Capítulo 18 - "Antes de aprender a matar, devemos aprender a sobreviver"

Quando Thomas a despertou no meio da madrugada para revezarem a vigília, parecia que ela havia acabado de fechar os olhos. Levou alguns segundos para compreender o que acontecia, mas assim que sua mente despertou levantou-se e trocou de lugar com o homem, que adormeceu tão rapidamente quanto ela. Acomodou-se no mesmo tronco de árvore em que ele estivera nas últimas horas e o observou, recordando-se da interação deles no início daquela noite.


     Certamente Tom achava que o silêncio dela dos últimos dias se devia ao erro monumental que ele cometeu ao pegar no sono, naquela fatídica noite. Mas estava errado. Nix era perfeitamente capaz de perdoar aquilo. Na verdade, se ela se permitisse ser brutalmente honesta, ela o perdoou assim que viu o fio carmesim escorrer da garganta dele, causado pela sua lâmina. Sabia que havia sido dura demais, porém a lição que o aplicou havia funcionado, pois o homem jamais adormeceu em momento errado novamente. Não, o que a fez se silenciar e se afastar foi o que Thomas ascendeu nela.


     Durante o resto daquele dia ela sentiu a firmeza do corpo dele, o calor que atravessou suas roupas e a invadiu com tanta força que lhe causou vertigem. Os castanhos claros daqueles olhos, tão bondosos e arrependidos, lhe reviravam as entranhas a cada vez que cruzavam o olhar. Queria arrancá-los das órbitas e dá-los de comer aos corvos, apenas para aplacar a sensação de desejo que despertavam nela. Ela se silenciou e se afastou por desejá-lo. Nix o odiou por isso.


     Mas os dias foram passando e ela conseguiu acalmar aquele sentimento inoportuno. A maior parte dele, ao menos. Convenceu-se de que Thomas era um homem belo e não havia mal algum em se sentir atraída por ele, desde que aquilo não atrapalhasse a jornada e segurança deles. O que, obviamente, Nix jamais permitiria. Seus sentimentos não podem, nunca, influenciar suas decisões. Ela podia ouvir a voz de Willk em sua mente, lembrando-a aqueles ensinamentos arraigados tão profundamente nela. Sentimentos confundem e atrapalham os sentidos.


     Depois da discussão deles, e quando sua racionalidade voltou a funcionar adequadamente, um outro sentimento relacionado à Tom a invadiu: pena. Constantemente ele tentava agradá-la, lhe sorria amistosamente e puxava conversa. E constantemente ela se forçava a ignorá-lo, mas com o passar dos dias ficava mais e mais difícil fazê-lo. Ele era divertido, suas observações eram inteligentes e perspicazes, e as músicas que cantarolava... eram deliciosamente obcenas. Nix sentia vontade de lhe pedir para ensinar a letra para ela, para que pudessem cantar aquelas palavras vulgares juntos. Mas... ela não tinha coragem. Espontaneidade e diversão jamais fizeram parte de seu treinamento. Na verdade, em seus primeiros anos com Willk, ela foi repetidamente ensinada a excluí-los de sua personalidade e, aparentemente, não era mais capaz de praticá-los nem que sua vida dependa disso. Sentia-se sufocada, perseguida e encurralada. Podia ter fugido da Irmandade, mas ainda estava presa a eles. Talvez o estivesse para sempre. Com amargura percebeu que, na verdade, era ela a merecedora de pena.


     Então depois de tanta relutância, na noite passada ela se abriu e foi... bom. Sentiu um peso sair de seus ombros e peito conforme se permitia conversar com Thomas e gostou da sensação. Mas quando o rumo da conversa a fez citar sua mãe ela não aguentou. Aquela ferida ainda estava aberta, mesmo depois de quinze anos. Na verdade, estava apodrecida e purulenta, com moscas e vermes a consumindo e devorando. Nix jamais superou a morte dela e o abandono do pai, jamais superou o que veio depois. Ela apenas guardou a raiva, a dor, a mágoa, o desespero. E quando eles eventualmente se forçavam até a superfície, não era bonito.


