Capítulo 23 - "Temos duas opções"

Não vamos complicar as coisas. As palavras que dissera semanas atrás rodopiavam em sua mente à todo momento, como se estivessem zombando dela. Como poderiam não complicar as coisas se elas já estavam complicadas? Uma tensão crescente permaneceu ao redor deles dia após dia depois daquele momento de fraqueza em que ela quase permitiu que Thomas a beijasse. A tênue amizade que construíram ficou estremecida e ambos evitaram o olhar do outro por dias à fio, trocando apenas as palavras necessárias. Só permitiram se encarar nos momentos de treino que acontecia todo dia, duas horas antes do por do sol, sem falta. E ali... ali os corpos deles traíam a razão e agiam por conta própria. Não que tivessem se agarrado ou algo do tipo, mas sempre alguma coisa acontecia entre eles.

Certa vez ela demonstrou como desviar de um golpe. Se posicionou e Thomas a rodeou observando de todos os ângulos. Sentiu o olhar dele perfurando seu corpo, sentiu-se desnuda e exposta e sentiu vontade de realmente estar assim. Então ele retirou a atenção de sobre ela e imitou a postura, errando por pouco e Nix apressou-se em ajudá-lo. Se aproximou e tocou os ombros dele corrigindo-o e, nesse momento, seus olhos se encontraram e os dele desceram para seus lábios tão rápido que por um momento cogitou ter imaginado o movimento. Os músculos dele, que estavam se definindo cada dia mais pelo exercício contínuo, pareciam brasa sob seu toque. Ele ficou imóvel, aguardando, dando à Nix o poder de decidir o que fazer com ele, completamente entregue às vontades dela.

Não achou aquilo justo. Precisava que Tom colaborasse e negasse esse desejo, assim como ela vinha fazendo incessantemente com vontade férrea. Precisava que ele compreendesse que tinham que manter-se livres de distrações, que um envolvimento entre eles poderia por suas vidas em perigo. Além do mais, e depois? O que aconteceria quando chegassem à Cidade Real? Se o rei não a trancafiasse numa cela imediatamente então o que seria dela? Deles? Não que Nix quisesse um relacionamento duradouro com o duque, longe disso. Apenas não suportava desconhecer o que a esperava, a insegurança e incerteza que sentia não permitiam mais dúvidas quanto ao futuro e não queria ter de acrescentar Thomas à essa lista. Depois de tantas provações ela prezava muito pela estabilidade em sua vida, por saber o que deveria esperar. Pensando nisso, a cada vez que seus corpos se tocavam, a cada vez que seus olhares se cruzavam, a cada vez que aquela necessidade devastadora a invadia, Nix se afastava. E isso estava acabando com ela.

Três longas semanas se passaram nessa agonia. Gradualmente eles retomaram as conversas e, como num acordo silencioso, fingiam que nada estava acontecendo entre eles. Passaram da Floresta do Espanto para o Bosque dos Ursos, e de lá para as Campinas Coloradas. Agora estavam há três dias sendo castigados pelo sol enquanto atravessavam o Mar Verde, uma planície de grama rodeada por montanhas que se estendia à perder de vista. Nix sentia sua boca seca, quase rachando. A garganta dolorida implorava por água e quanto à fome... ela preferia nem pensar na fome. Thomas não estava muito melhor. Sua barba crescia abaixo do queixo agora, com reflexos ruivos à luz do sol. O semblante continuamente exausto denunciava que ele precisava de uma pausa imediata, mas em momento algum ele pediu para pararem.

Seis horas, pensou, apenas mais seis horas para o pôr do sol. Olhou para o céu azul claro infinito e a luz do sol feriu seus olhos, implacável. Aquilo a enfureceu. Em seis horas a noite cairia esfriando o calor infernal mas o martírio deles continuaria. Não havia água no Mar Verde, não havia animais para caçarem e nem mesmo frutas ou vegetais ou qualquer coisa comestível. Apenas grama, pedras e terra. Pensou em um novo plano, uma opção arriscada que poderia colocá-los em perigo. Mas que mal faria se já estavam praticamente à beira da inanição e desidratação?

-- Um sobre o outro arfando estavam -- Thomas cantarolava -- Oh oh, sacudindo a cama onde eles se agarravam!

-- Por que insiste em cantar essas porcarias obcenas? -- Nix perguntou o olhando de soslaio.

-- Porque estou entediado. -- suspirou -- E minhas canções me distraem do meu cansaço. E de minha sede, e minha fome. Enquanto canto, não penso em um assado de porco com batatas e vagens. Nem em uma sopa com galinha e cenouras e...

-- Certo, já entendi. -- sentiu sua boca salivar ao imaginar os pratos que ele mencionou. Puxou as rédeas de sua montaria e parou. Tom fez o mesmo em seguida e a encarou, confuso -- Temos duas opções.

-- Alguma delas envolve comida? -- perguntou com um sorrisinho sarcástico.

