chegar naquele lugar e, agora, a única relevância que via naquilo era encontrar um curandeiro para curar Nix. Imediatamente. Puxou as rédeas do cavalo que parou relinchando, sem dúvidas grato pelo descanso. Dois guardas reais seguiram até ele apressados, já atentos à jovem desfalecida que ele trazia nos braços.
-- Vossa graça! -- disse o mais jovem com uma reverência e estendeu os braços para segurar Nix -- Estávamos esperando notícias suas há semanas! O que houve?
-- Fomos emboscados pela Irmandade! -- explicou ao passar a mulher para os braços dele -- Ela foi envenenada, preciso de um Curandeiro Chefe aqui imediatamente! -- ordenou e recuperou o corpo adormecido de Nix que abraçou com força junto ao peito.
Seguiu à passos rápidos em direção à escadaria do castelo enquanto ouvia o jovem guarda repassar a ordem de buscar o Curandeiro. Não demorou e um outro guarda apareceu ao seu lado, acompanhando seu andar acelerado.
-- Vossa graça, assim que acomodarmos a senhorita na Casa de Misericórdia poderíamos discutir sobre sua missão e...
-- Do que está falando? -- interrompeu o homem.
-- Bem, precisamos de um relatório detalhado sobre onde esteve todo esse tempo, o que fez e...
-- Quem pensa que eu sou, soldado? -- parou seus passos apenas para encarar o homem à sua frente, que empalideceu ao ser alvo de sua ira -- Me relatarei apenas ao rei e a ninguém mais.
-- Entendo, vossa graça... -- continuou o homem, insistente, tornando à segui-lo -- Mas acontece que o rei se ausentou por alguns dias.
-- E quem comanda a Cidade Real? -- perguntou incomodado.
-- O príncipe. -- murmurou o homem, claramente desgostoso -- E ele nos orientou à procurá-lo apenas em casos de extrema necessidade. Portanto, assim que deixarmos a senhorita na Casa de Misericórdia poderíamos...
-- Ela não vai para lá de jeito nenhum! -- rugiu furioso -- Nix vai ficar comigo no castelo e eu quero o Curandeiro aqui em cinco minutos senão pode dar adeus ao seu cargo!
O homem apenas arregalou os olhos, assustado, e Thomas deu-lhe as costas para terminar de subir as escadarias. Alcançou as grandes portas de ferro que lhe foram abertas por dois guardas e adentrou o castelo.
-- Chegamos, querida. -- sussurrou no ouvido dela -- Você vai ficar bem, v-vai ficar tudo bem.
Disse aquelas palavras mais para si do que para Nix, que ainda estava imóvel em seus braços, a expressão vazia. Seguiu rapidamente até seu costumeiro quarto de hóspedes desviando de um ou outro criado curioso. Sabia que deveria estar fazendo uma entrada bem dramática sujo como estava, gritando ordens desvairadas e carregando uma mulher inconsciente banhada em sangue, mas nada além do tesouro em seus braços importava agora. Ansiava ouvir a voz dela, ver o prateado de suas íris, suas implicâncias, seu sorriso... ah, aquele sorriso que o fazia querer suspirar a cada vez que iluminavam seu rosto. Chegou ao aposento e o abriu com um chute violento na porta, entrou no quarto e a depositou delicadamente na cama. Em minutos o Curandeiro chegaria, precisavam apenas esperar um pouco. Thomas se ajoelhou no chão e apoiou o tronco na beirada da cama, segurando a mão fria dela entre as suas, tentando passar-lhe sua força e vitalidade.
-- Se eu pudesse, mataria aquela mulher de novo. -- disse em voz embargada -- Antes que ela a ferisse desse jeito. Você sempre dizia que não deveríamos nos separar, mas eu nunca imaginei... nunca pensei que... -- engoliu em seco e beijou sua mão -- Me desculpe por tê-la deixado sozinha.
Esperou ansiando por uma resposta, talvez por um milagre. Um movimento de seus olhos, um aperto leve na mão, alguma mínima reação. Nada. Se não fosse o discreto subir e descer de seu peito, ele acharia que ela já estivesse morta. Seus olhos lacrimejaram e Tom se amaldiçoou por aquilo, imaginando o que Nix faria se o visse naquele estado deplorável. Zombaria dele, sem dúvidas. Depois mandaria ele fazer algo a respeito. Beijou a mão dela de novo, a depositou sobre sua barriga e se levantou, determinado.