     Finalmente o sol começou a nascer, espantando as garras escuras das lembranças que estavam prestes a invadi-la. Nix não gostava de se entregar em devaneios, pois geralmente acabava irritada, mas na última semana estava praticamente impossível não fazê-lo. Mas um novo dia havia começado e era hora de se colocarem em movimento. Mesmo que estivessem fazendo uma rota completamente sem sentido e nada óbvia, optando pelos caminhos mais difíceis e demorados que estão sob os comandos da Irmandade, era bem provável que seus perseguidores estivessem em sua cola. Nix torcia para que pensassem que ela partiu numa fuga desesperada, correndo para a fortaleza de Thomas. E que não percebessem que, na verdade, ambos faziam avanço lento até a Cidade Real. Mas ela não poderia trabalhar com suposições e, portanto, deveria agir como se eles estivessem apenas um passo atrás. Assim  quando o sol emergiu completamente do horizonte iluminando o bosque ao redor deles, Nix acordou Thomas.


-- Hora de levantar, vossa sonolência real. -- cutucou o ombro dele com o pé.


     O homem murmurou algo ininteligível e coçou os olhos, depois os abriu e os lançou diretamente para ela. Nix percebeu, há algum tempo, que pela manhã os olhos dele eram tão claros e límpidos que pareciam ouro derretido. Maldito. Parecendo ler seus pensamentos ele sorriu.


-- Eu gostei desse título. -- disse com a voz ainda rouca de sono -- Na verdade, de todos os que possuo, este passará a ser meu favorito.


-- Exibido. -- ela murmurou, seguindo até o pequeno córrego adiante e o deixando para trás enquanto se espreguiçava.


    Estava seguindo ao seu destino à passos precisos e rápidos quando lembrou-se do que Rosene lhe disse na última vez que estiveram juntas. Isso você pode aprender sozinha. Rose se referia à observar a beleza existente ao redor, e não apenas os perigos como Nix fazia. Diminuiu a velocidade de sua caminhada e olhou a paisagem com atenção renovada. A luz matinal atravessava as árvores altas e chegava ao chão repleto de folhagens, salpicando-o de dourado, uma nuance muito semelhante aos olhos de Tom. À sua frente, partículas de poeira, ou talvez terra, atravessavam os fachos de luz tornando a atmosfera um tanto irreal, um tanto mágica. Sorriu discretamente, congratulando-se por aquele avanço. A mulher que Willk criou jamais perceberia a beleza quase surreal daquela manhã, mas a mulher que ela deveria ter sido, aquela que usava outro nome há muito esquecido, era capaz daquilo. Em quê a junção de duas personas tão diferentes resultaria? Quem ela havia se tornado? Nix precisava descobrir, mas não agora.


     Finalmente chegou ao córrego, que estava mais para um rio super raso. Atravessou as rochas largas que o margeavam, lavou as mãos e depois o rosto. Encheu a boca de água, bochecou e cuspiu. Repetiu o processo e, ao mesmo tempo, percebeu duas coisas. Thomas estava às suas costas e, à pouco mais de um metro à direita dela, estava o café da manhã deles. Prestes a ser espantado pelo homem que se aproximava riudosamente. Levantou-se sem movimentos bruscos e virou metade do corpo para olhar para Tom.


-- Fique parado. -- ordenou em voz baixa.


     Sabiamente o homem obedeceu sem questionar, em alerta total. As mãos dele se fecharam em punhos, pronto para lutar, mesmo que não soubesse como. No suave arregalar daques olhos castanhos , Nix sabia que ele enfrentaria qualquer um que os atacasse, afinal, estava bem melhor agora do que há uma semana. Essa tola coragem provavelmente o mataria em algum momento. Homem irresponsável. Em meio segundo ela tomou uma decisão.


-- Calma, só não quero que você assuste nosso café da manhã. -- avisou e o homem relaxou visivelmente, procurando a presa ao redor, num semblante concentrado.


