Capítulo 32 - "Vai ser só mais uma escolha errada dentre tantas que já fiz"
Quando acordou o sol já estava alto. Sentiu o chão duro sob seu corpo rígido e sua única vontade foi adormecer novamente, mas... onde estava Thomas? Por que permitiu que ela dormisse tanto? Abriu os olhos sobressaltada e procurou o homem ao redor, encontrando-o imediatamente sentado encostado tranquilamente numa árvore, as pernas cruzadas despreocupadamente e as mãos atrás da cabeça, apoiando-a. Ele a observava atentamente, a sombra de um sorriso pairando sobre seus lábios e um par de olheiras deixavam seu olhar pesado e cansado.
-- Bom dia, bela adormecida! -- anunciou alegremente.
-- Por que não me acordou? -- disse sonolenta enquanto fazia força para se sentar -- Deveria ter dormido também.
-- Eu estou legal. -- deu de ombros -- Além do mais, você precisava descansar mais do que eu.
Franziu o cenho irritada por ser tratada com condescendência, mas permaneceu calada. Testou a perna ferida fazendo movimentos giratórios e a dor que sentiu foi bem menos excruciante do que a noite passada. Levantou as saias do maldito vestido horroroso que usava e observou o machucado. O hematoma havia reduzido depois que o sangue parado fora drenado, restando apenas aquele tom doentio que mesclava verde e amarelo. O inchaço desapareceu deixando apenas o pequeno corte como sinal de que um dia existiu, e seis pontos em linha preta ajudavam na cicatrização. Aliás, seis pontos muito bem amarrados pois mesmo com todo o esforço da fuga e luta eles se mantiveram firmes.
-- Aquele maldito curandeiro apesar de ter nos delatado, fez um bom trabalho. Mas eu preciso lavar isso para evitar uma infecção. -- disse abaixando o vestido e encarando Thomas que, percebeu, já estava com os olhos cravados nela -- Perdeu alguma coisa?
Ele demorou a responder, e seu olhar antes interessado se tornou contemplativo. Aquele quase sorriso desapareceu de seus lábios e algo faíscou em seu olhar. Um misto de irritação e... algo mais. Piscou e se levantou murmurando sim, eu perdi. Aquilo a confundiu e, por alguma razão, a incomodou. Conseguiu se levantar sem muito esforço e quando terminou de retirar as folhas presas ao seu vestido, Tom lhe estendeu um cantil.
-- Onde conseguiu água? -- perguntou ao aceitá-lo agradecidamente, e bebeu logo em seguida.
-- Ouvi um barulho logo depois que dormiu. Assim que amanheceu persegui o som e encontrei uma nascente bem ali. -- apontou para um determinado ponto alguns metros adiante -- E no caminho encontrei um pé de manga.
Nix parou de beber e o encarou surpresa pronta para lhe parabenizar pela eficiência, mas recebeu um arquear de sobrancelhas de Thomas, acompanhado de um sorriso torto.
-- Que cara é essa? -- perguntou na defensiva.
-- A cara de quem espera um agradecimento. -- seu sorriso se alargou e ele se aproximou dela -- Afinal, pela primeira vez não fui um inútil.
-- Você nunca foi inútil, Thomas. -- sussurrou sincera, olhando-o nos olhos, tentando fazê-lo acreditar naquilo de uma vez por todas -- Nunca mesmo.
-- Por que me impediu de matá-lo? -- perguntou soando amargurado.
Num primeiro momento não quis respondê-lo, não quis mostrar aquela parte dela que se preocupava com ele. Que se preocupava não só com sua segurança física, mas também com a emocional e com sua alma que deveria permanecer sem aquela mancha irreversível. Sabia que tal atitude dizia muito sobre ela e preferiria manter aquilo escondido, pelo menos até descobrir o significado daquela inquietação que a afligia. Mas ao notar a ansiedade naquele olhar castanho dourado já tão familiar, não foi capaz de evitar respondê-lo.
-- Ramsei era o braço direito de Willk quando iniciei meus treinamentos. Ele me conheceu desde sempre e sabia... -- suspirou -- sabia as dificuldades que tive nas primeiras missões. O que ele disse era verdade, Thomas. Eu não quero que suje suas mãos.