-- Na verdade, sim. -- ele desfez o sorriso -- Se seguirmos nessa direção -- Nix apontou o caminho por onde estavam indo até instantes atrás -- Vamos chegar nas redondezas da Estrada Principal amanhã a noite. Como não faremos um caminho direto, levaremos cerca de seis dias até a Cidade Real.

-- Mas? -- pediu ele, esperançoso.

-- Mas se nos desviarmos à leste, -- ela agora apontou à sua esquerda -- Percorreremos duas ou três horas de terreno montanhoso e difícil, e ao final, encontraremos a Vila do Tombo.

-- E o que estamos esperando? -- o homem perguntou, os olhos brilhando de empolgação.

-- Ah, mas que merda, você não pensa nas consequências de nada, não é mesmo? -- esfregou a testa, nervosa, e a única resposta dele foi uma carranca -- Se formos até lá os riscos de sermos pegos serão gigantescos! Só estaremos razoavelmente seguros quando alcançarmos a Estrada Principal. Então eu preciso que você siga cada uma das minhas ordens, rápido e sem reclamar ou questionar.

-- E não é isso que eu venho fazendo há um mês? -- franziu as sobrancelhas, frustrado.

Nix o respondeu com apenas um olhar afiado e guiou sua montaria na nova rota à leste. Não demorou e Thomas estava ao seu lado, cantando aquela música ridícula com energia renovada. Esteve prestes a mandá-lo calar maldita boca mas conteve-se, pois ela própria estava empolgada com a mudança de planos.

Na primeira hora de cavalgada enquanto percorriam a subida íngreme da montanha que cercava o Mar Verde, um percurso irregular e pedregoso, tudo em que pensou foi a grande refeição que faria em breve. Na segunda hora durante a descida complicada, sua atenção estava totalmente voltada ao glorioso banho de banheira que logo tomaria. Três horas se passaram e faltava pouco para chegarem. Depois de atravessarem mais alguns quilômetros de terra seca se depararam com um último declive rochoso. Nesse ponto eles já podiam ver a vila que aparentava ter crescido desde a última vez de Nix ali, anos atrás. Guiou sua montaria da melhor forma que pôde, o levando pelos caminhos onde achava que as pedras estariam mais firmes e, quando faltavam apenas dois metros para chegarem na terra plana, seu cavalo pisou em falso e escorregou.

O pobre animal tentou manter-se em pé mas assustou-se e empinou, relinchando alto. A mulher apertou os joelhos sobre o lombo e segurou as rédeas com mais firmeza mantendo seu equilíbrio, e foi esse seu erro. As pedras cederam sob a agitação do cavalo que acabou tombando para o lado esmagando Nix. Ao sentir o impacto da queda e o peso do animal sobre si, rangeu os dentes para conter o grito de dor que se formou em sua garganta e, usando a força de sua perna direita, arrastou-se para longe do animal enquanto ambos caíam até o fim da ribanceira.

-- Nix! -- ouviu a voz de Thomas, abafada sob barulhos de pedras e relinchos, chamando-a assustado.

Quando enfim acabaram de cair, ela e o cavalo, avaliou o estrago e com alívio percebeu provavelmente não haver nenhuma fratura. Mas a dor... a dor que sentia era lancinante. Apoiando-se na perna direita começou a fazer força para se levantar e logo uma mão masculina surgiu para ajudá-la.

-- V-você está bem? -- Tom perguntou, agoniado.

-- Fiz uma entrada triunfal digna da Vila do Tombo, não acha? -- provocou com um sorriso torto, escondendo sua dor com ironias.

-- Deixe-me ver se está ferida. -- pediu já levando suas grandes mãos até ela.

-- Não, eu estou bem! -- afastou as mãos dele.

Thomas não respondeu, apenas franziu as sobrancelhas e fez menção de ajudá-la a se levantar, o que ela mais uma vez recusou. Mesmo mal sendo capaz de erguer-se sozinha, usou toda sua força de vontade para fazê-lo e, também, para evitar fazer uma careta que denunciasse meu martírio. Trincou tanto os dentes que pensou que fosse quebrá-los, mas conseguiu caminhar até onde o cavalo estava deitado, soltando bufos e relinchos de sofrimento. Rapidamente foi capaz de detectar o problema. Soltou um suspiro triste e olhou para Tom por sobre o ombro.

-- Ele quebrou uma pata. -- disse com a voz rígida pela própria dor.

O homem se aproximou, se abaixou perto do animal e observou o ferimento.

-- Shh... -- fez carinho na crina dele tentando acalmá-lo -- Está tudo bem, amigão.

A perna esquerda de Nix estava machucada e falhou, mas logo recuperou o equilíbrio e felizmente o homem não percebeu pois ainda acalentava o cavalo. Precisavam seguir viagem e, antes disso, precisavam fazer outra coisa.

-- Precisamos sacrificá-lo, Thomas. -- avisou, baixinho.

