Capítulo 29 - "Você sabe quem sou"

Ela não pregou o olho durante o resto da noite. Depois que se deitou fechou os olhos e fingiu adormecer, mas na verdade sua intenção era esconder as lágrimas que os umedeciam, insistentes, e levou algumas horas para que conseguisse controlar a vontade de derramá-las. Talvez se sentisse melhor se extravazasse seus sentimentos num daqueles choros violentos que fazem estremecer o corpo, mas Nix não queria se sentir melhor. Queria sentir dor. Queria sentir o remorso e a vergonha, pois se não sentisse isso, não lhe restaria nada. Vazia. Ela estaria vazia sem o remorso ou o ódio que a consumiam, mas que também a impulsionavam a continuar em frente.

     Depois de alguns minutos sentiu Thomas se deitar, mas permaneceu imóvel. Ele era sempre tão pacífico e zombeteiro que seu ataque a pegou de surpresa. E a feriu como nada no mundo poderia feri-la. Principalmente porque veio dele, a única pessoa que ela poderia pensar em considerar um amigo. Mas ele não era e, afinal, por que haveria de ser? Nix era uma criatura desprezível e o melhor para ele seria mantê-la longe. Sempre soube que teria uma vida solitária mas desde que deixou a Fortaleza aquilo a atingiu com força pois, agora, não tinha mais ninguém. E quando Thomas a deixasse quando chegassem na Cidade Real, levaria uma pedacinho dela. Assim como seu pai levou, e sua mãe antes dele. Já não havia muito de Nix para levar, mas ela daria de bom grado o pouco restante à alguém que ficasse. Mesmo que ela fosse vil e suas mãos estivessem manchadas de sangue inocente. Um aperto ferrenho se fechou em volta de seu coração e, na escuridão de sua mente, viu dezenas de olhos encarando-a. Pretos, azuis, castanhos e verdes. Todos acusatórios. Me desculpem, pedia continuamente a cada um deles, ele me enganou e eu... eu também já fui inocente um dia.

     E ela fora. E sua inocência foi o começo de sua ruína. Willk lhe contou mentiras tão bem feitas, tão perfeitamente articuladas que nunca sequer cogitou a possibilidade de ele a estar enganando. Desde que a tirou das ruas da Cidade do Lírio Azul, trêmula e assustada e faminta ele lhe contava uma história fantasiosa sobre ser o verdadeiro herdeiro do trono, que lhe foi usurpado por Abenforth. Lhe disse que todo o reino passava fome e ainda a levou em inúmeras visitas à vilas e cidades destruídas, que agora sabia serem os lugares onde os próprios Irmãos haviam saqueado e roubado da população. Como ela poderia saber? Como poderia pensar mal da única pessoa que a ajudou? Que a viu desnutrida e imunda e, simplesmente, apanhou sua mão e a levou para casa? A deu abrigo, alimento, treinamento e a ilusão de uma família? A resposta é nunca. Sem a intervenção de Thomas, Nix jamais tiraria a venda que havia sobre seus olhos, sequer jamais perceberia que ela existia. E o pior era que uma partezinha maligna dela queria voltar à ignorância. Desejava desconhecer a verdade e permanecer onde havia passado os últimos doze anos, na segurança da proteção de seu mestre e na companhia de seus Irmãos. Suspirou frustrada pois, mesmo que o odiasse agora, ainda lhe era grata. Sem Willk o destino dela seria se tornar uma meretriz, isso caso sobrevivesse até sangrar pela primeira vez. Mas com as habilidades que ele a havia ensinado, somados às informações que possuía, ela era uma arma. Um trunfo agora na mão do reino.

