Capítulo 22 - "Não faça isso"

Nix saboreava sua parca refeição lentamente na intenção de fazer com que durasse mais e, desta forma, aplacasse um pouco o rugido em seu estômago. O sabor forte da cobra invadia sua boca de maneira um tanto  repugnante e massilenta por estar fria, mas permanecia comestível e isso para ela era o suficiente.


     Quando vivia nas ruas a fome foi sua companheira diária, e ela não suportava senti-la até os dias de hoje, doze anos depois de ter sido "resgatada". Em sua primeira noite na fortaleza da Irmandade, Nix escapuliu de sua cama improvisada no quarto que teve de dividir com Rosene e se esgueirou até as cozinhas, onde comeu tudo o que viu pela frente, de maneira desenfreada. Parou apenas quando começou a passar mal, ficando enjoada e com a barriga dolorida, mas recusou-se a vomitar o precioso alimento. Foi o próprio Willk quem a encontrou na manhã seguinte, praticamente desmaiada aos pés do grande forno a lenha, queimando em febre.


     Pequenos fragmentos de sua memória se recordam que ele a carregou até o quarto de Rosene de maneira gentil e ali a deixou descansar, adiando o início de seu treinamento. Ela ardeu por dias contínuos devido à alguma infecção alimentar e, quando enfim se recuperou teve permissão de participar do jantar novamente, onde Rose a instruiu a comer pouco. Ela obedeceu, profundamente contrariada. Temeu que a comida lhe fosse negada, temeu que aquele buraco oco retornasse ao seu estômago. Prefiro a dor da barriga cheia, do que a dor dela vazia, pensou consigo enquanto subia os degraus junto de Willk, ainda naquela noite, até seu novo quarto que estava pronto. Quando entraram um cheiro maravilhoso a atingiu: bolo de maçã com mel e canela. Olhou para o homem, que parecia tão alto para uma menininha de doze anos, aguardando uma explicação. "Eu vou falar apenas uma vez, e espero que você compreenda, entendido?", disse Willk em voz imponente e aguardou uma confirmação dela. Nix acenou a cabeça. "Você nunca mais passará fome, garota. Nunca mais. E isso não é uma promessa, é um fato."  A convicção com que Willk lhe disse aquilo, o cuidado dele em esclarecer que não era uma promessa pois sabia como Nix as odiava, a tocaram de maneira que ela mal podia explicar. Sentiu-se segura novamente, sentiu seu peito aquecido, sentiu-se acolhida nos braços da Irmandade que a recebeu. Naquela noite, com um bolo de maçã com mel e canela, Willk conquistou sua lealdade cega.


     A mulher, hoje, se ressentia daquela jovem Nix, tão carente e tola. Não, pensou melhor, ali eu ainda não era Nix. Aquela garotinha frágil e manupulável atendia pelo nome de...


-- Estive pensando em uma coisa. -- uma voz masculina interrompeu seus devaneios.


-- Sinto arrepios só de imaginar você pensando. -- estremeceu teatralmente.


-- Tão engraçada... -- revirou os olhos -- Diga-me como foi seu treinamento.


     Nix jogou a espinha da cobra longe, mesmo sentindo-se tentada à jogar na cara dele.


-- Já falei demais sobre mim nos últimos dias. -- pegou o cantil e tornou um pouco da água nas mãos para limpá-las -- Além do mais, não há nada interessante para lhe contar.


-- Isso -- Thomas apontou sua porção de cobra assada para ela, que estava roendo até os ossos  -- é uma mentira deslavada.


-- Por que não falamos sobre você, alteza? -- Nix adorava chamá-lo assim, não em sinal de respeito, mas sim porque algo faíscava no fundo dos olhos dele sempre que seu título era mencionado -- Diga-me como foi viver nos campos verdejantes de sua propriedade rodeado de sua riqueza.


     A mulher achou que ele não perceberia o tom de deboche em sua voz, mas ele o fez, e o  dourado que iluminava o castanho dos olhos dele se apagaram um pouco, e Nix percebeu que havia tocado em alguma ferida.


-- Você é uma criatura mesquinha, sabia disso? -- perguntou sem esperar resposta -- Acha que apenas por ser rico eu fui feliz? Se pudesse eu teria trocado cada tostão para ter uma família que me respeitasse. -- deu de ombros -- Não precisariam nem me amar.


