Capítulo 13 - "Eu vejo a maneira que me olha"

 

Acordou com um sobressalto pois sentiu algo pressionando sua boca. Agitou-se pois pensou ser Willk e Hamós já prontos para começarem uma nova rodada de interrogatórios e tortura. Entretanto ao abrir os olhos viu Nix acima dele extremamente próxima, o encarando seriamente. Ela levou a mão esquerda - que ainda estava enfaixada num tecido azul - até os lábios, ergueu o indicador e o pressionou contra eles naquele gesto conhecido universalmente. Silêncio.

     Acenou afirmativamente para demonstrar que compreendeu. A mão que segurava sua boca para não emitir som o soltou e viu a mulher se afastar um pouco. Olhou para a entrada da caverna que estava mais clara e percebeu que o sol ainda não havia nascido completamente, mas não tardaria. Retornou sua atenção para Nix e perguntou o que estava acontecendo sem emitir som, apenas usando o movimento dos lábios. Irmandade, foi a resposta igualmente silenciosa. Seu coração acelerou e sentou-se sem fazer ruído. Percebeu que sua cabeça e estômago pareciam imensamente melhores e até mesmo seu pé não estava o incomodando tanto. Sorrateira e lentamente, Nix seguiu até a entrada do abrigo deles e se posicionou ao lado da abertura, uma faca comprida já em cada mão. Não haveria para onde fugir se os encontrassem e, ao perceber isso, Tom lamentou profundamente sua inabilidade em combate. Tarde demais

     Ouviu vozes ao longe e um relinchar desesperado. Lembrou que nem mesmo havia questionado a mulher sobre o paradeiro da montaria deles, mas agora ao ouvir o tumulto longínquo, compreendeu que ela prendeu o cavalo à uma distância considerável de onde passaram a noite, sem dúvidas para despistar quem os estivesse perseguindo. Ficou surpreso e admirado com aquela mulher que, aparentemente, sempre pensava em cada detalhe. Uma prova disso era sua enorme bolsa de viagem que parecia conter um pouco de tudo. Os relinchos ficaram mais altos e, depois, tornaram-se apenas um gorgolejo desconsolado enquanto o pobre animal morria às minguas. Eles o mataram e Thomas e Nix com certeza seriam os próximos. 

     Longos e agonizantes minutos se passaram enquanto esperavam que o bosque silenciasse. Não se moveram, não conversaram, sequer ousaram respirar alto demais. E mesmo assim os passos e vozes estavam cada vez mais próximos deles. Aquela rocha oca pareceu diminuir de tamanho conforme a tensão de ambos cresceu, e Tom viu a mulher ficar inquieta, como se estivesse prestes à pular de sua posição direto na garganta de alguém. Torceu para que um embate não fosse necessário pois, pelo que sua percepção auditiva indicava, haviam pelo menos três homens ali e ela estaria em total desvantagem.  A luz dourada da manhã mandou a penumbra embora, e trouxe consigo os caçadores para ainda mais perto do esconderijo.

-- Eles estão perto, eu sinto isso na minha barba! -- disse um deles.

-- Você e essa sua loucura com a barba! -- zombou outro -- Espera que eu acredite num amontoado de pêlos sujos? Maldito supersticioso!

-- Calem a boca vocês dois! -- ordenou um terceiro -- Willk quer escalpelar aquela vadia traidora e precisamos fazer silêncio para encontrá-los ou então o mestre descontará sua raiva em nós. 

     Eles trocaram um olhar ansioso ao perceber que a voz deste homem veio diretamente acima deles. Deveria ter subido na grande rocha para ter uma vista melhor do bosque. Se Thomas fosse religioso, começaria uma prece nesse instante. E realmente teria sido uma boa idéia, pois talvez evitaria o que aconteceu a seguir. O homem, que parecia pesar duzentos quilos, deu um pulo no alto da rocha fazendo cair uma pequena chuva de poeira sobre eles. Nix imediatamente olhou para Tom com um aviso no olhar, mas era tarde demais. Ele tampou o nariz e segurou a respiração, o que se provou inutil, pois acabou por soltar um glorioso e barulhento espirro que revelou a localização exata deles.