     Uma arma. Um trunfo. Nunca uma pessoa com sangue nas veias, com memórias, sentimentos e sonhos. Riu internamente. Que sonhos ela tinha, afinal? Uma refeição e abrigo decentes não podem ser considerados sonhos. Uma meta sim, mas não um sonho. Decidiu deixar o ceticismo de lado e pensar mais profundamente no assunto. Nix queria ir embora quando toda essa merda acabasse. Exigiria uma recompensa ao rei e embarcaria no navio que viajaria o mais distante possível, sem importar o destino. Seria isso um sonho? Partir e começar uma nova vida num lugar seguro e sem tantas lembranças sombrias? Não, concluiu, isso era um plano. Então subitamente viu-se novamente naquela janela, apertando sua bonequinha de pano, olhando ansiosa para seu pai. Num momento fantasioso imaginou ele indo ao seu encontro, ao invés de se afastar, carregando no rosto um sorriso cheio de amor e saudade. Afastou, rancorosa, tal imagem impossível da mente e pensou se o homem estaria vivo, se pensava nela, ou mesmo se sequer se lembrava de que certa vez teve uma filha. Ainda seria tão ocupado e indisponível quando antes? A teria substituído por outros filhos? A cada vez que fazia essas perguntas uma rachadura antiga em seu coração se abria um pouco mais, rasgando-a de dentro para fora. Percebeu o real sonho que tinha, talvez o único: reencontrá-lo. Olhar diretamente para seu rosto, para seus olhos acizentados tão iguais aos dela, e perguntar-lhe por que a abandonou. Se valeu a pena. Se deixá-la para trás o fez feliz. Dizer-lhe o quanto aquilo a destroçou sem chance de cura.

     Foi pensando em tudo o que diria ao pai caso o visse novamente que adormeceu.

     Thomas teve um sono agitado, repleto de sonhos onde se via constantemente só. Era estranha aquela sensação, ainda mais depois de ter passado um mês inteiro na companhia de Nix. Mas apenas um sonho permaneceu em sua memória sobrepujando os demais: Nix correndo ao longe, usando um vestido branco que esvoaçava ao vento junto de seus cabelos negros. Seus pés descalços estavam ligeiramente sujos pela terra e grama da planície verde onde pisava, fugindo dele. Mesmo que a chamasse e perseguisse, nunca a alcançou e em determinado momento ela desapareceu, inalcansável. Foi com essa sensação de abandono que despertou, instintivamente procurando-a pelo quarto e, quando não a encontrou, um buraco abriu-se em seu peito com a apreensão e medo que o invadiram. Teria aquele sonho sido um aviso de que ela realmente o deixou?

     Seu coração se apertou ainda mais ao recordar-se da briga da noite anterior. Sobre sua descoberta à respeito dos próprios sentimentos por Nix, preferiu não pensar. Levantou-se abruptamente e saiu porta afora, decidido a encontrá-la. Precisava lhe pedir desculpas pelas acusações insensíveis que desferiu com tanta raiva e, se ela quisesse deixá-lo depois disso, então tudo bem. Sentiu o coração acelerar enquanto descia as escadas, as batidas já frenéticas só ao pensar na idéia de perdê-la. Como diabos isso foi acontecer, se perguntou ao chegar no salão da taverna que estava vazia, e se encaminhou até a saída, como algo tão insano pôde terminar em paixão e amor e carinho?  Bufou, irado consigo mesmo. Estava furioso por ter cometido a tolice de se apaixonar e pela estupidez de atacá-la tão cruelmente. Afinal mesmo sendo culpada de vários crimes, Nix ainda era inocente. Seria possível uma pessoa ser tão ambígua? Ser boa e má? Thomas sabia que sim. E uma parte mais profunda e mais honesta dele sabia que isso não mais era relevante, pois Nix havia decidido se tornar uma pessoa melhor e estava agora fazendo a coisa certa. E isso era o importante.