-- Se eu fosse você, não faria isso. -- recomendou.


     Thomas jogou os restos de sua refeição em meio à alguns arbustos próximos e limpou as mãos com a água de seu próprio cantil, mas durante todo o ato manteve os olhos sobre ela.


-- E por que não? -- perguntou ao secar as mãos nas calças puídas.


-- Porque em algum momento você iria perdê-los, e isso doeria demais. -- sua voz saiu sombria, arranhando sua garganta.


     Ele demorou a responder e ela conseguia ver as engrenagens da mente dele revirando suas palavras, analisando-as.


-- Mas pelo menos eles me deixariam boas lembranças. Eu poderia olhar para o passado com saudade e carinho, e então seguiria minha vida. Mas tudo que eu sinto quando me permito ser invadido por recordações, é mágoa.


     A voz dele era suave, quase doce. Um timbre que se parecia uma carícia, a invadindo e revirando. Não em desejo, aquelas tristes confissões não despertavam esse lado dela. O que sentia era admiração. Mesmo tendo seus próprios traumas e dores, ele ainda era bom, ainda tinha a coragem e a força de olhar para trás e não se despedaçar. É claro que as situações às quais foram expostos eram completamente diferentes, mas Nix tinha total certeza de que mesmo que fossem iguais, Thomas teria se tornado uma pessoa melhor do que ela é hoje. Estava em sua essência, arraigado profundamente dentro dele, uma luz que seu corpo não parecia conter e que acabava por se manifestar no brilho dourado de seus olhos. Seria possível que essa teoria estivesse certa? Que mesmo com todas as provações cada pessoa se torna aquilo que, no fundo, já é? Se fosse, então desde sua infância a semente da brutalidade germinava nela apenas esperando o momento certo para despertar? Permitiu-se acessar apenas uma lembrança, daquele jeito peculiar que fazia, como se fosse uma outra pessoa observando um momento que viveu. Viu uma garotinha de longos cabelos pretos sentada no chão com um mini conjunto de chá de porcelana. Ao redor dela estavam dezenas de bonecas, ursos e cachorros de pano e à sua frente, sua mãe a acompanhava na brincadeira. Linda, alta, tão parecida com quem aquela criança era agora... apenas os olhos eram diferentes, pois aquele cinza misterioso veio de seu pai. Focou a memória na criança que um dia foi, e não havia maldade ali. Seu sorriso era fácil e sincero, seus pensamentos eram bobos e infantis. Aquela criança sonhava em ser uma confeiteira só para poder comer doce o dia todo, como poderia haver sequer um sentimento impuro nela? Não... se tivesse tido uma vida diferente, talvez hoje viveria numa casinha no campo. Talvez seu pai finalmente tivesse parado com seus infinitos compromissos e morasse de vez com elas. Talvez... não, não podia se permitir pensar nisso. Apenas uma coisa importava agora: Thomas tinha razão, ela não era um monstro. Apenas foi feita e iria se tornar o pior pesadelo dos responsáveis disso.


    Piscou os olhos que estavam doloridos por terem ficado tanto tempo abertos, pois quando se perdia em pensamentos até se esquecia de piscar. Levou-os até seu parceiro que a observava atentamente. 


-- Nós vivemos vidas muito diferentes, Tom. -- até ela foi capaz de perceber a melancolia em sua voz -- Você queria ter tido pais que se importassem contigo, e eu preferiria nem ter conhecido os meus. Somos dois fodidos.


-- Isso não é verdade. -- ele discordou e ela levantou uma sobrancelha para mostrar sua dúvida -- Não a parte de sermos dois fodidos, isso é verídico. -- riu -- Mas a parte em que você disse que preferia não ter conhecido seus pais? Mentira. Você apenas não queria tê-los perdido. Eu me pergunto...


     Calou-se e a encarou, cauteloso.


-- Diga. -- pediu.


-- Eu me pergunto o que aconteceria se parasse de mentir para si mesma. -- Nix respirou fundo, sentiu suas narinas dilatarem-se, sentiu um gelo no estômago, mas não o interrompeu -- Conseguiria diferenciar o que realmente sente do que Willk impregnou em você.



