Capítulo 20 - "Eu abomino promessas"

     Thomas finalmente percebeu a dimensão do sofrimento que Nix escondia dentro dela. Aquela máscara de tédio frio fez sentido, assim como a última peça de um quebra cabeças. A mulher usava as feições vazias para esconder o que transbordava em seu interior: fúria latente, ódio borbulhante. Ainda menina Nix foi dilacerada e jamais se recuperou. Perdeu absolutamente tudo, os pais, a casa, a vida como conhecia, a si mesma. Depois, de alguma maneira que Tom ainda desconhecia mas pretendia descobrir, ela caiu nas garras do homem mais cruel do reino que viu toda aquela angústia e a transformou em violência brutal, moldando-a numa arma que usou em benefício próprio por todo esse tempo.


       Imaginou-a ainda criança, suja e esquelética, sozinha e indefesa, vagando sem rumo tentando sobreviver um dia de cada vez. Se fosse ele a encontrá-la em tais condições, Tom lhe daria alimento, abrigo e cuidados. Mas Willk lhe dera treinamento e uma espada, e tornou-a imbatível. Thomas podia apostar que a insistente perseguição da Irmandade, na maior parte, se devia à ela. Willk perdeu seu trunfo, seu melhor soldado, e Tom suspeitava, sua preferida. Na única vez em que esteve presente junto de ambos, ao chegar na sede da Irmandade após ser capturado, ele percebeu que os olhos azuis do homem olhavam para Nix de maneira diferente, com um brilho sutil, com carinho contido e disfarçado, mas que ele foi capaz de perceber. Engraçado as coisas às quais prestamos atenção em momentos de perigo, pensou, detalhes que nem imaginamos serem importantes, e que em outras situações talvez passassem despercebidos. Olhando em retrospecto ficava claro que a fúria de Willk estava destinada à Nix por sua traição, não pela fuga de Thomas, e absolutamente nada ia pará-lo. Nix corria perigo, mais do que ele próprio, supunha, portanto eles precisavam chegar o quanto antes à Cidade Real. Apenas lá estariam seguros.


     Tom não era lá muito entendido dos caminhos e distâncias de uma cidade à outra, menos ainda quando se usava um trajeto nada usual como o que estavam fazendo, indo de bosque em bosque, numa rota confusa e secreta. Estava basicamente perdido, mas sabia que ainda havia um longo caminho pela frente. Talvez semanas? Um mês? Mais? Precisavam acelerar o passo, parar com esse trajeto tão tortuoso, pegar logo a Estrada Principal e chegar ao seu destino o quanto antes, afinal, ainda havia uma guerra que precisavam lutar. Outra guerra, na verdade, pois eles estavam batalhando em uma bem ali. Nix lutava sozinha contra seus traumas há tempo demais e, agora, Thomas se juntaria à ela. Quer a mulher quisesse ou não, aliás, ele nem lhe pediria permissão.


     Ao ver aquele olhar tão torturado ao partirem do acampamento em que estavam depois de serem emboscados naquela manhã, ele preferiu deixá-la quieta até que aquela sombra de angústia deixasse seus olhos. Estava tão empenhado em não irritá-la que até mesmo comeu sua primeira porção da cobra sem reclamar. Podia sentir o olhar dela, atento sobre ele, avaliando sua reação. Mas, se Nix estava esperando que Tom fizesse uma cena ou que vomitasse à primeira mordida, decepcionou-se. Ele comeu os primeiros pedaços receoso, sim, mas depois apercebeu-se realmente saboreando a carne dura e fibrosa da serpente. Claro que não entraria na lista de seus pratos favoritos, mas era infinitamente preferível à passar fome. Conforme o dia passou, pararam apenas duas vezes para encher os cantis e darem de beber aos cavalos. Aos poucos foi notando os ombros dela menos rígidos, o cinza dos olhos dela mais luminosos. Nix até mesmo sorriu para ele quando encontraram uma bananeira em meio à densa vegetação. Animados eles se banquetearam com o que a floresta lhes ofereceu de tão bom grado.


-- É a banana mais doce que já comi! -- exclamou o homem, suspirando de prazer com o sabor que lhe preenchia.


-- As frutas dessa floresta sempre tem um gosto especial, diferente.


-- Este deve ser um solo abençoado. -- disse de boca cheia enquanto carregava um pequeno cacho até o alforje.


-- Longe disso! -- discordou Nix enquanto fazia a mesma coisa -- Não sabe a história desse lugar?


     A resposta de Tom foi apenas um aceno negativo. Abastecidos e alimentados, montaram novamente e seguiram viagem.


-- Diz a lenda que há muito, muito tempo, bruxas vinham até aqui para fazerem seus rituais em paz. Escondidas pelas árvores e arbustos, elas ficavam nuas, dançavam, entoavam cânticos, faziam magia...


