Capítulo 3 - "Criaturinha traiçoeira"
Nix demorou apenas um dia para encontrá-lo.
O duque de Longford não tinha o talento de passar despercebido, e isso não se devia apenas pela sua aparência. Ele poderia ser considerado belo e atraente, com sua altura de quase um metro e oitenta e seus cabelos castanhos que desciam em ondas desgrenhadas chegando aos seus ombros, ou seu olhar de um marrom tão claro que pareciam quase dourados na luz do sol ou de muitas velas. O que chamava atenção era seu comportamento estúpido: o homem falava alto, e gargalhava mais alto ainda. Andava pela vila como se fosse o dono do lugar e, na taverna Juba de Leão, pagava bebidas a todos os bêbados e se embebedava alegremente junto deles, atraindo toda a atenção para si. Por Deus, o homem era praticamente um alvo ambulante! Nix não sabia como ainda não havia sido assaltado naquelas vielas escuras. Entretanto ela deveria lhe dar créditos por pelo menos tentar se disfarçar, mesmo que de forma medíocre: uma calça de linho velha e desbotada com alguns remendos e um casaco de couro marrom um tanto desgastado. Um olhar menos atento, menos avaliativo, o desconsideraria imediatamente, ainda mais ao perceber seu comportamento extrovertido e leviano, tão incomum em alguém de sua posição. Mas ela sabia o que procurar, e onde procurar e logo percebeu os detalhes da riqueza nele: o forro do casaco de seda tingida, uma corrente de ouro que despontava às vezes quando ele inclinava demais o pescoço para trás numa de suas estrondosas gargalhadas, ou a bota que brilhava mais do que deveria, lustrada à perfeição mesmo em meio a poeira daquela vila esquecida.
Ainda que tivesse absoluta certeza de estar certa quanto à identidade do duque misterioso, Nix estava em uma missão que não lhe dava espaço para erros. Se levasse o homem errado para Willk, seria ela a receber a ira dele na ponta de sua espada, então deveria se aproximar dele de alguma maneira. Essa tarefa também foi fácil demais pois a atendente da tarverna estava ansiosa por alguns momentos de descanso e, com a mentira de que estava atrás de um trabalho e que aquela uma hora seria seu teste, o dono permitiu que ela ali trabalhasse. Nix o observava há horas mas, ao conhecê-lo, percebeu que o homem não era exatamente o que esperava. Thomas Longford mostrava-se extremamente à vontade em meio aqueles camponeses embriagados, tomava com gosto aquela cerveja preta aguada e conversou com ela cheio de interesse, e pior, até a convidou para seus aposentos, mesmo sendo ela uma "simples atendente de taverna". Mas, além disso, o que mais a surpreendeu não foram as moedas de ouro que ele lhe deu de tão boa vontade. Foi a completa insensatez de ter se revelado tão facilmente para uma completa estranha.
Enquanto o esperava com a adaga em mãos, escondida nas sombras da entrada da única estalagem da vila, Nix dizia a si mesma que o duque era descuidado demais e, se nao fosse Willk, algum outro acabaria por matá-lo. Então que aquilo fosse feito logo, antes que o homem prejudicasse ainda mais a Irmandade das Sombras, que lutava há anos para libertar o reino das garras do tirano rei Abenforth. A mulher começou a se agitar ao notar que o nascer do sol aconteceria em menos de duas horas, quando ouviu uma melodia ser assoviada. Logo passos arrastados e desgovernados também foram ouvidos junto de uma risada baixa que a irritou. Homem imprudente e estúpido! Estava tornando aquilo tudo fácil demais e ela estava detestando cada segundo. Thomas apareceu em seu campo de visão e subiu os poucos degraus da entrada de forma cambaleante e quando sua grande mão tocou a porta da entrada, ela agiu.