-- Como sempre você tem razão, minha deusa da noite. -- anunciou -- Vou buscar aquele maldito curandeiro eu mesmo.
Porém antes de dar seu terceiro passo rumo à saída a porta do aposento foi aberta violentamente, e uma verdadeira comitiva adentrou o quarto. Thomas assustou-se ao ver os cabelos dourados do príncipe atrás de uma porção de guardas reais, e os pêlos de sua nuca se eriçaram quando seus olhos encontraram o soldado que o importunou sobre o relatório de sua missão. Os guardas formaram um corredor, suas colunas empertigadas e olhares vazios, e Thomas percebeu que a atenção do príncipe estava totalmente na mulher em sua cama.
-- Meu príncipe. -- reverenciou o primo -- Imagino que houve alguma confusão. Eu solicitei um curandeiro, não pedi que importunassem Vossa alteza.
-- Sabe o que meu pai não entende, Thomas, mesmo depois de todos esses anos no trono? -- a voz dele começava a engrossar, mas ainda denunciavam a imaturidade de um jovem de quinze anos.
-- Suponho que irá me esclarecer. -- respondeu tenso.
-- Dinheiro conquista a lealdade das pessoas de maneira extremamente rápida. -- a atenção do príncipe finalmente se voltou até ele -- Fez uma longa viagem, primo. Vá descansar e deixe que eu assumo o controle a partir de agora.
Ele sentiu gelo invadir suas veias ao ouvir aquelas palavras, a ameaça que elas carregavam. Nunca foi próximo do primo mas o conhecia bem. Sabia que fora treinado praticamente desde que saiu das fraldas para assumir o reino e que odiava a Irmandade quase tanto quanto seu pai. Mas Christopher carregava uma característica que faltava no rei Abenforth: uma perspicácia militar que chegava quase a ser cruel.
-- Agradeço a sugestão, vossa alteza, mas eu não estou cansado. -- tentou dissuadi-lo com cortesias e conversa fiada -- Eu preciso do curandeiro aqui para cuidar de minha companheira, depois poderemos conversar e lhe contarei sobre minha missão.
-- Sim, primo, sua missão foi um tremendo sucesso. -- bateu uma palma teatral e se aproximou dele. Tom percebeu que o rapaz havia crescido bastante, estando quase da altura dele, mas mesmo ainda sendo mais baixo e mais jovem o príncipe era intimidador. Nunca havia percebido aquilo no primo mas imaginou que se devia ao fato de ele estar claramente representando perigo iminente à Nix -- Recebemos dezenas de súditos nos abrigos reais graças à você e, agora, uma das pessoas mais procuradas do reino.
-- Eu não entendo do que está...
-- Vamos deixar de enrolação, Thomas! -- o príncipe o calou -- Comandante Stuart, repita o que me disse.
-- Sim, alteza. -- o homem que conversou com Thomas mais cedo deu um passo à frente -- Ao questionar o duque sobre os relatórios de sua missão, e sobre onde aquela jovem seria acomodada, ele disse claramente as seguintes palavras: Nix vai ficar comigo no castelo.
O peso de seu deslize caiu sobre Thomas com força total, e ele passou a respirar com dificuldade.
-- E quantas mulheres conhecidas como Nix -- deu ênfase deliberada no nome dela -- existem em nossos registros, Comandante Stuart?
-- Apenas uma, alteza. -- disse orgulhoso de si -- Ela é o soldado mais conhecido da Irmandade das Sombras, foi criada e treinada desde a infância pelo próprio Willk.
Pense numa solução, seu imecil!, repetia em sua mente, furioso consigo mesmo, e mais temeroso pela saúde e segurança de Nix a cada segundo.
-- E em quantas coroas de ouro está a recompensa pela cabeça de Nix, soldado da Irmandade das Sombras, Stuart?
-- Cem coroas de ouro, vossa alteza. -- os olhos do homem chegaram a brilhar, iluminados pela ambição.
-- Cem coroas de ouro que você ganhou, Comandante Stuart. Bom trabalho. Peguem-na! -- ordenou o príncipe em voz alta e forte.