-- Aqui! -- gritou um irmão -- A minha barba não mente!

     Tudo aconteceu muito rápido. Passos pesados e rápidos seguiram até eles. Olhos castanhos assustados encontraram olhos cinza furiosos e indignados. Nix se levantou e estava saindo do esconderijo - agora não tão secreto - quando a ouviu murmurar.

-- Eu vou matar esse homem! -- rosnou -- Vou estrangulá-lo com minhas próprias mãos!

     Tentou pedir desculpas mas a gritaria que se aproximava não permitiu que ela o ouvisse. Quando a mulher chegou nas folhagens que ocultavam a entrada do lugar, estas foram puxadas por um homem magro e que parecia não ter todos os dentes, fato que não o impediu de sorrir abertamente para eles com olhos ensandecidos quando adentrou na caverna. Porém no instante seguinte já caia ao chão, quase morto, pois Nix estava pronta para o ataque e cortou a garganta dele sem hesitar. Depois, passou por cima do corpo que se contorsia no chão seguindo para enfrentar os outros dois homens. Tom permaneceu estático por alguns momentos, hipnotizado com o vermelho jorrando da ferida aberta e com os sons tenebrosos que o moribundo fazia ao engasgar com seu próprio sangue, até que o barulho de metal contra metal chegou até ele. Saiu de seu torpor macabro, vestiu suas botas e apressou-se para fora da pequena caverna, não tão rápido quanto gostaria pois ainda mancava pronunciadamente.

     Lá fora, banhada na luz dourada do sol que acabava de despontar no horizonte, Nix aparentava ter encarnado alguma deusa mitológica da guerra. Empunhando uma arma em cada mão, atacando e desviando com uma agilidade impressionante, ela parecia prever com facilidade a próxima investida do inimigo. Dos inimigos, pois ela os estava enfrentando ao mesmo tempo. A longa trança negra oscilava com seus movimentos, o hipnotizando ainda mais do que ver aquele homem morrendo. Tom viu que um dos irmãos preparou um ataque enquanto a mulher desviava da espada do outro. Quis ajudá-la mas não houve tempo e também não foi necessário, pois assim que contornou uma lâmina a mulher abaixou-se e girou rapidamente escapando do alcance da outra que quase a atingiu. Ela levantou-se e chutou o homem mais magro nas costelas e, mesmo à certa distância, Thomas jurou ter ouvido o som de ossos se partindo. O irmão levou apenas um segundo para recuperar o fôlego perdido, mas foi o suficiente para Nix, que não tardou em o esfaquear bem na jugular. Os olhos negros dele se arregalaram com o choque que o atingiu ao perceber que morreria em poucos minutos, tentou pressionar o ferimento, estancar o sangramento, mas em vão. Caiu de joelhos ainda segurando o pescoço, claramente ofendido por ser sido vencido.

     Consumido pelo furor da luta, Thomas percebeu tarde demais que estava se movimentando ao redor desta, sempre procurando um lugar para observar melhor, talvez esperando uma oportunidade de ajudar a mulher que estava salvando a vida dele - de novo -. Quando ambos voltaram a atenção ao último inimigo restante, surpreenderam-se com a constatação de que Tom estava parado entre o irmão e Nix. E que o homem já partia para cima dele com a espada no alto, num golpe certeiro e brutal.

-- Abaixe-se! -- ouviu a voz feminina bradar.

      Um eco daquele aviso ainda estava suspenso no ar quando Thomas jogou-se ao chão, e sentiu a faca dela passar zunindo por sua cabeça. Ouviu um suspiro e olhou para cima, vendo a mesma faca já no peito do homem, cravada até o cabo. Sentia seu corpo tremer com a adrenalina daquele confronto que pareceu tão longo, mas que durou poucos minutos. Ouviu passos indo até ele e ergueu o olhar para uma Nix de olhos cinzas que ainda prometiam violência. Ela retirou sua arma do peito do homem com força e o empurrou ao chão, depois virou-se para ele.

-- Você -- apontou a faca ensanguentada para ele -- está me dando muito mais trabalho do que apenas um saco de ouro pode pagar.