-- Isso é balela... -- resmungou o homem, olhando ao redor.


-- Talvez. Talvez não. -- ela deu de ombros -- Enfim, dizem que com o intuito de protegerem-se de bisbilhoteiros elas lançaram um feitiço que os espantava aos berros daqui... Então boatos começaram a correr: animais grandes demais, areia maldita que engolia as pessoas, cipós que se enroscavam como serpentes em quem não era bem vindo. Daí surgiu o nome, Floresta do Espanto.


     Nix olhou para ele de soslaio, com um meio sorriso nos lábios. Estava decididamente se divertindo em contar à Tom aquela história de terror. Mas ele não estava com medo, nem mesmo assustado. Estava gostando daquilo. Da forma como ela falava, deixando-o curioso para saber mais. Gostava da entonação da voz dela, das pausas que fazia nos momentos certos para deixar sua história mais dramática. Imaginou quantas histórias e lendas ela sabia, e se as contaria para ele um dia.


-- Nós não vimos nada disso aqui.


     Mais um dar de ombros.


-- As bruxas se foram há muito tempo. Homens covardes munidos de fogo se certificaram disso. Enquanto queimavam, não muito longe daqui, disseram que eles podiam queimar seus corpos até que virassem pó, mas que jamais queimariam suas almas. Disseram, entre berros de ódio e dor, que viveriam eternamente vagando nas luzes e sombras do lugar que pertencia à elas, ajudando amigos e espantando inimigos eternamente. -- olhou para ele de verdade dessa vez, encarando-o profundamente -- Consegue perceber a magnitude dessa promessa?


-- Profundamente. -- concordou, sentindo um arrepio na coluna.


-- Eu abomino promessas, mas essa... torço para que tenha sido cumprida. Agora vamos mais rápido pois iremos parar mais cedo hoje.


-- Mais cedo? -- perguntou Thomas, curioso -- Por quê?


-- Surpresa, querido Tom. E você não perde por esperar. -- o sorriso que ela lhe deu, agora, foi violento.


     E acabou por atingi-lo no estômago, e em um outro lugar mais abaixo. Nix tinha uma beleza tão pura, tão natural, que ele se surpreendia constantemente sendo arrebatado por ela. Poderia passar horas apenas a observando, aliás era o que fazia todas as noites em seus momentos de sentinela. Observava seus contornos na escassa luz prateada da lua, delicados e calmos, sem a tensão contínua que habitavam ali quando acordada. Nessas ocasiões Thomas a pegou franzindo as sobrancelhas com frequência, provavelmente imersa em sonhos. Também a flagrou mexendo os lábios, balbuciando algo ininteligível. Certa noite, ela gemeu. Um gemido baixo, mas intenso, que foi seguido por outro, e mais outro. Thomas ficou duro com a força de um raio, desejo lhe correndo pelas veias. Levantou-se e saiu de perto dela, dando-lhe privacidade para vivenciar aquele sonho erótico e para acalmar o fogo que o consumia. Pensou em se aliviar, acariciou-se por cima da calça por um segundo, mas parou. Aquilo lhe parecia desrespeitoso. E além do mais, não eram as suas próprias mãos que ele queria. Eram as dela. E também seus lábios, sua pele, seu calor, sua... Afastou esses pensamentos sentindo-se frustrado, ansioso. Aquele sorriso dela lhe causou o mesmo efeito que aquele gemido e agora suas calças pareciam mais apertadas e a cela mais desconfortável.


     Ajeitou-se na montaria, afrouxou as rédeas e colocou o animal à galope seguindo Nix. Os cabelos negros dela esvoaçavam feito véu ao vento, banhados pela luz do sol da tarde. Para afastar a lascívia que ainda lhe anuviava a mente, tirou sua atenção de sobre sua fonte de pensamentos pecaminosos e pôs-se a indagar-se que diabos ela estava aprontando. Que surpresa o aguardava? Nenhuma ideia lhe ocorreu, então tudo que lhe restava era apenas esperar para descobrir. Cavalgaram por pouco mais de uma hora e, por fim, Nix decidiu que era hora de parar. Desmontaram, cuidaram dos animais e os prenderam depois. Thomas conteve sua curiosidade pois não queria parecer um menininho ansioso, então apenas esperou tentando manter os olhos longe dela para evitar que aquela atração que sentia despertasse novamente em seu interior.


      Nix procurou algo em seu grande alforje que repousava no chão. Ao apanhar o que queria, virou-se para ele com um brilho perigoso no olhar.


-- Vamos treinar. -- disse numa voz que não admitia recusa, enquanto segurava duas espadas longas, uma em cada mão.

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