Rápida e veloz, Nix jogou seu corpo contra o dele usando toda a força de seus músculos e pressionou a adaga em seu pescoço no exato lugar onde sua artéria pulsava. O cheiro pungente de todo o álcool que ele consumiu naquela noite invadiu suas narinas, mas tal aroma foi absorvido por uma parte mais distante de sua mente, já que a mulher estava agora focada em segurar firmemente aquele homem que era pelo menos dez centímetros mais alto que ela.
-- Faça um movimento e vou decorar o chão da estalagem com seu sangue. -- disse em seu ouvido.
-- Bo-bolso esquerdo! -- respondeu Thomas em voz abafada e trêmula.
Tudo o que Nix pensou é que aquele maldito homem estava ainda mais bêbado do que ela imaginou.
-- O quê? -- não se conteve em perguntar.
-- O-o dinheiro. -- suspirou profundamente -- Está no bolso esquerdo. Pode levar.
-- Eu não quero o seu dinheiro, meu lorde. -- sussurrou -- Só a sua vida.
Levou apenas dois segundos para que visse a compreensão arregalar aqueles olhos castanhos e anuviados quando ele a reconheceu. Porém quando Thomas reagiu, a empurrando com força surpreendente, ele fez exatamente o que Nix queria: virou-se de frente para ela na intenção de confrontá-la. Um grande erro, pois com seus reflexos lentos devido a bebida, ele nem sequer viu o soco que ela já estava preparando e logo o barulho da queda de um homem de noventa quilos, que sempre era gratificante aos ouvidos de Nix, irrompeu o silêncio da madrugada.
-- Sua... criaturinha traiçoeira. -- resmungou de forma quase inaudivel.
Sim. Ela era.
Thomas não sabia exatamente o que o acordou, já que poderiam ter sido inúmeros fatores. Mas ele suspeitou que tenha sido o sacolejar da carroça coberta em que estava deitado. Jogado, na verdade, parecia uma forma mais adequada de dizer. Ou então a dor latejante que lhe turvava a visão, que nada tinha a ver com a ressaca que também o afligia, mas que se devia à um bem dado golpe que recebeu na nuca, cortesia de sua raptora.
A atendente. Memórias da noite passada pipocaram em sua mente e ele apressou-se a localizar a mulher que o capturou, a encontrando não muito distante sentada na frente da carroça com as rédeas em mãos, guiando o único cavalo que os puxava lentamente. O veículo era adaptado com um suporte de madeira e coberto com uma lona grossa e negra, ele notou, claramente criado para ocultar seu conteúdo. A única forma de entrar ou sair era pela frente, lugar ocupado e guardado pela misteriosa mulher, o que dificultava as coisas. Como se ele sequer pudesse fugir, preso como estava. Seus pés e joelhos estavam amarrados com tanta força que ele podia jurar que a circulação de seu sangue estava para ser interrompida. Seus pulsos não pareciam muito melhores e até mesmo a mordaça em sua boca o feria. De repente a realidade da situação o sobrepujou e o ar faltou em seus pulmões. Se mexeu e tentou falar mas tudo o que saiu foram ganidos desconexos e a única reação da mulher, que claramente não era uma atendente de taverna, foi um tensionar em suas costas. Tentou novamente e ela continuou a ignorá-lo. Se mexeu esforçando-se para se levantar, na esperança de conseguir diminuir o aperto que aumentava em seu peito e, com muito custo, conseguiu uma posição - meio sentado, meio escorado - um pouco melhor. Menos miserável, ao menos. Continuou a tentar chamar a atenção dela, gritou e resmungou e gemeu. Nada. Então começou a bater os pés e pulsos no chão da carroça, enquanto ainda se forçava a gritar, já sentindo um arranhar na garganta, de dor misturado com sede. Por fim, no que pareceu pelo menos uma hora depois, ele percebeu que a velocidade diminuiu. A mulher se virou para ele fitando-o diretamente nos olhos e ela era extamente como ele se lembrava. Só que, de alguma forma, não era. Suas graciosas feições, que na noite passada eram amigáveis e sorriram para ele, agora eram distorcidas por ira e uma escuridão sombria nublavam seus olhos cinza, como um aviso da tempestade que nela continha.