     Atravessou as portas em vai-e-vem com a força de um touro enfurecido e olhou de um lado ao outro procurando algum relance de cabelos negros ou mesmo o alaranjado outonal do vestido que ela usava. Nada. Ainda era cedo então a movimentação na Vila do Tombo estava apenas começando. Alguns transeuntes passavam com aparência sonolenta enquanto seguiam para seus afazeres do dia, completamente alheios ao homem ali parado soltando fogo pelas ventas. Se Thomas estivesse fugindo, o que ele realmente estava há cerca de um mês, recorreria ao caminho mais discreto possível. Então partiu decidido aos fundos da estalagem e surpreendeu-se ao encontrá-la escorada despreocupadamente numa árvore próxima, conversando com a filha do estalajadeiro. A menina carregava alguns papeis na mão, com as bochechas rosadas denunciando certa timidez. Nix também segurava um papel e o analisava minuciosamente, as sobrancelhas franzinhas em concentração. A luz do sol da manhã tão pura e cristalina, atravessava as folhagens da árvore e iluminavam seu rosto contornado pelos longos fios revoltos, tornando-a quase etérea. As costas de Nix se enrijeceram ao perceber sua aproximação e num segundo virou seu rosto para ele. Uma única luz iluminou seu olho esquerdo transformando o cinza em prateado e se já não estivesse tão ridiculamente apaixonado, Thomas o teria feito naquele instante.

     Com esse pensamento um sorriso curvou seus lábios e, ao notá-lo, Nix arqueou uma sobrancelha em desafio.

-- Não deveria estar repousando, querida? -- perguntou animado.

-- Já repousei o suficiente, querido. -- disse em voz excessivamente doce, dando ênfase na última palavra -- Decidi testar minha perna ao nascer do sol e encontrei a doce Meggi aqui, que fez a gentileza de me fazer companhia e me mostrar seus desenhos.

     Estendeu a folha que segurava para ele que a apanhou, percebendo as bochechas coradas de Meggi ficarem ainda mais rubras. Observou o papel imaginando que ali haviam apenas traços mal feitos e desconexos, mas encontrou um belíssimo desenho de Nix. Seu rosto estava ligeiramente levantado para o alto, seu olhar distante e perdido talvez imerso em pensamentos, e seus cabelos pareciam criar vida, açoitados por algum vendaval imaginário, eles se agitavam ao seu redor. Levou os olhos novamente até a menina, que olhava para os próprios pés. 

-- A senhorita tem um talento e tanto. -- elogiou verdadeiramente admirado.

     Maggi levantou os olhos do chão e o encarou, encantada.

-- O senhor acha mesmo?

-- É claro! Já conheci mais artistas do que sou capaz de lembrar e vi poucas vezes um talento como o seu! Tenho certeza de que seria muito apreciada na Cidade Real, onde encontraria trabalho facilmente e... -- percebeu uma expressão de choque no rosto da menina -- O que foi?

-- Nós não podemos dizer isso aqui. Não podemos nem pensar em... em...

-- No quê? -- perguntou, ansioso.

-- No rei. -- disse Nix, sombria -- E qualquer coisa que tenha a ver com ele. Esta vila é refém da Irmandade e o preço da segurança deles é lealdade incondicional. Se Maggi demonstrar interesse em ir para a Cidade Real, seria considerado uma afronta e ela e toda a família sofreriam retaliações.

     Uma onda de cólera apertou seu peito, ódio da Irmandade que não via limites para suas maldades e pena da garota que não teria a chance de partir em busca de seus sonhos. Pelo menos não enquanto a guerra continuar.

-- Como a senhora sabe de tudo isso? -- questionou a menina desconfiada -- Só os moradores sabem sobre a Irmandade.

     Nix não respondeu de imediato, ficou apenas encarando a menina e Thomas podia perceber as engrenagens do cérebro dela girando em busca do que fazer. Quando achou que ela não responderia, a mulher falou a única coisa que ele jamais pensou que fosse sair de seus lábios.

-- Você sabe quem eu sou. -- cruzou os braços e endireitou a postura tornando-se impassível.