O olhar aflito dele se acalmou e se tornou quente, carinhoso. Tom se aproximou ainda mais e tomou sua mão num aperto suave.
-- Estamos em guerra. Talvez chegará o dia que eu precise sujá-las. E agora, com as lições que me deu, com o quanto me envolvi nisso tudo, eu preciso ser mais ativo e fazer a minha parte.
-- Você consegue se defender, Thomas, e quero que o faça se um dia for necessário. Mas você não é um soldado e nunca será. -- apertou a mão dele inconscientemente -- Eu sou. Então só... só deixe esse fardo comigo.
A resposta dele foi entrelaçar seus dedos nos dela. Então levou sua mão até os lábios e beijou a pele fina da parte interna do pulso. A barba que começava a crescer a arranhou no contato, causando arrepios que reverberaram por todo seu corpo, fazendo-a contorser os dedos dos pés dentro do calçado de veludo. Apesar de saber que deveria se afastar, ela não quis. Sua vontade era a de exterminar o pouco espaço restante entre eles e abraçá-lo como fez horas atrás. Era deslizar suas mãos pelos seus cabelos rebeldes e volumosos que desciam abaixo dos ombros. Era de sentir seu sabor mais uma vez, seu calor, ouvir sua voz rouca de desejo ressoando dentro dela. E então, ela cedeu. Aproximou-se dele tão lentamente que o momento pareceu ser eterno, mesmo que houvesse durado apenas um instante. E quando seus lábios estavam prestes a roçarem um no outro, ansiosos, um som estrondoso fez estremecer o chão fazendo-os se afastarem assustados.
-- Precisamos ir, Thomas. -- anunciou Nix atordoada, não pelo susto que o trovão lhe causou, mas pela decepção que invadiu seu peito ao se afastar do corpo dele.
Tom pareceu igualmente aturdido, apenas acenou com a cabeça e lhe estendeu duas mangas em silêncio. Depois seguiu até os cavalos e acariciou um animal enquanto a esperava. Nix suspirou e seguiu até sua montaria, e não demorou a partirem. A única conversa durante as primeiras horas de cavalgada foi Thomas informando-a que tratou dos cavalos enquanto ela dormia, e sua genial resposta foi um "ótimo" dito em voz baixa. Os trovões estavam ficando cada vez mais altos, o que significava que a tempestade estava chegando e que deveriam encontrar abrigo se quisessem evitar uma pneumonia. Então ela fez uma pequena mudança no trajeto que os levaria à uma área mais montanhosa e menos arborizada da Floresta do Tesouro. Depois que o sol atingiu seu ápice, ou pelo menos ela achava já que a estrela estava encoberta por densas nuvens carregadas de chuva, ela comeu suas duas mangas deliciosamente doces. Thomas comeu apenas uma, afirmando que havia comido sua outra manga ainda durante a madrugada. E essa foi a segunda conversa deles.
A chuva chegou e eles ainda não haviam encontrado um lugar protegido. Os pingos contínuos começaram a encharcar suas roupas e não demorou para que começassem a bater os queixos, gelados até os ossos. Os cavalos começaram a reclamar, relinchando e recusando os comandos das rédeas, o que tornou a jornada ainda mais lenta e difícil. Horas depois ela desconfiava que o pôr do sol estivesse próximo, mas finalmente avistaram um conjunto de cavernas aos pés de uma montanha rochosa. Nix bateu com os calcanhares em sua montaria estimulando-a a acelerar o galope e Thomas a acompanhou de perto, logo alcançaram o abrigo e se apressaram para dentro do que parecia um conjunto de cavernas interligadas. Prenderam as rédeas numa rocha tão alta quanto a cintura dela e seguiram para mais fundo, encontrando uma cripta menor do que a anterior, mas tão fria quanto.
-- Temos que acender uma fogueira. -- disse Thomas enquanto olhava ao redor, procurando algo mesmo com a luz precária.