     Devagar ela desembainhou a adaga de sua cintura. Segurou firme a lâmina na mão esquerda e atirou, acertando em cheio. O animal começou a se contorcer convulsivamente, girando e sangrando e silvando. Pobrezinha. Nix se apressou até ela e Thomas veio logo atrás. A adaga se soltou do animal, que estava prestes a começar uma fuga ensandecida, mas a mulher a impediu ao segurá-la firme pela cauda. Era enorme, pelo menos um metro e meio de pura carne e músculos. Nix segurou a cabeça triangular que tentava atacá-la, a apoiou no chão e pisou em cima. Depois se colocou a separá-la do corpo o mais rápido possível a fim de acabar logo com o sofrimento do animal.


-- Eu não vou comer isso! -- exclamou Thomas, horrorizado com a cena.


     Ela olhou para ele por cima do ombro e o percebeu um tanto esverdeado. Um tom diferente dos hematomas em seu rosto que começavam a clarear.


-- E por que não? -- perguntou e voltou sua atenção para a tarefa em suas mãos.


-- Porque pode ser venenosa.


     Nix terminou de decepar a cabeça da serpente, a pegou na mão e jogou do outro lado do córrego. Levantou-se, trazendo consigo o corpo forte que ainda se contorsia.


-- Não seja ridículo! É só uma jiboia, não é venenosa. -- deu de ombros.


     Thomas parecia pasmo demais para responder à sua explicação, então Nix retornou para onde estivera minutos atrás, sentou-se numa grande pedra às margens da água e passou a limpar a refeição deles. Primeiro tirou o couro e, depois, as entranhas.   Estava passando uma água na carne branca que restou quando o homem finalmente se pronunciou.


-- Isso é absolutamente asqueroso. -- resmungou.


-- Certamente ela pensou o mesmo de nós. Você poderia juntar alguns galhos secos para a fogueira? Já estou terminando aqui.


-- Agora você quer ascender uma fogueira? -- exclamou dividido entre enojado e surpreso.


     Nix revirou os olhos divertindo-se com aquele comportamento tão típico de gente que nunca sentiu fome. A verdadeira fome. Terminou de limpar a carne e se levantou, saindo das pedras e se encaminhando à árvore mais próxima.


-- A não ser que você prefira comê-la crua, sim. -- sugeriu gostando de tortutá-lo -- Na verdade é uma boa idéia, Thomas, isso nos pouparia tempo.


-- Eu não vou comer isso! -- gemeu decidido, encarando a carne branca.


-- Madeira. -- a paciência de Nix tinha limite. Um muito, muito curto, que não aturava chiliques infantis em homens adultos --  Agora.


     O homem apenas bufou, contrariado, e se pôs a cumprir a ordem dela. Ao passo que a mulher dividiu sua caça em quatro partes iguais. Depois, encontrou galhos longos e finos que fariam as vezes de espetos, e buscou sua pederneira na bolsa. Ao retornar Tom estava montando a fogueira, com certa habilidade, percebeu contente. Ele havia trazido até folhas secas para acelerar o processo. Chegou até ele e rapidamente ascendeu o fogo, então ambos buscaram mais galhos pois iriam precisar em alguns minutos. Nix colocou a carne para cozinhar e sentou-se, esperando, enquanto seu estômago roncava.


     Apenas quando o cheiro de carne assada começou a invadir o ambiente Thomas se sentou ao lado dela.


-- Essa não é sua primeira cobra, certo? -- perguntou relanceando o olhar para a fogueira que crepitava.


-- Pergunta isso para todas as garotas que conhece, alteza? -- olhou de canto para ele, com voz sugestiva.


     Aquilo o fez jogar a cabeça para trás, liberando uma estrondosa gargalhada. Nix deu um sorrisinho de canto, enquanto admirava aquele som.


-- Digamos que não é necessário, querida. -- devolveu no mesmo tom -- Mas, falando sério, isso -- apontou a carne-- faz parte do seu treinamento da Irmandade?