     Não tinha certeza do que ele quis dizer com aquilo. Thomas estava supondo que a raiva que sentia não era dela? Que aquela dor e desprezo e fúria foram colocados nela por Willk? Poderia ser verdade. Mas seria ela capaz de abandonar esses sentimentos depois de tantos anos? O que restaria, então? A resposta veio rápida e cruel: saudade. Poderia lidar muito bem com os outros sentimentos, mas este em específico, seria demais para ela suportar.


-- Sabe, Thomas, eu adoro o som da sua voz quando está calado. -- deu um fim à esse assunto e puxou sua lâmina da bainha, o fazendo arregalar os olhos.


-- E pretende me matar por tê-la feito pensar na possibilidade de ter sido manipulada desde o começo?


-- Ah, não seja imbecil! -- exclamou e se levantou, seguindo até o homem que estava há cerca de um metro e meio dela -- Eu só preciso retirar seus pontos.


     Imediatamente ele leva sua mão até o ferimento já quase completamente cicatrizado em sua têmpora esquerda. Tom endireitou a coluna e moveu o rosto lhe dando acesso total. A mulher então se acomodou de joelhos o mais perto que foi capaz, na intenção de conseguir enxergar os pontos dentre aquela cabeleira durante os últimos minutos de luz do sol que ainda tinham. Com a mão esquerda levou para trás uma mecha dos cabelos castanhos que estavam começando a passar dos ombros. Eram ondulados e macios e a intimidade da situação a atingiu com força ao senti-los entre seus dedos. Como todas as vezes em que ficavam próximos o calor dele começou a invadir o corpo dela, revirando suas entranhas e pensamentos. Por que isso sempre acontecia? Que tipo de atração estranhamente intensa era essa que os envolvia? Respirou fundo e se concentrou pois não tinha tempo a perder. Rapidamente encontrou as linhas despontando dos três pontos que ela havia costurado em sua ferida. Na verdade, em situações normais apenas um curativo teria sido suficiente, mas os recursos deles eram escassos então Nix optou por pontos na intenção de evitar uma infecção.


-- Segure seu cabelo, aqui. -- pediu por ajuda e foi prontamente atendida.


     Com a mão esquerda puxou a linha e com a direita a espetou com a ponta da adaga que havia afiado antes do jantar. Ao puxar a segunda linha, Thomas pulou.


-- Ai! -- exclamou.


-- Fique quieto. -- ordenou irritada, querendo terminar logo a tarefa para se afastar do corpo masculino que começava a fazer seu interior vibrar.


-- Desculpe. -- pediu e se aquietou.


     Nix retirou a segunda linha e, na terceira, Tom apenas gemeu um palavrão. Ela terminou, embainhou a adaga e quando ia levantar para se afastar foi impedida por uma mão grande e quente segurando a sua. Aqueles olhos castanhos rapidamente buscaram os dela enquanto a penumbra começava a rodeá-los. Próximos demais. Eles estavam próximos demais mas Nix foi completamente incapaz de se afastar. Passeou seu olhar pelo rosto de Thomas, suas sobrancelhas volumosas e expressivas, seu nariz pontudo, suas maçãs do rosto marcadas, sua grossa barba que crescia sem os cuidados costumeiros. O cheiro de suor dele a invadiu, forte e másculo dos dias sem banho e nem isso foi capaz de tirá-la de perto dele. Sua mão ganhou vida própria e ela acariciou o rosto de Thomas sentindo a aspereza dos pêlos que ali cresciam. O olhar de Tom abaixou para os lábios dela, entreabertos, ansiando pelo toque dos dele. Num segundo ele se pôs em movimento aproximando-se lentamente, como se não quisesse assustá-la. Nix fechou os olhos apertado e suspirou, obrigando-se a recuperar o controle da situação. Moveu sua mão até os lábios dele e empurrou levemente, negando o acesso que havia silenciosamente cedido por um ínfimo segundo.


-- Não faça isso. -- disse num fio de voz e abriu os olhos, encarando a decepção estampada nas feições dele.


-- Mas você quer. -- respondeu rouco e entrelaçou os dedos na mão dela que ainda segurava -- Eu sei que quer.


-- Não importa o que eu quero, importa o que tenho que fazer. E eu tenho que nos levar até a Cidade Real em segurança e ajudar o rei a massacrar Willk e a Irmandade das Sombras. -- soltou a mão do aperto suave dele e se levantou -- Não vamos complicar as coisas.

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