-- Eu... eu... -- a garota começou a retorcer as mãos no vestido, nervosa -- Não sei do que...

-- Seu pai é muito idiota para perceber e sua mãe muito ocupada para prestar atenção. Mas você, Maggi... eu percebi que me reconheceu assim que colocou os olhos em mim.

     Os lábios da garota começaram a tremer e o homem imaginou que logo começaria a chorar. Já fora o alvo daquele olhar intimidador de Nix e sabia muito bem como poderia ser enervante.

-- Eu não a reconheci de imediato. -- falou baixinho, quase inaudível -- Foi só quando preparei o banho para vocês que me lembrei da vez que esteve aqui.

     Nix acenou afirmativamente e seu olhar se suavizou um pouco.

-- Em quanto está a recompensa pelas nossas cabeças? -- perguntou.

-- Cem moedas de ouro. -- finalmente a menina levantou o rosto e alternou o olhar entre os dois -- Por cada um.

-- Que afronta! -- resmungou Nix -- Doze anos de serviço e eu valho apenas cem míseras moedas de ouro. Willk não cansa de me humilhar, aparentemente. -- suspirou frustrada -- Enfim... você tem duzentas moedas de ouro aqui, Maggi. O que fará a respeito?

     Maggi arregalou os olhos que começaram a ficar marejados. Thomas começou a se apiedar dela mas manteve silêncio, sabendo que certamente Nix tinha um propósito que logo viria à tona.

-- Eu nunca... eu jamais a denunciaria! -- disse com a voz firme pela primeira vez -- Eu me lembro o que fez por mim.

-- Você não me deve nada, Maggi. -- garantiu -- Mas você ainda não respondeu minha pergunta.

     A menina pensou por apenas três segundos, levantou os ombros e endureceu a coluna.

-- O que precisa que eu faça? -- perguntou decidida.

     Um sorriso se espalhou pelo rosto de Nix e um brilho de orgulho lampejou em seus olhos.

-- Precisamos de um cavalo. Temos que partir depois da refeição da manhã. Consegue nos providenciar um?

-- Sim, eu consigo, mas...

-- Nos encontre nos fundos dos estábulos em duas horas. -- a interrompeu -- Com o cavalo que viemos e o que vai nos arrumar já preparados. E traga somente o indispensável numa mala discreta.

     Maggi demorou alguns segundos para compreender as palavras de Nix, tão atordoada quanto Thomas, mas quando o fez pulou sobre ela num abraço apertado.

-- Obrigada! -- agradeceu em voz trêmula -- Obrigada, obrigada, obrigada!

     Nix pareceu sem jeito, mas retribuiu o gesto com um tapinha nas costas da menina. Depois a afastou, a segurou pelos braços e a encarou, séria.

-- Não me agradeça ainda. Preciso entenda o risco que correrá ao fugir daqui. Poderemos ser pegos a qualquer instante e você seria levada como nossa cúmplice. O mais seguro é deixá-la no ponto da carruagem correio na Estrada Principal. Ali você embarcaria e seguiria até a Cidade Real. A próxima carruagem passa por lá em duas horas e meia e preciso saber agora se está disposta a seguir viagem sozinha sem ninguém para proteger sua vida.

-- Eu prefiro morrer em busca da minha liberdade do que passar mais um dia nessa vida que não é a minha. Se não posso lhe agradecer por me salvar de um destino terrível, então agradeço por me dar a chance de escapar que sempre sonhei.

     Uma única lágrima escorreu pelas bochechas rosadas de Maggi e o homem percebeu Nix engolir em seco. Seu peito foi invadido por contentamento e admiração por aquela mulher tão diabolicamente astuta. Nix estava sempre um passo à frente, sempre orquestrando no próximo movimento. E também pensando nos outros. Orgulho correu por suas veias, logo em seguida acompanhado de remorso pela briga da noite anterior. Enquanto não se resolvessem, Thomas não teria paz de espírito.