-- O quê? -- assustou-se -- Não podemos fazer uma tala? E levá-lo caminhando até a Vila? Talvez lá alguém possa tratá-lo.

-- Não, não podemos. Veja o ferimento, Thomas, a ponta do osso está saindo para fora! -- apontou a ferida aberta -- Esse pobre coitado não vai nem conseguir se levantar mais.

Nix realmente não queria ter de fazer aquilo, mas o sofrimento do animal estava nítido. Desprendeu o alforje quase vazio e o jogou para longe deles.

-- Deixe que eu faço. -- avisou e puxou a espada da bainha em sua cintura -- Mantenha-o calmo.

Respirou fundo e rodeou o cavalo até suas costas, na intenção de que ele não visse o brilho da lâmina. A voz baixa e suave de Tom o mantinha quieto e tranquilo e, por um instante, quase não foi capaz de fazer aquilo. Sua visão estava ficando turva devido à dor latejante que estava sentindo e temia que não mais conseguisse se aguentar em pé. Intensificou o aperto no punho da espada e a posicionou sobre o pescoço do animal, logo acima de uma artéria vital.

-- Isso vai fazer sujeira, então no três você pula para trás. -- disse olhando nos olhos dele -- Um, dois, três!

Quando Thomas se afastou Nix desceu a espada sobre o cavalo, num golpe fundo e certeiro. O grito desesperado dele a arrepiou, mas ele logo parou de se debater cedendo à doce escuridão que estava certamente o reivindicando. O sangue jorrava em golfadas, grosso e vermelho, empoçando ao redor dos três rapidamente. Logo o outro animal que presenciou a cena pôs-se a se agitar, temendo pela própria vida. Rapidamente Tom seguiu até ele, que estava preso num arbusto seco e retorcido, e o acalmou. Nix rasgou um pedaço de sua camisa imunda para limpar a lâmina, que guardou logo em seguida. Depois mancou até a montaria de Thomas, incapaz de esconder sua dor por mais tempo.

-- Você está ferida. -- ele apontou enquanto recuperava o alforje dela e encarava sua perna esquerda -- P-por que não disse antes?

-- Isso não é nada, só me ajude a montar. -- estendeu a mão para ele, mas o homem apenas prendeu o alforje novamente no lombo da égua e cruzou os braços.

-- Se é tão orgulhosa ao ponto de me esconder que se machucou, e-então monte sozinha. -- pela primeira vez em um mês de jornada viu raiva nos olhos dele. Raiva direcionada à ela.

Puxou o ar, furiosa, e apenas o encarou por um instante. Sabia que a estava desafiando a implorar pela ajuda dele, mas particularmente, Nix preferia a morte. Seguiu até o lado direito da égua, mancando ainda mais que segundos antes, apertando as mãos em punhos para conter o grito que estava preso em sua garganta.

-- Droga, você é muito teimosa! -- ele exclamou vindo para o lado dela -- Deixe-me aju...

-- Vá para o inferno! -- resmungou entre dentes, colocou a perna boa no estribo e se impulsionou para a sela.

Sua visão escureceu por alguns segundos e Nix mal percebeu Thomas montando atrás dela. Sentiu-se prestes a perder a consciência quando a firmeza e calor do corpo dele às suas costas a trouxeram de volta. Ele pegou as rédeas e partiram, com a mulher sentindo sua perna queimar e pulsar ao ritmo do galope.

-- Nix? -- Thomas a chamou, sua voz grossa soando próximo ao ouvido.

-- Hum?

-- Você está bem? -- ela abriu a boca para responder mas o homem acrescentou -- Não minta para mim, por favor.

-- Só estou com dor. -- assumiu, derrotada -- Muita maldita dor.

-- Por que não disse antes?

-- Poque não. -- deu de ombros.

-- Você é a mulher mais exasperante que já conheci na minha v-vida! -- exclamou, irritado.

-- Sou, é? -- fechou as mãos em punhos, contendo a vontade de lhe desferir um soco -- E você é o homem mais irritante e enrvante que já pisou nas terras desse reino!

-- Ah, sim! -- escárnio pingava da voz dele -- Isso pelos parâmetros de uma mulher que é absurdamente orgulhosa, evasiva, m-mandona, que se acha a dona da razão e...

-- Meu Deus! -- o interrompeu -- Como você é insuportável! Às vezes eu tenho vontade de te estrangular, seu...

-- E linda. -- a abraçou pela cintura colando seus corpos e percebeu que o maldito a estava apenas distraindo e provocando. -- Mesmo suja e fedorenta desse jeito.

Ela relaxou imediatamente, com seu toque e suas palavras, e não foi capaz de evitar o sorriso que se abriu em seus lábios.

-- Eu odeio você. -- disse apoiando-se mais no corpo forte dele, irritada com aquela droga que sorriso que permaneceu em seu rosto.

-- Odeia nada. -- sentiu o mesmo riso nas palavras dele.

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