-- Pare. -- ela disse ameaçadora, e virou-se, novamente, na intenção de voltar a ignorá-lo.
Cansado e sem fôlego, Thomas apenas bate os pés e pulsos e, dessa vez, a carroça parou completamente. Furiosa, a mulher se levanta e segue até ele com uma faca longa e fina em mãos. O brilho do aço o silencia imediatamente e, maldita seja, ela percebe o medo dele e sorri. Um sorriso nada belo.
-- Bom saber que você tem pelo menos algum bom senso.
Ela se acomoda em sua frente, um joelho no chão e outro dobrado, onde ela apoioa o braço distraidamente. Tom percebe que desde que a viu na Juba de Leão ela mudou suas roupas. Agora veste calças de lã, escandalosamente justas, uma camisa branca e uma longa capa tão negra quanto seus cabelos bagunçados pelo vento. Animado pelo progresso ele resmunga novamente e aponta, com as duas mãos amarradas, para sua própria boca e aguarda. Ele vê a indecisão nos olhos dela e também vê quando a decisão é tomada. A mulher estica o braço e desliza a ponta da faca em seu rosto, da têmpora até a base de seu pescoço. Lentamente. Quase carinhosamente. O frio da lâmina faz o coração de Thomas disparar mas ele se recusa a desviar seu olhar.
-- Não faça eu me arrepender disso. -- avisou em voz baixa -- Entendeu?
Imediatamente o homem concorda, acenando afirmativamente com a cabeça. Ela, finalmente, guarda sua faca. Depois se aproxima dele e puxa uma ponta da mordaça, desfazendo a amarra e o libertando. Por alguns momentos tudo o que Tom faz é respirar. E respirar e respirar.
-- Você está levando muito ar aos pulmões, sabia? Vai acabar desmaiando como uma garotinha afetada. -- ela informa e dá de ombros.
-- Esta é a primeira vez que sou raptado, senhorita. Eu não conheço as re-regras.
-- Só há uma regra, meu senhor. -- ela se inclina um pouco na direção dele e sussurra -- Silêncio.
A conversa, mesmo estranha e sem sentido, o ajuda a se acalmar um pouco e em poucos segundos não está mais ofegante.
-- Se não tivesse me a-amarrado feito um porco para o abate e-eu não teria guinchado como um na última hora. -- acusou -- O que pe-pensa estar fazendo? Se p-pretende pedir um resgate então vamos aos negócios logo pois, adivinhe, sou eu quem irá pagá-lo.
A mulher franze as sobrancelhas arqueadas e seu olhar avaliativo passa por cada centímetro de seu rosto, se detendo um segundo a mais em seu olho esquerdo que está extremamente inchado e, certamente, com um hematoma o colorindo.
-- Você realmente não entendeu o que está acontecendo, não é? -- ela diz soando quase... triste?
-- Entendi o quê? -- pergunta confuso e uma desconfiança aponta em seu peito.
A mulher suspira e se senta, cruzando as pernas, totalmente desinibida. Aquela vestimenta inadequada deve ser totalmente comum à ela. De seu cinto ela retira um pequeno cantil que oferece à ele, que o toma de suas mãos com relutância, porém não bebe o líquido ali contido.
-- Eu sou um soldado, senhor Thomas Longford. Sou um membro da Irmandade das Sombras. -- ela diz firme, sem desviar seu olhar do dele, nem sequer piscar -- E você é minha missão.
Sua terrível suspeita se confirma e um zunido invade sua audição, agudo e parecendo interminável. Enquanto continua a encarando, duas certezas se concretizam dentro dele. Primeira: Thomas serviu ao seu Rei e reino bem demais. Segunda: ele era um homem morto.
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