-- Vá. Temos pouco tempo. -- Nix a soltou e se afastou -- E haja normalmente, não queremos levantar suspeitas.

     Maggi acenou afirmativamente e partiu sem demora. Nix virou-se para ele, o olhou com expressão indizível e saiu mancando em direção à entrada da estalagem.

-- Ei! -- ele saiu correndo atrás dela, logo a alcançando -- Não acha que deveríamos conversar sobre o que aconteceu?

-- Aqui não.

-- Você pode combinar um plano de fuga nos jardins da estalagem, mas não pode conversar a respeito comigo?

-- Deixe-me ser mais clara, Thomas. -- parou seus passos e virou-se para ele, os olhos em chamas raivosas -- Não quero conversar sobre absolutamente nada com você. O que foi dito ontem já foi o suficiente para mim. Vamos só terminar essa maldita viagem o quanto antes e chega de você.

     Retomou sua caminhada decididamente seguindo até o quarto deles. Thomas ia logo atrás, silencioso porém inconformado com aquela situação. Poderia sentir a fúria emanando dela mas, se Nix achou que ele não iria insistir, se enganou redondamente. Ao fechar a porta do quarto, ele recomeçou.

-- Nix nós precisamos...

-- Arrumar nossos pertences e comer, é o que precisamos. -- ela andava pelo quarto juntando as poucas coisas deles.

-- Sim, mas eu preciso...

-- Eu não me importo com o que você precisa, Thomas! -- o interrompeu em voz vazia.

-- Você pode, por favor, parar de guardar as armas e olhar para mim? -- pediu humildemente.

-- Não. -- disse dura, conferiu o fio de uma adaga, a devolveu à bainha, e depois a jogou no alforje.

     O ato despreocupado o enfureceu. Em três longas passadas estava sobre Nix, a puxou pelo braço com força e a obrigou a olhar para ele. Mas o que viu quando seus olhos se cruzaram foi a mais pura e profunda mágoa. Afrouxou seu aperto sobre os braços dela, mas não a soltou.

-- Me perdoe. -- pediu em voz baixa, mas clara.

     O olhar dela sobre ele apenas endureceu.

-- Não. -- tentou se soltar mas ele não permitiu -- Agora me solte!

-- Não! -- rugiu e ela se contorseu novamente -- Olhe para mim, mulher! -- ela parou e o encarou -- Por favor me perdoe.

     Nix o analisou por alguns segundos, procurando sinais de arrependimento certamente. O que logo encontrou, pois Thomas estava verdadeiramente arrependido de sua explosão da noite anterior.

-- Certa vez você disse que eu não era um monstro, lembra-se disso? -- a voz dela estava triste, embargada, e isso fez seu coração pesar ainda mais -- Disse isso depois que eu matei pessoas para salvar as nossas vidas. Naquele momento meus atos não importaram para você. Mas a verdade é que você me fez acreditar que eu não era um monstro para, na primeira oportunidade, me acusar de ser um. -- fechou os olhos para esconder a dor que eles denunciavam -- Por favor me solte.

     Relutantemente ele a soltou, mas Nix não se afastou como imaginou que faria. De olhos ainda fechados, ele se perguntou se estaria cansada. Dele, daquela fuga ensandecida, daquele lugar cruel e daquela vida injusta.

-- Nix... -- chamou baixinho.

-- A maioria de minhas missões era mercenária. -- abriu os olhos, o cinza obscurecido pela confissão -- Se alguém quisesse outra pessoa morta era só contratar a Irmandade, e eu faria o serviço. Era uma maneira de garantirmos dinheiro para financiar essa luta ridícula de Willk pelo trono. Mas eu não aceitei facilmente esse cargo. Na primeira vez achei que seria fácil, mas quando vi meu alvo algo se agitou dentro de mim.

     Nix ergueu a mão direita em punho e a bateu contra o peito, deixando-a repousada ali.