-- O que sugere usar para alimentar o fogo? -- ela ironizou -- Nem mesmo nós somos inflamáveis aqui, de tão molhados que estamos!
Olhou ao redor buscando algo que poderia contradizê-la, um pequeno amontoado de galhos secos seria o suficiente, mas encontrou somente pedras. Aquela caverna era completamente estéril e não havia nada que poderiam usar para se aquecerem.
-- Temos que tirar essas roupas molhadas, Nix. -- anunciou já puxando a blusa de dentro da calça.
Isso lhe chamou a atenção, não o movimento de Thomas se despindo, mas o que ele disse. Ela jamais iria...
-- Eu não vou ficar nua aqui! -- praticamente gritou.
-- Então use sua combinação de baixo -- disse enquanto tirava a camisa -- Temos que deixar essas roupas secarem e...
-- Eu não estou usando roupas de baixo, Thomas! -- o interrompeu, irritada -- Faça o que quiser, mas eu vou ficar vestida, obrigada.
A convicção de sua decisão perdeu o impacto com a demora do olhar de Nix sobre o corpo de Thomas. Ele havia perdido peso e com os exercícios das últimas semanas seu abdômen começava a ficar definido, seus pêlos negros desciam escassos pelo tronco e seguiam para baixo até serem ocultados pela calça que ele começava a desabotoar. Nix sentiu a boca seca e tentou - realmente tentou - olhar para o lado, mas não foi capaz.
-- Curiosa? -- perguntou em voz sugestiva.
Ela levantou o olhar até o rosto dele e viu aquele meio sorriso que a atormentava há mais de um mês.
-- Não sei do que está falando. -- desconversou cruzando os braços, mantendo o olhar fixo nos olhos dele.
-- Sabe sim, mas vou deixar passar essa. -- mais um botão da calça foi aberto, não que ela estivesse prestando atenção -- Você realmente precisa tirar essa roupa molhada ou vai ficar doente, Nix.
-- Eu vou arriscar. -- mais um botão, no próximo as calças dele iriam descer ao chão e... sacudiu a cabeça espantando o pensamento. Virou-se de costas para dar-lhe privacidade e limpar a mente quando a voz de Thomas soou baixa e grave.
-- Covarde. -- a acusou.
Sentiu as costas ficarem rígidas imediatamente e não levou nem um segundo para que tornasse a encará-lo, furiosa.
-- O que você disse? -- rosnou, o desafiando a repetir aquela palavra.
-- Oh, não ouviu direito? -- sorriu sarcástico -- Eu disse que você é uma covarde. Uma maldita covarde que...
-- Cale a boca! -- gritou tentando calá-lo mas ele prosseguiu.
-- ... tem medo do que sente e não é capaz de enfrentar...
-- Thomas, eu estou te avisando para calar a boca!
--... os próprios sentimentos com medo do que vai encontrar. Por que se sabota tanto, Nix? Se não quer ser um monstro, então haja como um ser humano normal!
-- Thomas, só pare...
-- Quando você chorou noite passada, eu senti esperança. Pensei que finalmente iria se abrir para a vida, para a dor e felicidades que vem com a imprevisibilidade dela. Que enfrentaria seus sentimentos bons e ruins, mas você dá um passo para frente e dois para trás! -- parou abruptamente, sua última palavra pairando no ar com um eco, e logo o silêncio na caverna se tornou ensurdecedor -- Se quiser arriscar ficar doente, então ótimo. Vai ser só mais uma escolha errada dentre tantas que você já fez.
Ele cruzou os braços e ficou apenas a encarando, sério e exalando raiva em sua postura tensa. E Nix... ela sentia o coração batendo forte espancando suas costelas, sentia o sangue vibrando em suas veias, sentia a respiração acelerada e sentia que sua vida acabava de ser dividida em duas: havia o antes daquele momento, e agora haveria o depois.
-- Não vai dizer nada? -- perguntou num sussurro cansado.
-- Vai ser só mais uma escolha errada -- sussurrou ao dar o primeiro passo -- dentre tantas que já fiz.