     O encarou um momento, pensando se poderia respondê-lo. Sim, não haveria problemas. Mas... deveria lhe dar a resposta completa e honesta?


-- Na Irmandade, antes de aprender a matar, devemos aprender a sobreviver. -- explicou -- Isso inclui comer o que quer que se consiga apanhar. Mas eu... -- suspirou -- eu aprendi isso muito antes de cair nas garras de mestre Willk.


      Enrijeceu a coluna ao perceber como se referiu ao homem. Olhou para Thomas mas ele não parecia ter percebido seu deslize ou seu incômodo. Ele estava com olhar distante, pensativo.


-- Você não teve uma infância fácil, não é, Nix?


-- Aí é que está. Eu fui a criança mais feliz que pisou nesse reino. Quando minha mãe era viva minha vida era perfeita. Eu fui uma lady. Eu fui amada e cuidada. Protegida. -- as garras das lembranças de tempos alegres apertaram seu coração e a fizeram parar de falar sobre aquilo pois era doloroso demais -- E então ela morreu, meu pai me abandonou e eu acabei nas ruas. Sozinha.


     Tristeza genuina lampejou nos olhos de Thomas, mas Nix desviou o olhar, recusando a compaixão que certamente viria a seguir. Virou os espetos de cobra um a um e alimentou o fogo. Fúria sempre acompanhava a tristeza dela, e a mulher podia senti-la começando a borbulhar.


-- Entendo. Você deve ter sofrido muito.


-- Como você poderia sequer começar a me entender? -- perguntou em voz baixa, quase ameaçadora.


-- Eu não sei, eu só...


-- Você é um duquezinho mimado que teve tudo a vida inteira. Papai foi cruel com você e você teve a brilhante ideia de nunca mais pegar numa arma para confrontá-lo sabe porque? Pois sabia que sempre haveria algum idiota disposto a dar a vida para te proteger, ansioso por ser recompensado com as moedas de ouro que tilintam de seus bolsos há quilômetros! Está com nojo dessa pobre cobra aqui, e nem imagina que muitas pessoas brigam entre si por uma porção de pombos ou ratos de esgoto. Diga-me, alteza, como o senhor me entende?


     Ela estava ofegante ao final de sua explosão. Como sempre, a fúria acompanhava a tristeza. Era por isso que evitava de falar sobre o passado, pois ela se tornava imprevisível e emotiva demais, e perdia o controle que mantinha sobre si com tanto esforço. Controlou a respiração e olhou para Thomas, esperando ver seu olhar de repulsa ou raiva ou mágoa. Mas o que viu foi ainda pior. Solidariedade. Ele não a entendia, como poderia? Ele teve uma vida fácil mas não foi culpa dele, afinal. Ele não sabia o que ela havia passado, mas sentia a tristeza dela. Por ela.


-- Eu sinto muito que tenha enfrentado isso. -- disse sincero -- De verdade, Nix, eu...


-- Não. -- o interromopeu -- Me desculpe. Não é fácil falar sobre isso e eu sempre perco o controle. Vamos só... deixar para lá, sim.


-- Sabe, vai se tornando mais fácil conforme você coloca tudo isso para fora. Toda essa... raiva enjaulada.


-- Está sugerindo que eu despeje todo o meu passado de merda em você? -- ironizou, sorrindo secamente.


-- Sim. Eu aguento. -- ele também sorriu, mas foi doce, carinhoso.


     Thomas estendeu a mão para ela. Um gesto pequeno com um significado tão grande. Ele lhe oferecia muito mais do que ela merecia, do que imaginou que um dia encontraria. Amizade. Seu coração ferido ficou quente, invadido de uma alegria tão pura que acabou por errar uma batida. Quando ia estender seu braço e entrelaçar seus dedos aos dele aceitando, feliz, a oferta, seus instintos foram ativados por uma movimentação quase imperceptível. Um arco fora armado e estava apontado diretamente para eles.


-- Se abaixe! -- gritou ao empurrar o homem ao chão e deitar sobre ele.

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