Imediatamente dois soldados se adiantaram para cumprir o comando, mas Thomas os impediu.
-- Espere! -- gritou, abrindo os braços, os homens ficaram hesitantes e olharam para seu príncipe que deu um leve aceno de cabeça que os fez estancarem no lugar -- Espere! M-meu príncipe, Nix desertou da Irmandade semanas atrás para salvar minha vida. Estamos fugindo há m-mais de um mês, e eu lhe garanto que ela está mais que disposta em lutar do nosso lado! Willk a enganou durante toda sua vida, mas eu abri os olhos dela para a verdade. P-por favor só... só permita que ela seja cuidada e depois poderemos todos conversar e resolver esse mal entendido.
Christopher apenas o encarou por alguns segundos, impassível. Thomas tentou decifrar a expressão dele, mas esta não lhe entregava nada. Os segundos se estenderam até que a decisão do príncipe fosse anunciada após seu pedido, torturando-o com aquela incerteza.
-- Você se afeiçoou à ela. -- disse desapontado e ele não negou a afirmação -- Não se preocupe, Thomas. Nix será cuidada. A lei exige que a morte de um traidor seja na guilhotina em praça pública, e eu respeito a lei de meus ancestrais. Peguem-na!
Mais uma vez naquele dia o coração de Thomas se despedaçou, mas agora de uma maneira muito mais catastrófica e decisiva. Os soldados tentaram seguir até Nix que dormia, alheia aos perigos que rondavam ao seu redor, mas Tom partiu para cima deles. Golpeou o mais próximo com um soco no queixo que o deixou aturdido e seguiu para o próximo mas, antes de alcançá-lo, vários pares de mãos fortes e treinadas o impediram de continuar seu ataque furioso.
-- Não! -- ele rugiu e se debateu ao ver um soldado pegá-la em seus braços, inerte -- Deixe-a! P-por favor! Christopher, não faça isso, não faça i-isso...
Uma pancada em sua nuca o silenciou imediatamente e Thomas caiu ao chão, semi desacordado. Mas ainda assim havia uma parte dele que se recusava à desistir de lutar por ela e, mesmo caído sem forças para se levantar, continuou a implorar e chamá-la.
-- Não faça isso, Christopher! -- murmurou ao vê-la ser levada porta afora para longe dele -- Nix! Por favor n-não... Nix! -- tentou se levantar mas um novo golpe na nuca, dessa vez mais forte, o impediu deixando-o totalmente atordoado.
-- O duque Thomas Longford Segundo tem uma ordem de prisão válida à partir de agora, que perdurará até que o rei decida sua sentença. -- anunciou o príncipe -- Tranquem-no aqui, quero dois guardas na porta dia e noite. -- o jovem se abaixou e lhe deu dois tapinhas no ombro, e sussurrou em seu ouvido -- Aquela mulher o enfeitiçou e mamãe ficará desapontada, primo. Apenas... apenas diga que ela é uma criminosa e a capturou para trazê-la à justiça de sua majestade. Assim tudo acabará mais rápido e, no final, ganhará uma porção de honrarias.
-- Vá... para o inferno, Christopher. -- murmurou sentindo o carpete do chão arranhar suas bochechas.
-- Resposta errada, Tom. -- disse tristemente e se levantou, deixando o quarto.
Thomas fez força para se levantar, sua cabeça latejando no ritmo das batidas de seu coração machucado. O clique da fechadura foi ouvido, anunciando sua impotência, sua estupidez, sua ingenuidade. Como pôde entregar a identidade de Nix de maneira tão tola e descuidada? Estava tão ansioso por conseguir cuidados para ela o quanto antes que disse a única coisa que não podia. Suspirou e não foi mais capaz de conter o choro entalado em seu peito. Socou o chão e gritou até a garganta doer, precisava fazer algo para diminuir aquela dor, aquela agonia. Chamou pelo príncipe, precisava convencê-lo de que estava cometendo um erro, mas as horas passaram, a noite caiu e ninguém atendeu seu pedido. Por fim, mentalmente exausto pelo esforço daquele maldito dia e pela culpa, adormeceu sentindo o sabor amargo da saudade. Saudade da mulher que amava.
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