Nix correu até Thomas e se jogou em seus braços fortes que a abraçaram no mesmo instante, puxando-a, prendendo-a ao corpo quente dele. Suas bocas logo estavam coladas, suas línguas entrelaçadas e as mãos dela passeavam livremente pelos cabelos dele, extasiadas com o toque macio. Thomas a beijava com selvageria, com fome e desejo e mais, muito mais... E Nix correspondia na mesma intensidade, totalmente entregue aos próprios desejos depois de tantas semanas lutando arduamente contra eles. Aquelas mãos grandes deslizaram pelo seu corpo até suas nádegas e a puxaram contra a masculinidade dele que já deixava clara sua excitação. Ela apoiou as mãos em seus ombros fortes e deu um impulso para cima, entrelaçando suas pernas na cintura dele. Thomas reagiu de imediato e a segurou pelas coxas, soltando um suspiro de satisfação que revirou suas entranhas, e a posição favoreceu para que aprofundassem ainda mais o beijo. Nix separou os lábios dos dele de maneira abrupta, mas apenas para levá-los ao seu pescoço entre beijos e lambidas, provando seu sabor misturado ao da chuva. Sentiu-se inebriada, sentiu-se queimar de dentro para fora a partir de um ponto específico. Rebolou os quadris na intenção de senti-lo naquele lugar tão íntimo e latejante que implorava ser tocado por ele. A reação de Thomas foi violenta e quando deu por si, Nix estava prensada entre seu corpo e a parede da caverna.
-- Pare com isso... -- ele pediu em voz rouca entre um beijo e outro.
-- Parar com o quê? -- perguntou inocentemente e rebolou de novo -- Com isso?
Thomas deixou escapar um som baixo, meio gemido meio rosnado e colou ainda mais seu corpo ao dela. Se beijaram com ânimo renovado até que ele decidiu levar seus beijos aos seios dela. Ele desceu lentamente, primeiro a lambendo em toda a extensão do pescoço seguindo até o decote do vestido vagarosamente e, quando ela achou que Tom lhe arrancaria a roupa, ele parou.
-- Eu não p-posso deflorá-la numa caverna, Nix. -- disse abatido, os olhos brilhando em lascívia na penumbra do crepúsculo.
-- Deixe de ser idiota, Thomas! -- ela rugiu, furiosa por ele ter parado -- Você realmente não vai...
-- Não é certo e você merece mais do que isso! -- a interrompeu -- Então é melhor pararmos por aqui por que senão... eu n-não poderei... -- desceu seu olhar sobre os seios dela e apertou ainda mais a pegada em suas coxas -- Maldita mulher! Você vai ser minha perdição, Nix.
Thomas a soltou e Nix só não caiu de bunda no chão devido aos seus reflexos rápidos. A situação inesperada somada às feições torturadas dele, que passava as mãos nos cabelos enquanto murmurava "estou fazendo a coisa certa", mandou a irritação dela para longe, deixando apenas diversão no lugar. Ela adoraria fazê-lo sofrer ainda mais, mas ela precisava do corpo dele junto ao seu. E precisava com urgência.
-- Você não vai me deflorar, Thomas. -- ela sorriu e cruzou os braços, encarando-o -- Eu não sou mais uma donzela inocente.
A compreensão de suas palavras trouxe uma escuridão aos olhos dele, nublando suas nuances douradas . Não de raiva por ela não ser mais virgem, mas de puro desejo incontrolável. Ele se aproximou o máximo possível sem de fato tocar no corpo dela e apenas sua temperatura e a visão de seu tronco nu a deixaram ardendo em chamas.
-- Eu lhe dou cinco segundos para interromper isso agora. -- disse sério, contido -- Se não...
-- Não vou interromper nada. -- recusou sua oferta -- Eu o quero. Agora. Dentro de mim. Rápido e forte e...
Ele a puxou para seus braços bruscamente e juntou seus lábios aos dela num beijo doloroso e extasiante.
-- Então se prepare, Nix. -- anunciou entre uma mordida e outra, desceu a mão até seu centro e a invadiu com dois dedos fazendo-a arfar e arquear as costas implorando por mais -- Vou marcá-la esta noite.
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