-- Me virei e fui embora. Quando cheguei na Fortaleza, imediatamente Willk soube que me acovardei. Só com o olhar dele eu soube que estava ferrada. Ele deu um ínfimo aceno para Bruni, que logo me atacou. Eu não me lembro de muito dessa surra, ainda era inexperiente mesmo que já fosse treinada. Não demorou para ele me apagar. Quando acordei Willk estava sentado na minha cama, um travesseiro em mãos. Eu mal conseguia vê-lo pois meu olho estava muito inchado, e mal conseguia compreender suas palavras pela dor e falta de ar que queimava meus pulmões, devido à algum ferimento interno.

     Nix abaixou a mão e por um instante seu olhar se tornou vago.

-- Você tem três opções, Willk me disse. Não convém dizê-las a você, Thomas, mas eu fiz uma escolha naquele dia. Escolhi a minha vida em detrimento à de qualquer pessoa, e eu convivo com isso há seis anos. Depois de um tempo eu me desliguei, cansada de pensar na lista de vítimas que crescia de tempos em tempos. É você ou eu, eu dizia a cada um deles. E era verdade, e eu tentei deixá-los distantes, tornar as missões mecânicas e vazias de emoção. E eu consegui, afinal, me desligar da minha essência. A partir dali tudo se tornou mais fácil. Eu dormia melhor e adquiri o respeito dos Irmãos. Com o passar do tempo, consegui fazer com que a maioria me temesse. E então... -- parou e voltou seu olhar sofrido para Tom, que a ouvia atentamente.

-- E então você me encontrou. -- completou por ela, que acenou afirmativamente.

-- E você revirou minha vida, minhas certezas, minha segurança. Você me fez querer fazer o caminho de volta à menina que um dia fui, à essência que deixei para trás, mas tudo o que eu encontrei nesse caminho foram as atrocidades que fiz. Mas aí... você me ajudou e eu comecei a me iludir pensando que poderia deixar o passado para trás, que poderia recomeçar e fazer um futuro melhor. Mas não vai ser possível, não é? Eu tenho fantasmas demais e eles sempre voltarão para me assombrar.

     Thomas percebeu que o silêncio agora só seria preenchido pelas próximas palavras que diria, e que estas seriam decisivas. Cheio de compaixão e raiva e dor ele pegou as mãos dela, perguntando-se o que faria se fosse ele a cair nas garras de Willk. Seria fácil dizer que jamais faria as coisas que ela fez mas, como saber sem ter vivido aquilo? A pressão, as ameaças constantes, as mentiras bem contadas.

-- Minha reação noite passada não foi culpa sua, Nix. -- acariciou as mãos dela -- Sem querer eu a coloquei num pedestal. A imaginei uma salvadora dos inocentes em busca de justiça. Mesmo sabendo que foi membro da Irmandade eu enterrei essa certeza e não lidei com ela, preferi minha ilusão à aceitar seu passado sujo. Quando ouvi o que Ramsei fez à família do próprio irmão, a compreensão de tudo o que já esteve envolvida me sobrepujou e eu perdi a razão.

     A voz de Thomas foi ficando cada vez mais rouca e ele se aproximou ainda mais. Nix observou suas mãos entre as dele, mas não as retirou dali.

-- Você está certa em seu desejo de deixar o passado para trás, e peço que começemos pela noite passada. -- beijou as duas mãos dela -- Eu fui o idiota estúpido que sempre me acusou de ser, e você não tem culpa de eu não ter compreendido e aceitado antes os aspectos sombrios de seu passado. Mas eu peço seu perdão.

     Thomas beijou as mãos dela de novo, mais demoradamente desta vez, sem desprender seus olhos dos dela que haviam se suavizado minimamente. Quando Nix abriu a boca para responder, a porta foi aberta abruptamente e Maggi entrou sem fôlego.

-- Eles estão aqui!

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