     Sim, ele concordava com aquilo. A observou atentamente: suas pupilas dilatadas, sua respiração ofegante, o sangue de outros emplastando suas roupas. O pagamento combinado, na noite em que ela o visitou naquele calabouço, realmente era demasiado pouco.

-- P-pare de apontar essa f-faca para mim. -- pediu enquanto se levantava do chão.

     Em sua avaliação da mulher, não pôde deixar de notar que suas mãos estavam firmes. Matar não era novidade para ela e, aparentemente, matar seus antigos companheiros não a afetava e Tom era grato por isso. Uma expressão de confusão tomou as feições dela, afugentando um pouco a raiva ainda contida.

-- Isso não é uma faca! -- ela disse ainda irritada -- É uma adaga.

-- T-tanto faz! -- deu de ombros e olhou os corpos ao redor deles -- Eu acho a sugestão de aumentar a sua r-recompensa muito justa. Quanto quer?

-- Uma casa e uma pensão de um saco de prata por mês, por um ano. -- ela disse enquanto limpava sua adaga tranquilamente, e depois pensou melhor -- E, se eu tiver que matar mais alguém por você, vou querer dois sacos. Por cinco anos. Agora me ajude aqui.

     A mulher embainhou sua arma e pegou uma das mãos do último irmão que matou, o mais gordo deles, e Tom se apressou para pegar a outra. Juntos eles o arrastaram até a caverna e fizeram o mesmo com os outros defuntos depois, transformando o abrigo outrora confortável, numa espécie de jazigo improvisado com corpos empilhados. Pegaram suas coisas e partiram bosque adentro.

-- É um preço alto esse que me cobra. Acha que minha vida vale tanto? -- provocou Thomas no caminho.

     Nix apenas o encarou, como se aquela fosse uma pergunta idiota. E ele percebeu que realmente era, pois para aquela mulher, Tom certamente não valia nada. Era apenas uma pedra em seu caminho.

-- T-temos um acordo. -- para afugentar a vergonha de sua tola pergunta, resolveu provocá-la um pouco mais -- Se quiser pedir algo mais, e-este é o momento.

-- Casa. Dinheiro. O que mais eu poderia querer? -- ela disse sem se virar para ele.

-- Minha companhia aquecendo sua cama. -- ela estancou e o encarou, embasbacada -- N-não fique tímida. Eu vejo a maneira que me olha.

     Thomas quis rir com a expressão de absoluto choque no rosto dela. Aparentemente, Nix não era tão experiente nas artes do flerte quanto era nas matanças.

-- Como se eu quisesse matá-lo? -- sugeriu a mulher.

-- Sim! E sabe o que significa essa expressão? -- ela arregalou ainda mais os olhos e, naquele momento, Tom decidiu que era muito divertido perturbá-la.

-- Ah, eu sei! Significa que se você não calar essa maldita boca, vou satisfazer esse impulso que me faz querer pular na sua garganta! -- ela ergueu as mãos unidas como se realmente estivesse prestes a cumprir a ameaça.

     Poderia ser loucura, ou apenas um raio de sol que atravessou as folhagens do bosque, mas o homem viu alguma coisa no fundo dos olhos dela: um brilho de diversão. Empolgado com a descoberta, e com a pura alegria de simplesmente estar vivo, ele abanou a mão no ar fazendo pouco caso das palavras ameaçadoras dela.

-- Bobagem! -- disse ele e seguiu caminhando a deixando para trás -- Quando você pular nos meus braços vai ser pelo desejo de me beijar, e não me matar.

     Um, dois, três, quatro, cinco. Thomas contou os segundos que levou até ela reagir, e depois ouviu os passos e sua voz murmurando.

-- Isso nunca vai acontecer com você sujo desse jeito.

      Ele suspirou, satisfeito com a distração que aquela troca de provocações proporcionou e seguiram caminho num silêncio confortável . Logo encontraram três cavalos amarrados às árvores, próximos de um quarto animal morto. Evitaram olhar para aquela injustiça cometida, escolheram duas montarias e guardaram suas coisas nas celas. Tom montou sozinho, ainda que com certa dificuldade, e imediatamente partiram do Bosque do Trevo à galope.

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